







Gueorgui P. Stamatov

DOIS TALENTOS


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Irmov desceu do fiacre diante do hotel, que mais parecia uma estalagem, mandou descarregar as malas, pagou a corrida, sem se esquecer da gorjeta, e entrou no caf do rs-do-cho.
O dono acolheu-o respeitosamente.
- Mande-me o preciso para me lavar, acender o lume e arranjar para o jantar qualquer coisa leve: um caldo de frango e dois ovos escalfados. Tenho o estmago fraco - desculpou-se.
O dono prometeu tratar de tudo. Os estmagos fracos pagavam bem e, alm disso, aquele cavalheiro parecia ser algum. O corte do sobretudo revelava que era de Sfia.
Os clientes do caf examinaram atentamente o recm-chegado. A ementa encomendada f-los sorrir: seria possvel que um estmago blgaro no fosse capaz de digerir qualquer coisa?
Precedido pelo novo cliente, o estalajadeiro subiu ao primeiro andar, o que deu livre curso aos comentrios.
- Quem ser?
- Um engenheiro. Passam por c alguns.
- Um inspector...
- Um inspector? Para inspeccionar o qu? No h na regio cem moedas na mesma caixa.
- Talvez esteja apenas de passagem...
- Para ir aonde? Estamos no fim do mundo.
Uma hora depois, Irmov desceu - lavado, friccionado, com outro fato - e sentou-se a uma mesa juncada de jornais em que se no atreveu a tocar por estarem muito sujos.
- O meu jantar est pronto? - perguntou.
- Queira passar para a sala ao lado, senhor. Pus-lhe a mesa na sala de jantar dos senhores funcionrios.
Irmov dirigiu-se para a diviso contgua, onde j se encontravam cinco ou seis notveis. Uns liam o jornal, outros falavam de culinria, criticando o cozinheiro do ano anterior. O recm-chegado sentou-se, tossiu e depois de entalar a ponta do guardanapo no colarinho da camisa esperou, mexendo maquinalmente no talher. Os comensais largaram os jornais, calaram-se e puseram-se a examin-lo com olhos curiosos e invejosos. Odiavam instintivamente aquele homem vindo de um mundo estranho que no podiam esperar conhecer. O intruso nem sequer os via ou simulava no os ver, o que s contribuiu para excitar a sua animosidade. De boa vontade arranjariam maneira de zombar dele se no fosse o receio de toparem com algum figuro importante que os varresse com um piparote. Cada um julgava ver nele um emissrio do seu cu administrativo.
Acabado o jantar, Irmov pediu que lhe levassem o caf ao quarto e o acordassem cedo e retirou-se.
Todas as bocas se abriram imediatamente para interrogar o estalajadeiro.
Foi grande a decepo quando souberam que o viajante se inscrevera como escritor.
- E eu que o julgava o inspector-chefe!
- Malditos escritores! Essa gente s se alimenta de caldos?
Os espritos acalmaram-se. Aqueles que momentos antes receavam a inspeco das suas caixas pediram o tabuleiro do gamo. Tanto pior para o escritor, que talvez j estivesse a estigmatiz-los l em cima com a pena acerada! No era perigoso; no podia perturbar-lhes a quietude; no era um inspector.

No dia seguinte, Irmov foi ao liceu a fim de falar com um professor que lhe poderia arranjar documentao para o seu futuro romance histrico. O homenzinho quase sucumbiu ao saber com quem falava, antes de reconhecer que mal lera as obras do seu interlocutor.
- Ah, Sr. Irmov, se soubesse como a provncia d cabo de um homem! Sobretudo de ns, professores. Suga-nos o sangue, transforma-nos em conserva. No  que no gostemos de ler, mas que ganhamos com isso? Para viver e morrer aqui at j li de mais. A Bulgria sacrifica-nos e ns resignamo-nos em troca de um bocado de po. Aqui perde-se toda a vontade de viver e quando no apetece viver, um homem, se no  um cadver,  pelo menos um doente. Passamos a vida a fazer dieta.
