D. Francisco Manuel de Melo (1608-1666) nasceu em Lisboa de famlia nobre. Comeou muito novo a frequentar a corte, cursou Humanidades no Colgio de Santo Anto e dedicou-se ao estudo da Matemtica, pois pensava seguir a carreira das armas. Militou na marinha e, depois de um naufrgio que sofrera, estabeleceu-se na corte de Madrid. Em 1639 comandou um regimento na Flandres e lutou contra os Holandeses. Em 1641, encontrando-se em Londres, aderiu  causa da independncia em Portugal, regressando ao reino onde, depois de receber a comenda da Ordem de Cristo,  acusado e preso por conivncia no assassinato de Francisco Cardoso.  na priso que escrever as suas melhores obras. Das suas obras destacamos: Carta de Guia de Casados (1651), Epanforas (1660), Obras Mtricas (1665), Auto do Fidalgo Aprendiz (1995) e Aplogos Dialogais (1721).  considerado um dos mais importantes autores do Barroco em Portugal.
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O CANTO DE BABILNIA



Sbolas guas correntes 
de aqueles Rios cantados 
que a Babilnia levados 
com lgrimas dos ausentes 
chegam ricos e cansados,

a tarde me assentei 
cheio de dor e fadiga 
e hoje do que l passei 
me manda o tempo que diga 
quanto em lgrimas direi.

Espalhei meu triste canto 
pelas desertas areas: 
os olhos foram as veas, 
a msica foi o pranto, 
o instrumento as cadeas.

Ali com grandes tormentos 
vi no passar minhas mgoas, 
vi voar meus pensamentos. 
vi que levavam as guas 
quanto trouxeram os ventos.

Tudo quanto em outra idade 
se fez amar e querer, 
antes de bem se entender, 
ali mandava a verdade 
que se fosse a conhecer.

Mas eu, vendo-me cativo, 
bradei na fora da queixa: 
dize, pensamento esquivo, 
j que a memria me deixa, 
porque lhe dizes que vivo?

Ela, inda bem no se ouviu 
nomear, quando j chega, 
to vingativa e to cega 
que de um golpe destruiu 
quanta paz alma lhe entrega.

Eis aquela paz antiga 
que sem memria gozava, 
j me mata e me castiga: 
e a dor, que antes se humilhava, 
ei-la soberba enemiga.

Fados maus, dura violncia, 
vil afronta, triste histria, 
grave dor, mudada glria. 
com tudo pode a pacincia 
s no pode co'a memria.

Memria to diligente, 
Faze estar quedos os anos! 
Passou-se a vida contente; 
deixa vir os desenganos, 
que eles vm por si somente.

Eu me queixo, tu te queixas, 
eu grito, tu arrezoas, 
levas-me as lembranas boas 
e dizes que, nas que deixas, 
grandes culpas me perdoas.

Eu estava, que o no nego, 
sem ver, sem me lembrar nada: 
foste-me fazer to cego 
que de a glria passada 
me mandas fazer emprego.

E, para ver que passou, 
me vendes um vidro raro, 
por onde veja bem claro 
o bem. Mas, se me deixou, 
por que mo vendes to caro?

Oh, que bem! Quem nunca o vira! 
Oh, que ser! Quem nunca fora! 
Falso Deus, que a quem o adora 
mais depressa se retira 
para as sombras donde mora!

No  este o desejado 
(que passou) Bem to contino, 
que at tinha de divino 
deixar que fosse esperado, 
como do justo, do indino.

Onde aquele dia  j 
em que o sol alegre vi? 
Se escuro ou claro estar? 
E, porque fugiu de mi, 
quanto mundo alegrar?

Essas horas que passaram 
to ledas, adonde vo? 
Ai, e em que parte sero? 
Que, pois tal vento levaram, 
quem sabe se tornaro"

Que  de aqueles medos leves 
e as honestas cobardias, 
risos e lgrimas breves? 
Que  do bem daqueles dias, 
contra calmas, contra neves?

Onde  lanada a manh? 
A noite adonde parou? 
E o ar, que brando assoprou 
por dentro da nuvem v, 
que tempestade o levou?

Aquela serenidade 
da vida antiga e ditosa, 
quem a roubou desta idade? 
E quem de cousa saudosa 
tolher-nos quer a saudade?

