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Cames

As armas e os bares assinalados
(Os Lusadas, Canto I, 1 a 15



					As armas e os bares assinalados
					Que, da Ocidental praia Lusitana,
					Por mares nunca de antes navegados
					Passaram ainda alm da Taprobana
					E em perigos e guerras esforados
					Mais do que prometia a fora humana,
					E entre gente remota edificaram
					Novo Reino, que tanto sublimaram;


					E tambm as memrias gloriosas
					Daqueles Reis que foram dilatando
					A F, o Imprio, e as terras viciosas
					De frica e de sia andaram devastando,
					E aqueles que por obras valerosas
					Se vo da lei da Morte libertando:
					Cantando espalharei por toda parte,
					Se a tanto me ajudar o engenho e arte.


					Cessem do sbio Grego e do Troiano
					As navegaes grandes que fizeram;
					Cale-se de Alexandro e de Trajano
					A fama das vitrias que tiveram;
					Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
					A quem Neptuno e Marte obedeceram.
					Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
					Que outro valor mais alto se alevanta.


					E vs, Tgides minhas, pois criado
					Tendes em mi um novo engenho ardente
					Se sempre, em verso humilde, celebrado
					Foi de mi vosso rio alegremente,
					Dai-me agora um som alto e sublimado,
					Um estilo grandloco e corrente,
					Por que de vossas guas Febo ordene
					Que no tenham enveja s de Hipocrene.


					Dai-me ha fria grande e sonorosa,
					E no de agreste avena ou frauta ruda,
					Mas de tuba canora e belicosa,
					Que o peito acende e a cor ao gesto muda;
					Dai-me igual canto aos feitos da famosa
					Gente vossa, que a Marte tanto ajuda;
					Que se espalhe e se cante no Universo,
					Se to sublime preo cabe em verso.


					E vs,  bem nascida segurana
					Da Lusitana antiga liberdade,
					E no menos certssima esperana
					De aumento da pequena Cristandade;
					Vs,  novo temor da Maura lana,
					Maravilha fatal da nossa idade,
					Dada ao mundo por Deus (que todo o mande,
					Pera do mundo a Deus dar parte grande);


					Vs, tenro e novo ramo florecente,
					De ha rvore, de Cristo mais amada
					Que nenha nascida no Ocidente,
					Cesrea ou Cristianssima chamada,
					(Vede-o no vosso escudo, que presente 
					Vos amostra a vitria j passada,
					Na qual vos deu por armas e deixou 
					As que Ele pera Si na Cruz tomou);


					Vs, poderoso Rei, cujo alto Imprio
					O Sol, logo em nascendo, v primeiro; 
					V-o tambm no meio do Hemisfrio,
					E, quando dece, o deixa derradeiro; 
					Vs, que esperamos jugo e vituprio
					Do torpe lsmaelita cavaleiro,
					Do Turco Oriental e do Gentio
					Que inda bebe o licor do santo Rio:


					Inclinai por um pouco a majestade,
					Que nesse tenro gesto vos contemplo, 
					Que j se mostra qual na inteira idade, 
					Quando subindo ireis ao eterno Templo; 
					Os olhos da real benignidade
					Ponde no cho: vereis um novo exemplo 
					De amor dos ptrios feitos valerosos,
					Em versos devulgado numerosos.


					Vereis amor da ptria, no movido
					De prmio vil, mas alto e quase eterno; 
					Que no  prmio vil ser conhecido
					Por um prego do ninho meu paterno.
					Ouvi: vereis o nome engrandecido
					Daqueles de quem sois senhor superno,
					E julgareis qual  mais excelente,
					Se ser do mundo Rei, se de tal gente.


					Ouvi: que no vereis com vs faanhas, 
					Fantsticas, fingidas, mentirosas, 
					Louvar os vossos, como nas estranhas Musas, 
					de engrandecer-se desejosas:
					As verdadeiras vossas so tamanhas,
					Que excedem as sonhadas, fabulosas,
					Que excedem Rodamonte e o vo Rugeiro, 
					E Orlando, inda que fora verdadeiro.


