

Lus de Cames

Auto chamado de FILODEMO



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feito por Lus de Cames, em que entram as figuras seguintes: Filodemo, Vilardo, seu moo, Dionisa, Solina, sua moa, Venadoro, monteiro, um pastor Doriano. amigo de Filodemo, um Bobo, filho do pastor, Florimena, pastora, Dom Lusidardo, pai de Venadoro, trs Pastores bailando, Doloroso, amigo de Vilardo


Argumento do Auto

Um fidalgo portugus, que a caso andava nos Reinos de Dinamarca, como por largos amores e maiores servios tivesse alcanado o amor de a filha del Rei, foi lhe necessrio fugir com ela em a gal, por quanto havia dias que a tinha prenhe; e de feito, sendo chegados  costa de Espanha, onde ele era Senhor de grande patrimnio, armou-se-lhe grande tromenta, que, sem nenhum remdio dando a gal  costa, se perderam todos miseravelmente, seno a Princesa, que em a tbua foi  praia; a qual, como chegasse o tempo de seu parto, junto de a fonte pariu duas crianas, macho e fmea; e no tardou muito que um pastor castelhano, que naquelas partes morava, ouvindo os tenros gritos dos meninos, Ihe acudiu a tempo que a me j tinha espirado. Crecidas, enfim, as crianas debaixo da humanidade e criao daquele Pastor, o macho, que Filodemo se chamou  vontade de quem os bautizara, levado da natural inclinao, deixando o campo, se foi pera a Cidade, aonde por msico e discreto valeu muito em casa de Dom Lusidardo, irmo de seu Pai, a quem muitos anos serviu sem saber o parentesco que entre ambos havia. E como de seu Pai no tivesse herdado mais que os altos espritos, namorou se de Dionisa, filha de seu Senhor e Tio, que, incitada ao que por suas obras e boas partes merecia, ou porque elas nada enjeitam, Ihe no queria mal. Aconteceu mais que Venadoro, filho de Dom Lusidardo, mancebo fragueiro e muito dado ao exerccio da caa, andando um dia no campo aps um cervo, se perdeu dos seus; e indo dar em a fonte, onde estava Florimena, irm de Filodemo, que assim Ihe puseram o nome, enchendo a talha de gua, se perdeu de amores por ela, que se no soube dar a conselho, nem partir se donde ela estava, at que seu Pai o no foi buscar. O qual, informado pelo pastor que a criara (que era homem sbio na arte mgica) de como a achara e como a criara, no teve por mal de casar a Filodemo com Dionisa, sua filha, e prima de Filodemo, e a Venadoro, seu filho, com Florimena, sua sobrinha, irm de Filodemo, pastor, e tambm pela muita renda que tinha que de seu Pai ficara, de que eles eram verdadeiros herdeiros. E das mais particularidades da Comdia, far meno o Auto, que , o seguinte:


Entra logo Filodemo e um seu moo Vilardo
Filodemo:

Vilardo, Moo:

Ei lo vai.

Filodemo:

Falai eram, falai, 
e sai c pera a sala. 
O vilo como se cala!

Moo:


Pois, Senhor, saio a meu pai, 
que quando dorme no fala. 

Filodemo:

Trazei c a cadeira. 
Ouvis, vilo?

Moo:

Senhor, sim.

Se m'ela no traz a mim, 
vejo lh'eu
ruim maneira.

Filodemo:

Acabai, vilo ruim.
Que moo pera servir 
quem tem as tristezas minhas!
Quem pudesse assi dormir!

Moo:

Senhor, nestas menhzinhas 
no h i seno cair: 
por demais  trabalhar,
qu'este sono se me ausente.

Filodemo:

Porqu ?

Moo:

Porque h de assentar
que se no for com po quente, 
no h de desaferrar.

Filodemo:

Ora i pelo que vos mando, 
vilo feito de formento. 
Triste do que vive amando
sem ter outro mantimento, 
com qu'est fantesiando! 
S a cousa me desculpa 
deste cuidado que sigo: 
ser de tamanho perigo, 
que cuido que a mesma culpa
me fica sendo castigo.

Vem o moo, e assenta se na cadeira
Filodemo, e diz, avante

[Filodemo:]

Ora quero praticar 
s comigo um pouco aqui, 
que despois que me perdi,
desejo de me tomar 
estreita conta de mi. 
Vai pera fora, Vilardo. 
Torna c: vai me saber 
se se quer j l erguer 
o senhor Dom Lusidardo, 
e vem mo logo dizer.

(Vai se o Moo:)

Ora bem, minha ousadia! 
Sem asas, pouco segura,
quem vos deu tanta valia,
que subais a fantesia 
onde no sobe ventura? 
Por ventura eu no naci
no mato, sem mais valer
qu'o gado ao pasto trazer?
Pois donde me veio a mi
saber me to bem perder?

Eu , nacido antre pastares
fui trazido dos currais,
e d' antre meus naturais
pera casa dos Senhores, 
donde vima valer mais . 
Agora logo to cedo 
quis mostrar a condio 
de rstico e de vilo! 
Dando me ventura o dedo, 
lhe quero tomar a mo! 

Mas oh! qu'isto no  assi,
nem so vilos meus cuidados, 
como eu deles entendi; 
mas antes, de sublimados 
os no posso crer de mi. 
Porque como hei eu de crer
que me faa minha estrela 
to alta pena sofrer, 
que somente pola ter 
mereo a glria dela,
seno se amor, d'atentado, 
porque me no queixe dele,
tem por ventura ordenado
que merea o meu cuidado, 
s por ter cuidado nele ?

Vem o moo e diz:

O senhor Dom Lusidardo
dorme com todo contento,
e ele com o pensamento
quer estar fazendo alardo
de castelinhos de vento

Pois to cedo se vestiu, 
com seu dano se conforme,
pesar de quem me pariu,
ainda o sol no saiu, 
se vem  mo, tambm dorme.
Ele quer se levantar 
assi pela menhzinha? 
Pois quero o desenganar: 
que por muito madrugar 
no amanhece mais asinha.

Filodemo:

Traze me a viola c.

Moo:

Voto a tal que me vou rindo.
Senhor, tambm dormir.

Filodemo:

Traze, moo.

Moo:

Sim, vir, 
se no estiver dormindo.

Filodemo:

Ora i polo que vos mando: 
no gracejeis.

Eis me vou: 
pois, posar de So Fernando, 
por ventura sou eu grou? 
Sempre hei d' estar vigiando?

Vai se o moo e diz

Filodemo:

Ah Senhora, que podeis 
ser remdio do que peno;
quo mal ora cuidareis 
que viveis e que cabeis
num corao to pequeno! 
Se vos fosse apresentado 
este tromento em que vivo 
crereis que foi ousado 
em este vosso criado 
tornar se vosso catigo. 

Vem o moo e traz a viola

Moo:

Ora eu creio, se  verdade 
que estou de todo acordado,
que meu amo  namorado; 
e a mim d me na vontade 
que anda um pouco abalado. 
E se tal , eu daria 
por conhecer a donzela 
a rao d'hoje este dia, 
porque a desenganaria,
somente por ter d dela.

Havia lhe de perguntar: 
Senhora, de que comeis? 
se comeis d'ouvir cantar, 
de falar bem, de trovar, 
em boa hora casareis. 
Porm se vs comeis po, 
tende, Senhora, resguardo, 
que eis aqui est Vilardo,
que  um camaleo; 
por isso vs fazei fardo.

E se vs sois das gamenhas 
e houverdes d'atentar 
por mais que por manducar,
Mi cama son duras penas, 
mi dormir siempre velar. 
A viola, Senhor, vem 
sem primas, nem derradeiras.
Mas sabe o que lhe convm? 
Se quer, Senhor, tanger bem,
h de haver mister terceiras. 

E se estas cantigas vossas 
no forem pera escutar, 
e no quiserdes espirar, 
h mister cordas mais grossas,
porque no possam quebrar.

Filodemo:

Vai pera fora.

Moo:

J venho.

Filodemo:

Qu'eu s desta fantesia 
me sostenho e me mantenho.

Moo:

Camanha vista que tenho, 
que vejo  estrela no dia!

Vai se Vilardo e canta Filodemo:

Ad sube el pensamiento, 
sera una gloria inmensa 
si all fuese quien lo piensa.

Fala:

Qual esprito divino 
me far a mim sabedor, 
pois que to alto imagino, 
deste meu mal, se  amor, 
se por dita desatino? 
Se  amor, diga me qual 
pode ser seu fundamento, 
ou qual  seu natural 
ou porque empregou to mal
um to alto pensamento.

Se  doudice, como em tudo 
a vida me abrasa e queima, 
ou quem viu num peito rudo
desatino to sesudo,
que toma to doce teima! 
Ah senhora Dionisa, 
onde a natureza humana 
se mostrou to soberana, 
que o que vs valeis me avisa, 
e o qu'eu peno m'engana. 

Vem Solina, moa, e diz

Solina:

Tomado estais vs agora, 
Senhor, com o furto nas mos.

Filodemo:

Solina, minha Senhora, 
quantos pensamentos vos 
me ouviries lanar fora!

Solina:

Oh senhor, e quo bem que soa 
o tanger de quando em quando! 
Bem sei eu a pessoa, 
que h bem a hora boa, 
que vos est escutando.

Filodemo:

Por vida vossa, zombais? 
Quem ? quereis mo dizer?

Solina:

No no haveis vs de saber, 
bof, se me no peitais.

Filodemo:

Dar vos hei quanto tiver, 
pera tais tempos como estes.
Quem tivera a voz dos Cus,
pois escutar me quisestes.

Solina:

Assi parea eu a Deus,
como lhe vs parecestes.

Filodemo:

A senhora Dionisa 
quer se j alevantar?

Solina:

Assi me veja eu casar, 
como despida em camisa
se ergueu por vos escutar.

Filodemo:

Em camisa levantada! 
To ditosa  minha estrela, 
ou mo dizeis refalsada?

Solina:


Pois bem me defendeu ela 
que vos no dissesse nada. 

Filodemo:

Se pena de tantos anos 
merecer algum favor, 
pera curar de meus danos
fartai me desses enganos, 
que no quero mais do amor.

Solina:

Agora quero eu falar 
neste caso com mais tento;
quero agora perguntar: 
e de siso is vs tomar 
um to alto pensamento?

Certo  muita maravilha, 
se vs isto no sentis
bem. Vs como no cas 
que Dionisa que  filha 
do Senhor a quem servis?
Como? Vs no atentais 
dos grandes de que  pedida?
Peo vos que me digais 
qual  o fim que esperais 
neste caso, em vossa vida.

