Title: A FEITICEIRA

Author:CHEKHOV ANTON
Subject:OTHER LITERATURES
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Anton Tchekhov

A Feiticeira




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Era quase meia-noite. Deitado em um imenso leito, na casa do sacristão, o chantre Saveli Guikine não dormia, se bem que tivesse o hábito de dormir cedo, como as galinhas. Sob a coberta imunda, feita de restos de chita de todas as cores, apareciam seus ásperos cabelos ruivos. Do outro lado da coberta, saíam dois pés enormes, que havia muito não eram lavados. Escutava...
A casa do sacristão era cercada pelo muro curial e sua única janela dava para o campo, onde se travava uma verdadeira guerra. Era difícil perceber o que fazia a imensa algazarra; ou notar pela perda de quem a natureza punha tudo de pernas para o ar; mas, a julgar pelo seu esbravejar incessante e sinistro, que repercutia violentamente, alguém estava em perigo... Uma força vitoriosa corria pelos campos; danificava a floresta e os telhados da igreja; batia furiosamente nas janelas; varria; rasgava - e qualquer coisa vencida urrava e chorava.
O gemido lamuriento ouvia-se, ora além da janela, ora no telhado, ora descendo pela chaminé - e não era um apelo de socorro que se sentia nele, mas angustiada consciência de que não havia mais salvação, de que era tarde demais...
Os montículos de neve estavam cobertos de uma fina casca de gelo e lágrimas congeladas tremiam sobre eles e sobre as árvores. Pelos caminhos, os atalhos desafogavam um suco de lama e de neve fundida. Era o degelo. Mas, através da noite opaca, o céu não o percebia e enviava, com toda a sua força, novos flocos de neve. O vento rodopiava como um homem ébrio e sem permitir à neve tocar a terra fazia-a voar, nas trevas, à sua mercê.
Guikine ouvia o atordoante concerto e franzia o rosto. Sabia, ou pelo menos julgava adivinhar, a que levava toda essa algazarra e de quem ela era obra...
- Eu sei - dizia em um rosnar, ameaçando alguém com o dedo, sob a coberta. - Sei tudo!
Perto da janela, sentada em um escabelo, estava sua mulher Raissa Nilovna. Sobre outro escabelo, uma lâmpada de lata, que, como se estivesse intimidada e incerta de suas forças, derramava uma tênue luz vacilante sobre seus largos ombros, sobre os belos e apetitosos relevos de seu corpo, sobre suas tranças espessas, que tocavam o solo.
Costurava sacos de grossa estopa. Suas mãos corriam ligeiras, mas todo seu corpo, seus olhos, suas sobrancelhas, seus lábios carnudos, seu longo pescoço, imobilizados pelo trabalho monótono e mecânico, pareciam dormir. De quando em quando, erguia a cabeça para relaxar o corpo fatigado e olhar furtivamente a janela, além da qual se desencadeava a tempestade. Mas, logo voltava a debruçar-se sobre o grosso tecido. Nem desejos, nem tristeza, nem alegria - nada transparecia em seu rosto de nariz arrebitado e faces marcadas de covinhas. Assim como nada expressa uma bela fonte, quando não está jorrando.
Ao terminar um saco, atirou-o ao chão e, após espreguiçar-se, com visível prazer, deteve sobre a janela seu olhar fixo e terno: pelos vidros, deslizavam lágrimas e a brancura dos efêmeros flocos de neve que, tombando, se fundiam.
- Vem deitar-te - resmungou o chantre.
- A mulher não respondeu. Mas, subitamente, seus cílios começaram a mover-se a atenção brilhou em seus olhos. Saveli que, sob as cobertas, vigiava sem cessar as expressões de seu rosto, ergueu a cabeça e perguntou:
- Que há?
Raissa respondeu, docemente:
- Nada. Parece que está chegando alguém...
Com as mãos e com os pés, Guikine atirou longe as cobertas, ajoelhou-se na cama e fitou a mulher, com expressão aparvalhada. A luz tímida de pequena lâmpada iluminou a face peluda e crestada do chantre e deslizou por sua áspera cabeça.
- Estás ouvindo? - perguntou à mulher.
Através do ulular contínuo da tormenta, ele apreendeu um som de campainha muito fino, apenas perceptível, semelhante ao zumbido de um mosquito, que se zanga quando é impedido de pousar em um rosto.
- É o correio - resmungou Saveli, sentando-se sobre as pernas.
A três verstas da igreja passava a mala postal. Quando o vento procedia do lado da estrada, os habitantes da casa ouviam as campainhas. A mulher do chantre suspirou:
- Senhor! Como se pode viajar, com um tempo desses...
- Questão de dever... Queiram ou não, é preciso trabalhar...
O som pairou no ar e extinguiu-se.
- Já se foi - disse Saveli, voltando a deitar-se.
