CLOGAS

A a Dama:

FRONDOSO e DURIANO, pastores

Cantando por um vale docemente, 

deciam dous pastores, quando Febo 

no reino de Neptuno se escondia. 


De idade, cada um era mancebo, 

mas velho no cuidado, e descontente 

do que lhe ele causava parecia. 


O que cada um dizia, 

lamentando seu mal, seu duro Fado, 

no sou eu to ousado 

que o ouse a cantar sem vossa ajuda; 


porque, se a minha ruda 

frauta, deste amor vosso for dina, 

posse escusar a fonte cabalina.

Em vs tenho Helicon, tenho Pegaso; 


em vs tenho Calope, em vs Talia 

e as outras sete irms do fero Marte; 


em vs perde Minerva sua valia; 


em vs esto os sonos de Parnaso; 


das Pirides em vs se encerra a arte. 


Coa mais pequena parte, 

Senhora, que me deis da ajuda vossa, 

podeis fazer que eu possa 

escrever ao sol resplandecente; 


podeis fazer que a gente 

em mim do gro poder vosso se espante 

e que vossos louvores sempre cante.

Podeis fazer que crea de hora em hora 

o nome lusitano, e faa enveja 

a Esmirna, que de Homero se engrandece. 


Podeis fazer tambm que o mundo veja 

soar na rude frauta o que a sonora 

ctara mantuana se merece. 


J agora me parece 

que podem comear os meus pastores 

tratar de seus amores; 


porque, ainda que presentes no estejam 

as que eles ver desejam, 

mudana do lugar, menos de estado, 

no muda um corao de seu cuidado.

J deixava dos montes a altera 

e nas salgadas ondas se escondia 

o sol, quando Frondoso e Duriano, 

ao longo de um ribeiro que corria 

pola mais fresca parte da verdura, 

claro, suave e manso, todo o ano, 

lamentando seu dano, 

vinha j recolhendo o manso gado. 


E um estando calado, 

enquanto um pouco o outro se queixava, 

aps ele tornava 

a dizer de seu mal o que sentia; 


e, enquanto ele falava, o outro ouvia.

Vinham-se assi queixando aos penedos, 

aos silvestres montes e aspereza, 

que quase de seus males se doam. 


Ali as pedras perdiam sua dureza; 


ali os correntes rios estar quedos, 

prontos a suas queixas, pareciam; 


e se as que podiam 

estes males curar, que elas causavam, 

o ouvido lhe negavam 

por perderem de todo a esperana; 


mas eles, que mudana 

de amor com tantos males no faziam, 

falando inda com elas lhes diziam:

FRONDOSO

Isto  o que aquela verdadeira 

f, com que te amei sempre, merecia, 

sem nunca te deixar um s momento? 


Como, cruel Belisa, te esquecia 

um mal cuja esperana derradeira 

em ti se tinha posto seu assento? 


No vias meu tormento? 


No vias tu a f com que te amava? 


Porque no te abrandava 

este amor que me tu to mal pagaste? 


Mas, pois j me deixaste 

coa esperana de ti toda perdida, 

perca, quem te perdeu, tambm a vida.

DURIANO

Se os males que por ti tenho sofrido 

-  Silvana, em meus males to constante! 
- 

quiseras que algu' hora te dissera, 

ainda que de duro diamante 

fora to cruel peito endurecido, 

creio que a piadade te movera. 


J agora em branda cera 

os montes so tornados e os penedos; 


e os rios, que esto quedos, 

sentiram meus suspiros, minhas queixas. 


Tu s, cruel, me deixas, 

que s, mais que montes e penedos, dura, 

e fugitiva mais que a gua pura.

FRONDOSO

Onde est aquela fala, que soa, 

se com seu doce tom que me chegava, 

a avivar-me os espritos cansados? 


Onde est o olhar brando, que cegava 

o sol resplandecente ao meio-dia? 


