Gueorgui P. Stamatov
DOIS TALENTOS
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Irmov desceu do fiacre diante do hotel, que mais parecia uma estalagem, mandou descarregar as malas, pagou a corrida, sem se esquecer da gorjeta, e entrou no café do rés-do-chão.
O dono acolheu-o respeitosamente.
- Mande-me o preciso para me lavar, acender o lume e arranjar para o jantar qualquer coisa leve: um caldo de frango e dois ovos escalfados. Tenho o estômago fraco - desculpou-se.
O dono prometeu tratar de tudo. Os estômagos fracos pagavam bem e, além disso, aquele cavalheiro parecia ser alguém. O corte do sobretudo revelava que era de Sófia.
Os clientes do café examinaram atentamente o recém-chegado. A ementa encomendada fê-los sorrir: seria possível que um estômago búlgaro não fosse capaz de digerir qualquer coisa?
Precedido pelo novo cliente, o estalajadeiro subiu ao primeiro andar, o que deu livre curso aos comentários.
- Quem será?
- Um engenheiro. Passam por cá alguns.
- Um inspector...
- Um inspector? Para inspeccionar o quê? Não há na região cem moedas na mesma caixa.
- Talvez esteja apenas de passagem...
- Para ir aonde? Estamos no fim do mundo.
Uma hora depois, Irmov desceu - lavado, friccionado, com outro fato - e sentou-se a uma mesa juncada de jornais em que se não atreveu a tocar por estarem muito sujos.
- O meu jantar está pronto? - perguntou.
- Queira passar para a sala ao lado, senhor. Pus-lhe a mesa na sala de jantar dos senhores funcionários.
Irmov dirigiu-se para a divisão contígua, onde já se encontravam cinco ou seis notáveis. Uns liam o jornal, outros falavam de culinária, criticando o cozinheiro do ano anterior. O recém-chegado sentou-se, tossiu e depois de entalar a ponta do guardanapo no colarinho da camisa esperou, mexendo maquinalmente no talher. Os comensais largaram os jornais, calaram-se e puseram-se a examiná-lo com olhos curiosos e invejosos. Odiavam instintivamente aquele homem vindo de um mundo estranho que não podiam esperar conhecer. O intruso nem sequer os via ou simulava não os ver, o que só contribuiu para excitar a sua animosidade. De boa vontade arranjariam maneira de zombar dele se não fosse o receio de toparem com algum figurão importante que os varresse com um piparote. Cada um julgava ver nele um emissário do seu céu administrativo.
Acabado o jantar, Irmov pediu que lhe levassem o café ao quarto e o acordassem cedo e retirou-se.
Todas as bocas se abriram imediatamente para interrogar o estalajadeiro.
Foi grande a decepção quando souberam que o viajante se inscrevera como escritor.
- E eu que o julgava o inspector-chefe!
- Malditos escritores! Essa gente só se alimenta de caldos?
Os espíritos acalmaram-se. Aqueles que momentos antes receavam a inspecção das suas caixas pediram o tabuleiro do gamão. Tanto pior para o escritor, que talvez já estivesse a estigmatizá-los lá em cima com a pena acerada! Não era perigoso; não podia perturbar-lhes a quietude; não era um inspector.
No dia seguinte, Irmov foi ao liceu a fim de falar com um professor que lhe poderia arranjar documentação para o seu futuro romance histórico. O homenzinho quase sucumbiu ao saber com quem falava, antes de reconhecer que mal lera as obras do seu interlocutor.
- Ah, Sr. Irmov, se soubesse como a província dá cabo de um homem! Sobretudo de nós, professores. Suga-nos o sangue, transforma-nos em conserva. Não é que não gostemos de ler, mas que ganhamos com isso? Para viver e morrer aqui até já li de mais. A Bulgária sacrifica-nos e nós resignamo-nos em troca de um bocado de pão. Aqui perde-se toda a vontade de viver e quando não apetece viver, um homem, se não é um cadáver, é pelo menos um doente. Passamos a vida a fazer dieta.
E como Irmov não dissesse nada, prosseguiu:
- Dir-me-á que a leitura é um fim em si e não um meio... Engana-se! Um livro não passa de um livro e nunca poderia substituir um ser vivo. Há momentos em que preferiria a companhia de um bom amigo, mesmo ignorante, a todos os alfarrábios. O livro, sem o contacto humano, é assustador. Provoca sonhos e apetites que há muito tempo nos estão profissionalmente vedados. Acredita se lhe disser que às vezes me dá vontade de fugir deste buraco e de ir para um lado qualquer? Não me importaria de ir para Sófia e tornar-me criado de café. Lá a vida sempre é menos vazia. Se fosse Napoleão destruiria estes recantos perdidos, onde o isolamento é mais terrível do que a miséria e a fome... este isolamento perpétuo. Aqui somos capazes de saltar de alegria, como garotos, diante de uma locomotiva ou até de um simples fiacre. Desabituamo-nos da poesia, da música, das canções e esquecemos as carícias de uma mulher. Às vezes uma camponesa entusiasma-nos mais do que vos seduzem as vossas beldades decotadas nos bailes. Atrofiámo-nos e parecemos múmias que, no entanto, respiram, pensam e sentem - dentro dos limites prescritos pelo orçamento e pelo ministério.
