Luís de Camões
Enfatrioes
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feito por Luís de Camões, em o qual entram as figuras seguintes:
Enfatrião, Almena, sua mulher, Sósia, seu moço, Brómia, sua criada, Belferrão, patrão, Aurélio, primo dela, com seu moço, Júpiter e Mercúrio, e entra logo Almena, saudosa do marido, que é na guerra, e diz:
h! senhor Anfatrião,
onde está todo meu bem,
pois meus olhos vos não vêm,
falarei co coração,
que dentro n'alma vos tem.
Ausentes duas vontades,
qual corre mores perigos,
qual sofre mais crueldades,
se vós antre os inimigos,
se eu antre as saudades?
Que a ventura, que vos traz
tão longe da vossa terra,
tantos desconcertos faz,
que se vos levou à guerra,
não me quis leixar em paz.
Brómia, quem, com vida ter,
da vida já desespera
que lhe poderás dizer?
Brómia:
Que nunca se viu prazer,
senão quando não se espera.
E, portanto, não devia
de ter triste a fantesia
porque Vossa Mercê crea,
que o prazer sempre saltea
quem dele mais desconfia.
Eu tenho no coração,
do senhor Anfatrião
venha hoje algüa nova:
não receba alteração,
que a verdadeira afeição
na longa ausência se prova.
Almena:
Dizei logo a Feliseo
que chegue muito apressado
ao cais, e busque meio
de saber algum recado
do porto Pérsico veio:
e mais lhe haveis de dizer,
(isto vos dou por oficio)
d'algüa nova saber,
enquanto eu vou fazer
a os deuses sacrificio.
Vai se Almena e diz, Brómia:
Saüdades de minha ama,
chorinhos e devações,
sacrifícios e orações,
me hão de lançar nüa cama,
certamente.
Nós, mulheres de semente,
somos sedenho tão tosco
que, com qualquer vento que vente,
queremos forçadamente
que os deuses vivam connosco.
Quero Feliseo chamar,
e dizer lhe aonde há de ir.
Mas ele, como me vir,
logo há de querer rinchar,
de travesso.
Eu, que de zombar não cesso,
por ficar com ele em salvo,
lanço lhe um e outro remesso;
aos seus furto lhe o alvo;
e então ele fica avesso.
Porque o milhor destas danças,
com uns vendiços assi,
é trazê los por aqui
ó cheiro das esperanças.
Por viver
há os homem de trazer
nos amores assi mornos,
só pera ter que fazer;
e despois, ao remeter,
lançar lhe a capa nos cornos.
Petisco, se estais à mão,
chegai cá. Vem como um gamo:
bem sei que não chamo em vão.
Vem Feliseo:
Chamais me? também vos chamo;
porém eu ouço, e vós não,
Senhora, que me matais!
Se vós já nunca me ouvis,
ou me ouvis, e vos calais,
dizei: porque me chamais,
se me vós a mim fugis?
Brómia:
Eu vos fujo?
Feliseo:
Fugis, digo,
de dar a meus males cabo.
Brómia:
Sabei que desse perigo
não fujo como de imigo,
fujo como do diabo.
Feliseo:
Dai ao demo essa tenção,
usai antes de cortês,
caí vós nesta razão
Brómia:
Do perigo fogem os pés,
do diabo o coração.
Feliseo:
Dizeis me que nessa briga
do meu coração fugis.
Brómia:
Ainda qu'eu isso diga...
Feliseo:
Ah minha doce inimiga!
Bem sinto que me sentis.
Mas pera que me chamais?
Brómia:
Manda vos minha senhora
que chegueis daqui ao cais,
e algüas novas saibais
d'Enfatrião nessa hora.
Feliseo:
Quem as não sabe de si,
d'outrem como as saberá?
Brómia:
Não nas sabeis vós de mi?
Feliseo:
Má trama venha por ti,
dona feiticeira má!
Porque não me olhas direito,
cadela, que assi me cortas?
Brómia:
Porque vos quero dar portas;
que s'eu olhar d'outro jeito,
trarei cem mil vidas mortas.
Feliseo:
E pois pera que me andais
enganando há cem mil anos?
Brómia:
Dou vos vida com enganos.
Feliseo:
Nesses enganinhos tais
acho cruéis desenganas.
Brómia:
Quant' a esses vos quero eu dar:
vós cuidais que estais na sela?
Pois podeis vos decer dela,
que eu nunca vos pude olhar.
Feliseo:
Jogais comigo à panela?
Tendes me há tanto cativo,
e desenganais me agora?
Tudo isso é o que privo.
Assi que é isso, Senhora,
«dô che lo morto, dô che lo vivo»
Se me vós desenganais
no cabo de tantos anos,
direi, se licença dais,
dais me vida com enganos,
desenganos, já chegais.
Mas se isso havia de ser,
dizei, má desconhecida,
desterro de meu viver,
que vos custava dizer
amor, vai buscar tua vida?
Brómia:
Zombais? Falais me coprinhas?
Feliseo:
Rir vos heis, se vem à mão;
copras não, mas isto são
ansias y passiones minhas
dos bofes e coração.
Brómia:
Is vos fazendo duns sengos...
Feliseo:
Pardóneme Dios si peco.
