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Cames
Os Lusadas
(Canto Primeiro)

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				1 - 	Assunto do Poema
					As armas e os bares assinalados,
					Que da ocidental praia Lusitana,
					Por mares nunca de antes navegados,
					Passaram ainda alm da Taprobana,
					Em perigos e guerras esforados,
					Mais do que prometia a fora humana,
					E entre gente remota edificaram
					Novo Reino, que tanto sublimaram;


				2					E tambm as memrias gloriosas
					Daqueles Reis, que foram dilatando
					A F, o Imprio, e as terras viciosas
					De frica e de sia andaram devastando;
					E aqueles, que por obras valerosas
					Se vo da lei da morte libertando;
					Cantando espalharei por toda parte,
					Se a tanto me ajudar o engenho e arte.


				3					Cessem do sbio Grego e do Troiano
					As navegaes grandes que fizeram;
					Cale-se de Alexandro e de Trajano
					A fama das vitrias que tiveram;
					Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
					A quem Neptuno e Marte obedeceram:
					Cesse tudo o que a Musa antgua canta,
					Que outro valor mais alto se alevanta.
					Invocao s Ninfas do Tejo


				4					E vs, Tgides minhas, pois criado
					Tendes em mim um novo engenho ardente,
					Se sempre em verso humilde celebrado
					Foi de mim vosso rio alegremente,
					Dai-me agora um som alto e sublimado,
					Um estilo grandloquo e corrente,
					Porque de vossas guas, Febo ordene
					Que no tenham inveja s de Hipoerene.


				5					Dai-me uma fria grande e sonorosa,
					E no de agreste avena ou frauta ruda,
					Mas de tuba canora e belicosa,
					Que o peito acende e a cor ao gesto muda;
					Dai-me igual canto aos feitos da famosa
					Gente vossa, que a Marte tanto ajuda;
					Que se espalhe e se cante no universo,
					Se to sublime preo cabe em verso.


				6 - 	Dedicatria ao Rei Dom Sebastio
					E vs,  bem nascida segurana
					Da Lusitana antgua liberdade,	
					E no menos certssima esperana
					De aumento da pequena Cristandade;
					Vs,  novo temor da Maura lana,
					Maravilha fatal da nossa idade,
					Dada ao mundo por Deus, que todo o mande,
					Para do mundo a Deus dar parte grande;


				7					Vs, tenro e novo ramo florescente
					De uma rvore de Cristo mais amada
					Que nenhuma nascida no Ocidente,
					Cesrea ou Cristianssima chamada;
					(Vede-o no vosso escudo, que presente
					Vos amostra a vitria j passada,
					Na qual vos deu por armas, e deixou
					As que Ele para si na Cruz tomou)


				8					Vs, poderoso Rei, cujo alto Imprio
					O Sol, logo em nascendo, v primeiro;
					V-o tambm no meio do Hemisfrio,
					E quando desce o deixa derradeiro;
					Vs, que esperamos jugo e vituprio
					Do torpe Ismaelita cavaleiro,
					Do Turco oriental, e do Gentio,
					Que inda bebe o licor do santo rio;


				9					Inclinai por um pouco a majestade,
					Que nesse tenro gesto vos contemplo,
					Que j se mostra qual na inteira idade,
					Quando subindo ireis ao eterno templo;
					Os olhos da real benignidade
					Ponde no cho: vereis um novo exemplo
					De amor dos ptrios feitos valerosos,
					Em versos divulgado numerosos.


				10 - 	Amor da Ptria
					Vereis amor da ptria, no movido
					De prmio vil, mas alto e quase eterno:
					Que no  prmio vil ser conhecido
					Por um prego do ninho meu paterno.
					Ouvi: vereis o nome engrandecido
					Daqueles de quem sois senhor superno,
					E julgareis qual  mais excelente,
					Se ser do mundo Rei, se de til gente.
	

				11 - 	Os Grandes Feitos dos Portugueses
					Ouvi, que no vereis com vs faanhas,
					Fantsticas, fingidas, mentirosas,
					Louvar os vossos, como nas estranhas
					Musas, de engrandecer-se desejosas:
					As verdadeiras vossas so tamanhas,
					Que excedem as sonhadas, fabulosas;
					Que excedem Rodamonte, e o vo Rugeiro,
					E Orlando, inda que fora verdadeiro,


				12 - 	Os Heris Portugueses
					Por estes vos darei um Nuno fero, 
					Que fez ao Rei o ao Reino tal servio, 
					Um Egas, e um D. Fuas, que de Homero 
					A ctara para eles s cobio.
					Pois pelos doze Pares dar-vos quero
					Os doze de Inglaterra, e o seu Magrio;
					Dou-vos tambm aquele ilustre Gama,
					Que para si de Eneias toma a fama.


				13					Pois se a troco de Carlos, Rei de Frana,
					Ou de Csar, quereis igual memria,
					Vede o primeiro Afonso, cuja lana
					Escura faz qualquer estranha glria;
					E aquele que a seu Reino a segurana
					Deixou com a grande e prspera vitria;
					Outro Joane, invicto cavaleiro,
					O quarto e quinto Afonsos, e o terceiro.


				14					Nem deixaro meus versos esquecidos
					Aqueles que nos Reinos l da Aurora
					Fizeram, s por armas to subidos,
					Vossa bandeira sempre vencedora:
					Um Pacheco fortssimo, e os temidos
					Almeidas, por quem sempre o Tejo chora;
					Albuquerque terrbil, Castro forte,
					E outros em quem poder no teve a morte.