Onde esto os cabelos delicados 

que, ao vento espalhados, 

o ouro escureciam, e a mim matavam? 


E a quantos os olhavam 

causavam tambm novos acidentes? 


Porque, cruel, consentes, 

que goze outro a glria a mim devida? 


Perca, quem te perdeu, tambm a vida.

DURIANO

No vejo bem j que a meu mal espere, 

seno se  esperar que morte dura 

enfim me venha dar tua saudade. 


Vejo faltar-me a tua fermosura; 


a vontade me diz que desespere, 

contradiz-me a razo esta vontade. 


Diz que na beldade 

em quem mostrou o cabo a natureza, 

no h tanta crueza 

que um to firme amor desprezar queira 

e a f verdadeira; 


mas tu, que de razo nunca curaste, 

porque era dar-me a vida, ma tiraste.

FRONDOSO

A quem, Belisa ingrata, te entregaste? 


A quem deste, cruel, a fermosura, 

que s a meu tormento se devia? 


Porque a f deixaste, firme e pura? 


Porque to sem respeito me trocaste 

por quem s nem olhar-te merecia? 


E o bem que te queria, 

que nunca perderei seno por morte, 

no  de maior sorte 

que quanto a cega gente estima e preza? 


Se a tua crueza 

foi nisto contra mim endurecida: 


perca, quem te perdeu, tambm a vida.

DURIANO

Levaste-me meu bem num s momento; 


levaste-me com ele, juntamente; 


de cobr-lo jamais a confiana; 


deixaste-me, em lugar dele, somente 

a continua dor, e um tormento, 

um mal em que no pode haver mudana. 


Tu, que eras a esperana 

dos males que me tu, cruel, causaste, 

de todo te trocaste, 

com Amor conjurada em minha morte. 


Porm, se minha sorte 

consente que por ti seja causada, 

morte no foi mais bem-aventurada.

FRONDOSO

No naceste de alga pedra dura; 


no te gerou alga tigre hircana; 


no foi tua criao entre a rudeza. 


A quem, cruel, saste desumana? 


No Cu formada foi tua fermosura, 

onde a mesma brandura e natureza; 


esta tua dureza 

donde teve princpio, ou a tomaste? 


Porque, dura, enjeitaste 

um verdadeiro amor que tu bem vias, 

a f, que conhecias, 

por outra de ti nunca conhecida? 


Perca, quem te perdeu, tambm a vida.

DURIANO

Vai-se co seu pastor o manso gado, 

porque de amor entende aquela parte 

que a bruta Natureza lhe ensina. 


O rstico leo sen nenha arte 

do instinto natural s ensinado, 

aonde sente amor, ali se inclina. 


E tu, que de divina 

no tens menos que Vnus e Cupido, 

porque sequer co ouvido 

um amar verdadeiro no socorres? 


Ou porque te no corres 

que te vena o leo em piadade, 

se Vnus no te vence na beldade?

FRONDOSO

A mim no me faltava o que se preza 

entre os celestes deuses, que formaram 

a tua mais que humana fermosura; 


em mim os voluntrios Cus faltaram; 


em mim se perverteu a natureza 

da cruel, fermosa criatura. 


Mas pois, Belisa dura, 

que do mais alto Cu a ns vieste, 

e em peito celeste 

um tal contrrio pde aposentar-se, 

no  contrrio achar-se 

tamanha f to mal agradecida. 


Perca, quem te perdeu, tambm a vida.

DURIANO

Por ti, a noite escura me contenta; 


por ti, o claro dia me avorrece; 


abrolhos para mi so frescas flores; 


a doce filomela me entristece; 


todo o contentamento me atormenta 

com a contemplao de teus amores; 


as festas dos pastores, 

que podem alegrar toda a tristeza. 


Em mim tua crueza 

faz que o mal cada hora v dobrando. 


 cruel! 
At quando 

durar em ti um tal avorrecimento? 


E a vida, em mi, que sofre tal tormento?