Mas mal teve tempo de puxar as cobertas: logo o som nítido da campainha novamente a seus ouvidos. O chantre, inquieto, olhou para a mulher, saltou da cama, sacudindo-se todo, pôs-se a andar em torno da lareira. A campainha ainda ressoou um pouco, depois silenciou, como se tivesse sido arrancada.
O chantre murmurou, detendo-se, olhando a mulher, os olhos meio fechados:
- Não se ouve mais nada...
Exatamente nesse momento o vento chicoteou a janela e chegou com o som fino e agudo... Saveli empalideceu, tossiu e arrastou, pelo chão, seus pés nus.
- O correio perdeu sua rota - disse, com voz rouca, olhando colericamente a mulher - estás ouvindo? A mala postal extraviou-se. Eu sei... Eu sei... Penas que não compreendendo? Sei tudo! Que o diabo te carregue!
A mulher perguntou, suavemente, sem desviar os olhos da janela:
- Que sabes?
- Sei que és tu que fazes tudo isso, mulher diabólica. É obra tua... Esta tormenta, o correio extraviado... és tu a culpada... és tu!
- Estás louco, ou és imbecil - replicou tranqüilamente a mulher.
- Há muito tempo venho notando... Desde o dia de nosso casamento, senti que há, em tuas veias, sangue de cadela...
- Ora! - exclamou Raissa, surpresa, erguendo os ombros e benzendo-se. - É melhor que faças o sinal da Cruz, idiota!
- És uma feiticeira, sem remédio - disse em continuação Saveli, voz surda e dolente, assoando-se rapidamente em sua própria camisa. - Embora sejas minha mulher e de condição eclesiástica, direi em confissão o que és...
- É meu dever. Senhor, protege-me e salva-me! O ano passado, no dia do profeta Daniel e dos três adolescentes, houve também uma tempestade de neve... e que aconteceu? Um operário veio ter aqui, para aquecer-se. Depois, no dia de Santo Aleixo, o Homem-de-Deus, o rio degelou. O chefe de polícia veio... conversou a noite toda contigo, o maldito; e, pela manhã, quando saiu, tinha olheiras e as faces cavadas. Hein? Que dizes disso? Também por duas vezes, na festa do Salvador, houve tempestades e, nessas ocasiões, um caçador veio passar a noite. Vi tudo! Que o diabo te carregue! Vi tudo! Ah! Agora ficaste mais vermelha do que uma lagosta, vês?
- Não viste nada disso...
- Tenho certeza! Vi, sim. E, neste inverno, antes do Natal, no dia dos Dez Mártires de Creta, lembra-te? O escrivão do marechal perdeu-se, não achou o caminho e veio cair aqui, o cão... E logo por quem, te enfeitiçaste? Por um reles escrivão! Gastar tempo com uma coisa dessas! Um aborto do diabo, um, ranhoso que não enxerga um palmo acima do chão, com a boca cheia de borbulhas e o pescoço torto... Se, ao menos, fosse belo... Mas é nojento, o cachorro!
O chantre tomou fôlego, enxugou os lábios e ficou atento. Não mais se ouvia a campainha, mas o vento bateu no telhado e a janela vibrou, novamente. Saveli continuou:
- E, agora, a coisa repete-se. Não é por acaso que o correio se extravia! Podes cuspir-me na cara, se não é a ti que ele procura! Ah! O diabo conhece bem suas tarefas... vai extraviá-lo e o trará até aqui. Eu seei! Eu veejo! Não podes mais ocultar-te de mim, guizo do diabo, monstro de luxúria! Adivinhei teus pensamentos, desde que a tormenta começou.
- És um imbecil! Então achas que sou eu quem fabrica o mau tempo?
- Sim, tenho certeza. Podes rir! Penas que não tomo nota? Sempre que teu sangue ferve, faz logo mau tempo e, a cada tormenta, surge-nos um cretino qualquer... Isso acontece todas as vezes... Logo, és tu a culpada!
Para ser mais persuasivo, o chantre levou o dedo à testa, fechou o olho esquerdo e prosseguiu, arrastando a voz:
- Ah! Loucura e danação de Judas! Se fosses realmente uma mulher e não uma feiticeira, devias indagar se esses homens são um operário, ou um caçador, ou7 um escrivão e não o próprio demônio, disfarçado em suas figuras. Hein? Devias indagar, não devias?
- Como és cretino, Saveli - disse a mulher, suspirando e olhando o marido com piedade. - Quando meu pai morava aqui, muitas pessoas vinham procurá-lo, para curar as febres... Das aldeias, dos lugarejos, das fazendas dos armênios... Quase todos os dias, sem que fossem tomados por diabos. E agora, se aparece alguém, uma vez por ano que seja, para abrigar-se do mau tempo, ficas logo pensando em feitiçarias, imbecil que és. E imediatamente tua cabeça se enche de toda espécie de maus pensamentos...
A lógica da mulher abalou um pouco Saveli. Afastou os pés nus, baixou a cabeça e refletiu. Não estava ainda firmemente convencido quanto a suas suspeitas; e o tom sincero ...
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