				15 - 	Incitao a Dom Sebastio
					 para Novos Feitos Gloriosos
					E enquanto eu estes canto, e a vs no posso,
					Sublime Rei, que no me atrevo a tanto,
					Tomai as rdeas vs do Reino vosso:
					Dareis matria a nunca ouvido canto.
					Comecem a sentir o peso grosso
					(Que pelo mundo todo faa espanto)
					De exrcitos e feitos singulares,
					De frica as terras, e do Oriente os maros,


				16					Em vs os olhos tem o Mouro frio,
					Em quem v seu excio afigurado;
					S com vos ver o brbaro Gentio
					Mostra o pescoo ao jugo j inclinado;
					Tethys todo o cerleo senhorio
					Tem para vs por dote aparelhado;
					Que afeioada ao gesto belo e tenro,
					Deseja de comprar-vos para genro.


				17					Em vs se vm da olmpica morada
					Dos dois avs as almas c famosas,
					Uma na paz anglica dourada,
					Outra pelas batalhas sanguinosas;
					Em vs esperam ver-se renovada
					Sua memria e obras valerosas;
					E l vos tem lugar, no fim da idade,
					No templo da suprema Eternidade.


				18					Mas enquanto este tempo passa lento
					De regerdes os povos, que o desejam,
					Dai vs favor ao novo atrevimento,
					Para que estes meus versos vossos sejam;
					E vereis ir cortando o salso argento
					Os vossos Argonautas, por que vejam
					Que so vistos de vs no mar irado,
					E costumai-vos j a ser invocado.


				19 - 	A Armada do Gama em Alto Mar
					J no largo Oceano navegavam, 
					As inquietas ondas apartando;
					Os ventos brandamente respiravam,
					Das naus as velas cncavas inchando;
					Da branca escuma os mares se mostravam
					Cobertos, onde as proas vo cortando
					As martimas guas consagradas,
					Que do gado de Prteo so cortadas


				20 - 	Conclio dos Deuses no Olimpo
					Quando os Deuses no Olimpo luminoso,
					Onde o governo est da humana gente,
					Se ajuntam em conclio glorioso
					Sobre as cousas futuras do Oriente.
					Pisando o cristalino Cu formoso,
					Vm pela Via-Lctea juntamente,
					Convocados da parte do Tonante,
					Pelo neto gentil do velho Atlante.


				21					Deixam dos sete Cus o regimento,
					Que do poder mais alto lhe foi dado,
					Alto poder, que s co'o pensamento
					Governa o Cu, a Terra, e o Mar irado.
					Ali se acharam juntos num momento
					Os que habitam o Arcturo congelado,
					E os que o Austro tem, e as partes onde
					A Aurora nasce, e o claro Sol se esconde.


				22 - 	Jpiter
					Estava o Padre ali sublime e dino,
					Que vibra os feros raios de Vulcano,
					Num assento de estrelas cristalino,
					Com gesto alto, severo e soberano.
					Do rosto respirava um ar divino,
					Que divino tornara um corpo humano;
					Com uma coroa e ceptro rutilante,


				23 - 	De outra pedra mais clara que diamante.
					Em luzentes assentos, marchetados
					De ouro e de perlas, mais abaixo estavam
					Os outros Deuses todos assentados,
					Como a razo e a ordem concertavam:
					Precedem os antguos mais honrados;
					Mais abaixo os menores se assentavam;
					Quando Jpiter alto, assim dizendo,
					C'um tom de voz comea, grave e horrendo:


				24 - 	Fala de Jpiter
					"Eternos moradores do luzente
					Estelfero plo, e claro assento,
					Se do grande valor da forte gente
					De Luso no perdeis o pensamento,
					Deveis de ter sabido claramente,
					Como  dos fados grandes certo intento,
					Que por ela se esqueam os humanos
					De Assrios, Persas, Gregos e Romanos.


				25 - 	Mouros e Castelhanos
					"J lhe foi (bem o vistes) concedido
					C'um poder to singelo e to pequeno,
					Tomar ao Mouro forte e guarnecido
					Toda a terra, que rega o Tejo ameno:
					Pois contra o Castelhano to temido,
					Sempre alcanou favor do Cu sereno.
					Assim que sempre, enfim, com fama e glria,
					Teve os trofus pendentes da vitria.


				26 - 	Viriato e Sertrio					''Deixo, Deuses, atrs a fama antiga,
					Que coa gente de Rmulo alcanaram,
					Quando com Viriato, na inimiga
					Guerra romana tanto se afamaram;
					Tambm deixo a memria, que os obriga
					A grande nome, quando alevantaram
					Um por seu capito, que peregrino
					Fingiu na cerva esprito divino.


				27 - 	Fala de Jpiter
					"Agora vedes bem que, cometendo
					O duvidoso mar num lenho leve,
					Por vias nunca usadas, no temendo
					De f rico e Noto a fora, a mais se atreve: 
					Que havendo tanto j que as partes vendo 
					Onde o dia  comprido e onde breve, 
					Inclinam seu propsito e porfia
					A ver os beros onde nasce o dia.


				28					"Prometido lhe est do Fado eterno,
					Cuja alta Lei no pode ser quebrada,
					Que tenham longos tempos o governo
					Do mar, que v do Sol a roxa entrada.
					Nas guas tm passado o duro inverno;
					A gente vem perdida e trabalhada;
					J parece bem feito que lhe seja
					Mostrada a nova terra, que deseja.


				29					"E porque, como vistes, tm passados
					Na viagem to speros perigos,
					Tantos climas e cus experimentados,
					Tanto furor de ventos inimigos,
					Que sejam, determino, agasalhados
					Nesta costa africana, como amigos.
					E tendo guarnecida a lassa frota,
					Tornaro a seguir sua longa rota."