Que razo boa, ou que cor 
podeis dar a esta afeio? 
Dizei me vossa teno.

Filodemo:

Onde vistes vs amor 
que se guie por razo? 
e quereis saber de mim 
que fim, ou de que teor 
pretendo em minha dor, 
se eu neste amor quero fim, 
sem fim me atromente amor. 

Mas com glria fingida 
pretendeis de m'enganar,
por assi mal me tratar:
assi que me dais a vida
somente por me matar.

Solina:

Eu vos digo a verdade.

Filodemo:

Da verdade fujo eu, 
porque s amor me deu 
pena de tal calidade, 
que assaz me custa do meu.

Solina:

Folgo muito de saber 
que sais amante to fino.
Filodemo:

Pois mais vos quero dizer, 
que s vezes no que imagino 
no ouso de m'estender. 
Na hora que imaginei 
na causa de meu tormento, 
tamanha glria levei, 
que por onas desejei 
de lograr o pensamento.

Solina:

Se me vs a mim jurardes 
de me terdes em segredo 
a causa... mas hei medo 
de logo tudo cantardes.

Filodemo:

A quem?

Solina:

quele enxovedo.

Filodemo:

Qual ?

Solina:

Aquele mau pesar, 
que ontem convosco ia. 
Quem se fosse em vs fiar! 
O que vos disse o outro dia, 
tudo lhe fostes contar.

Filodemo:

Que lhe contei?

Solina:

J lhe esquece?

Filodemo:

Por certo qu'estou remoto.

Solina:

Hi, que sois um cesto roto.

Filodemo:

Esse homem tudo merece.

Solina:

Vs sois muito seu devoto.

Filodemo:

Senhora, no hajais medo; 
contai m'isso, e far m'hei mudo.

Solina:

Senhor, o homem sesudo, 
se em tais cousas tem segredo,
saiba que alcanar tudo,

A senhora Dionisa 
crede que mal vos no quer.
No vos posso mais dizer. 
Isto tende por baliza 
com que vos saibais reger, 
que em mulheres, se atentais,
o querer est visvel: 
e se bem vos governais, 
no desespereis do mais,
porque, enfim, tudo  possvel. 

Filodemo:


Senhora, pode isso ser? 

Solina:


Si, que tudo o mundo tem, 
olhai no no saiba algum. 

Filodemo:


E que maneira hei de ter 
pera em mim ter tanto bem? 

Solina:

Vs, Senhor, o sabereis; 
e j que vos descobri 
tamanho segredo aqui, 
a merc me fareis 
em que me vai muito a mi.

Filodemo:

Senhora, a tudo me obrigo 
quanto for em minha mo.

Solina:

Pois dizei a vosso amigo 
que no gaste tempo em vo,
nem queira amores comigo,
porque eu tenho parentes,
que me podem bem casar; 
e mais que no quero andar
agora em boca de gentes 
a quem s'ele vai gabar.

Filodemo:

Senhora, mal conheceis 
o que vos quer Duriano; 
sabei, se o no sabeis, 
que em sua alma sente o dano
do pouco que lhe quereis; 
e que outra cousa no quer, 
que ter vos sempre servida.

Solina:

Pola sua negra vida, 
isso havia eu bem mister.

Filodemo:

Vs sois desagradecida? 

Solina:

Si, que tudo so enganos 
em tudo quanto falais.

Filodemo:

No quero que me creais: 
crede o tempo, que h dous anos
que vos serve, e inda mais.

Solina:

Senhor, bem sei que m'engano; 
mas a vs, como a irmo, 
descubro este corao: 
sabei que a Duriano 
tenho sobeja afeio.

Olhai que lhe no digais
isto que vos aqui digo.

Filodemo:

Senhora, mal me tratais:
inda que sou seu amigo, 
sabei que vosso sou mais.

Solina:

E j que vos confessei 
aquestas fraquezas minhas, 
que h tanto que de mim sei, 
fazei vs nas causas minhas
o qu'eu nas vossas farei.

Filodemo:

Vs enxergareis, Senhora,
o qu'eu por vs sei fazer.

Solina:

Como me deixo esquecer!
Aqui estivera agora 
falando t anoutecer. 
Vou me, e olhai quanto val
o que passou antre ns. 

Filodemo:

E porque vos ides vs?

Solina:

Porque parece j mal
estar aqui ambos ss.

E mais vou vestir agora
a quem vos d to m vida.
Ficai vos, Senhor, embora.

Filodemo:

E porque vos ides vs?

Solina:

Porque parece j mal 
estar aqui ambos ss.

E mais vou vestir agora
a quem vos d to m vida. 
Ficai vos, Senhor, embora.

Filodemo:

Nessa ide vs, Senhora, 
que j vos tenho entendida.

Vai se Solina e diz Filodemo

Filodemo:

Ora se pode isto ser 
do qu' esta moa me avisa, 
que a senhora Dionisa, 
por me ouvir, se fosse erguer
da sua cama em camisa!

E diz que mal me no quer, 
No queria maior glria; 
mas o que mais posso crer, 
que nem pera lhe esquecer 
lhe passo pela memria. 
Mas ter Solina tambm 
em Duriano o intento 
 levar me a lenha o vento,
porque s'ela lhe quer bem, 
pera bem vai meu tormento.

Mas foi se este homem perder 
neste tempo, de maneira, 
por a mulher solteira, 
que no me atrevo a fazer 
que um pequeno bem lhe queira.

Porm far lh'ei um partido,
porqu'ela no se querele,
que se mostre seu perdido,
inda que seja fingido, 
como lh' outrem faz a ele.

E j que me satisfaz,
e tanto nisto se alcana,
d lhe fingida esperana:
do mal que lhe outrem faz,
tomar nela vingana.

Vai se Filodemo e vem Vilardo

Moo:

Ora boa est a cilada 
de meu amo com sua ama,
que se levantou da cama 
por ouvi lo! Est tomada, 
assi a tome m trama.

E mais crede que quem canta 
ainda descantar. 
E quem do leito onde est, 
por ouvi lo se levanta, 
mor desatino far. 
Quem havia de cuidar 
que dama formosa e bela 
saltasse o demnio nela, 
pera a fazer namorar 
de quem no  igual dela?

Que me dizeis a Solina? 
como se faz Celestina, 
que por no lhe haver enveja 
tambm pera si deseja 
o que o desejo lh' ensina! 
Crede que se me alvoroo, 
que a hei de tomar por dama; 
e no ser gro destroo, 
pois o amo quer a ama, 
que  moa queira o moo. 

Vou me, que vejo l vir 
Venadoro, apercebido 
pera a caa se partir; 
e voto a tal, que  partido 
pera ver e pera ouvir. 
Que  razo justa e rasa 
que seu folgar se desconte 
em quem arde como brasa; 
que se vai caar ao monte, 
fique outrem caando em casa.

Vai se Vilardo e entra Venadoro

Venadoro:

Aprovada antigamente 
foi, e muito de louvar, 
a ocupao do caar,
e da mais antiga gente
havida por singular. 
 o mais contrrio ofcio
que tem a ociosidade, 
me de todo o bruto vcio.
Por este limpo exerccio 
se reserva a castidade.

Este dos grandes Senhores 
foi sempre muito estimado; 
e  grande parte do estado
ter monteiros, caadores,
como ofcio que  prezado.
Pois logo por que razo 
a meu pai h de pesar 
de me ver ir a caar? 
E to boa ocupao 
que mal me pode causar?

Vem o Monteiro e diz

Monteiro:

Senhor, venho alvoroado, 
e mais com muita razo.

Venadoro:

Como assi?

Monteiro:

Que me  chegado 
mais estremado co, 
que nunca caou veado. 
Vejamos que me h de dar.

Venadoro:


Dar vos hei quanto tiver;
mas h-se d'exprimentar,
pera se poder julgar
as manhas que pode ter.

Monteiro:

Pode assentar qu'este co, 
que tem das manhas a chave:
bem feito em admirao, 
pois em ligeiro  a ave, 
em cometer, um leo. 
Com porcos, maravilhoso, 
com veados, estrumado.
Sobeja lhe o ser manhoso.

Venadoro:

Pois eu ando desejoso
l'irmos matar um veado.

Monteiro:

Pois, Senhor, como no vai?

Venadoro:

Vamos, e vs mui ligeiro
o necessrio ordenai: 
qu' eu quero chegar primeiro
pedir licena a meu pai.

Vo se e vem Duriano e diz

Duriano:

Pois no creio eu em Sam Pisco do pau, se hei de pr p em ramo verde, t lhe dar trezentos aoutes. Despois te ter gastado perto de trezentos cruzados com ela, porque logo lhe no mandei o cetim pera as mangas, fez de mim mangas ao demo. No desejo eu de saber seno qual  o galante que me sucedeu; que se vo lo eu colho a balravento, eu lhe farei botar ao mar quantas esperanas lhe a fortuna tem cortado  minha custa. Ora tenho assentado, que amor destas anda co dinheiro, como a mar co a lua: bolsa cheia, amor em guas vivas; mas se vaza, vereis espraiar este engano, e deixar em seco quantos gostos andavam como o peixe n'gua.

Entra Filodemo e diz

Filodemo:

Ol, c sois vs ? Pois agora ia eu bater essas montas, para ver se me saeis de alga, porque quem vos quiser achar,  necessrio que vos tire como a alma.

Duriano:

Oh maravilhosa pessoa! Vs  certo que vos prezais de mais certo em casa, que pinheiro em porta de taverna; e trazeis, se vem  mo, os pensamentos cos focinhos quebrados de carem onde vs sabeis. Pois sabeis, senhor Filodemo, quais so os que me matam: uns muito bem almofadados que, com dois ceitis, fendem a anca pelo meio, e se prezam de brandos na conversao, e de falarem pouco e sempre consigo, dizendo que no daro meia hora de triste pelo tesouro de Veneza; e gabam mais Garcilaso que Bosco; e ambos lhe saem das mos virgens; e tudo isto por vos meterem em conscincia que se no achou pera mais o Gro Capito Gonalo Fernandes. Ora, pois, desengano vos que a mor raparia do mundo foram altos espritos e eu no trocarei duas pescoadas da minha, etc., despois de ter feito a trosquia a um frasco, e falar me por tu e fingir se me bbada, porque o no parea, por quantos Sonetos esto escritos polos troncos das rvores do Vale Luso, nem por quantas madamas Lauras vs idolatrais.

Filodemo:

T, t! no vades avante, que vos perdeis.

Duriano:

Aposto que adivinho o que quereis fizer ?

Filodemo:

Qu ?

Duriano:

Que se me no acudeis com batel, que me ia meus passos contados a herege de amor.