E como Irmov no dissesse nada, prosseguiu:
- Dir-me- que a leitura  um fim em si e no um meio... Engana-se! Um livro no passa de um livro e nunca poderia substituir um ser vivo. H momentos em que preferiria a companhia de um bom amigo, mesmo ignorante, a todos os alfarrbios. O livro, sem o contacto humano,  assustador. Provoca sonhos e apetites que h muito tempo nos esto profissionalmente vedados. Acredita se lhe disser que s vezes me d vontade de fugir deste buraco e de ir para um lado qualquer? No me importaria de ir para Sfia e tornar-me criado de caf. L a vida sempre  menos vazia. Se fosse Napoleo destruiria estes recantos perdidos, onde o isolamento  mais terrvel do que a misria e a fome... este isolamento perptuo. Aqui somos capazes de saltar de alegria, como garotos, diante de uma locomotiva ou at de um simples fiacre. Desabituamo-nos da poesia, da msica, das canes e esquecemos as carcias de uma mulher. s vezes uma camponesa entusiasma-nos mais do que vos seduzem as vossas beldades decotadas nos bailes. Atrofimo-nos e parecemos mmias que, no entanto, respiram, pensam e sentem - dentro dos limites prescritos pelo oramento e pelo ministrio.
Irmov, que o escutava, compreendia perfeitamente e no mais ntimo do corao agradecia ao acaso t-lo poupado a semelhante provao. Nunca conseguiria resignar-se... Pobres homens!, pensou, sem sequer procurar uma palavra de consolao.
Passeando sem destino, passaram por uma grande casa de primeiro andar, cujo rs-do-cho estava ocupado por uma loja. Da parte de trs adivinhava-se um ptio amplo.
No primeiro andar havia uma varanda.
- De quem  esta casa?
- Pertence a um velho ricao cujos bens so todos administrados pelo genro, Linovski. Duvido que o conhea.  o senhor incontestado da regio. No tardar nada que no seja deputado, embora h muito merea a forca.
- Linovski?... Conheci noutros tempos um Linovski que estudava Direito em Franca. Mais tarde teve contas a ajustar com a justia a propsito de uma histria de diploma falso.
- Isso so guas passadas. Agora at falsifica o leite que os filhos bebem, mas nisso a lei no pode fazer nada.
- Trata-se, portanto, do mesmo Linovski?
- Provavelmente.  impossvel haver dois do mesmo quilate; deve ser nico na Bulgria. S visto: no teme Deus nem o Diabo.
No tardaram a separar-se e Irmov dirigiu-se para o restaurante.
A sua mesa estava ocupada por numeroso grupo constitudo por homens e mulheres.
Tinha o talher no mesmo stio, mas para passar teve de incomodar alguns comensais.
- Pardon [1] - disse delicadamente.
Pediram-lhe desculpa por lhe terem ocupado a mesa...
- Por quem so, no tem importncia!  um prazer para mim...
Cinco minutos depois conhecia toda a gente.
- Dr. Ivanov!...
- Rankov, magistrado...
- Markov, professor...
- Capito Chevronov...
- Sra. Untel...
Etc.
Quando souberam que Irmov tencionava visitar no dia seguinte uma aldeia vizinha, decidiram acompanh-lo at casa do comandante dos guardas-fronteiras.
- Levaremos comida e bebidas...
- Haver lua cheia...
- Mas nada de fiacre! De tren! - insistiam as senhoras.
- E dividiremos as despesas - concluiu uma voz.
A ideia do piquenique excitou os espritos e cada um olhou disfaradamente para os outros na esperana de ver algum oferecer uma rodada.
Mas ningum se decidia. Por fim, Irmov chamou o dono do restaurante.
- Cerveja, por favor!
- Quantas?
- Como quantas? Tantas canecas quantos estamos sentados  mesa: dez.
O grupo esboou um sorriso beato.
- E aperitivos - acrescentou Irmov. - Qualquer coisa leve. E para as senhoras?
- Tambm bebem cerveja - respondeu uma voz de homem.
As senhoras sorriram modestamente.
Veio a cerveja e toda a gente bebeu  sade de Irmov, que se esforava por ser amvel interrogando todos acerca da sua vida, dos seus amigos e das suas distraces.
- Nem me fale nisso! - redarguiu o capito. - Um verdadeiro tmulo. Um homem deixa o Clube Militar de Sfia e cai nesta pocilga...
- Vocs, militares, no tm razo para se queixar! So os meninos bonitos da Bulgria - interveio o doutor. - Que faz voc aqui? De dia descansa e de noite diverte-se por a enquanto espera pelo princpio do ms para receber o seu soldo de 400 leva ou mais...
- No  bem assim. Guardamos a fronteira: Os Srvios, hem... Parece que se preparam para atacar a ustria...