				30 - 	Oposio de Baco
					Estas palavras Jpiter dizia,
					Quando os Deuses por ordem respondendo,   
					Na sentena um do outro diferia,
					Razes diversas dando e recebendo.
					O padre Baco ali no consentia
					No que Jpiter disse, conhecendo
					Que esquecero seus feitos no Oriente,
					Se l passar a Lusitana gente.


				31 - 	Despeito e Inveja de Baco
					Ouvido tinha aos Fados que viria
					Uma gente fortssima de Espanha
					Pelo mar alto, a qual sujeitaria
					Da ndia tudo quanto Dris banha,
					E com novas vitrias venceria
					A fama antiga, ou sua, ou fosse estranha.
					Altamente lhe di perder a glria,
					De que Nisa celebra inda a memria.


				32					V que j teve o Indo sojugado,
					E nunca lhe tirou Fortuna, ou caso,
					Por vencedor da ndia ser cantado
					De quantos bebem a gua de Parnaso.
					Teme agora que seja sepultado
					Seu to clebre nome em negro vaso
					D'gua do esquecimento, se l chegam
					Os fortes Portugueses, que navegam.


				33 - 	Vnus, Favorvel aos Portugueses
					Sustentava contra ele Vnus bela,
					Afeioada  gente Lusitana,
					Por quantas qualidades via nela
					Da antiga to amada sua Romana;
					Nos fortes coraes, na grande estrela,
					Que mostraram na terra Tingitana,
					E na lngua, na qual quando imagina,
					Com pouca corrupo cr que  a Latina.


				34					Estas causas moviam Citereia,
					E mais, porque das Parcas claro entende
					Que h de ser celebrada a clara Deia,
					Onde a gente belgera se estende.
					Assim que, um pela infmia, que arreceia,
					E o outro pelas honras, que pretende,
					Debatem, e na porfia permanecem;
					A qualquer seus amigos favorecem.


				35					Qual Austro fero, ou Breas na espessura
					De silvestre arvoredo abastecida,
					Rompendo os ramos vo da mata escura,
					Com mpeto e braveza desmedida;
					Brama toda a montanha, o som murmura,
					Rompem-se as folhas, ferve a serra erguida:
					Tal andava o tumulto levantado,
					Entre os Deuses, no Olimpo consagrado.


				36 - 	Marte
					Mas Marte, que da Deusa sustentava
					Entre todos as partes em porfia,
					Ou porque o amor antigo o obrigava,
					Ou porque a gente forte o merecia,
					De entre os Deuses em p se levantava:
					Merencrio no gesto parecia;
					O forte escudo ao colo pendurado
					Deitando para trs, medonho e irado,


				37					A viseira do elmo de diamante
					Alevantando um pouco, mui seguro,
					Por dar seu parecer, se ps diante
					De Jpiter, armado, forte e duro:
					E dando uma pancada penetrante,
					Com o conto do basto no slio puro,
					O Cu tremeu, e Apolo, de torvado,
					Um pouco a luz perdeu, como enfiado.


				38 - 	Fala de Marte
					E disse assim: " Padre, a cujo imprio
					Tudo aquilo obedece, que criaste,
					Se esta gente, que busca outro hemisfrio,
					Cuja valia, e obras tanto amaste,
					No queres que padeam vituprio,
					Como h j tanto tempo que ordenaste,
					No onas mais, pois s juiz direito,
					Razes de quem parece que  suspeito.


				39 - 	Fala de Marte
					"Que, se aqui a razo se no mostrasse
					Vencida do temor demasiado,
					Bem fora que aqui Baco os sustentasse, 
					Pois que de Luso vem, seu to privado; 
					Mas esta teno sua agora passe,
					Porque enfim vem de estmago danado; 
					Que nunca tirar alheia inveja
					O bem, que outrem merece, e o Cu deseja.


				40					"E tu, Padre de grande fortaleza, 
					Da determinao, que tens tomada, 
					No tornes por detrs, pois  fraqueza
					Desistir-se da cousa comeada.
					Mercrio, pois excede em ligeireza
					Ao vento leve, e  seta bem talhada,
					Lhe v mostrar a terra, onde se informe
					Da ndia, e onde a gente se reforme."
		

				41 - 	Decide Jpiter a favor dos Portugueses
					Como isto disse, o Padre poderoso,
					A cabea inclinando, consentiu
					No que disse Mavorte valeroso,
					E nctar sobre todos esparziu.
					Pelo caminho Lcteo glorioso
					Logo cada um dos Deuses se partiu,
					Fazendo seus reais acatamentos,
					Para os determinados aposentos.


				42 - 	Entre Madagascar e Moambique
					Enquanto isto se passa na formosa
					Casa etrea do Olimpo onipotente,
					Cortava o mar a gente belicosa,
					J l da banda do Austro e do Oriente,
					Entre a costa Etipica e a famosa
					Ilha de So Loureno; e o Sol ardente
					Queimava ento os Deuses, que Tifeu
					Com o temor grande em peixes converteu.



				43					To brandamente os ventos os levavam,
					Como quem o cu tinha por amigo:
					Sereno o ar, e os tempos se mostravam
					Sem nuvens, sem receio de perigo.
					O promontrio Prasso j passavam,
					Na costa de Etipia, nome antigo,
					Quando o mar descobrindo lhe mostrava
					Novas ilhas, que em torno cerca e lava.


				44					Vasco da Gama, o forte capito, 
					Que a tamanhas empresas se oferece, 
					De soberbo e de altivo corao, 
					A quem Fortuna sempre favorece, 
					Para se aqui deter no v razo, 
					Que inabitada a terra lhe parece: 
					Por diante passar determinava; 
					Mas no lhe sucedeu como cuidava.