Filodemo:

Oh que certeza tamanho, o muito pecador no se conhecer por esse!

Duriano:

Mas oh que certeza maior, de muito enganado, esperar em sua opinio! Mas tornando a nosso porpsito, que  o pera que me buscais, que se  causa de vossa sade, tudo farei?

Filodemo:

Como templar el destemplado' Quem poder dar o que no tem, senhor Duriano ? Eu quero vos deixar comer tudo; no pode ser que a natureza no faa em vs o que a razo no pode; o caso  este, dir vo lo hei; porm  necessrio que primeiro vos limpeis como marmelo, e que ajunteis para um canto de casa todos esses maus pensamentos, porque, segundo andais mal avinhado, danareis tudo aquilo que agora lanarem em vs. J vos dei conta da pouca que tenha com toda a outra cousa que no  servir a senhora Dionisa; e posto que a desigualdade dos estados o no consinta eu no pertendo dela mais que o no pretender dela nada, porque o que lhe quero consigo mesmo se paga, que este meu amor  como a ave Fnix, que de si s nace, e no de outro nenhum interesse.

Duriano:

Bem praticada est isso, mas dias h que eu no creio em sonhos.

Filodemo:

Porqu ?

Duriano:

Eu vo lo direi: porque todos vs outros, os que amais pela passiva, dizei' que o amor fino como melo, no h de querer mais de sua dama que am la; e vir logo o vosso Petrarca, e vosso Petro Bembo, ateado a trezentos Plates, mais afado que as luvas d' um pajem d'arte, mostrando razes verismeis e aparentes, para no quererdes mais de vossa dama que v la; e ao mais at falar com ela. Pois inda acha reis outros esquadrinhadores d' amor mais especulativos, que defendero . justa por no emprenhar o desejo e eu, fao vos voto solene, se a qual quer destes lhe entregassem sua dama tosada e aparelhada entre dous pratos eu fico que no ficasse pedra sobre pedra, e eu j de mim vos sei confessar que os meus amores ho de se pela activa, e que ela h de ser a paciente e eu agente, porque esta  a verdade mas contudo, v v. m. co a histria por diante.

Filodemo:

Vou, porque vos confesso que neste aso h muita dvida entre os Doutores: assi que vos conto que, estando esta noite com a viola na mo, bem trinta ou quarenta lguas pelo serto dentro de um pensamento, senso quando me tomou  treio Solina; e antre muitas palavras que tivemos me descobriu que a senhora Dionisa se levantara da cama por me ouvir, e que estivera pela greta da porta espreitando quase hora e meia.

Duriano:


Cobras e tostes, sinal de terra; pois inda vos no fazia tanto avante.

Filodemo:

Finalmente, veio me a descobrir, que me no queria mal, que foi para mim D maior bem do mundo; que eu estava j concertado com minha pena a sofrer por sua causa, e no tenho agora sujeito pera tamanho bem.

Duriano:

Grande parte da sade  pera o doente trabalhar por ser so. Se vos leixardes manquecer na estrebaria com essas finezas de namorado, nunca chegareis onde chegou Rui de Sande. Por isso boas esperanas ao leme, que eu vos fao bom que s duas enxadadas acheis gua. E que mais passastes?

Filodemo:

A maior graa do mundo: veio me descobrir que era perdida por vs; e assi me quis dar a entender que faria por mim tudo o que lhe vs mereceis. 

Duriano:

Santa Maria! Quantos dias h que nos olhos lhe vejo marejar esse amor Porque o fechar de janelas que essa mulher me faz, e outros enojos que dizer poderia, no son sino corredores del amor, e a cilada em que ela quer que eu caia.

Filodemo:

Nem eu no quero que lho queirais mas que lhe faais crer que lho quereis

Duriano:

No... cant' a dessa maneira me ofereo a romper meia dzia de servios alinhavados s panderetas, que bastem assemtar me em soldo pelo mais fiel amante que nunca calou esporas; e se isto no bastar, salgan las palabras mas sangrientas del corazn, entoadas de feio, que digam que sou um Mancias, e pior ainda.

Filodemo:

Ora dais me a vida. Vamos ver se por ventura aparece, porque Venadoro, irmo da senhora Dionisia,  fora  casca, e sem ele fica a casa despejada; e o senhor Dom Lusidardo anda no pomar todo o dia; que todo o seu passatempo  enxertar e dispor, e outros exerccios d'agricultura, naturais a velhos; e pois o tempo nos vem  medida do desejo, vamo nos l; e se lhe puderdes falar, fazei de vs mil manjares, porque lhe faais crer que sais mais esperdiado d'amor que um Brs Quadrado.

Duriano:

Ora vamos, que agora estou de vez, e cuido d'hoje fazer mil maravilhas, com que vosso feito venha  luz.

Vo se e entra Dionisa e Salina, e diz,

Dionisa:

Solina, mana.

Solina:

Senhora.

Dionisa:

Trazei me c a almofada, que a casa est despejada, e esta varanda c fora est milhor assombrada. Trazei a vossa tambm pera estarmos c lavrando; enquanto meu pai no vem, estaremos praticando, sem nos estorvar ningum.
Este  o mesmo lugar onde estava o bem logrado, tal que de muito enlevado se esquecia do cantar por se enlevar no cuidado

Dionisa:

Vs, mana, sais mui ruim!
Logo lhe fostes contar
que me ergui polo escutar.

Solina:

Eu o disse?

Dionisa:

Eu no no ouvi? 
como mo quereis negar?

Solina:

E pois isso que releva? 
Que se perde nisso agora?

Dionisa:

Que se perde? Assi, Senhora, 
folgareis vs que se atreva 
a cont lo l por fora? 
Que se lhe meta em cabea
alguma prvoa teno?
Que faa, se vem  mo, 
Alga cousa que parea?

Solina:

Senhora, no tem razo.

Dionisa:

Eu sei mui bem atentar 
do que se h de ter receio, 
e do que  pera estimar.

Solina:

No  o demo to feio 
como algum o quer pintar; 
e no se espera isso dele, 
que no  ora to moo. 
E vossa merc assele que 
qualquer segredo nele 
 como a pedra em poo.

Dionisa:

E eu que segredo quero 
com um criado de meu pai?

Solina:

E vs, mana, fazeis fera: 
ao diante vos espero, 
se adiante o caso vai.

Dionisa:

O madrao, quem no vir
falar de siso co ela... 
Ento vs, gentil donzela, 
folgais muito de o ouvir?

Solina:

Si, porque me fala nela.
eu como ouo falar 
nela, como quem no sente,
folgo de o escutar, 
s pera lhe vir contar 
o que dela diz a gente. 
Que eu no quero nada dele.
E mais, porque est falando?
No m' esteve ela rogando
que fosse falar com ele?

Dionisa:

Dissevo lo assi zombando.
Vs logo tomais em grosso 
tudo quanto me escutais. 
Parvo! Que v lo no posso.

Solina:

inda isto h de vir a mais. 
Pois que tal dio lhe tem, 
falemos, Senhora, em al; 
mas eu digo que ningum 
merece por querer bem 
que a quem lho quer, queira mal.

Dionisa:

Deixai o vs doudejer. 
Se meu pai ou meu irmo, 
o vierem a aventar, 
no h ele de folgar.

Solina:

Deus meter nisso a mo.

Dionisa:

Ora i polas almofadas, 
que quero um pouco lavrar, 
por ter em que me ocupar, 
que em cousas to mal olhadas 
no se h o tempo de gastar. 

Vai Solina dizendo:

Que cousas somos mulheres! 
Como somos perigosas! 
E mais estas to viosas 
que esto a boca que queres? 
e adoecem de mimosas! 
Se eu no caminho agora 
a seu desejo e vontade, 
como faz esta Senhora,
fazem se logo nessa hora
na volta da honestidade

Quem a vira o outro dia 
um poucochinho agastada, 
dar no cho co almofada,
e enlevar a fantesia, 
toda noutra trasformada! 
Outro dia lhe ouviro 
lanar suspiros a molhos, 
e com a imaginao 
cair lhe agulha da mo, 
e as lgrimas dos olhos.

Ouvir lh' heis  derradeira 
a ventura maldizer, 
porque a foi fazer mulher. 
Ento diz que quer ser freira 
e no se sabe entender. 
Ento gaba o de discreto, 
de msico e bem disposto, 
de bom corpo e de bom rosto, 
quant'a ento eu vos prometo 
que no tem dele desgosto.

Despois, se vem atentar,
diz que  muito malfeito
amar homem deste jeito, 
e que no pode alcanar 
pr seu desejo em efeito.
Logo se faz to Senhora, 
logo lhe ameaa a vida, 
logo se mostra nessa hora 
muito segura de fora, 
de dentro est sentida.

Bof, segundo vou vendo, 
se esta postema vier, 
como eu suspeito, a crecer,
muito h que dela entendo
ao fim que pode vir ter.

Vai se Solina e entra Duriano
e Filodemo, e diz,

Duriano:

Ora deixai a ir,
que  vinda lhe falaremos;
entretanto, cuidarei
o como lei de fazer,
que no h mor trabalho
para a pessoa que fingir se.

Filodemo:

Dar lhe heis esta carta,
e fazei muito co ela
que a d  Senhora Dionisia,
que e vai nisso muito.

Duriano:

Por mulher de to bom engenho
a tendes?

Filodemo:

E porque me perguntais isso?

Duriano:

Porque ainda ontem
entrou pelo A, B, C,
e j quereis que leia
carta mandadeira;
f la heis cedo
escrever matria junta.

Filodemo:

No lhe digais que vos disse nada,
porque cuidar
que por isso lhe falais;
mas fingi que de puro amor
a andais buscando a tempos
que faam  vossa teno.

Duriano:

Deixai me vs a mi com o caso,
que eu sei milhor as pancadas
a estes vintes que vs;
e eu vo la farei hoje
a ns sem Rafas;
e vs entretanto
acolhei vos a sagrado,
porque ei la l vem.

Filodemo:

Olhai l, fazei que a no vedes,
fingi que falais convosco;
que faz nosso caso.

Duriano:

Dizeis bem.
Yo sigo tristeza,
remedio de tristes:
la terrible pena mia la
espero remediar. 
Pois no devia as de ser,
pelos santos Evangelhos;
mas muitos dias h
que eu sei que o amor
e os cangrejos andam s vessas.
Ora, enfim, las tristezas
no me espanten,
porque suelen aflojar
cuanto mas duelen. 

Entra Solina e vai se Filodemo e dia,
Solina co a almofada

Solina:

Aqui anda passeando
Duriano, e s consigo 
pensamentos praticando. 
Daqui posso estar notando 
com quem sonha, se  comigo.