Logo, se eu saudoso for 
de tal vida eternamente, 
acha-me disculpa a gente, 
porque s vezes mata a dor, 
e de justa no se sente.

Oh Terra Sio chamada, 
de cujo p tive vida, 
se da sorte me s vedada, 
nunca outra terra nacida 
a meus ossos d morada!

Da alta esfera em que se encerra, 
me arrebate o fogo ou vento! 
Morra no estranho elemento, 
mas no caia em outra terra 
nem cinza, nem pensamento!

Tu, por mais que lide a morte, 
sers sempre doce e quista, 
mas que o ferro ou pese, ou corte; 
vingue-se a sorte da vista, 
que o Amor me vinga da sorte.

Sers o perptuo ofcio 
dos olhos d'alma queixosa, 
que, em vtima saborosa, 
se oferea em sacrifcio 
nas aras da f piedosa.

Mas neste campo de errnia, 
de injria e de maldio, 
que merece a ceremnia 
de se lembrar de Sio 
quem padece em Babilnia?

Quem se lembra na misria, 
no califica a vontade; 
lembrar na prosperidade, 
essa lembrana  matria 
de toda a amiga verdade.

Aqui donde se injuria 
a desgraa como o erro, 
e a razo, presa  porfia, 
tem por certo ser o ferro 
o menos da tirania.

Que mereo em me lembrar 
de ti, cidade a melhor, 
pois, se a lembrana no for, 
como poderei levar 
nem a mi, nem minha dor?

a s hora daquelas 
val por muitos padeceres. 
Inda assi, tomara hav-las, 
mas que um s dos seus prazeres 
custara cem mil cautelas.

Ou que elas no foram tais, 
ou, se o fossem, no passassem, 
ou pelo menos tornassem 
algas suas iguais, 
que as passadas consolassem.

Mas olhai, que vo desejo 
pedir ao tempo a tornada! 
Como se a vida que vejo 
no fora j to cansada, 
que a passada  de sobejo!

Passa um dia, o outro vem, 
tal como essoutro passado. 
No  o tempo o mudado: 
um foi bom, e outro tambm; 
o gosto, si, que  trocado.

Aquele Sol me aquentou, 
e esse mesmo Sol me aquenta: 
e a La, que alumiou, 
se se mingua, ou se acrecenta, 
a mesma la ficou.

Passou um Janeiro frio, 
voltou um Maro amoroso, 
chegou Maio, e foi ventoso, 
veio Agosto, e fez Estio, 
e entrou Novembro chuvoso.

Torna a vir outro Janeiro, 
eis este como aquele ano, 
na ordem por derradeiro; 
porm no gosto ou no engano 
nenhum dia tem praceiro.

O vero da mocidade 
pouco e leve tempo dura ; 
e aquela alegre verdura, 
vista despois de outra idade, 
j parece sombra escura.

Logo, se  nossa a mudana, 
no jogo do tempo vo, 
quem se mata ou quem se cansa 
pela Desesperao, 
por se vingar da Esperana?

Calidade atroz da vida 
no ter hora de firmeza; 
e tendo tal natureza, 
ser to buscada e to crida 
da nossa forte frequeza!

Pois quem no mesmo perigo 
quis fazer seu certo assento, 
que se queixa do castigo? 
Leve consigo o tormento, 
pois traz o engano consigo.

Um s modo descobriu, 
contra o tempo e a mudana, 
Amor, que  leve balana 
das gentes no consentiu 
Desejo nem Esperana.

Esta s virtude rara, 
mal usada dos humanos, 
de sorte o bem nos depara, 
que, detendo o p dos anos, 
para imortais nos prepara.

Ditoso seja e louvado 
justamente o pensamento 
que, na glria e no tormento, 
se deixa ser governado 
pelas mos do entendimento.

Ame-se o que  para amar; 
veja-se o que  para ver; 
ver s para venerar, 
venerar para entender, 
entender para louvar.

Se conheces no alto objeito 
o valor e a perfeio, 
no temas a sujeio, 
porque do culto e respeito 
nace a justa adorao.

Transportar no amado esprito, 
unindo  pura vontade, 
e l por modo esquisito, 
enxirir na eternidade 
como infinito o finito;

Cativar o fero bruto 
da liberdade atrevida, 
e a razo, sempre subida 
sbolo desejo astuto, 
viver triunfante e temida.