Irmov, que o escutava, compreendia perfeitamente e no mais íntimo do coração agradecia ao acaso tê-lo poupado a semelhante provação. Nunca conseguiria resignar-se... «Pobres homens!», pensou, sem sequer procurar uma palavra de consolação.
Passeando sem destino, passaram por uma grande casa de primeiro andar, cujo rés-do-chão estava ocupado por uma loja. Da parte de trás adivinhava-se um pátio amplo.
No primeiro andar havia uma varanda.
- De quem é esta casa?
- Pertence a um velho ricaço cujos bens são todos administrados pelo genro, Linovski. Duvido que o conheça. É o senhor incontestado da região. Não tardará nada que não seja deputado, embora há muito mereça a forca.
- Linovski?... Conheci noutros tempos um Linovski que estudava Direito em Franca. Mais tarde teve contas a ajustar com a justiça a propósito de uma história de diploma falso.
- Isso são águas passadas. Agora até falsifica o leite que os filhos bebem, mas nisso a lei não pode fazer nada.
- Trata-se, portanto, do mesmo Linovski?
- Provavelmente. É impossível haver dois do mesmo quilate; deve ser único na Bulgária. Só visto: não teme Deus nem o Diabo.
Não tardaram a separar-se e Irmov dirigiu-se para o restaurante.
A sua mesa estava ocupada por numeroso grupo constituído por homens e mulheres.
Tinha o talher no mesmo sítio, mas para passar teve de incomodar alguns comensais.
- «Pardon» [1] - disse delicadamente.
Pediram-lhe desculpa por lhe terem ocupado a mesa...
- Por quem são, não tem importância! É um prazer para mim...
Cinco minutos depois conhecia toda a gente.
- Dr. Ivanov!...
- Rankov, magistrado...
- Markov, professor...
- Capitão Chevronov...
- Sra. Untel...
Etc.
Quando souberam que Irmov tencionava visitar no dia seguinte uma aldeia vizinha, decidiram acompanhá-lo até casa do comandante dos guardas-fronteiras.
- Levaremos comida e bebidas...
- Haverá lua cheia...
- Mas nada de fiacre! De trenó! - insistiam as senhoras.
- E dividiremos as despesas - concluiu uma voz.
A ideia do piquenique excitou os espíritos e cada um olhou disfarçadamente para os outros na esperança de ver alguém oferecer uma rodada.
Mas ninguém se decidia. Por fim, Irmov chamou o dono do restaurante.
- Cerveja, por favor!
- Quantas?
- Como quantas? Tantas canecas quantos estamos sentados à mesa: dez.
O grupo esboçou um sorriso beato.
- E aperitivos - acrescentou Irmov. - Qualquer coisa leve. E para as senhoras?
- Também bebem cerveja - respondeu uma voz de homem.
As senhoras sorriram modestamente.
Veio a cerveja e toda a gente bebeu à saúde de Irmov, que se esforçava por ser amável interrogando todos acerca da sua vida, dos seus amigos e das suas distracções.
- Nem me fale nisso! - redarguiu o capitão. - Um verdadeiro túmulo. Um homem deixa o Clube Militar de Sófia e cai nesta pocilga...
- Vocês, militares, não têm razão para se queixar! São os meninos bonitos da Bulgária - interveio o doutor. - Que faz você aqui? De dia descansa e de noite diverte-se por aí enquanto espera pelo princípio do mês para receber o seu soldo de 400 leva ou mais...
- Não é bem assim. Guardamos a fronteira: Os Sérvios, hem... Parece que se preparam para atacar a Áustria...
- Não me venha com histórias dessas. O mais que os Sérvios podem preparar para a Áustria é chouriços! Fale-me antes da sorte que nos está reservada a nós, pobres diabos. Durante todo o mês corremos a região de uma ponta à outra, acordam-nos de noite ao mais pequeno sinal de febre e quando o doente se apanha tratado somos todos amigos e conhecidos e ninguém nos paga as visitas. Como se a medicina fosse um negócio de amigos!
- Qual é o estado sanitário da região? - perguntou Irmov.
- Só lhe digo isto: as consultas deviam dar dez mil leva por ano, mas não tiro mais de cinquenta. A gente destes sítios é assim: prefere morrer a pagar as consultas.
- Portanto, os seus honorários não lhe chegam?
- Nem sequer para o pão, e a ciência avança! É preciso comprar livros e revistas, estar a par do progresso.
- Cala-te aí! ...
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