				45 - 	Primeiro Contato com os Mouros
					Eis aparecem logo em companhia
					Uns pequenos batis, que vm daquela
					Que mais chegada  terra parecia,
					Cortando o longo mar com larga vela.
					A gente se alvoroa, e de alegria
					No sabe mais que olhar a causa dela.
					Que gente ser esta, em si diziam,
					Que costumes, que Lei, que Rei teriam?


				46 - 	Descrio
					As embarcaes eram, na maneira,
					Mui veloces, estreitas e compridas:
					As velas, com que, vm, eram de esteira 
					Dumas folhas de palma, bem tecidas;
					A gente da cor era verdadeira,
					Que Faeton, nas terras acendidas,
					Ao mundo deu, de ousado, o no prudente: 
					O Pado o sabe, o Lampetusa o sente.


				47 - 	Costumes
					De panos de algodo vinham vestidos, 
					De vrias cores, brancos e listrados: 
					Uns trazem derredor de si cingidos, 
					Outros em modo airoso sobraados:
					Da cinta para cima vm despidos;
					Por armas tm adargas o terados;
					Com toucas na cabea; e navegando, 
					Anafis sonoros vo tocando.


				48 - 	Ancoram os Portugueses
					Co'os panos e co'os braos acenavam
					As gentes Lusitanas, que esperassem;
					Mas j as proas ligeiras se inclinavam
					Para que junto s ilhas amainassem.
					A ,ente e marinheiros trabalhavam,
					Como se aqui os trabalhos se acabassem;
					Tomam velas; amaina-se a verga alta;
					Da ncora, o mar ferido, em cima salta.


				49 - 	Vm a Bordo os Mouros
					No eram ancorados, quando a gente 
					Estranha pelas cordas j subia. 
					No gesto ledos vm, e humanamente 
					O Capito sublime os recebia:
					As mesas manda pr em continente;
					Do licor que Lieo prantado havia
					Enchem vasos de vidro, e do que deitam,
					Os de Faeton queimados nada enjeitam.


				50 - 	Informaes Dadas pelos Portugueses
					Comendo alegremente perguntavam,	
					Pela Arbica lngua, donde vinham,
					Quem eram, de que terra, que buscavam,
					Ou que partes do mar corrido tinham?
					Os fortes Lusitanos lhe tornavam
					As discretas respostas, que convinham:
					"Os Portugueses somos do Ocidente,
					Imos buscando as terras do Oriente.


				51 - 	Dizem os Portugueses Quem So
							e o Que Buscam
					"Do mar temos corrido e navegado
					Toda a parte do Antrtico e Calisto,
					Toda a costa Africana rodeado,
					Diversos cus e terras temos visto;
					Dum Rei potente somos, to amado,
					To querido de todos, e benquisto,
					Que no no largo mar, com leda fronte,
					Mas no lago entraremos de Aqueronte.


				52					"E por mandado seu, buscando andamos
					A terra Oriental que o Indo rega;
					Por ele, o mar remoto navegamos,
					Que s dos feios focas se navega.
					Mas j razo parece que saibamos,
					Se entre vs a verdade no se nega,
					Quem sois, que terra  esta que habitais,
					Ou se tendes da ndia alguns sinais?"
		

				53 - 	Informaes Dadas pelos Mouros
					"Somos, um dos das ilhas lhe tornou,
					Estrangeiros na terra, Lei e nao;
					Que os prprios so aqueles, que criou
					A natura sem Lei e sem razo.
					Ns temos a Lei certa, que ensinou
					O claro descendente de Abrao
					Que agora tem do mundo o senhorio,
					A me Hebria teve, e o pai Gentio.
					Informaes. A Ilha de Moambique.


				54					"Esta ilha pequena, que habitamos,	
					em toda esta terra certa escala	
					De todos os que as ondas navegamos
					De Quloa, de Mombaa e de Sofala;
					E, por ser necessria, procuramos,
					Como prprios da terra, de habit-la;
					E por que tudo enfim vos notifique,
					Chama-se a pequena ilha Moambique.


				55 - 	Prometem ao Gama um Piloto para a ndia
					"E j que de to longe navegais,
					Buscando o Indo Idaspe e terra ardente,
					Piloto aqui tereis, por quem sejais
					Guiados pelas ondas sabiamente.
					Tambm ser bem feito que tenhais
					Da terra algum refresco, e que o Regente
					Que esta terra governa, que vos veja,
					E do mais necessrio vos proveja."


				56 - 	Retiram-se os Mouros
					Isto dizendo, o Mouro se tornou	
					A seus batis com toda a companhia;	
					Do Capito e gente se apartou
					Com mostras de devida cortesia.
					Nisto Febo nas guas encerrou,
					Co'o carro de cristal, o claro dia,
					Dando cargo  irm, que alumiasse
					O largo mundo, enquanto repousasse.


				57 - 	Alegria a Bordo
					A noite se passou na lassa frota
					Com estranha alegria, e no cuidada, 
					Por acharem da terra to remota
					Nova de tanto tempo desejada.
					Qualquer ento consigo cuida e nota
					Na gente e na maneira desusada,
					E como os que na errada Seita creram, 
					Tanto por todo o mundo se estenderam,


				58					Da Lua os claros raios rutilavam
					Pelas argnteas ondas Neptuninas,
					As estrelas os Cus acompanhavam,
					Qual campo revestido de boninas;
					Os furiosos ventos repousavam
					Pelas covas escuras peregrinas;
					Porm da armada a gente vigiava,
					Como por longo tempo costumava.
				Prepara-se a Armada para Receber a Visita do Regedor


				59					Mas assim como a Aurora marchetada
					Os formosos cabelos espalhou
					No Cu sereno, abrindo a roxa entrada
					Ao claro Hiperinio, que acordou,
					Comea a embandeirar-se toda a armada,
					E de toldos alegres se adornou,
					Por receber com festas e alegria
					O Regedor das ilhas, que partia.