- No me venha com histrias dessas. O mais que os Srvios podem preparar para a ustria  chourios! Fale-me antes da sorte que nos est reservada a ns, pobres diabos. Durante todo o ms corremos a regio de uma ponta  outra, acordam-nos de noite ao mais pequeno sinal de febre e quando o doente se apanha tratado somos todos amigos e conhecidos e ningum nos paga as visitas. Como se a medicina fosse um negcio de amigos!
- Qual  o estado sanitrio da regio? - perguntou Irmov.
- S lhe digo isto: as consultas deviam dar dez mil leva por ano, mas no tiro mais de cinquenta. A gente destes stios  assim: prefere morrer a pagar as consultas.
- Portanto, os seus honorrios no lhe chegam?
- Nem sequer para o po, e a cincia avana!  preciso comprar livros e revistas, estar a par do progresso.
- Cala-te a! S pelos certificados que passaste aos taberneiros recebeste quinhentos leva. E ns? Duzentos e trinta e seis leva - duzentos e trinta e seis! -, quer chova, quer faa vento! A regio est  nossa merc, dispomos da vida das pessoas e podemos mand-las para a forca, mas vivemos como amanuenses. Nem sequer temos dinheiro para nos casarmos! - interveio o magistrado.
- Porque no exerce a advocacia?
-  o que tenciono fazer daqui a dois anos, depois de me reformar.
Em suma, ningum estava contente com a sua sorte, todos tinham razes de queixa contra o pas. Irmov fazia o possvel para no os interromper.
- Em meu entender - perorava o capito -, ou se tem um exrcito como deve ser ou no se tem! O exrcito  a trave mestra do Estado. No nos esqueamos de que um oficial no  um civil! Se quereis a paz, preparai a guerra, dizia Napoleo. Ergo, pagai bem aos vossos oficiais.
- Acima de tudo o povo deve ser saudvel: povo doente, cidados doentes, exrcito doente. Mens sana in corpore sano. Logo, os mdicos deveriam ser os mais bem pagos.
- O objectivo final de todas as coisas  a justia e ns distribumo-la aos civis e aos militares, aos doentes e aos que tm sade... A Inglaterra, disse no sei que filsofo, mantm a sua esquadra e o seu exrcito para assegurar a alguns magistrados as suas prebendas. Aqui tm por que motivo a situao do magistrado deve ser a mais estvel.
O grupo contava tambm com um professor primrio rural que escutava os outros sem se atrever a queixar-se, com vergonha de ter de revelar o montante do seu vencimento, tanto mais que ainda por cima no conhecia nenhum sbio que pudesse citar a favor dos professores primrios blgaros.
Irmov no tardou a pedir segunda rodada. Pouco a pouco, a conversa perdeu o seu carcter abstracto e cedeu o lugar s anedotas da terra. As senhoras presentes tomaram ento ares virginais a ponto de perderem toda a graa. Depois cantou-se e Irmov mandou vir terceira rodada que lhe conquistou as simpatias gerais. Chegaram a perguntar-lhe onde poderiam encontrar as suas obras.
- Escritor, hem?... Os escritores so uns felizardos, segundo me consta...
- Oh, sabem-na toda! Botam uma histria no papel num abrir e fechar de olhos e pumba! Cem leva. Parece que Vazov [2]tem mandado fazer casas graas aos seus romances.
- Ao passo que ns esprememos os miolos por duzentos leva por ms.
Depois de cantarem, danaram. Encostaram as mesas s paredes e improvisaram uma pista de dana animada por dois violinistas ciganos acordados em sobressalto. A boa disposio atingiu o cmulo quando, saudado com um hurra! unnime, Irmov declarou que pagava toda a conta.
- No est certo - cochichou uma voz. - Ns  que o convidmos e deix-lo pagar...
- Ele  que quis...
- Deveramos pagar ao menos uma parte. Que ir pensar? Se se lembrasse de nos retratar em qualquer dos seus livros...
- Seria o bastante para reembolsar a despesa.
O sero prolongou-se at s quatro horas da manh, quando resolveram sair, o dono satisfeitssimo com o cliente, correu ao seu encontro com o sobretudo. Na rua, a algazarra acordou todo o burgo mergulhado num sono patriarcal. Mas o comissrio acompanhava-os e a patrulha nocturna fez vista grossa.
Depois da sua conversa com o professor, Irmov encontrou Linovski diversas vezes, mas ou deu meia volta ou meteu por uma rua lateral. Em estudante no quisera estender a mo a semelhante homem; com mais forte razo se devia abster agora de lha apertar, uma vez que o sabia rico e senhor incontestado da regio, o que provava terem razo aqueles que o consideravam capaz de tudo.