Duriano:

Ah quo longe estar agora 
minha Senhora Solina 
de saber que estou bem fora 
de ter outra por senhora, 
segundo o amor determina!

Porm se determinasse 
minha bem aventurana 
que de meu mal lhe pesasse,
at que nela tomasse 
do que lhe quero vingana!...

Solina:

Comigo sonha por certo. 
Ora quero me mostrar, 
assi como por acerto.
Chegar me hei mais ao perto, 
por ver se me quer falar.

Sempre esta casa h d'estar 
acompanhada de gente, 
que no possa homem passar*

Duriano:

treio vindes tomar 
quem j feridas no sente?

Solina:

Logo me a mi parecia 
que era ele o que passeava.

Duriano:

E eu mal adivinhava 
que me viesse este dia, 
que h tantos que desejava.

Se uns olhos por vos servir, 
com o amor que vos conquista, 
se atreveram a subir 
os muros de vossa vista, 
que culpa tem quem vos vir? 
E se esta minha afeio, 
que vos serve de giolhos, 
no fez erro na teno, 
tomai vingana nos olhos, 
e deixai o corao.

Solina:

Ora agora me vem riso. 
Assi que vs sois, Senhor, 
de siso meu servidor?

Duriano:

De siso no, porque o siso
de tem tirado o amor. 
Porque o amor, se atentais, 
num to verdadeiro amante 
no deixa siso bastante, 
seno se siso chamais 
a doudice to galante.

Solina:

Como Deus est nos Cus, 
que se  verdade o que temo,
que fez isto Filodemo.

Duriano:

Mas f lo o demo, que Deus 
no faz mal tanto em estremo.

Solina:

Bem. Vs, senhor Duriano, 
porque zombareis de mim?

Duriano:

Eu zombo ? 

Solina:

Eu no me engano.

Duriano:

S'eu zombo, inda em meu dano 
vejais vs mui cedo a fim.
Mas vs, senhora Salina, 
porque me querereis mal?

Solina:


Sou mofina.

Duriano:

Oh! real! 
Assi que minha mofina 
 minha imiga mortal. 
Dias h qu' eu imagino 
que em vos amar e servir 
no h amador mais fino; 
mas sinto que de mofino 
me fino sem no sentir 

Solina:

Bem derivais: quant'a assi 
 popa o dito vos veio.

Duriano:

Vir me h de vs, porque creio 
que vs falais dentro em mim, 
como esprito em corpo alheio. 
E assi que em estas pis 
a cair, Senhora, vim, 
bem parecer antre ns, 
pois vs andais dentro em mim, 
que and'eu tambm dentro em vs.

Solina:


E bem! Que falar  esse? 

Duriano:
Dentro na vossa alma, digo, 
L andasse, e l morresse! 
E se isto mal vos parece, 
dai me a morte por castigo.

Solina:

Ah mau! Como sois malvado!

Duriano:

as vs como sois malvada, 
que de um pouco mais de nada
fazeis um homem armado,
como quem est sempre armada!
Dizei me, Solina mana

Solina:

Que  isso? Tirai l a mo. 
E vs sois mau corteso.

Duriano:

O que vos quero m' engana, 
mas que desejo, no. 
Aqui no h seno paredes, 
as quais no falam, nem vem. 

Solina:

Est isso muito bem
Bem: e vs, Senhor, no vedes
que poder vir algum?

Duriano:

Que vos custam dous abraos?

Solina:

No quero tantos despejos.

Duriano:

Pois que faro meus desejos, 
que querem ter vos nos braos, 
e dar vos trezentos beijos?

Solina:

Olhai que pouca vergonha!
I vos d'i, boca de praga.

Duriano:

Eu no sei certo a que ponha 
mostrardes me a triaga,
e virdes me a dar peonha.

Solina:

Ora ide rir  feira, 
e no sejais dessa laia.

Duriano:

Se vedes minha canseira, 
porque lhe no dais maneira?

Solina:

Que maneira?

Duriano:

A da saia.

Solina:

Por minha alma, [hei ]de vos 
dar meia dzia de porradas.

Duriano:

Oh que gostosas pancadas!
mui bem vos podeis vingar,
que em mim so bem empregadas.

Solina:

 diabo que o eu dou. 
Como me doeu a mo!

Duriano:

Mostrai c, minha afeio,
que essa dor me magoou
dentro no meu corao

Solina:

Ora i vos embora asinha.

Duriano:

Por amor de mi, Senhora, 
no fareis uma cousinha?

Solina:

Digo que vades embora. 
Que cousa?

Duriano:

Esta cartinha

Solina:

Que carta?

Duriano:

De Filodemo 
Dionisa, vossa ama

Solina:

Dizei que tome outra dama, 
d os amores ao demo.

Duriano:
No andemos pola rama, 
Senhora, aqui para ns, 
que sentis dela com ele?

Solina:

Grandes alforges sois vs!
Pois i lhe dizer que apele

Duriano:

Falai, que aqui estamos ss

Solina:

Qualquer honesta se abala,
como sabe que  querida
Ela  por ele perdida,
nunca noutra cousa fala.

Duriano:

Ora vou lhe dar a vida

Solina:

E eu no lhe disse j
quanta afeio lh' ela tem?

Duriano:

No se fia de ningum,
nem cr que para ele h
no mundo tamanho bem.

Solina:

Dir vos hia de mim l
o que lh'eu disse zombando?

Duriano:

No disse, por Sam Fernando!

Solina:

Ora ide vos.

Duriano:

Que me v?
E mandais que torne? Quando?

Solina:

Quando eu c vir lugar,
vo lo mandarei dizer.

Duriano:

Se o quiserdes buscar, 
no vos deve de faltar, 
se no faltar o querer.

Solina:

No falta.

Duriano:

Dai me um abrao 
Em sinal do que quereis.

Solina:

T, que o no levareis.

Duriano:

De quantos servios fao 
Nenhum pagar me quereis?

Solina:

Pagar vos ho alg' hora, 
Que isso a mi tambm me toca; 
as agora i vos embora

Duriano:

Essas mos beijo, Senhora, 
enquanto no posso a boca

Vai se Duriano e fala Solina com
Dionisa, que lhe traz a almofada,
e diz, Solina

Solina:

J vossa merc dir 
que estive muito tardando

Dionisa:

Bem vos detivestes l. 
Bof, que estava cuidando 
em no sei qu


Solina:

Que ser? 
Aqui somos. Quant' agora 
est ela trasportada.


Dionisa:

Que rosnais vs l, Senhora?

Solina:
Digo que tardei l fora
em buscar esta almofada.
Qu'estava ela agora s
consigo fantesiando?

Dionisa:

Bof, que estava cuidando
que  muito pera haver d
da mulher que vive amando.
Que um homem pode passar
a vida mais ocupado:
com passear, com caar,
com correr, com cavalgar,
forra parte do cuidado.

Mas a coitada
da mulher, sempre encerrada,
que no tem contentamento,
nem tem desenfadamento
mais que agulha e almofada!
Ento isto vem parir
os grandes erros da gente;
em que j antigamente
foram mil vezes cair
princesas d'alta semente.

Lembra me que ouvi contar
de tantas afeioadas
em baixo e pobre lugar,
que as que agora vo errar
podem ficar desculpadas.

Solina:

Senhora, a muita afeio
nas Princesas d'alto estado
no  muita admirao,
que no sangue delicado
faz o amor mais impresso.
Mas deixando isto  parte,
se m'ela quiser peitar,
prometo de lhe mostrar
a cousa muito d'arte,
que l dentro fui achar.


Dionisa:

Que cousa?

Solina:
Cousa d'esprito.

Dionisa:

Algum pano de lavores?

Solina:

Inda ela no deu no fito.
Cartinha sem sobrescrito,
que parece ser d'amores.

Dionisa:

Essa  a boa ventura?

Solina:

Bof, que mo pareceu.

Dionisa:


E essa donde naceu?
Solina:

No meu cesto d costura;
no sei quem m'ali meteu.

Dionisa:


Mostrai ma, no hajais medo,
mana. Eu que vos descobri...

Solina:

E s'ela vem para mi,
logo quer ver meu segredo?
No na veja: v se di.

Ei la a.

Dionisa:

Cuja ser?

Solina:

No sei certo cuja .

Dionisa:

Si, sabeis.

Solina:

No sei, bof.

Dionisa:

Ora a carta mo dir.

Solina:

Pois leia vossa merc.

Abre Dionisa a carta e l a

Carta:

Se pera merecer minha pena me no falta mais que viver contente dela, j logo ma podeis consentir, pois que de nenha outra cousa vivo triste, seno por no ser pera to doce tristeza. Se tendes por ofensa cometer tamanha ousadia, por maior a deveis ter, se a no cometesse, que amor acostumado  fazer os estremos s medidas das afeies, e as afeies s medidas da causa dele. Pois logo nem o meu amor pode ser pouco, nem fazer menos. Se este [no] bastar pera consentirdes em meu pensamento, baste pera me dardes o que pelo ter mereo; e seno muitas graas ao amor que me soube dar um cuidado, que com t lo se paga o trabalho de sofr lo.

Solina:

Quanta parvoce diz!

Dionisa:

Ora muito boa est! 
Como vs, mana, sois m! 
No sejais vs to biliz, 
que bem vos entendo j. 
Cuja ?

Solina:

E eu que sei?

Dionisa:

Pois quem o sabe ?

Solina:

O demo.

Dionisa:

Certo que  de quem temo, 
que os ditos que nela achei 
so todos de Filodemo.

Este homem, que atrevimento
 este que foi tomar? 
Qual ser seu fundamento, 
que mil vezes me faz dar 
mil voltas ao pensamento? 
No entendo dele nada; 
mas inda qu'isto  assi, 
disso que dele entendi 
me sinto to alterada, 
que me arreceio de mi.

Eu inda agora no creio 
que  verdade este amor; 
mas praza a Deus, se assi for, 
que inda este meu receio 
se no converta em temor.

Solina:

J vs jazedes, 
pexes, nas redes. 
Senhora, quem mais confia,
mais asinha a cair vem.

Natural  do querer bem, 
que o amor n'alma se cria, 
sem no sentir quem no tem.

Filodemo, no que ouvi, 
tem lhe sobeja afeio; 
e posto que o creia assi,
ou eu sonhei, ou ouvi, 
que era d' alta gerao. 
Logo na filosomia, 
nas manhas, artes e jeito, 
mostra mui grande respeito; 
nem to alta fantesia 
no se pe em baixo peito.