				60 - 	Visita o Regedor a Nau da Gama
					Partia alegremente navegando,
					A ver as naus ligeiras Lusitanas,
					Com refresco da terra, em si cuidando
					Que so aquelas gentes inumanas,
					Que, os aposentos cspios habitando,
					A conquistar as terras Asianas
					Vieram; e por ordem do Destino,
					O Imprio tomaram a Constantino.


				61					Recebe o Capito alegremente
					O Mouro, e toda a sua companhia;
					D-lhe de ricas peas um presente,
					Que s para este efeito j trazia;
					D-lhe conserva doce, e d-lhe o ardente
					No usado licor, que d alegria.
					Tudo o Mouro contente bem recebe;
					E muito mais contente come e bebe.


				62					Est a gente martima de Luso
					Subida pela enxrcia, de admirada,
					Notando o estrangeiro modo e uso,
					E a linguagem to brbara e enleada.
					Tambm o Mouro astuto est confuso,
					Olhando a cor, o trajo, e a forte armada;
					E perguntando tudo, lhe dizia
					"Se por ventura vinham de Turquia?"


				63 - 	Perguntas do Regedor ao Gama
					E mais lhe diz tambm, que ver deseja
					Os livros de sua Lei, preceito eu f,
					Para ver se conforme  sua seja,
					Ou se so dos de Cristo, como Cr.
					E porque tudo note e tudo veja,
					Ao Capito pedia que lhe d
					Mostra das fortes armas de que usavam,
					Quando co'os inimigos pelejavam.


				64 - 	Respostas do Gama
					Responde o valeroso Capito
					Por um, que a lngua escura bem sabia:


Buscam a ndia



					"Dar-te-ei, Senhor ilustre, relao
					De mim, da Lei, das armas que trazia.
					Nem sou da terra, nem da gerao
					Das gentes enojosas de Turquia:
					Mas sou da forte Europa belicosa,
					Busco as terras da ndia to famosa.


				65 - 	So Cristos
					A lei tenho daquele, a cujo imprio 
					Obedece o visbil e nvisbil
					Aquele que criou todo o Hemisfrio, 
					Tudo o que sente, o todo o insensbil; 
					Que padeceu desonra e vituprio, 
					Sofrendo morte injusta e insofrbil, 
					E que do Cu  Terra, enfim desceu, 
					Por subir os mortais da Terra ao Cu.


				66 - 	As Armas de Guerra dos Portugueses
					Deste Deus-Homem, alto e infinito,
					Os livros, que tu pedes no trazia,	
					Que bem posso escusar trazer escrito
					Em papel o que na alma andar devia.
					Se as armas queres ver, como tens dito,
					Cumprido esse desejo te seria;
					Como amigo as vers; porque eu me obrigo,
					Que nunca as queiras ver como inimigo."


				67					Isto dizendo, manda os diligentes
					Ministros amostrar as armaduras:
					Vm arneses, e peitos reluzentes,
					Malhas finas, e lminas seguras,
					Escudos de pinturas diferentes,
					Pelouros, espingardas de ao puras,
					Arcos, e sagitferas aljavas,
					Partazanas agudas, chuas bravas:


				68					As bombas vm de fogo, e juntamente
					As panelas sulfreas, to danosas;
					Porm aos de Vulcano no consente
					Que dem fogo s bombardas temerosas;
					Porque o generoso nimo e valente,
					Entre gentes to poucas e medrosas,
					No mostra quanto pode, e com razo,
					Que  fraqueza entre ovelhas ser leo.


				69 - 	Duplicidade do Regedor
					Porm disto, que o Mouro aqui notou,
					E de tudo o que viu com olho atento
					Um dio certo na alma lhe ficou,
					Uma vontade m de pensamento.
					Nas mostras e no gesto o no mostrou; 
					Mas com risonho e ledo fingimento 
					Trat-los brandamente determina,
					At que mostrar possa o que imagina.


				70 - 	Falsas Promessas
					Pilotos lhe pedia o Capito,
					Por quem pudesse  ndia ser levado;
					Diz-lhe que o largo prmio levaro
					Do trabalho que nisso for tomado.  
					Promete-lhos o Mouro, com teno
					De peito venenoso, e to danado,
					Que a morte, se pudesse, neste dia,
					Em lugar de pilotos lhe daria.


				71					Tamanho o dio foi, e a m vontade,
					Que aos estrangeiros sbito tomou,
					Sabendo ser sequazes da verdade,
					Que o Filho de David nos ensinou.
					 segredos daquela Eternidade,
					A quem juzo algum nunca alcanou!
					Que nunca falte um prfido inimigo
					Aqueles de quem foste tanto amigo!


				72 - 	Retira-se o Regedor
					Partiu-se Disto enfim coa companhia,
					Das naus o falso Mouro despedido,
					Com enganosa e grande cortesia,
					Com gesto ledo a todos, e fingido.
					Cortaram os batis a curta via
					Das guas de Neptuno, e recebido
					Na terra do obsequente ajuntamento
					Se foi o Mouro ao cgnito aposento.