Mas uma dia encontraram-se cara a cara, Irmov no o pde evitar e parou involuntariamente.
- Irmov! s tu? Procurei-te quando soube da tua chegada e informaram-me que andavas a visitar as aldeias  procura de elementos para um novo livro... Um romance? No percebo muito disso, mas tenho lido as tuas obras. Continuas a viver nas nuvens, os teus heris so marcianos... todos honestos... nem um s mau. Ainda ficas por c uns dias, no  verdade? Gostaria de te voltar a encontrar, de conversar um bocadinho contigo. H quantos anos no nos vamos! No me esqueo que fomos companheiros de escola... Esta noite jantas connosco! No, no, est decidido!
- Receio no poder aceitar - respondeu Irmov indeciso. - Esta noite tenciono trabalhar...
- Deixa l isso! Trabalhars em Sfia. Que trabalho pode render nesta atmosfera? Olha, vamos directamente para minha casa.
- Esto  minha espera. Combinei encontrar-me com um professor do liceu.
- Ele que espere... Mandarei o meu empregado preveni-lo. Por outro lado, que espcie de jantar te espera no hotel? Kolio d aos seus clientes comida que os meus porcos recusariam.
- Ele faz-me as refeies  parte.
- Cuidarei da tua dieta. Quanto ao vinho, nunca bebeste nenhum to bom. Forneo vinho para toda a regio, mas vinho, o que se chama vinho, sou o nico que o bebo! Os funcionrios comem o que lhes do. No tm o direito de ser exigentes. Os seus estmagos esto preparados para resistir s mixrdias de Kolio durante quinze anos. Depois... acabou-se: funeral, penso para as vivas e para os rfos-futuros-funcionrios... Mas basta de tagarelice. Vamos! No imaginas como estou contente.
- Sinceramente, no posso, sinto-me cansado.
- Escuta, Irmov: comeo a suspeitar que no queres ir a minha casa. Esses cavalheiros devem ter-te contado s Deus sabe que histrias a meu respeito.
- No digas isso! Quem me poderia falar de ti!
- Todos! Se pudessem, afogavam-me numa gota de gua. No conseguem perdoar-me que eu, um estrangeiro, os tenha humilhado. Mas os mosquitos no me metem medo: no picam, limitam-se a zumbir. Sei muito bem que na universidade ningum me gramava, incluindo tu... mas o que l vai, l vai. Agora, s um escritor, uma celebridade... Um dia, talvez dem o teu nome a esta rua, porque passaste por c; mas eu moro aqui mesmo e tens de me visitar!
Irmov no se atreveu a insistir mais na sua recusa. A delicadeza levou a melhor. No fim de contas, tenho curiosidade de ver de perto este homem e o que ainda possa ter de humano, disse de si para si.
Pouco depois entraram numa taberna. Havia camponeses sentados em grupos  volta das mesas nuas, muito sujas. Um cheiro insuportvel a aguardente feriu o nariz delicado do desprevenido habitante de Sfia, que fez involuntariamente uma careta.
- Aqui est o nosso perfume nacional! - exclamou, rindo, Linovski. - No  to agradvel como o que evocam as tuas novelas...
 direita ficava uma porta que dava para uma loja atulhada de mercadorias em desordem. Outra porta deitava para o ptio. Junto da escada chafurdavam diversas porcas prenhes. Um pouco mais longe, dois homens derrubavam um boi, enquanto outro brandia uma faca que pouco depois desapareceu no pescoo do animal. Convulses horrveis sacudiram a massa viva. Os cascos batiam no cho e as cordas seguras pelos torcionrios pareciam prestes a partir-se, de to tensas. O boi morria lentamente, com os olhos esbugalhados, consciente da violncia de que era vtima, sem fazer a mais pequena ideia da sorte dos seus congneres ocidentais, que morrem sem terem tempo de o pressentir. Sem querer, Irmov desviou a vista. Linovski esteve um bocado a olhar calmamente o boi e depois dirigiu-se a Irmov.
- Isto no se parece nada com os teus temas, mas  a vida. O tema  rude... carece de inspirao artstica... Os lucros so, porm, respeitveis, muito mais importantes do que os teus honorrios. Repara naquela porca que se espoja na lama: dir-se-ia que se julga no Hotel Rosa... Sabes que gastei mais dinheiro a cri-la do que recebeste de prmio no ltimo concurso pela tua obra? Peo desculpa deste paralelo, mas  assim. O ambiente no  potico, mas para mim s o resultado conta. O dinheiro  s um: tanto serve para pagar a quem escreve um romance sentimental como a quem limpa latrinas.  isto que a humanidade no quer compreender e  por isso que existem infelizes. Sei que s doutra opinio. Para vocs, o dinheiro tem o seu curriculum vitae e deve ser limpo, nobre. Mas o mundo est feito assim: os trabalhos sujos rendem mais porque nem todos se querem dedicar a eles.