Dionisa:

Tudo isso cuido, e vi 
mil vezes, miudamente; 
mas estas mostras assim 
so desculpas para mim 
e no pera toda a gente.

Solina:

O seu moo vejo vir
a ns, seu passo contado;
este  muito pera ouvir, 
que diz que me quer serviu
d' amores esperdiado

Entra Vilardo e diz

Vilardo:

Senhora, o senhor seu Pai,
mesmo de vossa merc,
j l pera casa vai. 
Por isso, Senhora, andai 
que ele me mandou num p, 
e diz que fosse jantar 
Vossa merc mesmamente.

Solina:

E j veio do pomar?

Dionisa:

Oh quem pudera escusar 
de comer, nem de ver gente!
Nenha cor de verdade 
tenho do que m' ele manda.

Vilardo:

S' ela sem vontade anda, 
eu lh' emprestarei vontade, 
empreste m'ela a vianda.

Solina:

V, Senhora, por no dar 
mais em que cuidar a gente

Dionisa:

Irei, mas no por jantar, 
que quem vive descontente 
mantm se de imaginar

Vilardo:

Pois tambm c minhas dores 
me no deixam comer po, 
nem come minha afeio 
seno sopadas d'amores,
e mil postas de paixo
Das lgrimas caldo fao,
do corao escudela;
esses olhos so panela
que coze bofes e bao,
com toda a mais cabedela

Vo se todos e entra o Monteiro 
em busca de Venadoro, que se perdeu 
na caa, e diz

Monteiro:

Perdeu se por essa brenha 
Venadoro, meu Senhor, 
sem que novas dele tenha. 
Queira Deus que inda no venha 
desta perda outra maior. 
Contra esta parte daqui 
desps um cervo correu, 
logo desapareceu; 
como da vista o perdi, 
o gosto se me perdeu.

Eu, e os mais caadores 
corremos montes e covas, 
falmos com lavradores 
deste vale, e com pastores, 
sem acharmos dele novas. 
Quero ver nestes casais 
que cobrem aquele arvoredo, 
se acharei pastores mais,
que me dm alguns sinais 
que me possam tornar ledo.

Chama polos pastores do casal,
e responde lhe um pastor

 dos casais,  de l! 
Ah Pastores, no falais?

Pastor:

Quien sois, o lo que buscais?

Monteiro:

Ouvis! Chegai pera c.

Pastor:

Dicid vos lo que mandis

Fala o Bobo, filho do Pastor

Bobo:

No vayais ad os llam, 
Padre, sin saber quien es.

Pastor:

Porque?

Bobo:

Porque este es 
aquele ladrn que hurt 
el asno del Portugues.

Y se vais ad estn, 
os juro al cuerpo sagrado 
de san Pisco y San Jun, 
que tambin os hurtarn, 
que sois asno mas honrado.

Pastor:

Djame i, que me llam


Bobo:

No, por vida de mi madre, 
que si all vas, muerto s, 
y desta vez queda yo,
sin asno, triste, y sin padre.

Monteiro:

Vinde, que vo lo encomendo, 
e em vossas mos me ponho.

Bobo:

No vas, que dijo en comiendo, 
y encomiendoos al demnio!
Y eso es lo que andis haciendo?

Pastor:

Djame ir ad est, 
que no es cosa que me espante.

Bobo:

No queris sino ir all?
Pues echale pan delante, 
puede ser que amansar.

Pastor:

Dios os guarde! Que cosa es 
esa porque boceis?

Monteiro:

Dar me heis novas, ou sinais 
dum Fidalgo Portugus, 
se passou por onde andais?

Bobo:

Yo so Hidalgo Portugues
Que manda su Seoria?

Pastor:
Cllate: oh que nescio es!

Bobo:

Padre, no me dejars 
ser lo que quisiere un dia?

Ah Santo Dios verdadero! 
No ser lo que otros son? 
Digo ahora que no quiero 
ser Alonsico, el vaquero.

Pastor:

Cllate ya, bobarrn.

Bobo:

Ya me callo: ahora un poco 
He de ser lo que yo quisiere.

Pastor:

Seor, diga lo que quiere, 
porque este mochacho es loco, 
y muero porque no muere.

Monteiro:

Digo, que se por ventura 
sabeis o que ando buscando; 
um Fidalgo que, caando, 
se perdeu nesta espessura 
aps um cervo andando. 
Tenho esta parte corrida,
sem dele poder saber:
trago a alegria perdida; 
e se de todo a perder, 
perca se tambm a vida.

Porque s polo buscar 
tenho trabalhos assaz.

Bobo:

Yo no puedo callar mas

Pastor:

Como no puedes callar? 
Quitate all para tras. 
Cuanto por aquestra tierra, 
no siento nueva ninguna.

Monteiro:

Oh trabalhosa fortuna!

Pastor:

Mas detrs daquesta sierra
hallaris, por dicha, alguna,

que unas chozas de vaqueros 
portugueses alli estn, 
y ahi muchas veces van 
cazadores caballeros: 
puede ser que lo sabrn.

Monteiro:


Quero me ir l saber. 
Ficai vos; adeus, pastor.

Pastor:


Dios os libre de dolor

Bobo:

Y a nos d siempre comer, 
pan y sopas, qu' es mejor.

Mirad lo que os notifico: 
en aquele valle, acull, 
anda paciendo un burrico, 
hidalgo, manso y bonico; 
puede ser que ese ser.

Pastor:

Calla, y acaba de andar.

Bobo:

Ya ando

Pastor:

Quieres callar?
Bobo, que tan poco sabe!

Bobo:

No dicis que ande y acabe?
Ando y no quiero acabar.

Vo se todos e entra Florimena, Pastora,
com um pote, que vai  fonte, e diz

Florimena:

Por este fermoso prado 
tudo quanto a vista alcana 
to alegre est tornado, 
que a qualquer desesperado 
pode dar certa esperana
O monte e sua aspereza, 
de flores se veste ledo; 
reverdece o arvoredo; 
somente em minha tristeza 
est sempre o tempo quedo.

Junto desta fonte pura, 
segundo a muitos ouvi,
d' altos parentes naci:
foi como quis a ventura,
mas no como eu mereci
O dia que fui nacida,
minha me do parto forte
foi sem cura falecida;
e o dia que me deu a vida 
lhe dei eu a ela a morte.

Do mesmo parto naceu
meu irmo, que antre os cabritos
comigo tambm viveu; 
mas, assi como creceu,
creceram nele os espritos.
Foi-se buscar a cidade;
teve juzo e saber;
eu fiquei, como mulher, 
e no tive faculdade
pera poder mais valer.

A um Pastor obedeo 
por pai, que doutro no sei; 
e, pola me que matei, 
a a cabra conheo, 
de cujo leite mamei. 
Mas porm, j qu'este monte 
me obriga e meu nacimento, 
quero, pois, quer meu tromento, 
encher a talha na fonte 
que cos olhos acrecento.

Enquanto finge que enche a talha, 
entra Venadoro, e diz

Venadoro:

Pois que me vim alongar 
dos caminhos e da gente, 
Fortuna, que o consente, 
se devia contentar 
de me ter to descontente. 
Porm, segundo adivinho, 
por to espesso arvoredo,
por to spero rochedo, 
quanto mais busco o caminho 
tanto mais dele me arredo.

O cavalo, como amigo, 
j cansado me trazia, 
nas deixou me todavia, 
que mal poder comigo
quem consigo no podia
Quero me aqui assentar
 sombra, nesta ervinha, 
porque canso j de andar; 
nas inda a fortuna minha 
no cansa de me cansar.

Junto desta fonte pura, 
no sei quem cuido qu'est; 
mas no corao me d 
que aqui me guarda a ventura 
alga ventura m. 
Ou ganhado, ou bem perdido, 
faa, enfim, o que quiser, 
que eu o fim disto hei de ver, 
que j venho apercebido 
a tudo quanto vier.

Oh que formosa serrana 
 vista se me oferece! 
Deusa dos montes parece; 
e se  certo que  humana, 
o monte no na merece. 
Pastora to delicada, 
de gesto to singular, 
parece me que em lugar 
de perguntar pola estrada, 
por mim lh'ei de perguntar.

At qui sempre zombei 
de qualquer outra pessoa 
que afeioada topei; 
mas agora zombarei 
de quem se no afeioa. 
Serrana, cuja pintura 
tanto alma me moveu, 
dizei me: Por qual ventura 
andareis nesta espessura, 
merecendo estar no Cu?

Florimena:

Tamanho inconveniente 
andar na serra parece? 
Pois a ventura da gente 
sempre  muito diferente 
do que, ao parecer, merece

Venadoro:

Tal reposta  manifesto 
no se parecer co as cabras,
pois no vos parece honesto 
saberdes matar co gesto
seno inda com palavras?

No mato tudo  rudeza. 
H tal gesto e discrio? 
No no creio.

Florimena:

Porque no? 
No suprir natureza 
onde falta criao?

Venadoro:
J logo nisso, Senhora, 
dizeis, se no sinto mal, 
que do vosso natural 
no era serdes Pastora.

Florimena:


Digo, mas pouco me val.

Venadoro:

Pois quem vos pde trazer 
 conversao do monte?

Florimena:

Perguntai o a essa fonte, 
que as cousas duras de crer, 
um as faa, outro as conte.

Venadoro:

Esta fonte, que est aqui, 
que sabe do que dizeis?

Florimena:

Senhor, mais no pergunteis, 
porque outra cousa de mi
sabei que no sabereis.

De vs agora sabei
o que no tendes sabido:
se quereis gua, bebei;
se andais por dita perdido, 
eu vos encaminharei.

Venadoro:

Senhora, eu no vos pedia 
que ningum m' encaminhasse; 
que o caminho que eu queria, 
se o eu agora achasse,
mais perdido me acharia.

No quero passar daqui 
e no vos parea espanto 
que em vos vendo me rendi; 
porque quando me perdi, 
no cuidei de ganhar tanto.

Florimena:

Senhor, quem na serra mora
tambm entende a verdade 
dos enganos da cidade:
v se embora, ou fique embora, 
qual for mais sua vontade.

Venadoro:

Oh lindssima donzela, 
a quem a ventura ordena 
que me guie como estrela, 
quereis me deixar a pena, 
e levar me a causa dela?

E j que vos conjurastes 
vs e amor pera matar me, 
oh no deixeis d' escutar me! 
Pois a vida me tirastes, 
no me tireis o queixar me!

Que eu em sangue e em nobreza 
o claro Cu me estremou; 
e a fortuna me dotou 
de grandes bens e riqueza, 
que sempre a muitos negou. 
Andando caando aqui, 
aps um cervo ferido, 
permitiu meu fado assi, 
que andando dos meus perdido, 
me venha perder a mi.