				73 - 	dio de Baco aos Portugueses					Do claro assento etreo o gro Tebano,
					Que da paternal coxa foi nascido,
					Olhando o ajuntamento Lusitano
					Ao Mouro ser molesto e avorrecido,
					No pensamento cuida um falso engano,
					Com que seja de todo destrudo.
					E enquanto isto s na alma imaginava,
					Consigo estas palavras praticava:


				74 - 	Solilquio de Baco
					"Est do fado j determinado,
					Que tamanhas vitrias, to famosas,
					Hajam os Portugueses alcanado
					Das Indianas gentes belicosas.
					E eu s, filho do Padre sublimado,
					Com tantas qualidades generosas, 
					Hei de sofrer que o fado favorea
					Outrem, por quem meu nome se escurea?


				75					"J quiseram os Deuses que tivesse
					O filho de Filipo nesta parte
					Tanto poder, que tudo submetesse
					Debaixo de seu jugo o fero Marte.
					Mas h-se de sofrer que o fado desse
					A to poucos tamanho esforo e arte,
					Que eu co'o gro Macednio, e o Romano,
					Demos lugar ao nome Lusitano?


				76					"No ser assim, porque antes que chegado
					Seja este Capito, astutamente
					Lhe ser tanto engano fabricados
					Que nunca veja as partes do Oriente.
					Eu descerei  Terra, e o indignado
					Peito revolverei da Maura gente;
					Porque sempre por via ir direita
					Quem do oportuno tempo se aproveita."


				77 - 	Disfarce de Baco para Perder os Portugueses
					Isto dizendo, irado e quase insano,
					Sobre a terra africana descendeu,
					Onde vestindo a forma e gesto humano,
					Para o Prasso sabido se moveu.
					E por melhor tecer o astuto engano,
					No gesto natural se converteu
					Dum Mouro, em Moambique conhecido
					Velho, sbio, e co'o Xeque mui valido.


				78 - 	Intrigas de um Mouro Contra os Portugueses
					E entrando assim a falar-lhe a tempo e horas
					A sua falsidade acomodadas,
					Lhe diz como eram gentes roubadoras,
					Estas que ora de novo so chegadas;
					Que das naes na costa moradoras
					Correndo a fama veio que roubadas
					Foram por estes homens que passavam,
					Que com pactos de paz sempre ancoravam.


				79					E sabe mais, lhe diz, como entendido
					Tenho destes cristos sanguinolentos,
					Que quase todo o mar tm destrudo
					Com roubos, com incndios violentos;
					E trazem j de longe engano urdido
					Contra ns; e que todos seus intentos
					So para nos matarem e roubarem,
					E mulheres e filhos cativarem.


				80 - 	Aconselha ao Regedor uma Cilada
					"E tambm sei que tem determinado
					De vir por gua a terra muito cedo
					O Capito dos seus acompanhado,
					Que da tenso danada nasce o medo.
					Tu deves de ir tambm co'os teus armado
					Esper-lo em cilada, oculto e quedo;
					Porque, saindo a gente descuidada,
					Cairo facilmente na cilada.


				81 - 	Outro Estratagema Contra os Portugueses
					"E se inda no ficarem deste jeito
					Destrudos, ou mortos totalmente
					Eu tenho imaginado no conceito
					Outra manha e ardil, que te contente:
					Manda-lhe dar piloto, que de jeito
					Seja astuto no engano, e to prudente,
					Que os leve aonde sejam destrudos,
					Desbaratados, mortos, ou perdidos."


				82					Tanto que estas palavras acabou,
					O Mouro, nos tais casos sbio e velho,
					Os braos pelo colo lhe lanou,
					Agradecendo muito o tal conselho;
					E logo nesse instante concertou
					Para a guerra o belgero aparelho,
					Para que ao Portugus se lhe tornasse
					Em roxo sangue a gua, que buscasse.


				83					E busca mais, para o cuidado engano,
					Mouro, que por piloto  nau lhe mande,
					Sagaz, astuto, e sbio em todo o dano,
					De quem fiar-se possa um feito grande.
					Diz-lhe que acompanhando o Lusitano,
					Por tais costas e mares com ele ande,
					Que, se daqui escapar, que l diante
					V cair onde nunca se alevante.


				84 - 	Vai o Gama a Terra Buscar gua
					J o raio Apolneo visitava
					Os montes Nabatos acendido,
					Quando o Gama, colos seus determinava
					De vir por gua a terra apercebido.
					A gente nos batis se concertava,
					Como se fosse o engano j sabido:
					Mas pode suspeitar-se facilmente,
					Que o corao pressago nunca mente.


				85					E mais tambm mandado tinha a terra,
					De antes, pelo piloto necessrio,
					E foi-lhe respondido em som de guerra,
					Caso do que cuidava mui contrrio;
					Por isto, e porque sabe quanto erra
					Quem se cr de seu prfido adversrio,
					Apercebido vai como podia,
					Em trs batis somente que trazia.


				86 - 	Emboscada dos Mouros					Mas os Mouros que andavam pela praia,
					Por lhe defender a gua desejada,
					Um de escudo embraado e de azagaia,
					Outro de arco encurvado e seta ervada,
					Esperam que a guerreira gente saia,
					Outros muitos j postos em cilada.
					E, porque o caso leve se lhe faa,
					Pem uns poucos diante por negaa,


				87 - 	Escaramua
					Andam pela ribeira alva, arenosa,
					Os belicosos Mouros acenando
					Com a adarga e co'a hstia perigosa,
					Os fortes Portugueses incitando.
					No sofre muito a gente generosa
					Andar-lhe os ces os dentes amostrando.
					Qualquer em terra salta to ligeiro,
					Que nenhum dizer pode que  primeiro.


