Title: ÉCLOGAS

Author:CAMÕES LUIS VAZ DE
Subject:PORTUGUESE
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ÉCLOGAS

A üa Dama:

FRONDOSO e DURIANO, pastores

Cantando por um vale docemente,

deciam dous pastores, quando Febo

no reino de Neptuno se escondia.


De idade, cada um era mancebo,

mas velho no cuidado, e descontente

do que lhe ele causava parecia.


O que cada um dizia,

lamentando seu mal, seu duro Fado,

não sou eu tão ousado

que o ouse a cantar sem vossa ajuda;


porque, se a minha ruda

frauta, deste amor vosso for dina,

posse escusar a fonte cabalina.

Em vós tenho Helicon, tenho Pegaso;


em vós tenho Calíope, em vós Talia

e as outras sete irmãs do fero Marte;


em vós perde Minerva sua valia;


em vós estão os sonos de Parnaso;


das Piérides em vós se encerra a arte.


Coa mais pequena parte,

Senhora, que me deis da ajuda vossa,

podeis fazer que eu possa

escrever ao sol resplandecente;


podeis fazer que a gente

em mim do grão poder vosso se espante

e que vossos louvores sempre cante.

Podeis fazer que creça de hora em hora

o nome lusitano, e faça enveja

a Esmirna, que de Homero se engrandece.


Podeis fazer também que o mundo veja

soar na rude frauta o que a sonora

cítara mantuana se merece.


Já agora me parece

que podem começar os meus pastores

tratar de seus amores;


porque, ainda que presentes não estejam

as que eles ver desejam,

mudança do lugar, menos de estado,

não muda um coração de seu cuidado.

Já deixava dos montes a altera

e nas salgadas ondas se escondia

o sol, quando Frondoso e Duriano,

ao longo de um ribeiro que corria

pola mais fresca parte da verdura,

claro, suave e manso, todo o ano,

lamentando seu dano,

vinha já recolhendo o manso gado.


E um estando calado,

enquanto um pouco o outro se queixava,

após ele tornava

a dizer de seu mal o que sentia;


e, enquanto ele falava, o outro ouvia.

Vinham-se assi queixando aos penedos,

aos silvestres montes e aspereza,

que quase de seus males se doíam.


Ali as pedras perdiam sua dureza;


ali os correntes rios estar quedos,

prontos a suas queixas, pareciam;


e se as que podiam

estes males curar, que elas causavam,

o ouvido lhe negavam

por perderem de todo a esperança;


mas eles, que mudança

de amor com tantos males não faziam,

falando inda com elas lhes diziam:

FRONDOSO

Isto é o que aquela verdadeira

fé, com que te amei sempre, merecia,

sem nunca te deixar um só momento?


Como, cruel Belisa, te esquecia

um mal cuja esperança derradeira

em ti se tinha posto seu assento?


Não vias meu tormento?


Não vias tu a fé com que te amava?


Porque não te abrandava

este amor que me tu tão mal pagaste?


Mas, pois já me deixaste

coa esperança de ti toda perdida,

perca, quem te perdeu, também a vida.

DURIANO

Se os males que por ti tenho sofrido

- ó Silvana, em meus males tão constante!
-

quiseras que algu' hora te dissera,

ainda que de duro diamante

fora tão cruel peito endurecido,

creio que a piadade te movera.


Já agora em branda cera

os montes são tornados e os penedos;


e os rios, que estão quedos,

sentiram meus suspiros, minhas queixas.


Tu só, cruel, me deixas,

que és, mais que montes e penedos, dura,

e fugitiva mais que a água pura.

FRONDOSO

Onde está aquela fala, que soía,

se com seu doce tom que me chegava,

a avivar-me os espíritos cansados?


Onde está o olhar brando, que cegava

o sol resplandecente ao meio-dia?


Onde estão os cabelos delicados

que, ao vento espalhados,

o ouro escureciam, e a mim matavam?


E a quantos os olhavam

causavam também novos acidentes?


Porque, cruel, consentes,

que goze outro a glória a mim devida?


Perca, quem te perdeu, também a vida.

DURIANO

Não vejo bem já que a meu mal espere,

senão se é esperar que morte dura

enfim me venha dar tua saudade.


Vejo faltar-me a tua fermosura;


a vontade me diz que desespere,

contradiz-me a razão esta vontade.


Diz que nüa beldade

em quem mostrou o cabo a natureza,

não há tanta crueza

que um tão firme amor desprezar queira

e üa fé verdadeira;


mas tu, que de razão nunca curaste,

porque era dar-me a vida, ma tiraste.

FRONDOSO

A quem, Belisa ingrata, te entregaste?


A quem deste, cruel, a fermosura,

que só a meu tormento se devia?


Porque üa fé deixaste, firme e pura?