E porque inda mais passasse 
do que tinha por passar, 
buscando quem m'ensinasse 
por que via me tornasse, 
acho quem me faz ficar. 
Que vingana permitiu 
a fortuna num perdido! 
Oh que tirano partido, 
que quem o cervo feriu, 
v como cervo ferido!

Ambos feridos num monte, 
eu a ele, outrem a mi; 
a diferena h aqui: 
que' ele vai sarar  fonte, 
e eu nela me feri. 
E pois que to transformado 
me tem vossa fermosura, 
um de ns troque o estado, 
ou vs pera povoado, 
ou eu pera a espessura.

Florimena:

Dos arminhos  certeza, 
se lhe a cova algum sujar, 
morar fora, antes d' entrar: 
d' estimar muito a limpeza
pola vida a vai trocar:
tambm quem na serra mora 
tanto estima a honestidade, 
que antes toma ser Pastora, 
que perder a castidade, 
a troco de ser senhora.

Se mais quereis, esta fonte 
vos descubra o mais de mim: 
o que ela viu, ela o conte; 
porque eu vou me pera o monte, 
que h j muito que vim.

Vai se Florimena e diz, Venadoro

Venadoro:

 linda minha inimiga, 
gentil Pastora, esperai! 
Pois a tanto amor me obriga, 
consenti me que vos siga; 
v o corpo onde alma vai.

E pois por vs me perdi, 
e neste estado amor me ps 
os olhos com que vos vi, 
pois os deixastes sem mi, 
oh no os deixeis sem vs! 
Porque a Fortuna me dixe 
que nas serras onde andais, 
em estes estremos tais, 
no era bom que vos visse 
pera no ver de vs mais.

E pois amor se quis ver 
da livre vida vingado, 
em que eu soa viver, 
faa em mi o que quiser, 
que aqui vou ao jugo atado.

Vai se Venadoro aps de Florimena
e entra Dom Lusidardo seu pai,
que quer ir em sua busca,
e o Monteiro, e Filodemo, e diz,

Lusidardo:

Oh santo Deus verdadeiro, 
a quem o Mundo obedece! 
Meu filho no aparece, 
ou que me dizeis, Monteiro?

Monteiro:

Digo lhe, que m' entristece, 
que eu corri por esses montes, 
bem quinze lguas, ou mais, 
e busquei pelos casais, 
por serras, montes e fontes, 
sem ver novas, nem sinais.

Toda a gente que levou, 
buscando o, muito cansada, 
pelo mato anda espalhada; 
mas ainda ningum tornou, 
que soubesse dele nada.

Lusidardo:

Oh fortuna nunca igual! 
Quem me far sabedor 
de meu filho e meu amor, 
que se  muito grande o mal, 
muito mor  o temor?

Quem tolhe que no achasse 
algum leo temeroso 
nalgum monte cavernoso 
que sua fome fartasse 
em seu corpo to fermoso? 
Quem h que saiba, ou que visse 
que das montanhas erguidas 
algum monstro no sasse, 
e com seu sangue tingisse 
as ervas nele nacidas?

 filho, vai me a lembrar 
quantas vezes vos mandava 
que leixsseis o caar! 
No cuidei de adivinhar 
o que fortuna ordenava. 
Eu irei, filho, buscar vos 
por esses montes, por i, 
ou perder me, ou cobrar vos, 
que morte que quis matar vos, 
quero que me mate a mi.

Onde fostes fenecido 
seja tambm vosso Pai;
ser me h acontecido, 
como virote que vai 
buscar outro que  perdido. 
Vs s haveis de ficar, 
Filodemo, encarregado 
pera esta casa guardar, 
que de vosso bom cuidado 
tudo se pode fiar.

Ide vos a fazer prestes, 
mandai cavalos selar 
pois ach lo no pudestes, 
ir me heis buscar o lugar 
onde da vista o perdestes.

Vo-se e entra o Bobo com o vestido
de Venadoro, que lhe tomou Venadoro
o seu, por se vestir de Pastor
e diz, cantando

Los mochachos del Obispo 
no comen cosa mimosa, 
ni zanca d'araa, ni cosa mimosa.

Fala:

De su sayo colorado 
tan lozano me vesti, 
y pues yo ya no soy yo, 
ya por otro estoy trocado; 
que este sayo me troc. 
Oh que asno Portugues, 
que loco por Florimena, 
dese samarra agena, 
y dame por inters 
una zamarra tan buena!

Como yo vi la bobilla 
andar con l en questiones, 
y pararsele amarilla, 
Dixele: Florimenilla, 
andis en dongolondrones? 
l me dijo: Matalote, 
no tengis dello desmayo, 
y en esta, como un rayo, 
tomme mi capirote, 
y dime su capisayo.

Capirote, en buena f, 
si vos, cuando en mi entrastes, 
capisayo vos tornastes,
que yo por eso cantar, 
pues ansi me mejorastes.

Canta:

Lirio, lirio, lirio loco,
con que? Con capirotada.

Por hablar con la golosa 
de amores, mirad la cosa! 
Zamarilla tan hermosa 
que me ha dado tan honrada,
con que? Con capirotada.


Fala:

Yo entonces respond: 
Seor, dame pan y queso, 
mas despues que lo entend, 
dixe a ella: dale un beso, 
que l me di zamarra a m. 
Ahora me mirarn 
cuantos a la iglesia fueren; 
y aquellos que no me quieren, 
ahora me rogarn.

Sabis porque no querr? 
Porque estoy ahidalgado; 
y cuando fuere rogado, 
cantando responder, 
que ya estoy otro tornado.

Canta e baila:

Soropicote, picote, mozas, 
ahora quiero amores con vosotras.


Entra o Pai, e diz

Pastor:


Hijo Alonsillo

Bobo:

Hijo Alonsillo

Pastor:

No me quieres escuchar!

Bobo:

Pues djame suspirar.

Pastor:

Escchame ahora, asnillo, 
lo que te quiero mandar. 
Vete al valle de las rosas, 
y di a Anton del Lugar 
que si puede ac llegar, 
porque tengo muchas cosas 
que importan para le hablar.

Porque es aqui llegado 
a este valle un hombre honrado, 
mancebo de casta buena, 
que amores de Florimena 
le traen loco y penado. 
Dice que quiere casar 
con ella, que su tromento 
no le deja reposar; 
y que venga festejar 
tan dichoso casamiento.

Bobo:

Dicid, padre, tambin vos, 
no queris casar comigo? 
Casemos ambos a dos.

Pastor:

Ve, y haz lo que te digo.

Bobo:

Responde, padre, por Dios.

Pastor:
Ve luego, y vuelve apresado. 
Anda. No quieres andar?

Bobo:

Pues me habis empuxado, 
juro  mi de desandar 
todo quanto tengo andado.

Pastor:

Trabajoso es este insano! 
Nunca hace lo que quereis.

Bobo:

Ora no os apaxoneis, 
mi padrecico lozano: 
que burlaba, y no lo vis?

Pastor:

Vete dah.

Bobo:

Heme aqu.

Pastor:

Ve donde te dixe.

Bobo:

Ya vengo. 
Oh que padrasto que tengo, 
que asi me manda por ah, 
sendo camino tan luengo!

Vo se e entra Dionisa e Solina

Dionisa:

 Solina, minha amiga, 
que todo este corao 
tenho posto em vossa mo, 
Amor me manda que diga, 
vergonha me diz que no. 
Que farei?

Como me descobrirei? 
Porque a tamanho tromento 
mais remdio lhe no sei, 
que entreg lo ao sofrimento. 
Meu pai muito entristecido 
se vai pela serra erguida, 
j da vida aborrecido, 
buscando o filho perdido, 
tendo a filha c perdida! 
Sem cuidar, 
foi a casa encomendar 
a quem destruir lha quer: 
olhai que gentil saber, 
que vai comigo leixar 
quem me no leixa viver.

Solina:

Senhora, em tanto desgosto 
no posso meter a mo; 
mas, como diz o rifo, 
mais val vergonha no rosto, 
que mgoa no corao, 
E, bof, se tanto amasse, 
e visse tempo e sazo, 
sem seu pai, sem seu irmo, 
que a nuvem triste tirasse 
de cima do corao.

Dionisa:

Ah mana, que tenho medo, 
que s' eu em tal consentisse 
que logo o mundo o sentisse, 
porque nunca houve segredo, 
que, enfim, se no descobrisse.

Solina:

Se eu tantas dobras tivesse 
como quantas houve erradas, 
sem que o mundo o soubesse, 
 f qu'eu enriquecesse, 
e fosse das mais honradas.

Dionisa:

Sabeis que tenho em vontade?

Solina:

Que podeis, Senhora, ter?

Dionisa:

Falar lhe, s pera ver 
se  por ventura verdade 
o que dizeis que me quer.

Solina:

Bof, mana, dizeis bem, 
e eu o mandarei chamar, 
como pera lhe rogar 
que um anel que l me tem 
que mo mande consertar.

Dionisa:

Dizeis mui bem.

Solina:

Vou me l 
chamar o seu moo  sala; 
e s' este parvo vem c, 
com ele um pouco rir, 
que sempre amores me fala. 
Vilardo, moo?

Vilardo:

Quem chama?

Solina:

Vem c, moo; eu te chamo. 
Qu' he de teu amo?

Vilardo:

Ah que dama! 
Perguntais me por meu amo, 
no por um que vos ama?

Solina:

E quem  esse amador, 
que quer ter comigo passo? 
Ser ele algum madrao?

Vilardo:

Eu sou o mesmo, que o amor 
me quebra pelo espinhao. 
E mais vs sabei de mi, 
se a diz lo me atrevo, 
que ds qu'esses olhos vi, 
que yo ni como, ni bebo, 
ni hago vida sin ti.

E mais pera namorado 
no so ora to madrao.

Solina:

Pois muito desmazelado.

Vilardo:

Mas antes, de delicado 
caio pedao a pedao. 
E mais eu sofrer no posso 
que me faais tanto feno, 
qu' estou j posto no osso, 
porque sou vosso e revosso, 
por vida de quanto quero.

Solina:

Feros est cheia a rua. 
Ora estou bem aviada.

Vilardo:

Cupido, por via tua, 
que a no faas to crua, 
pois que te no fao nada. 
Amor, amor, mas te pido 
que quando se for deitar, 
que le digas al odo: 
deveis vos de lembrar 
neste tempo dum perdido.

Solina:

E tu fazes j coprinhas ? 
Ainda tu trovars?

Vilardo:

Quem, eu? Por estas barbinhas, 
que se vs virdes as minhas, 
que digais que no so ms.