				88					Qual no corro sanguino o ledo amante,
					Vendo a formosa dama desejada,
					O touro busca, e pondo-se diante,
					Salta, corre, sibila, acena, e brada,
					Mas o animal atroce, nesse instante,
					Com a fronte corngera inclinada,
					Bramando duro corre, e os olhos cerra,
					Derriba, fere e mata, e pe por terra:


				89 - 	Atiram os Portugueses Contra os Mouros
					Eis nos batis o fogo se levanta
					Na furiosa e dura artilharia,
					A plmbea pla mata, o brado espanta,
					Ferido o ar retumba e assovia:
					O corao dos Mouros se quebranta,
					O temor grande o sangue lhe resfria.
					J foge o escondido de medroso,
					E morre o descoberto aventuroso.


				90 - 	Duro Castigo Infligido aos Mouros
					No se contenta a gente Portuguesa,
					Mas seguindo a vitria estrui e mata;
					A povoao, sem muro e sem defesa,
					Esbombardeia, acende e desbarata.
					Da cavalgada ao Mouro j lhe pesa,
					Que bem cuidou compr-la mais barata;
					J blasfema da guerra, e maldizia,
					O velho inerte, e a me que o filho cria.


				91 - 	Fogem os Mouros
					Fugindo, a seta o Mouro vai tirando
					Sem fora, de covarde e de apressado,
					A pedra, o pau, e o canto arremessando;
					D-lhe armas o furor desatinado.
					J a ilha e todo o mais desemparando,
					A terra firme foge amedrontado;
					Passa e corta do mar o estreito brao,
					Que a ilha em torno cerca, em pouco espao


				92					Uns vo nas almadias carregadas,
					Um corta o mar a nado diligente,
					Quem se afoga nas ondas encurvadas,
					Quem bebe o mar, e o deita juntamente.
					Arrombam as midas bombardadas
					Os pangaios subtis da bruta gente:
					Desta arte o Portugus enfim castiga
					A vil malcia, prfida, inimiga.


				93					Tornam vitoriosos para a armada,
					Co'o despojo da guerra e rica presa,
					E vo a seu prazer fazer aguada,
					Sem achar resistncia, nem defesa.
					Ficava a Maura gente magoada,
					No dio antigo mais que nunca acesa;
					E vendo sem vingana tanto dano,
					Somente estriba no segundo engano.


				94 - 	Paz Simulada e Falso Piloto
					Pazes cometer manda arrependido
					O Regedor daquela inqua terra,
					Sem ser dos Lusitanos entendido,
					Que em figura de paz lhe manda guerra;
					Porque o piloto falso prometido,
					Que toda a m teno no peito encerra,
					Para os guiar  morte lhe mandava,
					Como em sinal das pazes que tratava.


				95 - 	Partida de Moambique para Quloa
					O Capito, que j lhe ento convinha
					Tornar a seu caminho acostumado,
					Que tempo concertado e ventos tinha
					Para ir buscar o Indo desejado,
					Recebendo o piloto, que lhe vinha,
					Foi dele alegremente agasalhado;
					E respondendo ao mensageiro a tento,
					As velas manda dar ao largo vento.


				96 - 	O Gama e o Falso Piloto
					Desta arte despedida a forte armada, 
					As ondas de Anfitrite dividia,
					Das filhas de Nereu acompanhada,
					Fiel, alegre e doce companhia.
					O Capito, que no caa em nada
					Do enganoso ardil, que o Mouro urdia,
					Dele mui largamente se informava
					Da ndia toda, e costas que passava.


				97 - 	Falsos Informes do Piloto
					Mas o Mouro, instrudo nos enganos
					Que o malvolo Baco lhe ensinara,
					De morte ou cativeiro novos danos,
					Antes que  ndia chegue, lhe prepara:
					Dando razes dos portos Indianos,
					Tambm tudo o que pede lhe declara,
					Que, havendo por verdade o que dizia,
					De nada a forte gente se temia.


				98					E diz-lhe mais, com o falso pensamento 
					Com que Sinon os Frgios enganou: 
					Que perto est uma ilha, cujo assento 
					Povo antigo cristo sempre habitou.  
					O Capito, que a tudo estava a tento, 
					Tanto com estas novas se alegrou, 
					Que com ddivas grandes lhe rogava, 
					Que o leve  terra onde esta gente estava.


				99 - 	Traio do Piloto
					O mesmo o falso Mouro determina,
					Que o seguro Cristo lhe manda e pede;
					Que a ilha  possuda da malina
					Gente que segue o torpe Mahamede.
					Aqui o engano e morte lhe imagina,
					Porque em poder e foras muito excede
					A Moambique esta ilha, que se chama
					Quloa, mui conhecida pela fama.


				100 - 	Vnus desvia a Frota do Falso Rumo
						em que a Pusera o Piloto
					Para l se inclinava a leda frota;
					Mas a Deusa em Citere celebrada,
					Vendo como deixava a certa rota
					Por ir buscar a morte no cuidada,
					No consente que em terra to remota
					Se perca a gente dela tanto amada.
					E com ventos contrrios a desvia
					Donde o piloto falso a leva e guia.


				101 - 	Nova Insdia do Piloto
					Mas o malvado Mouro, no podendo
					Tal determinao levar avante,
					Outra maldade inqua cometendo,
					Ainda em seu propsito constante,
					Lhe diz que, pois as guas discorrendo
					Os levaram por fora por diante,
					Que outra ilha tem perto, cuja gente
					Eram Cristos com Mouros juntamente.