Saram e dirigiram-se para casa de Linovski.
Irmov observava-o de soslaio e admirava-se da sua calma, da sua indiferena e da sua boa disposio.
No sentir nada? Ter esquecido tudo? Ser possvel que o contacto com as porcas tenha destrudo nele todo o impulso humano?
Chegaram por fim, subiram ao primeiro andar percorreram um corredor e entraram numa grande sala de jantar mobilada como as de Sfia: grande mesa quadrada cadeiras de espaldar alto e um grande guarda-loua encostado  parede. Os talheres estavam no seu lugar rodeando uma bateria de garrafas cheias de aguardente e de pratos repletos de aperitivos. Atravs de uma porta aberta divisava-se a sala de visitas. Debaixo do retrato de um prncipe, o inevitvel piano e paisagens nas outras paredes. Por toda a parte cadeiras estofadas e sem cobertura. Irmov estava impressionado. J vir interiores mais opulentos - no o seu, evidentemente -, mas aquele causava-lhe um mal-estar inexplicvel. Linovski adivinhou-lhe os pensamentos.
- Isto surpreende-te, hem? Ser este o mesmo Linovski a quem ningum emprestava um chavo por saber que se absteria de o pagar? Mas que vale isto comparado com o teu destino? Glria, imortalidade, monumentos... Nota, porm, uma coisa: apesar de tudo, ns contamos na vida, embora escondamos da mo direita o que faz a esquerda...
- Uma mo esquerda que vale mais do que muitas direitas... - interrompeu-o Irmov rindo. - Pela minha parte, nunca conseguiria ganhar tudo isto, nem que trabalhasse cem anos.
- Vocs transpem tudo para pensamento e imagens, ao passo que ns trocamos o crebro por bom metal sonante.
Neste momento ouviu-se no corredor uma algazarra comparvel  que faria um grupo de soldados a tomar a casa de assalto. A porta abriu-se com estrpito e deu passagem aos filhos de Linovski, que entraram esbaforidos.
- Como vs, s sei criar porcos - disse o pai sorrindo.
Os garotos rodearam-nos e examinaram com curiosidade o convidado.
- Cumprimentem este senhor.
Uma a uma, as crianas estenderam a mozinha a Irmov.
- Bonitos e fortes rapazes - observou Irmov.
- Vivem em completa liberdade e os castigos corporais esto proibidos. Tambm tenho os meus princpios. Se quisermos que as crianas nunca temam ningum, no as devemos assustar. Os estudos no os tentam por a alm, e de resto tambm no insisto muito com eles para que estudem, mas todos tiraro o seu curso dos liceus. Em seguida procederemos  escolha. Sobretudo nada de funcionrios! No precisam de reforma; j a assegurei a cada um deles. Eh, Ivan, chega aqui!
Um dos garotos aproximou-se.
- Ouve, gostavas de ser oficial?
- No, paizinho.
- E funcionrio?
- No.
- Professor?
- Tambm no, paizinho. Os professores trazem as calas rotas.
- Ento que gostarias de ser?
- Comerciante como tu.
- Porqu?
- Para toda a gente me vir pedir dinheiro e eu no o dar a ningum.
Linovski riu e Irmov franziu o sobrolho.
- Agora, meus filhos, retirem-se. Hoje jantaro nos vossos quartos. Petre lev-los- de carro  quinta. Querem ir?
- Sim, sim!
E os garotos saram.
- Disciplina e tratamento humano... sem qualquer espcie de pieguice nem violncia.
- A tua educao  um bocadinho original. Sufocas nos teus filhos toda a veleidade humana. H muito tempo que os preparas para o ofcio de usurrio?
- Continua, continua. Conheo essas teorias. Ter-me-iam deixado sem eira nem beira se no tivesse tomado o cuidado de me livrar delas. Em todo o caso, espero que reconheas que no quero o mal dos meus filhos.
- Pois sim, mas a tua teoria  falsa. A vida  um duche frio mesmo para os jovens mais romnticos, sem que seja necessrio faz-los passar por uma escola especial. Portanto, se ainda por cima lhes despertares desde pequenos os instintos primrios, fars deles feras, canibais.