FRONDOSO

Fugiste de um amor to conhecido, 

fugiste de a f to clara e firme, 

e seguiste a quem nunca conheceste, 

no por fugir de Amor, mas por fugir-me; 


que bem vias que tinha merecido 

o amor que tu a outrem concedeste. 


A mim no me fizeste 

nenha sem-razo, que bem conheo 

que tanto no mereo; 


fizeste-a quele bem, firme e sincero, 

que sabes que te quero, 

em lhe tirar a glria merecida. 


Perca, quem te perdeu, tambm a vida.

DURIANO

Crece cada hora em mim mais o cuidado, 

e vejo que em ti crece juntamente 

cada hora mais de mim o esquecimento. 


 Silvana cruel, porque consente 

o teu feminil peito delicado 

esquecer-lhe um to spero tormento? 


Tal avorrecimento 

merece um capital teu inimigo; 


no j'eu, que s contigo 

estou contente, e nada mais desejo, 

se alga hora te vejo. 


Tu s um s bem meu, a s glria, 

que nunca se me aparta da memria.

FRONDOSO

Olhos que viram j tua fermosura; 


vida que s de ver-te se sustinha; 


vontade, que em ti era transformada; 


a alma que a tua em si s tinha, 

to unida consigo quanto a pura 

alma co dbil corpo est pegada, 

e agora apartada 

te v de si com tal apartamento... 


Qual ser seu tormento? 


Qual ser aquele mal que tem presente? 


Maior  que o que sente 

o triste corpo na ltima partida. 


Perca, quem te perdeu, tambm a vida.

DURIANO

Regendo noutro tempo o manso gado, 

tangendo minha frauta nestes vales, 

passava a doce vida alegremente. 


No sentia o tormento destes males; 


menos sentia o mal deste cuidado, 

que tudo ento em mim era contente. 


Agora, no somente 

desta vida suave me apartaste, 

mas outra me deixaste 

que, ao duro mal que sinto c no peito, 

me tem j to afeito 

que sinto j por glria minha pena; 


por natureza, o mal que me condena:

Juntamente viver compridos anos 

os Fadas te concedem, que quiseram 

ajuntar-te com tal contentamento. 


Pois para ti os bens todos naceram, 

tormentos para mim, males e danos, 

logra tu s teu bem; 
eu, meu tormento. 


Nenhum apartamento, 

Belisa, me far deixar de amar-te, 

porque em nenha parte 

poders nunca estar sem mim a hora. 


Consente pois agora 

que, em pago desta f to conhecida, 

perca, quem te perdeu; 
tambm a vida.

DURIANO

Veja-te eu, crua, amar quem te desame, 

porque saibas que cousa  ser amada 

de quem tu avorreces e desprezas. 


Veja-te eu ser ainda desprezada 

de quem tu mais desejas que te ame, 

por que sintas em ti tuas cruezas; 


sintas tuas durezas, 

e quanto pode o seu cruel efeito 

num corao sujeito. 


Porque, em sentindo o mal que eu sinto agora, 

espero que algu' hora 

faa o teu prprio mal de mim lembrar-te, 

j que no pde o meu nunca abrandar-te.

FRONDOSO

Mil anos de tormento me parece 

cada hora que sem ti e sem esperana 

vivo de poder mais tornar a ver-te. 


Sustenta-me esta vida tua lembrana; 


a vida sobre tudo me entristece; 


a vida antes perdera que perder-te. 


Mas eu, se por querer-te, 

um bem que em ti s tem seu firme assento 

padece tal tormento 

que inda espera por ti quem te desame, 

ou ao menos te ame 

com algum falso amor ou f fingida, 

perca, quem te perdeu, tambm a vida.

DURIANO

Ento, cruel, vers se te merece 

com tamanho desprezo ser tratada 

a alma, que de amar-te, s se preza. 


Mas como podes tu ser desprezada, 

se o menos que em ti fora, se parece, 

abrandar pode montes e aspereza? 