Solina:

Ora, pois me quereis bem, 
dizei me a.

Vilardo:

Ei la aqui, 
e veja o saibo que tem, 
porque esta trovinha assi 
saiba qu'  trova do assem.

Diz, o moo a trova:

Passarinhos que voais 
nesta manh to serena, 
sabei que s minha pena
pode encher mil cabeais.


Solina:

O rifo est salgado. 
Essa pena te dou eu?

Vilardo:

Vs e amor, que de malvado 
me tem milhor empenado, 
que nenhum virote seu. 
Pois se me ouvreis cantar!

Solina:

E tu s tambm cantor?

Vilardo:

Canto milhor que um aor
Quereis que vos venha dar
musiqueta de primor

e que vos mande tanger
muito milhor que ningum?

Solina:

J isso quisera ver.

Vilardo:

Querer m' eis, se o eu fizer, 
algum pedao de bem?

Solina:

Querer t' eis trinta pedaos.

Vilardo:

E esse querer dar fruito, 
que me tire destes laos?

Solina:

E que fruito?

Vilardo:

Dous abraos.

Solina:

Esse fruito custa muito.

Vilardo:

Esse  o amor que em vs h?
pesar de minha me torta!

Solina:

Ora i, chamai logo l 
vosso amo, que venha c logo, 
que  causa que importa.

Vilardo:

Logo?

Solina:

Logo nessas horas.

Vilardo:

No estarei aqui mais?

Solina:

No. Ainda a estais? 
Vs haveis mister esporas.

Vilardo:
lrei, porque mo mandais.

Vai se Vilardo e Solina,
e entra o Pastor 
e Venadoro com ele,
feito Pastor, e diz o Pastor

Pastor:

Mas de un mes es ya pasado 
que en esta sierra andis; 
y es caso mal mirado 
que andis guardando ganado 
por una que tanto amis. 
Y si os determinis 
en querer casar con ella, 
juro a m que nada erris; 
y si eso es para habella, 
en vano cabras guardis.

Ya me distes vuestra fe 
sbenlo estas sierras todas; 
yo con ella me enga, 
que luego mandar llam 
quien festejasse las bodas. 
Y ahora dicis con pena, 
que es dura cosa casar: 
pues volveos, n' hora buena, 
que no habis d'engaar 
con palavras Florimena.

Venadoro:

Quem h de ter corao 
pera tamanho temor? 
Que em mim pegando esto, 
da parte a rezo, 
e doutra parte o amor.

Tambm vejo que perd la ;
Ser minha perdio 
que bem me diz a afeio, 
que pouco fao por ela, 
pois no desfao em quem so.

Pastor:

Digoos, si por baxeja 
dicis que no os conviene, 
daros he una certeza, 
que en sangue y en nobreza, 
tanto como vos la tiene.

Venadoro:

Pastor, digo que daqui 
farei tudo o que quiserdes;
e se mais quereis de mi, 
digo que vos dou o si 
pera tudo o que fizerdes.

Pastor:

Dios os de su bendicin; 
y pues que casis con ella, 
yo os afirmo en conclusin, 
que aun de vos y mas della 
vern gran generacin. 
Yo me voy por ella, hijo, 
tomadla as mal compuesta; 
vern quien haga la fiesta; 
que en placer y regocijo 
nos festeje esta floresta.

Vai se o Pastor e fica Venadoro
falando s e diz

Venadoro:

 ribeiras to fermosas, 
vales, campos pastoris, 
porque vos no revestis 
de novas flores e rosas, 
se minha glria sentis?

Porque no secais, abrolhos? 
E vs, gua, que regando 
os olhos is alegrando, 
correi, que tambm meus olhos 
d'alegres esto manando.

Ah Pastora, em quem espero 
poder viver descansado! 
Contigo guardarei gado, 
que j eu sem ti no quero 
nenha alteza d'estado. 
Diga o que quiser a gente, 
tudo terei na palha, 
porque est craro e vidente 
que no h honra que valha 
contra a vida de contente.

Entram trs Pastores bailando 
e cantando de terreiro,
diante do Pastor que traz
Florimena, e diz o

Pastor:

Pues el amor os obliga 
a que hagis tan buena liga, 
tomando a Dios por testigo, 
daqui os la entrego, amigo, 
por muger y por amiga.

Venadoro:

Consentis nisto, Senhora?

Florimena:

Senhor em tudo consento.

Venadoro:

Oh grande contentamento!

Florimena:

Saiba que nunca at agora 
lhe houve enveja ao tromento.

Pastor:

Asi lo decs, bobilla? 
Oh mala dolor os duela! 
Pero no es maravilla 
quien consiente ansi la silla, 
consienta tambin la espuela

Tornam a bailar e cantar,
e, acabado entra D. Lusidardo,
e o Monteiro que andam
em busca de Venadoro,
e diz D. Lusidardo

Lusidardo:

Trs dias h j que ando 
por esta larga espessura 
a Venadoro buscando, 
e o que dele vou achando 
 como quer a ventura.

Monteiro:

Senhor, cuido que l vejo 
uns lavradores cantar.

Lusidardo:

I diante perguntar.

Monteiro:

Cumprido  seu desejo, 
se a vista no m' enganar.

Lusidardo:

Como assi?

Monteiro:

Ele no v 
aquele Pastor louo 
com a moa pola mo? 
Se Venadoro no , 
nem eu o Monteiro so.

Pastor:

Quin veo all asomar, 
que se viene a nuestras bodas?

Bobo:

No los dexemos llegar, 
que nos vernn a robar, 
juro a mi, las migas todas.

Lusidardo:

Oh Venadoro, meu filho, 
s tu este?

Venadoro:

Tal estou, 
que cuido que este no sou.

Lusidardo:

Certo que me maravilho 
de quem tanto te mudou. 
Como ests assi mudado 
no rosto e mais no vestido!

Venadoro:

Ando j n'outro trocado, 
tanto, que fiquei pasmado 
de como fui conhecido.

E se vossa merc vem 
para me levar daqui, 
mais h de levar que a mi, 
e h de ser quem me tem 
todo transformado em si.

Bobo:

Eso porque lo entendis?
Por las migas por ventura? 
Voto a tal no llevaris: 
por mas y por mas que andis 
no haris tal travessura.

Venadoro:

Esta fermosa donzela 
em mi teve tal poder, 
que folguei de me perder; 
pois, enfim, vim achar nela 
o que no cuidei de ser. 
Tanto em mi pode este amor, 
que a tenho recebida; 
e se o erro grave for 
aqui quero ser Pastor: 
deixe me ter esta vida.

Lusidardo:

 certo tal casamento ?

Venadoro:

Tenha o por cousa segura.

Lusidardo:

Oh grande acontecimento! 
Dest' arte sabe a ventura 
aguar um contentamento!

Pastor:

Oyame, Seor, a mi, 
como hombre sbio, discreto, 
porque acaeci as, 
y lo que supo hasta aqui 
Lo puede tener por cierto.

Muchos aos son corridos 
que en esta fuente abierta, 
en estos valles floridos,
hall dos nios nacidos, 
ya a su madre casi muerta. 
Los nios chicos cri, 
y desta cierto me arreo, 
y a la madre sepult; 
y despues un gran deseo 
de saber esto tom.

Como yo fuese enseado 
de chico a la mgica arte 
por mi padre, qu' es finado, 
muy conoscido y nombrado 
soy por tal en toda parte. 
Yo con yervas de la sierra, 
artimales y otras cosas 
har, si el arte no se yerra, 
que desciendan a la tierra 
las estrellas luminosas.

Soy, en fin, certificado 
que la madre de los dos 
fu Princesa de alto estado, 
y por un caso nombrado 
la traxo a esta tierra Dios. 
El macho, como creci, 
deseoso de otro bien, 
a la corte se parti: 
la hembra es esta por quien 
vuestro hijo se perdi.

Y si ms quiere, Seor, 
de mi arte, prestamente 
dello te har sabedor; 
mas ha de ser de tenor 
que no lo sepa la gente.

Lusidardo:

Mas vamo nos, se quereis, 
que no sofro dilao, 
a minha casa, e ento 
l disso me informareis, 
que caso  de admirao.

E vs, filho, no cuideis 
que a glria de vos achar 
no  tanto d'estimar, 
que em qualquer estado que esteis 
no folgue de vos levar.

Vo se todos, e diz, Solina
vendo vir a Filodemo

Solina:

Eis Filodemo l vem: 
asinha acudiu ao leme.

Dionisa:

Isso  de quem quer bem; 
mas no sei se o viu algum,
porque quem espera, teme.

Agora me quisera eu 
daqui cem mil lguas ver.

Filodemo:

Folgara eu assi de ser, 
porq' este cuidado meu 
fora mais de agradecer; 
que, quando por acidente 
da fortuna desastrado 
fosse apartado da gente 
num deserto, onde somente 
das feras fosse guardado,

e por ferro, fogo e gua 
buscar minha morte iria, 
a voz ronca, a lngua fria,
tamanho mal, tanta mgoa 
s montanhas contraria; 
l, mui contente e ufano 
de mostrar amor to puro, 
poderia ser que o dano, 
que no move um peito humano 
que movesse um monte duro

Dionisa:

Nesse deserto apartado 
de toda a conversao 
mereceis degradado 
por justia, com prego 
que dissesse: Por ousado. 
E eu tambm merecia 
metida a grave tromento, 
pois que, como no devia, 
vim a dar consentimento 
a to sobeja ousadia.

Filodemo:

Senhora, se me atrevi,
fiz tudo o que amor ordena; 
e se pouco mereci, 
tudo o que perco por mi 
mereo por minha pena. 
E se amor pode vencer,
levando de mim a palma, 
eu no lho pude tolher, 
que os homens no tm poder 
sobre os afeitos da alma.

E ainda que pudera 
resistir contra o mal meu, 
saiba que o no fizera, 
que pouco valera eu, 
se contra vs me valera.

No deve logo ter culpa
quem se venceu d'armas tais:
assi que nisto, e no mais 
tomo por minha desculpa
vs mesma, que me culpais.

E se este atrevimento
contudo for de culpar,
acabai de me matar,
que aqui tenho um sofrimento
que tudo pode passar.
E se esta penitncia,
que fao em me perder,
algum bem vos merecer,
fique em vossa conscincia
o que me podeis dever.

Que dizeis a isto, Senhora?

Dionisa:

Eu que vos posso dizer?
J no tenho em mi poder,
segundo me sinto agora,
pera poder responder.
Respondei lhe vs, Solina,
pois a vs m'entreguei.

Solina:

Bof, no responderei.
Veja ela o que determina.

