Luís de Camões
EL-REI SELEUCO
******************
Diz logo o Mordomo [Escudeiro],
ou dono da casa:
is, senhores, o Autor, por me honrar nesta festival noite, me quis representar üa farsa;
e diz que por se não encontrar com outras já feitas, buscou uns novos fundamentos para a quem tiver um juízo assi arrazoado satisfazer. E diz que quem se dela não contentar, querendo outros novos acontecimentos, que se vá aos soalheiros dos Escudeiros da Castanheira, ou d'Alhos Vedros e Barreiro, ou converse na Rua Nova em casa do Boticário, e não lhe faltará que conte. Porém diz o Autor que usou nesta obra da maneira de Isopete. Ora quanto à obra, se não parecer bem a todos, o Autor diz que entende dela menos que todos os que lha puderem emendar. Todavia, isto é pera praguentos: aos quais diz que responde com um dito de um filósofo, que diz: Vós outros estudastes para praguejar, e eu pera desprezar praguentos. E contudo quero saber da farsa, em que ponto vai. Moço! Lançarote!
Moço:
Senhor.
Escudeiro:
São já chegadas as figuras?
Moço:
Chegadas são elas quase ao fim de sua vida.
Escudeiro:
Como assi?
Moço:
Porque foi a gente tanta, que não ficou capa com frisa, nem talão de çapato, que não saísse fora do couce. Ora vieram uns embuçadetes, e quiseram entrar por força; ei-lo arrancamento na mão: deram üa pedrada na cabeça ao Anjo, e rasgaram üa meia calça ao Ermitão; e agora diz o Anjo que não há de entrar, até lhe não darem üa cabeça nova, nem o Ermitão até lhe não porem üa estopada na calça. Este pantufo se perdeu ali; mande-o v. m. Domingo apregoar nos púlpitos, que não quero nada do alheio.
Escudeiro:
Se ela fora outra peça de mais valia, tu botaras a conciência pela porta fora, pera a meteres em tua casa.
Moço:
Oh, se o ela fora, mais conciência seria torná-la a seu dono, quem a havia mister para si.
Escudeiro:
Ora vem cá: vai daqui a casa de Martim Chinchorro, e dize-lhe que temos cá Auto com grande fogueira; que se venha sua mercê pera cá, e que traga consigo o Senhor Romão d'Alvarenga, pera que sobre o Cantochão botemos nosso contraponto de zombaria. Ouves, Lançarote ? Ir-lhe hás abrir a porta do quintal, porque mudemos o vinte aos que cuidam de entrar por força.
Indo-se o Moço diz:
Chichelo de Judeu, assi como foste pantufo, que te custava ser üa bolsa com um par de reales, que são bons pera escudeiro hipócrita, que são muito e valem pouco?
Escudeiro:
Moço, que estás fazendo que não vás?
Moço:
Senhor, estou tardando, e porém estou cuidando que se agora fora aquele tempo em que corriam as moedas dos sambarcos, sempre deste tiraria pera üas palmilhas. Mas já que assi é, diga-me v. m. que farei deste?
Escudeiro:
Oh fideputa bargante, esperai, que est' outro vo-lo dirá.
Faz que lhe atira com outro pantufo,
vai-se o Moço, e diz o Escudeiro:
Não há mais mau conselho, que ter um vilão destes mimoso, porque logo passam o pé além da mão, zombam assi da gravidade de seu amo. Mas tornando ao que importa, vossas mercês é necessário que se cheguem uns pera os outros, pera darem lugar aos outros Senhores que hão de vir; que de outra maneira, se todo o corro se há de gastar em palanques, será bom mandar fazer outro Alvalade; e mais que me hão de fazer mercê, que se hão de desembuçar, porque eu não sei quem me quer bem, nem quem me quer mal: este só desgosto tem um Auto, que é como ofício de alcaide; ou haveis deixar entrar a todos, ou vos hão de ter por vilão ruim.
Entra Martim Chinchorro, falando com
outro escudeiro por nome Ambrósio,
e diz o Martim Chinchorro:
[Martim]
Entre v. m.
Ambrósio:
Dias há, Senhor, que ando de quebras com cortesias; e por isso vou diante. Beijo as mãos a v. m. A verdade é esta: passear em casa juncada, fogueira com castanhas, mesa posta com alcatifa e cartas, além disso Auto pera esgaravatar os dentes; esta é a vida de que se há de fazer conciência.
Escudeiro:
Senhor, o descanso dizem lá que se há de ter enquanto homem puder, porque os trabalhos, sem os chamarem, de seu se vêm «por seu pé, que seu nome é».
Martim:
Ora pois, Senhor, o Auto dizem que é tal? Porque um Auto enfadonho traz mais sono consigo que üa pregação comprida.