Porque se a Natureza 

em ti o remate ps da fermosura, 

qual ser a pedra dura 

que a teu valor resista brandamente? 


Quanto mais fraca gente, 

que ao humano parecer no se defende, 

e a mesma Vnus deusa ao teu se rende?

FRONDOSO

E pois f verdadeira, amor perfeito, 

tormento desigual e vida triste, 

junta com um contino sofrimento 

e em mal, em que todo o mal consiste, 

no puderam mover teu duro peito 

a amostrares sequer contentamento 

de veres meu tormento; 


mas antes isto tudo desprezaste, 

e a outrem te entregaste, 

por no me ficar nada em que esperasse, 

seno quando acabasse 

a vida, que a meu mal e to comprida, 

perca, quem te perdeu, tambm a vida.

DURIANO

Longo curso de tempo, e apartado 

lugar, a um corao que est entregue 

no podem apartar de seu intento. 


Porque foges, cruel, a quem te segue? 


No vs que teu fugir  escusado, 

que sem mim nunca ests um s momento? 


Nenhum apartamento 

- inda que a alma do corpo se aparte - , 

poder ausentar-te 

desta alma triste que, continuamente, 

em si te tem presente. 


Torna, cruel; 
no fujas a quem te ama: 


vem dar a morte ou vida a quem te chama.

A noite escura, triste e tenebrosa, 

que j tinha estendido o negro manto, 

de escuridade a terra toda enchendo, 

fez pr a estes pastores fim ao canto, 

que ao longo da ribeira deleitosa 

vinham seu manso gado recolhendo. 


Se aquilo que eu pretendo 

deste trabalho haver, que  todo vosso, 

Senhora, alcanar posso, 

no ser muito haver tambm a glria 

e o lauro da vitria, 

que Virglio procura e haver pretende, 

pois o mesmo Virglio a vs se rende.

Prosseguindo a passada, a D. 
Antnio de Noronha:

A quem darei queixumes namorados 

do meu pastor queixoso namorado: 


a branda voz, suspiros magoados, 

a causa por que na alma  magoado? 


De quem sero seus males consolados? 


Quem lhe far devido gasalhado? 


Por partes mil lanando a fantasia, 

busquei na terra estrela que guiasse.

S vs, Senhor, fermoso e excelente, 

especial em graas entre a gente 

meus rudos versos; 
em cuja companhia 

a santa piadade sempre andasse, 

luzente e clara, como a luz do dia, 

que o rude engenho meu me alumiasse; 


em vossas perfeies, gro Senhor, vejo, 

cumprido inda alm o meu desejo.

A vs se dem, a quem junto se h dado 

brandura, mansido, engenho e arte, 

dum esprito divino acompanhado, 

dos sobre-humanos um em toda a parte. 


Em vs as graas todas se ho juntado; 


de vs em outras partes se reparte; 


sois claro raio, sois ardente chama, 

glria e louvor do tempo, asas da fama.

Enquanto aparelho um novo esprito, 

e voz de cisne tal que o mundo espante, 

com que de vs, senhor, em alto grito 

louvores mil em toda a parte cante, 

ouvi o canto agreste em tronco escrito, 

entre vacas e gado petulante; 


que, quando tempo for, em melhor modo 

por vs me ouvir o mundo todo.

As vs querelas, brandas e amorosas, 

sejam de vs tratadas brandamente; 


verdades d'alma pouco venturosas, 

sadas com suspiro vivo e ardente, 

que em vossas mos se entregam valerosas, 

para despois viverem entre a gente, 

chorando sempre a antiga crueldade, 

e os coraes moverem a piadade.

J declinava o sol contra o Oriente, 

e o mais do dia j era passado, 

quando o pastor, co grave mal que sente, 

por dar alvio em parte a seu cuidado, 

se queixa da pastora docemente, 

cuidando de ningum ser escutado. 