Quem nos diz que o mundo  
injusto? Quem nos diz tal, 
contra o que nele se v, 
nem cr nos males do Mal, 
nem nos bens do Bem tem f.

Amar o bem da Virtude 
 virtude e reverncia, 
Agora gema a insolncia, 
que eu fico que ao bem no mude 
da f para a contingncia.

Nem as duras confuses, 
nem os casos, nem os erros, 
nem cadeias, nem grilhes, 
nem ausncias, nem desterros, 
mudam do peito as razes.

Pois quem no deserto escuro 
viva luz lhe apareceu, 
que o bom caminho lhe deu, 
porque suspira o seguro, 
se ele prprio a luz perdeu?

Mas, se a segue, se conjura 
a noite contra ele em vo, 
pois, por mais que cerre escura, 
firme passa o corao 
e a vontade vai segura.

Contra o pinheiro do monte 
forceje o Sul indinado, 
que, quando muito forado, 
se a rama lhe muda a fronte, 
o tronco nunca  mudado.

Os tristes bens da riqueza 
ramos so, podem dobrar 
c'o peso; mas a firmeza 
sempre no home h-de estar 
de a prpria natureza.

Os braos da adversidade 
quando lutam c'o varo, 
fortes e destros sero; 
porm a contrariedade 
faz-se ao corpo,  alma no.

Que era o que dizer queria 
com to valentes razes 
Epicteto (entre aflies), 
quando a Jpiter pedia 
nova chuva de paixes?

Quando Anaxarco ante o povo 
pisado foi duramente 
que bradava ao Rei e  gente, 
seno: Pisa-me de novo, 
porque Anaxarco no sente?

Que era Comdia e gro festa 
dos Deuses, disse o gentil, 
a mais justa e mais honesta, 
ver um peito varonil 
lutar co'a sorte molesta.

Cruel condio que ps 
a Fortuna em seu morgado, 
que no possa ser herdado 
jamais, acerca de ns, 
sem mudana e sem cuidado!

Quem se chama venturoso, 
sem contenda e sem perigo. 
ele pode ser mimoso; 
mas viver sem enemigo, 
no  sinal de ditoso.

Eu persigo ao meu vezinho 
ele ao seu, continuamente, 
e ordenou o cu providente 
que pelo prprio caminho 
a mi me encontre o parente.

Conto o Pai, conto o Irmo. 
Homem s? s enemigo. 
Oh fruto da maldio! 
Os dentes de Cadmo antigo 
somos os filhos de Ado.

Senhor!, que forjaste logo 
mais gldio que nos moleste, 
se aos homens nos homens deste 
dura fome, ingrato fogo, 
guerra crua e mortal peste?

Que fome to desumana, 
que fogo to comedor, 
ou que guerra to tirana, 
que peste, como o furor 
desta vil fraqueza humana?!

Aquele Rei que lanou 
Daniel aos lees a hora, 
(e qual se clemncia fora) 
com que mistrio mandou 
cerrar-lhe as portas por fora?

Que nos quis dizer ento, 
seno que, no lago escuro, 
Daniel, se tem razo, 
ele o dava por seguro 
das feras, dos homens no?

O tlamo conjugal, 
olhai por que o troca aquele: 
pela vida e pela pele 
do manso e pobre animal, 
que as merece melhor que ele!

Essa alimria escondida 
com que doesto o afrontou, 
para lhe tirar a vida? 
C'o trabalho que a buscou 
entre a espinhosa guarida.

Contra a lebre sempre ousado, 
do lobo foge que avoa; 
grande pesca na alagoa, 
e, em chegando ao Mar salgado, 
treme do Mar, porque zoa.

Redes, laos, esparrelas, 
que enganos e que falsia! 
E metido o zelo entre elas... 
Senhor, manda-nos um dia, 
em que a luz mostre as cautelas!

J com risos e brandura 
assigura a paz da gente; 
peonha menos urgente 
nas guas da fonte pura 
deixa a fingida serpente.

Manda tu contra este mal 
(pois s das verdades centro) 
a vista divinal; 
ou, para ns vermos dentro, 
faze os peitos de cristal.

Do crocodrilo do Nilo 
exclamarn os naturais, 
porque, chamando com ais, 
mata como crocodrilo 
quando criana o buscais.