Porque tão sem respeito me trocaste

por quem só nem olhar-te merecia?


E o bem que te queria,

que nunca perderei senão por morte,

não é de maior sorte

que quanto a cega gente estima e preza?


Se a tua crueza

foi nisto contra mim endurecida:


perca, quem te perdeu, também a vida.

DURIANO

Levaste-me meu bem num só momento;


levaste-me com ele, juntamente;


de cobrá-lo jamais a confiança;


deixaste-me, em lugar dele, somente

üa continua dor, e um tormento,

um mal em que não pode haver mudança.


Tu, que eras a esperança

dos males que me tu, cruel, causaste,

de todo te trocaste,

com Amor conjurada em minha morte.


Porém, se minha sorte

consente que por ti seja causada,

morte não foi mais bem-aventurada.

FRONDOSO

Não naceste de algüa pedra dura;


não te gerou algüa tigre hircana;


não foi tua criação entre a rudeza.


A quem, cruel, saíste desumana?


No Céu formada foi tua fermosura,

onde a mesma brandura e natureza;


esta tua dureza

donde teve princípio, ou a tomaste?


Porque, dura, enjeitaste

um verdadeiro amor que tu bem vias,

üa fé, que conhecias,

por outra de ti nunca conhecida?


Perca, quem te perdeu, também a vida.

DURIANO

Vai-se co seu pastor o manso gado,

porque de amor entende aquela parte

que a bruta Natureza lhe ensina.


O rústico leão sen nenhüa arte

do instinto natural só ensinado,

aonde sente amor, ali se inclina.


E tu, que de divina

não tens menos que Vénus e Cupido,

porque sequer co ouvido

um amar verdadeiro não socorres?


Ou porque te não corres

que te vença o leão em piadade,

se Vénus não te vence na beldade?

FRONDOSO

A mim não me faltava o que se preza

entre os celestes deuses, que formaram

a tua mais que humana fermosura;


em mim os voluntários Céus faltaram;


em mim se perverteu a natureza

düa cruel, fermosa criatura.


Mas pois, Belisa dura,

que do mais alto Céu a nós vieste,

e em peito celeste

um tal contrário pôde aposentar-se,

não é contrário achar-se

tamanha fé tão mal agradecida.


Perca, quem te perdeu, também a vida.

DURIANO

Por ti, a noite escura me contenta;


por ti, o claro dia me avorrece;


abrolhos para mi são frescas flores;


a doce filomela me entristece;


todo o contentamento me atormenta

com a contemplação de teus amores;


as festas dos pastores,

que podem alegrar toda a tristeza.


Em mim tua crueza

faz que o mal cada hora vá dobrando.


Ó cruel!
Até quando

durará em ti um tal avorrecimento?


E a vida, em mi, que sofre tal tormento?

FRONDOSO

Fugiste de um amor tão conhecido,

fugiste de üa fé tão clara e firme,

e seguiste a quem nunca conheceste,

não por fugir de Amor, mas por fugir-me;


que bem vias que tinha merecido

o amor que tu a outrem concedeste.


A mim não me fizeste

nenhüa sem-razão, que bem conheço

que tanto não mereço;


fizeste-a àquele bem, firme e sincero,

que sabes que te quero,

em lhe tirar a glória merecida.


Perca, quem te perdeu, também a vida.

DURIANO

Crece cada hora em mim mais o cuidado,

e vejo que em ti crece juntamente

cada hora mais de mim o esquecimento.


Ó Silvana cruel, porque consente

o teu feminil peito delicado

esquecer-lhe um tão áspero tormento?


Tal avorrecimento

merece um capital teu inimigo;


não j'eu, que só contigo

estou contente, e nada mais desejo,

se algüa hora te vejo.


Tu és um só bem meu, üa só glória,

que nunca se me aparta da memória.

FRONDOSO

Olhos que viram já tua fermosura;


vida que só de ver-te se sustinha;


vontade, que em ti era transformada;


üa alma que a tua em si só tinha,

tão unida consigo quanto a pura

alma co débil corpo está pegada,

e agora apartada

te vê de si com tal apartamento...


Qual será seu tormento?


Qual será aquele mal que tem presente?


Maior é que o que sente

o triste corpo na última partida.


Perca, quem te perdeu, também a vida.

DURIANO

Regendo noutro tempo o manso gado,

tangendo minha frauta nestes vales,

passava a doce vida alegremente.


Não sentia o tormento destes males;


menos sentia o mal deste cuidado,

que tudo então em mim era contente.


Agora, não somente

desta vida suave me apartaste,

mas outra me deixaste

que, ao duro mal que sinto cá no peito,

me tem já tão afeito

que sinto já por glória minha pena;


por natureza, o mal que me condena:

Juntamente viver compridos anos

os Fadas ...
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