Eu, que o ouvi da rvore, escrevia 

as mgoas que cantou; 
e assi dizia:

Ou tu do monte Pndaso s nascida, 

ou mrmore te pariu, fermosa e dura: 


que no pode ser seja concebida 

dureza tal de humana criatura; 


ou s quiais em pedra convertida, 

ou tens de natureza tal ventura; 


porm no fez em ti boa impresso 

tomar-te s de mrmore o corao. 


J esta minha voz rouca e chorosa 

a gente mais remota moveria, 

e se tocasse a veia lacrimosa 

os tigres em Hircnia amansaria. 


Se no foras cruel, quando fermosa, 

meu longo suspirar te abrandaria; 


mas suspirar por ti e bem querer-te 

que fazem, seno mais endurecer-te?

Se deixaras vencer a crueldade 

de tua to perfeita fermosura, 

um pouco viras bem minha vontade, 

e viras esta f to limpa e pura, 

porventura que houveras piadade 

e tivera eu quiais melhor ventura. 


Mas nunca achei melhor tua beleza, 

seno com ver-se em ti tua dureza.

J um peito abrandara que no sente 

meu duro e grave mal, segundo  forte; 


se decera ao inferno fero e ardente 

movera a piadade a mesma morte. 


Se a gota de gua brandamente 

abranda um penedo duro e forte, 

como lgrimas tantas no faro 

um pequeno sinal num corao?

Na testa tenho a fonte viva d' gua, 

que por meus olhos tristes se derrame; 


no peito est de fogo na viva frgoa, 

que tudo em si converte e tudo inflama; 


Amor, ao derredor, por maior mgoa, 

voando, mais acende a ardente chama. 


E, se qus ver se ardentes so seus tiros, 

olha se so ardentes meus suspiros.

Quando rumor algum grande se sente, 

que se acende fogo em casa, ou torre, 

de pura compaixo vai toda a gente 

gritando: 
gua ao fogo! e cada um corre; 


assi anda meu peito em chama ardente, 

e coa gua dos olhos se socorre; 


que quem me abrasa outra gua me defende, 

porque com esta o fogo mais se acende.

Quando o sol sai l no Oriente 

o seu antigo curso comeando, 

fermoso, intenso, puro e refulgente, 

o monte, campo, mar, tudo alegrando; 


quando de ns se esconde no ponente, 

e noutras terras sai, alumiando; 


sempre, enquanto d ao mundo giro, 

por ti meus olhos choram e eu suspiro.

Caminha o dia todo o caminhante, 

vem, acabado, a noite em que descansa; 


trabalha na tormenta o mareante, 

goza o dia sereno e de bonana; 


recobra o ano frtil e abundante 

na terra o lavrador, se nela cansa: 


mas eu, de meu trabalho e mal to forte, 

tormento espero, enfim, e crua morte.

Co ouvir meu mal, as rosas matutinas, 

de d de mim, se cerram e emurchecem; 


co meu suspiro ardente, as cores finas 

perdem o cravo e lrio, e no florecem. 


Coa roxa aurora, as plidas boninas, 

em vez de se alegrarem, se entristecem; 


deixa seu canto Progne e Filomena; 


que mais lhe di que a sua a minha pena.

Responde o monte cncavo a meus ais, 

e tu, como spide, cerras-lhe o ouvido; 


as rvores do campo, os animais, 

mostram sentir meu mal sem ter sentido; 


e a ti, as minhas dores desiguais 

no movem esse peito endurecido. 


Por mais e mais que chamo, no respondes, 

e quanto mais te busco, mais te escondes.

Naquela parte adonde costumavas 

apacentar teus olhos e teu gado, 

ali, onde mil vezes me mostravas 

ser eu de ti o pasto desejado, 

mil vezes te busquei por ver se davas 

ainda algum descanso a meu cuidado. 


No campo em vo te busco, e busco o monte, 

qual o ferido cervo busca a fonte.