Brómia:
Nesses dentinhos framengos
conheço que sois um peco
de todos quatro avoengos.
Feliseo:
Tudo vos levo em capelo,
á qu'estais tanto em agraço.
Porém, falando singelo,
a furto desse mau zelo,
quereis me dar um abraço?
Brómia:
Para digo que não posso
usar convosco de feto: tomai o.
Feliseo:
Já o não quero,
porque esse abraço vosso,
sabei que é engano mero.
Brómia:
Oh! vós seis duns sensabores...
Abraços pedis assim?
S'eu remango dum chapim...
Feliseo:
Tudo isso são favores:
zombai, vingai vos de mim.
Brómia:
Vós, de furioso touro
as garrochas não sentis.
Feliseo:
Vedes, com isso sou mouro:
quando cuido que sois ouro,
acho vos toda ceitis.
Brómia:
Enfim, sanha de vilão
vos fez perder um bom dia.
Feliseo:
Já agora o eu tomaria;
quereis mo dar?
Brómia:
Agora não.
Cocei vos eu todavia.
Feliseo:
Pois, Senhora, a quem vos ama
sois tão desarrazoada,
quero tomar outra dama;
que não digam os d'Alfama
que não tenho namorada.
Brómia:
Leixai me.
Feliseo:
Vós me deixai.
Brómia:
Deixai me.
Feliseo:
Zombais de mi?
Brómia:
Deixai me. Pois me enjeitais,
eu me ausentarei daqui
onde me mais não vejais.
Feliseo:
Boa está a zombaria!
Brómia:
Não são essas minhas manhas.
Feliseo:
Porém is vos todavia?
Brómia:
«Voyme a tierras estrañas
adó ventura me guia.»
Vai se Brómia e diz Feliseo:
Fantesias de donzelas,
não há quem como eu as quebre,
porque certo cuidam elas,
que com palavrinhas belas
vos vendem gato por lebre.
Esta tem la pera si
qu'eu sou por ela finado;
e crê que zomba de mim
e eu digo lhe que sim,
sou por ela esperdiçado.
Preza se de üas seguras;
e eu não quero mais Frandes
dou lhe trela às travessuras,
porque destas coçaduras
se fazem as chagas grandes.
Qu' estas, que andam sempre à vela
estas vos digo eu que coço,
porque de firmes na sela,
crêm que falsam a costela,
e ficam pelo pescoço.
Que quando estas damas tais
me cacham, então recacho.
Mas disto agora nô mais.
Quero me ir daqui ao cais
ver se algüas novas acho.
Vai se Feliseo e vem Júpiter
e Mercúrio e diz Júpiter:
Ó grande e alto destino,
ó potência tão profana,
que a seta d'um minino
faça que meu ser divino
se perca por cousa humana!
Que me aproveitam céus,
onde minha essência mora
com tanto poder, se agora
a quem me adora por deus,
sirvo eu como senhora?
O que estranhar afeição
que em baxa cousa vai pôr
a vontade e o coração,
sabe tão pouco d'amor,
quão pouco amor da razão.
Mas que remédio hei de ter
contra mulher tão terríbel
que se não pode vencer?
Mercúrio:
Alto Senhor, a teu poder
o difícil lhe é possível
Júpiter:
Tu não vês qu' esta mulher
se preza de virtuosa?
Mercúrio:
Senhor, tudo pode ser;
que pera quem muito quer,
sempre afeição é manhosa.
eu marido está ausente l
na guerra, longe daqui;
tu, que és Júpiter potente,
amarás sua forma em ti,
que o farás mui facilmente.
E eu me transformarei
na de Sósia, criado seu;
e ao arraial me irei,
onde logo saberei
como se a batalha deu.
E assi poderás entrar,
em lugar de seu marido,
pera que sejas crido,
poderás também contar
quanto eu lá tiver sabido.
Júpiter:
Quem arde em tamanho fogo
tira lhe a virtude a cor
de sutil e sabedor;
e quem fora está do jogo
enxerga o lanço milhor.
Mas tu, que dos sabedores
tanto avante sempre estás,
se deus és dos mercadores,
sê lo hás dos amadores,
pois tal remédio me dás.
Ponha se logo em efeito,
que não sofre dilação
quem o fogo tem no peito;
e tu vai logo direito
onde anda Enfatrião.
Vão e vêem Feliseo e Calisto e diz, Feliseo:
Adó bueno por aqui,
tão longe do acostumado?
Calisto
Mais longe vou eu de mi,
d'ir perto de meu cuidado.
Feliseo:
No andar vos conheci.
Calisto
E vós onde vos lançais,
com vossa contemplação?
Feliseo:
Eu chego daqui ao cais
a saber d' Enfatrião:
não sei se vou por de mais.
Calisto
Porque por de mais dizeis?
Feliseo:
Porque nada ali há certo.
Calisto
Novas lá não nas busqueis,
que aqui as tendes mais perto.
Feliseo:
Pois dai mas, se as sabeis.
Calisto
:
Um navio é já chegado
à barra, que vem de lá;
traz d'Anfatrião recado,
diz que o deva embarcado
pera se vir para cá.
Tem vencido aquele Rei,
e diz, segundo lhe ...
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