- No tenho a mais pequena inteno de os fazer missionrios. A vida  um jardim zoolgico e, se queres saber a minha opinio, no compreendo a quem destinas os teus livros. Li alguns e vi um dos teus dramas no teatro. Para ser franco, no compreendo que pessoas sensatas possam acreditar no advento do mundo com que sonhas.
- Devemos ento regressar ao estado selvagem?
- Porqu regressar? J estamos nele! Escuta, Irmov no fomos feitos para nos entendermos, tu e eu. No somos da mesma massa. Tu no pertences a este mundo, ao passo que eu sou blgaro da cabea aos ps, com uma grande barriga no meio.  por ela que adivinho, sinto, vejo e sei que um dia os meus filhos me abenoaro. Dir-me-s que sou rico, que o seu futuro est assegurado... e nesse caso que adianta dar-lhe esta educao? Perdo, meu caro! No h nada absolutamente seguro na Terra. Claro que tu no tens nada a recear, pois ningum te pode penhorar o crebro, mas o mesmo no acontece com outras coisas. At os edifcios mais slidos esto sujeitos a desaparecer como fumo! Para isso basta s vezes aparecer um oficial de diligncias com uma citao judicial. Tu no os temes, mas pergunta em toda a regio o que mais receiam: se a clera ou o oficial de diligncias. Se amanh fechar os olhos, tudo se desmoronar. Conselho de famlia, tutela, advogados, tribunais... Sei alguma coisa a esse respeito. Aqui tens por que motivo lhes ensino a mostrarem as presas desde pequenos. No me esqueo que vivemos na Bulgria. Mas j basta... Vamos jantar e, en attendant [3], bebamos um copo! Conhaque ou slivova?
- Tanto me faz.
Linovski encheu os copos.
-  tua! Serve-te de aperitivos, no faas cerimnia. Estou muito contente por tornar a ver-te. Bem sei, bem sei, no vale a pena desculpares-te, este encontro no te foi agradvel... Mas no te quero mal por isso. O mundo  assim e cada um  como . Eu surpreendo-te e tu surpreendes-me. Seria prefervel que ningum surpreendesse ningum. Nunca encontrei aqui nada que me surpreendesse desde que cheguei. Para onde ests a olhar? Para o piano? O instrumento faz supor a existncia de um pianista? De modo nenhum. Talvez tenhas vontade de me perguntar se o comprei para a minha mulher ou para os meus filhos... Nem por sombras: s para ter o prazer de o possuir! Para que toda a gente saiba que o possuo e que sou o nico que tenho um piano neste buraco.
Neste instante apareceu uma mulher elegante, muito bonita, alta, e Linovski apresentou-a a Irmov. Que beldade!, pensou este, olhando involuntariamente para o seu anfitrio.
Linovski sabia que a mulher causaria impresso e sorria satisfeito consigo mesmo. O seu olhar parecia dizer: Como vs, tambm nisto soube escolher bem.
O jantar foi servido, abundante e magnificamente regado. Quando acabaram, Linovski estava com um gro na asa e praguejava sem ter em conta a presena da mulher. Ouviu-se uma voz infantil na sala contgua e a dona da casa retirou-se. Linovski enchia os copos, brindava  sade de Irmov que mal tocava no seu e, esquecido das convenincias bebia sozinho sem nunca se calar. No tardou a embebedar-se. Estava corado e nos olhos em brasa brilhava-lhe uma sinceridade canalha.
- Eu sei, compreendo tudo... No sou escritor nem filsofo, mas leio nos teus olhos o que pensas de mim. Falaram-te, contaram-te tudo a meu respeito...
- Ningum me disse nada.