Este lugar de ti desamparado, 

com cujas sombras frias j folgaste, 

agora triste e escuro e j tornado; 


que todo o bem contigo nos levaste. 


Tu eras nosso sol mais desejado; 


no temos luz despois que nos deixaste. 


Toma, meu claro sol! 
Vem j, meu bem! 


Qual  o Josu que te detm?

Despois que deste vale te apartaste, 

no pace o branco gado, com secura; 


secou-se o campo ds que lhe negaste 

des teus fermosos olhos a luz pura; 


secou-se a fonte donde j te olhaste, 

quando melhor que agora, spera e dura. 


Nega, sem ti, a terra dando gritos, 

pasto s cabras e leite aos cabritos.

Sem ti, doce cruel minha inimiga, 

a clara luz escura me parece; 


este ribeiro, quando Amor me obriga, 

com meu chorar por ti contino crece. 


No h fera que a fome no persiga, 

nem o campo sem ti j no florece; 


cegos esto meus olhos, j no vem, 

pois que no podem ver meu claro bem.

O campo, como de antes, no se esmalta 

de bobinas azuis, brancas, vermelhas; 


no chove ao pasto j, que h de gua falta; 


as mansas e pacficas ovelhas 

sem ti perecem e o Cu tambm lhes falta; 


no acham flor as melfluas abelhas; 


com lgrimas que manam dos meus olhos 

produze a terra j speros abrolhos.

Torna pois j, pastora, a este prado, 

e restituirs esta alegria; 


alegrars o monte, o campo, o gado, 

alegrars tambm a fonte fria. 


Torna, vem j, meu sol to desejado, 

faze esta noite escura em claro dia; 


e alegra j esta magoada vida, 

toda em tua ausncia consumida.

Vem, como quando o raio eminente 

do nosso horizonte que, escondido, 

deixa um certo temor  mortal gente, 

que causa ver o orbe escurecido; 


e quando torna a vir, claro e luzente, 

alegra o mundo todo entristecido. 


Assi  para mim tua luz pura 

claro sol; 
e, ausente, noite escura.

Tu, esquecida j do bem passado e 

e do primeiro amor que me mostraste, 

teu corao de mim tens apartado, 

e o lugar tambm desamparaste. 


No te quero eu a ti mais que a meu gado? 


No sou eu mesmo aquele que tu amaste? 


Pois onde mereci to gro desvio? 


Ouve-me, pois me vs j morto e frio.

Bem vs que por Amor se move tudo, 

e no h quem de Amor se veja isento: 


o animal mais simples, baixo e rudo; 


o de mais levantado pensamento; 


at debaixo de gua o peixe mudo, 

l tem d'Amor tambm seu movimento; 


a ave, que no ar cantando voa 

e tambm por outra ave se efeioa.

A msica do leve passarinho, 

que sem concerto algum solta e derrama, 

saltando de raminho em raminho, 

cantando com amor suspira e chama, 

't achar no amado e doce ninho 

aquele a quem busca e a quem ama, 

descansa do trabalho que tomara 

tendo se seu descanso em quem achara.

A fera que  mais fera, e o leo 

sempre acha outro leo, e outra fera, 

em que possa empregar a afeio 

que lhe a conversao no peito gera; 


tambm sabe sentir sua paixo, 

tambm suspira, morre e desespera, 

acena, salta, brada, ferve e geme 

e, no temendo nada; 
Amor s teme.

O cervo que, escondido e emboscado, 

temendo o cobioso caador, 

est na selva, monte, bosque ou prado, 

ali onde est e vive, vive amor. 


De amor e de temor acompanhado, 

com justa causa, amor tem e temor: 


temor de quem ali feri-lo vinha; 


e amor a quem j ferido o tinha.

Se o animal insensvel, que no sente, 

tambm sente de amor a frecha dura, 

porque te no abranda o fogo ardente, 

que procede de tua fermosura? 


