Title: BIOGRAFIA

Author:CAMÕES LUIS VAZ DE
Subject:PORTUGUESE
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Luís Vaz de Camões
------------------------------------- Biografia

Remetido por :Paulo Torquato Tasso
Escrito por : Hernâni Cidade


A primeira biografia de Luís de Camões foi escrita em 1613, no "Prefácio"
da edição de Domingos Fernandes, por Pedro de Mariz (1550-1615), filho de
Antônio de Mariz, livreiro em Coimbra no tempo em que Camões ali vivia, e
ele mesmo presbítero secular, bacharel em Cânones e guarda-mor da Livraria
da Universidade, e assim em condições morais e cronológicas para da vida do
Poeta conhecer dados essenciais. Alguns deles nos oferece o seu esboço
biográfico, não desmentidos pelos que a investigação posteriormente tem
descoberto nem pelos próprios elementos autobiográficos colhidos na obra
lírica e épica do Poeta.

O que nem ele nem ninguém nos dá de decisivo é a indicação do local e da
data do seu nascimento. Como sucedeu com Homero, várias localidades
disputam a glória de ser seu berço, mas Lisboa e Coimbra com mais
probabilidades. Deixemos a discussão aos mais interessados pelas glórias
locais do que pelo legado do Poeta, e digamos que as duas cidades têm, para
seu orgulho, pábulo que baste: Coimbra, por ter-lhe condicionado o seu
honesto estudo de humorista; Lisboa, a sua longa experiência social.
Aparentado com os Camões, da mais honrada (ou seja, enobrecida) gente da
cidade do Mondego, é ele próprio que afirma ter-lhe aqui decorrido parte da
mocidade:

Nesta florida terra,
Leda, fresca e serena,
Ledo e contente pera mim vivia.
..................................
Longo tempo passei,
Com a vida folguei . . .

Um seu tio paterno, D. Bento de Camões, frade de Santa Cruz e chanceler da
Universidade, com probabilidade tem sido indicado como o protector e mentor
de seus estudos, mas é admissível que o próprio ambiente universitário lhe
haja suscitado curiosidades que, fora dele e através da vida, iria
satisfazendo por um audotidatismo que o tornou o poeta de mais variada e
viva cultura do seu tempo. Não terá sido o bacharel latino, como já o
biografismo fantasioso o graduou, mas, lendo o latim, o italiano e,
naturalmente, o castelhano, pôde nutrir sua cultura de poeta e fazer
florescer em suas Rimas — ou seja na sua lírica — temas de vária origem,
mas a que seu gênio criador imprimiu a unidade da vida, porque tudo foi
assimilado e vivido como próprio.

A nobreza da família, fortalecida pela abundância dos bens em seus parentes
de Coimbra, era decerto modesta no pai, que os não possuía. Cabiam-lhe,
todavia, honras de cavaleiro fidalgo, e ao filho, que também o era, essas
bastavam, acrescentadas dos bens do espírito e da cultura, que os tinha
excepcionais, para lhe dar entrada nos Paços da Ribeira. Era jovem quando
ali pôde fulgurar, pois teria nascido nos fins do primeiro quartel de
Quinhentos quem era ainda jovem em 1553, data da Carta do Perdão, a que já
nos referiremos, que o habilita, liberto do Tronco da Cidade, a partir para
a Índia como soldado.

A poesia lírica de Camões é, em grande parte, poesia de circunstância, o
que significa que emerge da vida, como a espuma do movimento da vaga, e
isso lhe dá o valor autobiográfico precioso para quem não encontrou nenhum
contemporâneo que dele com demorada atenção se ocupasse. Fidalgo e
freqüentador do Paço Real, escreveu o soneto em que comenta o incidente
palaciano de D. Guiomar de Blasfé, a filha do conde de Redondo, D.
Francisco de Sousa Coutinho, que depois encontraria vice-rei na Índia. Uma
vela do salão queimou-lhe o rosto; o caso foi comentado risonhamente e o
Poeta dedicou-lhe as trovas Amor, que a todos ofende, / Teve, Senhora, por
gosto / Que sentisse o vosso rosto / O que nas almas acende, e ainda um
soneto (O fogo que na branda cera ardia). As trovas que glosam o mote de D.
Francisca de Aragão e a carta que as acompanha têm significado ainda de
maior intimidade, a carta quase expressiva de amitié amoureuse entre o
Poeta e grande dama. Depois, era o teor literário das composições de
graciosa finura que implicava, da parte das damas a quem eram dirigidas,
educação que lhas esclarecesse e fizesse saborear. Acrescia a isto seu
convívio com a Índia: são aristocráticos os nomes dos seus convidados para
o banquete de trovas. Um deles — João Lopes Leitão — figura na Lírica
escrita em Lisboa e interessaria ao Poeta, porque também não era alheio às
Musas, e foi o único que em verso protestou contra a troca de iguarias por
trovas naquele poético ágape . . .