					Por estes vos darei um Nuno fero,
					Que fez ao Rei e ao Reino tal servio,
					Um Egas e um Dom Fuas, que de Homero 
					A ctara para eles s cobio;
					Pois polos Doze Pares dar-vos quero
					Os Doze de Inglaterra e o seu Magrio; 
					Dou-vos tambm aquele ilustre Gama, 
					Que para si de Eneias toma a fama.


					Pois, se a troco de Carlos, Rei de Frana, 
					Ou de Csar, quereis igual memria, 
					Vede o primeiro Afonso, cuja lana 
					Escura faz qualquer estranha glria;
					E aquele que a seu Reino a segurana 
					Deixou, co a grande e prspera vitria; 
					Outro Joanne, invicto cavaleiro;
					O quarto e quinto Afonsos e o terceiro.


					Nem deixaro meus versos esquecidos 
					Aqueles que, nos Reinos l da Aurora,
					Se fizeram por armas to subidos,
					Vossa bandeira sempre vencedora:
					Um Pacheeo fortssimo e os temidos 
					Almeidas, por quem sempre o Tejo chora, 
					Albuquerque terribil, Castro forte,
					E outros em quem poder no teve a morte.


					E, enquanto eu estes canto, e a vs no posso, 
					Sublime Rei, que no me atrevo a tanto, 
					Tomai as rdeas vs do Reino vosso:
					Dareis matria a nunca ouvido canto.  
					Comecem a sentir o peso grosso
					(Que polo mundo todo faa espanto)
					De exrcitos e feitos singulares
					De frica as terras e do Oriente os mares.








O Jornal de Poesia abre a home-page de Lus de Cames com o Episdio de Dona Ins de Castro, talvez a mais popular pgina do Lusadas. Depois incluiremos alguma coisa da Lrica. Pedimos aos leitores sugestes de outras passagens do Lusadas para inclu-las tambm. 



Episdio de Dona Ins de Castro

Os Lusadas

Canto III, 118 a 135





					Passada esta to prspera vitria,
					Tornado Afonso  Lusitana Terra,
					A se lograr da paz com tanta glria
					Quanta soube ganhar na dura guerra,
					O caso triste e dino da memria,
					Que do sepulcro os homens desenterra,
					Aconteceu da msera e mesquinha
					Que despois de ser morta foi Rainha.


					Tu, s tu, puro amor, com fora crua,
					Que os coraes humanos tanto obriga,
					Deste causa  molesta morte sua,
					Como se fora prfida inimiga.
					Se dizem, fero Amor, que a sede tua
					Nem com lgrimas tristes se mitiga,
					 porque queres, spero e tirano,
					Tuas aras banhar em sangue humano.


					Estavas, linda Ins, posta em sossego,	
					De teus anos colhendo doce fruito,
					Naquele engano da alma, ledo e cego,
					Que a fortuna no deixa durar muito,
					Nos saudosos campos do Mondego,
					De teus fermosos olhos nunca enxuito,
					Aos montes insinando e s ervinhas
					O nome que no peito escrito tinhas.


					Do teu Prncipe ali te respondiam
					As lembranas que na alma lhe moravam,
					Que sempre ante seus olhos te traziam,
					Quando dos teus fernosos se apartavam;
					De noite, em doces sonhos que mentiam,
					De dia, em pensamentos que voavam;
					E quanto, enfim, cuidava e quanto via
					Eram tudo memrias de alegria.


					De outras belas senhoras e Princesas
					Os desejados tlamos enjeita,
					Que tudo, enfim, tu, puro amor, desprezas,
					Quando um gesto suave te sujeita.
					Vendo estas namoradas estranhezas,
					O velho pai sesudo, que respeita
					O murmurar do povo e a fantasia
					Do filho, que casar-se no queria,


					Tirar Ins ao mundo determina,
					Por lhe tirar o filho que tem preso,
					Crendo co sangue s da morte ladina
					Matar do firme amor o fogo aceso.
					Que furor consentiu que a espada fina,
					Que pde sustentar o grande peso
					Do furor Mauro, fosse alevantada
					Contra ha fraca dama delicada?