Que dissera Plnio agora 
 vista no do deserto, 
quando to certo lhe fora 
que o crocodrilo mais certo 
entre ns nas cortes mora?

Triste idade fraudulenta, 
donde todo o mal respira 
e a verdade se retira, 
porque os campos que apascenta 
lh'os vem pastando a mentira.

Foge tu, pelos pressgios 
do que vs l nas areas, 
gozando como sufrgios 
pelos ecos das sereas 
o escarmento dos naufrgios.

Deixa a doutrina do dano, 
no fies da contingncia, 
e adora com reverncia, 
antes que o do Desengano, 
o templo da Providncia.

Se vs arder o casal 
ou do parente ou do amigo, 
teme-te da sorte igual; 
que, se ele vira o perigo, 
nunca o dano fora tal.

Mas tu, mas eu que faremos, 
se ns mesmos fabricamos 
o cavalo que adoramos 
e dentro d'alma metemos 
o fogo em que nos queimamos?

Qual Snon nos fez o dano, 
com que indstria ou que profia, 
quem traou, Grego ou Troiano, 
seno nossa fantesia 
a traa do nosso engano?

Quem te obriga a levantar 
altas torres sobre o vento? 
Quem lhe deu ao pensamento 
as asas para voar, 
seno teu prprio ardimento?

Ento, se a cera oportuna 
no sau, e te desterra 
a luz do Sol importuna, 
quando caies sobre a terra 
porque infamas a Fortuna?

Fortuna, no, providncia 
 da mo que o mundo rege, 
por mais que o esprito forceje, 
pr-lhe tudo em contingncia, 
para que nada deseje.

Aquele sempre temer, 
aquele nunca acertar, 
aquele nada entender, 
aquele tanto enganar, 
que outra cousa quer dizer?

Quantas vezes, persuadido 
da f dos olhos, errei, 
e quantas vezes busquei 
rosas no campo florido, 
onde s serpes achei!

E quantas, bem diferente, 
temendo-me dos abrolhos, 
caminhada impaciente, 
e contra o voto dos olhos 
fui parar ditosamente!

Ai de quem se persuade 
da teima do pensamento, 
e para julgar o intento 
manda assentar a Vontade 
no trono do Entendimento!

Tal o processo seria 
qual do juiz a eleio: 
a prova ser profia, 
as rezes, a sem-razo, 
e a sentena, tirania.

Eis-me aqui, sem diferena: 
doutro tal juiz que elejo 
executado me vejo, 
e por outro tal sentena 
que foi dar o meu desejo.

Eu, carregado de ferros, 
ele, de lstimas feas, 
ambos pagamos os erros; 
eu, arrastando as cadeas, 
ele, chorando os desterros.

Cada dia exprimentada 
nova dor, nova penria; 
e, entre os golpes desta fria, 
apenas a  passada, 
quando j chega outra injria.

A Enveja, a Detraco, 
a Fraude, o Engano, o Temor, 
a Dvida, a Confuso, 
a Indignao, o Rigor, 
sobretudo a Sem-razo.

Logo, com que confiana, 
Sio amado e propcio, 
achar posso um leve indcio 
que me assigure a esperana 
no fumo do sacrifcio?

Pois  j fora que viva 
nesta escravido incauta 
e manda a Fortuna esquiva, 
que enterrada fique a frauta 
e a liberdade cativa.

Alto Senhor, sempiterno, 
sem primeiro e sem segundo, 
em cujo peito profundo 
consiste o comum governo 
deste mundo e desse mundo

Permita teu ser divino 
mostrar-lhe a via e a verdade 
quele esprito indino 
que vai  tua cidade, 
miservel peregrino!

Pe-lhe diante a esperana; 
acompanha-o c'o Temor; 
acrecenta-lhe o Valor; 
manda afastar a Lembrana: 
caminhar vencedor.

Tu , que s fogo e que s coluna, 
d luz e d fortaleza 
contra essa fora importuna 
das trevas da Natureza 
e dos braos da Fortuna.

Mas, pois que tenho acabado 
quanto l cantei ao vento, 
fique a voz ao esquecimento, 
e c'o canto sepultado, 
fique tambm o instrumento.

E, se eu, por vida cruel, 
idolatrar contra ti, 
 Jerusalm fiel, 
dure eternamente em mi 
a confuso de Babel! 

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