- Vai impingir essa a outro! Conheo a humanidade mas no tenho o hbito de lhe devassar a alma. Para que serve a alma das pessoas? Vale menos do que uma pele de cabra. Basta de falsidade... Tu ao menos conheces a histria do meu diploma e no tens prazer nenhum em estar aqui comigo, um falsrio. Tens vergonha de mim, mas eu no tenho vergonha de ningum, ouviste? De ningum! Na Bulgria no vale a pena ter vergonha; toda a gente rouba, cada um a seu modo. S vocs fogem  regra; alimentam-se de ar e de glria e no precisam de dinheiro. Meu caro amigo, vocs so escritores e psiclogos... Conhecem o homem, mas no conhecem a Bulgria. Escrevem livros, tm experincia da vida, mas no sabem viver. Toda a Bulgria te conhece e apontam-te a dedo em Sfia. Repartes a tua sabedoria com o mundo inteiro, mas no possuis casa prpria. Sei que voas muito alto, que para ti no passo de um insectozinho nojento - um piolho -, que te repugna estares aqui a ouvir-me e que, se ainda c ests,  porque ningum te v. Se me encontrasses em Sfia, evitar-me-ias metendo por outra rua, mas alguma vez te debruaste sobre a minha vida? Toda a Bulgria me caiu em cima quando descobriram que o meu diploma era falso. Voaram telegramas para todos os centros universitrios da Europa, o Ministrio Pblico perdeu a tramontana e pouco faltou para me comerem vivo. Fui incriminado, mas o processo desapareceu e, claro, toda a gente suspeitou de mim. Para qu negar? Roubei-o. E se o no tivesse conseguido roubar, no hesitaria em deitar fogo ao Palcio da Justia, em incendiar Sfia. Meu amigo,  fcil pregar acerca dos homens, das ideias puras, da fidelidade aos princpios, quando se nasceu de pais decentes, num quarto bem aquecido e desde a escola primria se usaram luvas quentes e galochas; quando, aluno do liceu, se teve relgio e pasta e se foi acompanhado por um pai que nos matriculou numa universidade ocidental e instalou numa penso familiar, a fim de preservar de possveis danos o nosso estmago sensvel. Eu tive a rua desde que nasci, nu em plo, andei na vadiagem at aos dez anos e fui aprendiz de estalajadeiro, taberneiro e barbeiro. Por fim, um pobre imbecil recolheu-me, alimentou-me e mandou-me para o liceu. Que vida passei em casa dele! Antes nunca soubera o que fosse comer todos os dias. Os estudos no me corriam muito bem, mas mesmo assim consegui passar cinco anos seguidos. Depois ps-me na rua: o canalha acusou-me de ter roubado o colar de moedas de ouro da mulher. Como vs, no escondo nada... Agora esfolo toda esta regio e sou capaz de arrancar um filho ao seio da me desde que tenha, evidentemente, um ttulo executrio. Enveneno todo um distrito com o meu vinho falsificado e alimento os meus criados com carne estragada. Sou um gatuno, um canalha, um porco mais nojento do que a porca que viste na minha taberna, mas no roubei o colar. No foi porque no tivesse necessidade de dinheiro ou no soubesse onde encontr-lo... No. No o roubei porque ento era um imbecil como tu... ainda tinha princpios: roubar era um crime, aguentar a fome uma proeza. Sa, pois, de casa do meu benfeitor e tornei-me funcionrio, amanuense. Nessa poca viam-nos com os mesmos olhos com que vocs, escritores, nos vem agora. Mas pagavam-nos. Passados dois anos tinha escarpins nos ps, uma bengala na mo e at algumas economias. Decidi formar-me em Direito. Ento admitia-se todo o bicho careto nas faculdades. Matriculei-me e estudei durante ano e meio. Faltava-me outro tanto para acabar o curso. Simplesmente, estava teso. Vocs, os que estiveram no Ocidente, cinco, dez anos, recebendo todos os meses o seu chequezinho, alguma vez souberam, porventura, o que fosse estar sem dinheiro, escrever a toda a gente e no receber um chavo? Ento vocs desprezavam-me porque nem sequer tinha com que comprar tabaco; agora no me toleram porque os posso comprar. Criticam-me e invejam-me ao mesmo tempo. Tu tambm. Julgam que ganhei todo este dinheiro de uma forma vil... Seja! Mas sabes o que  a vileza? No, no sabes.  tambm um talento, como o teu. Nasce-se escritor como se nasce vigarista. Compreendes?