					Traziam-na os horrficos algozes
					Ante o Rei, j movido a piedade;
					Mas o povo, com falsas e ferozes
					Razes,  morte crua o persuade.
					Ela, com tristes e piedosas vozes,
					Sadas s da mgoa e saudade
					Do seu Prncipe e filhos, que deixava,
					Que mais que a prpria morte a magoava,


					Pera o cu cristalino alevantando, 
					Com lgrimas, os olhos piedosos 
					(Os olhos, porque as mos lhe estava atando  
					Um dos duros ministros rigorosos); 
					E despois, nos mininos atentando, 
					Que to queridos tinha e to mimosos, 
					Cuja orfindade como me temia,
					Pera o av cruel assi dizia:


					(Se j nas brutas feras, cuja mente
					Natura fez cruel de nascimento,
					E nas aves agrestes, que somente 
					Nas rapinas areas tem o intento, 
					Com pequenas crianas viu a gente 
					Terem to piedoso sentimento 
					Como co a me de Nino j mostraram, 
					E cos irmos que Roma edificaram:


					 tu, que tens de humano o gesto e o peito 
					(Se de humano  matar ha donzela, 
					Fraca e sem fora, s por ter sujeito 
					O corao a quem soube venc-la), 
					A estas criancinhas tem respeito, 
					Pois o no tens  morte escura dela; 
					Mova-te a piedade sua e minha, 
					Pois te no move a culpa que no tinha.


					E se, vencendo a Maura resistncia,
					A morte sabes dar com fogo e ferro,
					Sabe tambm dar vida, com clemncia,
					A quem peja perd-la no fez erro.
					Mas, se to assi merece esta inocncia,
					Pe-me em perptuo e msero desterro,
					Na Ctia fria ou l na Lbia ardente,
					Onde em lgrimas viva eternamente.


					Pe-me onde se use toda a feridade,
					Entre lees e tigres, e verei
					Se neles achar posso a piedade
					Que entre peitos humanos no achei.
					Ali, co amor intrnseco e vontade
					Naquele por quem mouro, criarei
					Estas relquias suas que aqui viste,
					Que refrigrio sejam da me triste.)


					Queria perdoar-lhe o Rei benino, 
					Movido das palavras que o magoam; 
					Mas o pertinaz povo e seu destino 
					(Que desta sorte o quis) lhe no perdoam.  
					Arrancam das espadas de ao fino 
					Os que por bom tal feito ali apregoam.  
					Contra ha dama,  peitos carniceiros, 
					Feros vos amostrais e cavaleiros?
	

					Qual contra a linda moa Polycena, 
					Consolao extrema da me velha, 
					Porque a sombra de Aquiles a condena, 
					Co ferro o duro Pirro se aparelha; 
					Mas ela, os olhos, com que o ar serena 
					(Bem como paciente e mansa ovelha), 
					Na msera me postos, que endoudece, 
					Ao duro sacrifcio se oferece:


					Tais contra Ins os brutos matadores,
					No colo de alabastro, que sustinha
					As obras com que Amor matou de amores
					Aquele que despois a fez Rainha,
					As espadas banhando e as brancas flores,
					Que ela dos olhos seus regadas tinha,
					Se encarniavam, fervidos e irosos,
					No futuro castigo no cuidosos.


					Bem puderas,  Sol, da vista destes,
					Teus raios apartar aquele dia,
					Como da seva mesa de Tiestes,
					Quando os filhos por mo de Atreu comia !
					Vs,  cncavos vales, que pudestes
					A voz extrema ouvir da boca fria,
					O nome do seu Pedro, que lhe ouvistes,
					Por muito grande espao repetistes.


					Assi como a bonina, que cortada
					Antes do tempo foi, cndida e bela,
					Sendo das mos lacivas maltratada
					Da minina que a trouxe na capela,
					O cheiro traz perdido e a cor murchada:
					Tal est, morta, a plida donzela,
					Secas do rosto as rosas e perdida
					A branca e viva cor, co a doce vida.


					As filhas do Mondego a morte escura
					Longo tempo chorando memoraram,
					E, por memria eterna, em fonte pura
					As lgrimas choradas transformaram.
					O nome lhe puseram, que inda dura,
					Dos amores de Ins, que ali passaram.
					Vede que fresca fonte rega as flores,
					Que lgrimas so a gua e o nome Amores.