Porque escondes a luz do sol a gente, 

que nesses olhos trazes, bela e pura, 

mais bela, mais suave e mais fermosa 

que o lrio, o jasmim, o cravo, a rosa?

Pode ser, se me viras, que sentiras 

ver desfazer um peito em triste pranto; 


e bem pouco fizeras, se me viras, 

j que eu s por te ver, suspiro tanto. 


As mgoas e suspiros que me ouviras 

te puderam mover a grande espanto, 

a dor, a piadade, a sentimento; 


e mais, que para mim  meu tormento.

Os pensamentos vos, que o vento leve; 


o suspirar em vo tambm ao vento; 


o esperar a calma, a chuva, a neve, 

e no te poder ver em s momento, 

tormento  que somente a ti se deve. 


E se pode inda haver maior tormento, 

quem te viu e se v de si ausente, 

muito mais passar mais levemente.

Faz nossa a pedra dura em sua dureza 

coa gua que lhe toca brandamente; 


abranda o ferro forte a fortaleza, 

se lhe toca tambm o fogo ardente; 


s em ti no conheo a natureza, 

que a ser de pedra, ferro, ou de serpente, 

j teu peito cruel fora desfeito 

do fogo e das lgrimas que deito.

Quando a fermosa Aurora mostra a fronte, 

alegra toda a terra, vendo o dia; 


quando Febo aparece no horizonte, 

manifesta tambm grande alegria; 


contente como o gado ao p do monte, 

alegre vai beber a fonte fria. 


Tudo contente est, alegre tudo; 


eu s, s, pensativo, triste e mudo.

Se da alma e do corpo tens a palma, 

e do corpo sem alma no tens d, 

h d do corpo s, que est sem alma, 

pois sem alma no vive o corpo s. 


Na chama, no ardor, no fogo e calma, 

na afeio, no querer eu sou um s; 


no achars vontade mais cativa; 


nem outra como a tua to esquiva.

Se te apartas por no ouvir meu rogo, 

onde estiveres te hei-de importunar; 


posto que v por gua, ferro ou fogo, 

contigo em toda a parte me hs-de achar; 


que a chama que me abrasa  de tal fogo 

que, enquanto eu vivo for, h-de durar; 


e o n que me tem preso  de tal sorte 

que no se h-de soltar em vida ou morte.

Neste meu corao sempre estars 

enquanto a alma estiver com ele unida; 


meu sprito tambm possuirs, 

despois que a alma do corpo for partida; 


por mais e mais que faas, no fars 

que no te ame nesta e na outra vida. 


Impossvel ser que, eternamente, 

ests de mim ausente, estando ausente.

C me acompanhar tua memria, 

se o rio que se diz do esquecimento 

da minha no borrar to longa histria, 

to grave mal, to duro apartamento. 


At que eu te veja entrar na glria 

viverei num contino sentimento; 


inda ento ser - se isto ser possa - 

servir esta alma minha l a vossa.

Aqui, com grave dor, com triste acento, 

deu o triste pastor fim a seu canto; 


co rosto baixo, e alto o pensamento, 

seus olhos comearam novo pranto; 


mil vezes fez parar no ar o vento 

e apiadou no Cu o coro santo; 


as circunstantes selvas se abaixaram 

de d das tristes mgoas que escutaram.

Com a mo na face, e encostado, 

em sua dor to enlevado estava 

que, como em grave sono sepultado, 

no viu o sol que j no mar entrava. 


Berrando anda em roda o manso gado, 

que o seguro curral j desejava; 


nas covas as raposas, e em seus ninhos 

se recolhem os simples passarinhos.

J sobre um seco ramo estava posto 

o mocho co funesto e triste pranto, 

a cujo som o pastor ergueu o rosto 

e viu a terra envolta em negro manto. 


Quebrando ento o fio a seu gosto, 

mas no quebrando o fio a seu pranto, 

para melhor cuidar em seu cuidado, 

levou para os currais o manso gado.