Fez uma pausa para deitar mais vinho, despejou o copo e, depois de limpar os lbios, prosseguiu:
- Lembro-me to bem do que se passou como se tivesse sido ontem. Havia trs dias que no comia nada. Foi ento que me ocorreu a ideia - apesar dos meus estudos de Direito - de que a justia no era deste mundo. Por toda a parte por onde andara, atravs da Europa, em busca de trabalho, s conseguira arranjar o indispensvel para viver. Por isso um dia, sem o mais pequeno remorso, forjei um diploma. Em boa verdade, merecia-o mais do que muitos outros. Agora defendo todas as minhas causas pessoalmente, sem precisar de advogados, e no olho a meios para conseguir os meus fins. Arruinei os maiores trafulhas destes stios e quando passo na rua no h ningum que no trema ao ver-me! Introduzi-me em todo os crebros, na alma e na algibeira de cada um, o que no me impede de dormir to tranquilo como um recm-nascido. Nem insnias nem falta de apetite. Porque ests a olhar para mim dessa maneira, Irmov? Ests espantado, custa-te a acreditar? Julgas que brinco, que exagero, que estou bbedo?  verdade que o vinho me soltou a lngua, mas tambm penso assim quando estou sbrio. s um homem singular! Quem s tu para me olhares com essa arrogncia, como se estivesses no cimo da Torre Eiffel? Vocs no foram feitos para subir to alto. Tm vertigens com demasiada facilidade, sofrem de atraco do abismo. No se julguem eleitos, nascidos para estabelecer a ordem c em baixo. No, Irmov! E no s o nico a quem isso est vedado. Nem Ibsen nem Tolstoi endireitaro alguma vez o mundo. Mas eu e outros da minha tmpera instauraremos a ordem na Bulgria, porque sou uma fora, o poder... E esmagarei todo aquele que tentar atravessar-se no meu caminho. Hoje s valho alguma coisa entre a escumalha; amanh ver-me-s no Parlamento. Forjarei leis e obedecer-me-s, no serei eu que te obedecerei. Continua, pois, a rabiscar os teus livros, se no tens nada melhor para fazer!
Os olhos coruscavam-lhe e o rosto toldava-se-lhe. Um claro sinistro iluminava-lhe o olhar, como se revivesse os seus tormentos e ameaasse algum que considerasse responsvel pelo que passara.
Irmov estava farto de tudo: de Linovski, da casa dele e do jantar dele. A nusea dominava-o. E subitamente desejou apenas uma coisa: sair dali.
- So horas de ir andando, Linovski - disse com um sorriso forado, levantando-se.
- O qu, j te queres ir embora? Aborreci-te, ests farto de me aturar, vexei-te... Tens vergonha de mim, hem? Lamentas ter vindo. No entanto, no me queiras mal por isto... De qualquer modo, no serei eu que te farei mudar de ideias. Quando me vires em Sfia, no me evites; ainda poders precisar de mim um dia... Sinceramente, se tivesse feito um esforo para ser como tu, ficaria certamente amanuense toda a vida e a pensar que a Bulgria era um bom pas para todos, excepto para mim.
- Adeus - despediu-se Irmov.
- Adeus... E quando chegares a Sfia escreve imediatamente um artigo acerca dos jardins zoolgicos da provncia, desanca-me em prol das geraes futuras e manda-me o jornaleco, que prometo no me zangar. Conheo-me bem e se viesse segunda vez ao mundo viveria da mesma maneira. Com todo o respeito que me mereces, Irmov, se algum dia vejo os meus filhos escreverem versos corto-lhes as mos! Adeus.
No dia seguinte, Irmov deixou a cidade.
Sentado no fiacre, esforava-se por pensar no seu novo romance, evocando a memria dos bons blgaros doutros tempos, mas, apesar da sua vontade, a imagem de Linovski no lhe saa da cabea, nem o som da sua voz.
Chegou  estao e meteu-se no comboio.
Mas mesmo sentado nas almofadas confortveis do seu compartimento nada se modificou; no conseguia pensar na capital, onde a mulher o esperava, nem nos seus camaradas, nem na sua profisso...
O comboio entrou na estao de Sfia. A mulher de Irmov esperava-o na gare.
Reparou pela primeira vez que era menos bonita e menos cara ao seu corao do que imaginava. E, como sempre, a sua saia e casaco estava um bocadinho coada.
Tomaram um fiacre. Irmov entrou no seu gabinete de trabalho - um quartito esconso, mobilado com uma mesa de madeira branca encostada  parede e coberta de livros e brochuras em desordem - e, sem saber porqu, sentou-se e mergulhou nos seus pensamentos.
- Irmov - chamou-o a voz da mulher -, vem jantar!
- Vou j - respondeu irritado.
E reviu o grande ptio onde Linovski pontificava sorrindo encantado ao lado da sua jovem mulher - bonita, elegante e tambm sorridente -, enquanto, erguida nas patas traseiras, uma porca exibia junto deles os dentes querendo, talvez, como ambos, escarnecer dele.

Notas:
1- Em francs no texto. 
2 - Ivan Vazov foi romancista, poeta, dramaturgo e contista Blgaro. Nasceu em Sopot no ano de 1850 e faleceu em Sfia em 1921.  considerado o pai da moderna literatura Blgara e o maior escritor nacional. Principal obra: Sob o Jugo de 1894. 
3 - Em francs no texto. 
FIM