Neste covívio palaciano, teria Camões tomado amores que, pela desigualdade
dos estados, de que mais de uma vez se queixa, tivessem provocado a
perseguição de pai fidalgo ou até de irmão régio, que o desterrasse?
Atribuem-se-lhe vários desterros, sendo um para Ceuta, onde se bateu como
soldado em combate que lhe custou a perda do olho direito. A tal perda se
refere na Canção Lembrança da Longa Saudade. Por quem foram tais amores?
Por Natércia? Havia três desse nome, contemporâneas do Poeta. Pela infanta
D. Maria, irmã de D. João III? Não seria a primeira dama de sangue real que
se apaixonasse por um poeta, e, se esta o fizesse, encontraria justificação
em sua consciência, dada a grandeza genial do enamorado, e dada a amargura
duma vida de sempre noiva, a cada passso decepcionada por casamentos
desfeitos pela própria enormidade do dote — que o irmão parecia querer
evitar que saísse de Portugal . . .

Mas ponhamos de parte a congeminação, visto que não poderíamos transitar do
recanto nevoento das suspeitas da fantasia para a realidade dos factos
esclarecidos. Cumpre, todavia, notar que as suspeitas as suscitam os
sonetos em que o Poeta se refere ao alto lugar em que pôs o pensamento,
perante o qual reconhece em si tal baixeza, que cuidar nele é grão despejo
e mais de uma vez protesta contra a humana natureza, que faz entre os
nascidos tanta diferença e lamenta que a Fortuna desiguale os estados . . .

As Cartas são outra prova de que o Poeta, mesmo nas horas nocturnas de
libertinagem, entre a taberna do Mal Cozinhado e as acolheitas das Ninfas
de água doce, não tinha, como já foi suposto, convivência que possa lembrar
a de Villon, de marginais a quem a forca de perto espreitava. Aquele a quem
escreve a Carta III, refaz-se, em suas terras de Coimbra, dos desgastes da
boémia lisboeta; diz-se-lhe enfadado do isolamento campesino, e Camões
responde-lhe, depois de lhe descrever — e que realista o humorismo com que
o faz! — o que havia de ridículo nos indivíduos que encontraria nas
acolheitas: "Como vos parece, Senhor, que se pode viver entre estes, que
não seja milhor essa vida que vos enfada, essa quietação branda, como um
dormir à sombra de uma árvore e ao tom dum ribeiro, ouvindo a harmonia dos
passarinhos, em braços com os Sonetos de Petrarca, a Arcádia de Sannazzaro,
as Éclogas de Vergílio, onde vedes aquilo que vedes? Se a vós, Senhor, essa
vida vos não contenta, vinde-a trocar pela minha, que eu vos tornarei o que
for bem. E não vos esqueçais de escrever mais, que ainda me fica que
responder. Cujas mãos beijo."

Este amigo, que tem terras em Coimbra, que é certamente também leitor dos
poetas citados, porque de outro modo Camões lhos não nomearia, que sabe
traduzir o latim que o amigo lhe cita, que pode compreender as alusões a
Celestina e Calixto, da célebre tragicomédia de Rojas, e não desconhece as
figuras clássicas da formosa Helena e da casta Lucrécia, será porventura o
mesmo a quem é endereçada a Carta IV. A este igualmente o Poeta o trata por
senhor, o inculca apto a traduzir-lhe o latim que lhe cita e fala-lhes das
maças de Hércules . . . E no momento dos cumprimentos, diz-lhe: "O Senhor
António de Resende beija as mãos de V.M. e o mesmo faz o Senhor Pedro
Ribeiro Serpe." Todos os requisitos sociais de um nobre senhor! E, todavia,
é Camões que no-lo inculca membro daquela camaradagem de Marialvas
arruaceiros, a que também se associa o filósofo João de Melo. Declara-lhe o
Poeta o perigo que todos correm: "Dizem que é passado nesta terra um
mandado pera prenderem a uns dezoito de nós; e porque nestas pressas
grandes sem vós não somos nada, sabei que deste rol vós sois o primeiro,
como sempre o fostes em tudo. A razão dizem que é por um homem fidalgo que
dizem que foi espancado uma noite de são João pelo Senhor João de Melo, e
ele saberá se é assim."

Eis os companheiros de Camões. Desciam das salas dos Paços da Ribeira, onde
platonicamente ou à maneira de Petrarca galanteavam as damas de alta
estirpe, para as damas de aluger onde se encontravam com a fauna humana
objecto de desprezo e da sátira do Poeta. Os pés de Camões patinhavam na
mesma lama dos da sua camaradagem, mas sente-se-lhe, ao confessá-lo, a
palpitação das asas que em breve o libertariam...

O ...
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