Escudeiro:
Senhor, por bom mo venderam, e eu o tomei a cala de sua boa fama. E se tal é, eu acho que, por outra parte, não há tal vida como ouvir um vilão, que arranca a fala da garganta, mais sem sabor que üa pêra pão, e üa donzela, que vem mais podre de amor, falando como Apóstolo, mais piadosa que üa lamentação.
Martim:
Pera estes tais é grande peça rapaz travesso com molho de junco, porque não andem mais ao coscorrão, mais roucos que üa cigarra, trazendo de si enfadamento.
Moço:
Olá, Senhores! Pedem as figuras alfinetes pera toucarem um Escudeiro. Ora sus, há i quem dê mais ? Que ainda vos veja todas a mim às rebatinhas! Ora sus, venham de mano em mano, ou de mana em mana.
Mordomo:
Moço, fala bem ensinado!
Moço:
Senhor, não faz ao caso, que os erros por amores tem privilégio de moedeiro.
Ambrósio:
Ó rapaz, não me entendes? Pergunto-te se tardará muito por entrar.
Moço:
Parece-me, Senhor, que antes que amanheça começarão.
Ambrósio:
Oh que salgado moço! Zombas de mim? Vem cá. Donde és natural?
Moço:
Donde quer que me acho.
Ambrósio:
Pergunto-te onde naceste.
Moço:
Nas mãos das parteiras.
Ambrósia:
Em que terra?
Moço:
Toda a terra é üa, e mais eu naci em casa assobradada, varrida daquela hora, que não havia palmo de terra nela.
Martim:
Bem varrido de vergonha que me tu pareces. Dize: Cujo filho és? É pera ver com que disbarate respondes.
Moço:
A falar verdade, parece-me a mim que eu sou filho de um meu tio.
Martim:
Vem cá. De teu tio? E isso como?
Moço:
Como? Isto, Senhor, é adivinhação, que vossas mercês não entendem. Meu pai era Clérigo, e os Clérigos sempre chamam aos filhos sobrinhos, e daqui me ficou a mim ter filho de meu tio.
Martim:
Ora te digo que és gracioso. Senhor, donde houvestes este?
Escudeiro:
Aqui me veio às mãos sem piós nem nada; e eu por gracioso o tomei; e mais tem outra cousa: que üa trova fá-la tão bem como vós, ou como eu, ou como o Chiado.
Ambrósio:
Não! quant'a disso nós havemos-lhe de ver fazer algüa cousa, enquanto se vestem as figuras. Ainda que, pera que é mais Auto, que vermos a este?
Escudeiro:
Vem cá, moço: dize aquela trova que fizeste à moça Briolanja, por amor de mim.
Moço:
Senhor, si, direi; mas aquela trova não é senão pera quem a entender.
Martim:
Como ! Tão escura é ela ?
Moço:
Senhor, assi a sei eu escrever e a fiz na memória, porque eu não sei escrever senão com carvão, e porém diz assi:
Per amor de vós, Briolanja,
ando eu morto,
pesar de meu avô torto.
Martim:
Oh como é galante! Que descuido tão gracioso! Mas vem cá: que culpa te tem teu avô nos disfavores que te tua dama dá ?
Moço:
Pois, Senhor, se eu houve de pesar de alguém, não pesarei eu antes dos meus parentes, que dos alheios ?
Escudeiro:
Pois ouçam vossas mercês a volta, que é mais cheia de gavetas, que trombeta de sereníssimo de La Valla.
Moço:
A volta, Senhores, é mui funda; e parece-me, Senhores, que nem de mergulho a entenderão. E por isso mandem assoar os engenhos, e metam mais üa sardinha no entendimento, e pode ser que com esta servilha lhe calçará milhor; e todavia palra assi:
Vossos olhos tão daninhos
me trataram de feição,
que não há em meu coração
em que atem dous réis de cominhos.
Meu bem anda sem focinhos
por vós morto,
pesar de meu avô torto.
Martim:
Ora bem: que tem de ver os cominhos com o teu coração?
Moço:
Pois, Senhores, coração, bofes, baço e toda a outra mais cabedela não se podem comer senão com cominhos; e mais, Senhores, minha dama era tendeira, e este é o verdadeiro entendimento.
Martim:
E aquela regra que diz: Meu bem anda sem focinhos, me dá tu a entender, que ela não dá nada de si.
Moço:
Nunca vossas mercês ouviram dizer:
Meu bem e meu mal
lutaram um dia,
meu bem era tal
que meu mal o vencia?
Pois desta luta foi tamanha a queda, que meu bem deu entre üas pedras, que quebrou os focinhos, e por ficarem tão esfarrapados, porque lhe não podiam botar pedaço, por conselho dos Físicos lhos cortaram por lhe neles não saltarem erpes, e daqui ficou: Meu bem anda ...
|
|
|
|
|
|
|
|
|