Dionisa:

No no vejo, nem no sei.

Solina:

Pois eu tambm no sei nada.

Dionisa:

Porqu ?

Solina:

Do que eu fizer,
se despois se arrepender,
dir que eu fui a culpada.

Dionisa:

Eu s quero a culpa ter.

Solina:

Senhora, por no errar,
no quero que fique em mim.
Esta noite no jardim 
ambos podem praticar
como isto venha a bom fim.

L podero ajuntar
entr'ambos o parecer,
que eu no m' hei nisso de achar,
que no quero temperar
o que outrem h de comer.

Dionisa:

Vs vedes a torvao,
que l nessa casa vai?

D me c no corao
que  vindo o senhor seu Pai
com o senhor seu irmo.

Dionisa:

Filodemo, i vos embora, 
falai despois com Solina.

Solina:

Vamo nos tambm, Senhora,
receber seu pai l fora,
no venha sentir a mina.

Vo se todos e entra Vilardo
e Doloroso que vm dar a
msica a Solina com os
Msicos, e diz logo Vilardo

Vilardo:

Assi que te contava, Doloroso,
destas em que sempre andam
rugindo as sedas.

Doloroso:

Avante, que bem sei que o no dizes
polas sedas de Veneza.

Vilardo:

J sabeis que esta nossa Solina
 to Celestina que no h quem
a traga a ns.

Doloroso:

Logo parece moa brigosa, que por d c aquelas palhas, dar e tomar quatro espaldeiradas; e ao outro dia quem h de cuidar que a mulher de sua arte h de querer bem a um parvo como ti? Porque estas tais so como homens sesudos: se de noite se acham em algum arrudo, onde possam fugir sem serem conhecidos, facilmente o fazem; e ao outro dia quem h de cuidar que um homem to honrado havia de fugir? Outros dizem: Bem pode ser, porque noite escura  capa de Judeus e de envergonhados.

Vilardo:

Mui gentil comparao  esta; mas assi que te dizia o outro dia, assi zombando lhe pormeti de lhe dar a msica, e j chamei outros dous meus amigos, que logo ho de vir aqui ter connosco.

Doloroso:

Que tal  a msica que determinas de lhe dar? No seja de siso; porque ser a maior parvoce do mundo, porque no concerta com a parvoce que tu finges.

Vilardo:

A msica no  seno das nossas; mas fao te queixume que nem com um co de busca pude achar as nsporas por toda esta terra.

Doloroso:

Nem nas achars seno alugadas; mas eu no sou de opinio que teus amores te custem dinheiro. Ora j l aparecem os outros companheiros, e eu tambm ajudarei de telhinha, ou de assovio, e vem me isto  popa, porque daqui iremos  porta da minha padeirinha, porque ando com ela num certo requerimento.

Vilardo:


Vossas mercs vem ao prprio: boa seja a vinda. As guitarras vm temperadas ?

Ami[go] :

Tudo vem como cumpre: mandai vigiar a Justia entretanto.

Vilardo:

Ora sus: fazei como se tempersseis cabea de pescada com seu fgado e bucho, e canada e meia, que nunca meu Pai fez tamanho gasto na sua Missa nova.

Neste passo se d a msica com todos quatro, um tange guitarra, outro pentem, e outro telhinha, e outro canta cantigas muito velhas, e no milhor, diz Vilardo

Vilardo:

Estai assi quedos, que eu sinto quem quer que .

Doloroso:

Justia, pelo corpo de tal! Ora sus: aqui no h outro velhacouto que nos valha, que pr os ps ao caminho, e mostrar lhe as ferraduras.

Vo se todos e entra o Monteiro e diz

Monteiro:

Como  gracioso este mundo, e como  galante, e quo gracioso seria quem o pudesse ver de palanque com carta d' alforria ao pescoo, porque no pudessem entender nele Meirinhos, Almotaceis da limpeza, trabalhos, esperanas, temores, com toda a outra cabedela de enfadamentos! Ora notai bem de quantas cores teceu a fortuna esta manta d' Alentejo: perdeu se Venadoro na caa, eis a casa toda envolta como rio: o pai enfadado, a irm triste, a gente desgostosa; tudo, enfim, fora do couce; e o galante aposentado nos matos com trajos mudados como camaleo, decepado dos ps e das mos, por a serranica d' Alentejo; e veio o caso a sair de maneira fora da madre, que a recebesse por mulher; e rapa leo e crisma de quem , e renega todas as alembranas de seu pai; pois tanto tomou ao p da letra o que Deus disse: Por esta deixars teu pai e me. E atentai isto por me fazer merc: cuidareis que este caso era solus peregrinus; sabei que os no d a fortuna seno aos pares, como quedas. Dionisa, mais mimosa e mais guardada de seu pai que bicho de seda, moa sem fel como pombinha, que nos anos no tinha feito inda o enequim, mais fermosa que a manh de S. Joo, mais mansa que o rio Tejo, mais branda que um soneto de Garcilaso, mais delicada que um pucarinho de Natal, enfim, que por meia hora de sua conversao se poder sofrer a pipa com cobra e galo e doninha, como a parricida, contanto que dissesse o prego o porque; e porque vos no fieis em castanhas, no sei se o diga, se o cale, que de magoado me trava pola manga a fala da garganta; mas, contudo, no h quem se tenha,-seu Pai a achou esta noite no jardim com Filodemo, mais arrependida do tempo que perdera, que do que ali perdia; eu, coitado de mim, que meta os dentes nos cabeais, se desejar ave de pena.

Aqui entra Duriano, e diz como cantando

Duriano:

Ti ri ri, ti ri ro.

Monteiro:

Que  isso, Senhor Duriano ? Que descuidos so esses? Onde  c a ida agora?

Duriano:

Vou assi como parvo, porque o milhor  no saber homem nada de si.

Monteiro:

Que dizeis a vosso amigo Filodemo, que assi se soube aproveitar do tempo que ficou s em casa?

Duriano:

Eu que hei de dizer? Digo que descreio desta minha capa, se no  isto caso pera sair com ele a desafio.

Monteiro:

Porqu ?

Duriano:

Porque no basta que lhe d a fortuna gostos to medidos sobre o funil, que lhe pe nos braos Dionisa, a mais fermosa dama que nunca espalhou cabelos ao vento, seno ainda pera o assegurar em sua boa ventura, lhe vem a descobrir que  filho de no sei quem, nem quem no.

Monteiro:

Esses so outros quinhentos. Cujo filho dizem que  ? Que eu ouvi j sobr'isso no sei que fbulas.

Duriano:

Dir vo lo hei; pasmareis, que no  menos que Prncipe, e pior ainda. Nunca ouvistes dizer de um irmo do senhor Dom Lusidardo, que agravado del Rei, se foi pera os Reinos de Dinamarca ?

Monteiro:

Tudo isso ouvi j.

Duriano:

Pois esse galante, em satisfao de muitas mercs que el Rei de Dinamarca lhe fizera, meteu se d' amores com a sua filha, a mais moa; e como era bom justador, manso, discreto, galante, partes que a qualquer mulher abalam, desejou ela de ver gerao dele; seno quando, livre nos Deus, se lhe comeou d' encurtar o vestido; que estas cidras no se desistem em nove dias, seno em nove meses. Foi lhe a ele ento necessrio acolher se co ela, porque no colhessem a ela co ele: acolheu se em a gal, e vede la Princesa em a galera nueva, com el marinero a ser marinera. Finalmente, vindo navegando todo esse Oceano Germnico, bancos de Frandes, mar d'Inglaterra, e trazidos  costa d' Espanha, no os quis a ventura deixar gozar do repouso que nela buscavam: deu lhe supitamente tamanha tromenta, que sem remdio deu a gal  costa, onde, feita pedaos, morreram todos desastradamente, sem escapar mais que a Princesa com o que trazia na barriga, a quem parece que a fortuna guardava pera dar o descanso que a seu pai e me negara. Saiu finalmente a moa na praia, tal qual o Temeroso naufrgio deixaria a Princesa mais delicada que um arminho; e indo assi a pobre mulher pola terra estranha e despovoada, e sem quem a encaminhasse por donde, despois de ter perdido tanto a esperana de ter algum remdio, dando lhe as dores de parto junto de a fonte, aonde em breve espao lanou duas crianas, macho e fmea, como vizagras. E como a fraca compreio da delicada mulher no pudesse sustentar tantos e to desacostumados trabalhos, facilmente deu a vida, que tanto havia que desejava de dar, deixando vivos aqueles dous retratos dela e de seu Pai, que por causa de seus nacimentos a vida lhe tiraram, como acontece a bboras. E como as crianas fossem destinadas ao que vedes, no faltou um Pastor que as criasse, que ali veio ter, dando a me a alma a Deus. De maneira que, por no gastar mais palavras, o macho  vosso amigo Filodemo, e a fmea  a serrana Florimena, mulher que  j de Venadoro.

Monteiro:

Estranhas cousas me contais. Assi que, logo de seu Pai herdou Filodemo namorar a filha do Senhor que serve, no haver logo por mal o senhor Dom Lusidardo tomar por genro e nora quem acha por sobrinhos.

Duriano:

Sabei que chora de prazer com eles, que j diz que acha que Filodemo se parece natural com seu irmo e Florimena com sua me.

Monteiro:

Dai me a entender como se creu to de ligeiro o senhor Dom Lusidardo de quem isso contou.

Duriano:

No caso no h dvida, porque o Pastor que l achastes lhe certificou todo o caso; e fez ao Pastor muitas mercs, e mandou fazer muitas festas solenes. Venadoro, casado com sua mulher e prima, e Filodemo, que o mesmo parentesco tem com a senhora Dionisa, esto fora de crer tamanho contentamento; cuida que zombam dele.

Monteiro:

Ora deixa me ir a ver o rosto a esse velhaco de Filodemo, pois de meu matalote se me tornou Senhor. Que creio que vem o senhor Dom Lusidardo. Dissimulemos.

Entra Dom Lusidardo com Venadoro, que traz Florimena pela mo, e Filodemo traz a Dionisa, e diz Dom Lusidardo

Lusidardo:

Quem no ficar pasmado 
de ver que por tal caminho
tem a ventura ordenado 
Filodemo, meu criado, 
vir ser meu genro e sobrinho! 
Quem no pasmar agora 
de ver a ventura minha, 
que tem tornado na hora 
Florimena, a pastora, 
ser minha nora e sobrinha!

Dm se graas ao Senhor, 
cujo segredo  profundo, 
pois que vemos que quis pr, 
a ventura e o amor por prazeres deste mundo.

Vo-se todos e fenece a presente obra.