				102 - 	Chegada  Mombaa
					Tambm nestas palavras lhe mentia,
					Como por regimento enfim levava,
					Que aqui gente de Cristo no havia,
					Mas a que a Mahamede celebrava.
					O Capito, que em tudo o Mouro cria,
					Virando as velas, a ilha demandava;
					Mas, no querendo a Deusa guardadora,
					No entra pela barra, e surge fora.


				103					Estava a ilha  terra to chegada,
					Que um estreito pequeno a dividia;
					Uma cidade nela situada,
					Que na fronte do mar aparecia,
					De nobres edifcios fabricada,
					Como por fora ao longe descobria,
					Regida por um Rei de antiga idade:
					Mombaa  o nome da ilha e da cidade.


				Convite Prfido do Rei de Mombaa ao Gama,
				para que Enfrente a Barra e Desembarque


				104					E sendo a ela o Capito chegado,
					Estranhamente ledo, porque espera
					De poder ver o povo batizado,
					Como o falso piloto lhe dissera,
					Eis vm batis da terra com recado
					Do Rei, que j sabia a gente que era:
					Que Baco muito de antes o avisara,
					Na forma doutro Mouro, que tomara.


				105 - 	Incerteza da Vida Humana
					O recado que trazem  de amigos,
					Mas debaixo o veneno vem coberto;
					Que os pensamentos eram de inimigos,
					Segundo foi o engano descoberto.
					 grandes e gravssimos perigos!
					 caminho de vida nunca certo: 
					Que aonde a gente pe sua esperana,
					Tenha a vida to pouca segurana!


				106					No mar tanta tormenta, e tanto dano,
					Tantas vezes a morte apercebida!
					Na terra tanta guerra, tanto engano,
					Tanta necessidade avorrecida!
					Onde pode acolher-se um fraco humano,
					Onde ter segura a curta vida,
					Que no se arme, e se indigne o Cu sereno
					Contra um bicho da terra to pequeno?




<Picture>
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Cames
Os Lusadas
(Canto Segundo)

<Picture>





				1
					J neste tempo o lcido Planeta,
					Que as horas vai do dia distinguindo, 
					Chegava  desejada e lenta meta,
					A luz celeste s gentes encobrindo,
					E da casa martima secreta
					Lhe estava o Deus Noturno a porta abrindo,
					Quando as infidas gentes se chegaram
					As naus, que pouco havia que ancoraram.



				2 - 	Prfido Convite do Rei de Mombaa ao Gama
					Dentre eles um, que traz encomendado
					O mortfero engano, assim dizia:
					"Capito valeroso, que cortado
					Tens de Neptuno o reino e salsa via,
					O Rei que manda esta ilha, alvoroado
					Da vinda tua, tem tanta alegria,
					Que no deseja mais que agasalhar-te,
					Ver-te, e do necessrio reformar-te.


				3 - 	Prfido Convite ao rei de Mombaa ao Gama
					"E porque est em extremo desejoso
					De te ver, como cousa nomeada,
					Te roga que, de nada receoso,
					Entres a barra, tu com toda armada:
					E porque do caminho trabalhoso
					Trars a gente dbil e cansada,
					Diz que na terra podes reform-la,
					Que a natureza obriga a desej-la.


				4
					"E se buscando vs mercadoria
					Que produze o aurfero Levante,
					Canela, cravo, ardente especiaria,
					Ou droga salutfera e prestante;
					Ou se queres luzente pedraria,
					O rubi fino, o rgido diamante,
					Daqui levars tudo to sobejo
					Com que faas o fim a teu desejo."


				5 - 	Resposta do Gama
					Ao mensageiro o Capito responde
					As palavras do Rei agradecendo:
					E diz que, porque o Sol no mar se esconde,
					No entra para dentro, obedecendo;
					Porm que, como a luz mostrar por onde
					V sem perigo a frota, no temendo,
					Cumprir sem receio seu mandado,
					Que a mais por tal senhor est obrigado.


				6
					Pergunta-lhe depois, se esto na terra
					Cristos, como o piloto lhe dizia;
					O mensageiro astuto, que no erra,
					Lhe diz, que a mais da gente em Cristo cria.
					Desta sorte do peito lhe desterra
					Toda a suspeita e cauta fantasia;
					Por onde o Capito seguramente
					Se fia da infiel e falsa gente.


				7 - 	Manda o Gama a Terra Dois Degredados
							a Colher Informaes
					E de alguns que trazia condenados
					Por culpas e por feitos vergonhosos,
					Por que pudessem ser aventurados
					Em casos desta sorte duvidosos,
					Manda dous mais sagazes, ensaiados,
					Por que notem dos Mouros enganosos
					A cidade e poder, e por que vejam
					Os Cristos, que s tanto ver desejam.


				8 - 	Presentes para o Rei de Mombaa
					E por estes ao Rei presentes manda,
					Por que a boa vontade, que mostrava,
					Tenha firme, segura, limpa e branda;
					A qual bem ao contrrio em tudo estava.
					J a companhia prfida e nefanda
					Das naus se despedia e o mar cortava:
					Foram com gestos ledos e fingidos,
					Os dous da frota em terra recebidos.


				9 - 	Os Dois Degredados em Terra
					E depois que ao Rei apresentaram,
					Co'o recado, os presentes que traziam,
					A cidade correram, e notaram
					Muito menos daquilo que queriam;
					Que os Mouros cautelosos se guardaras 
					De lhes mostrarem tudo o que pediam: 
					Que onde reina a malcia, est o receio, 
					Que a faz imaginar no peito alheio.


				10 - 	Baco Finge-se Cristo
					Mas aquele que sempre a mocidade
					Tem no rosto perptua, e foi nascido
					De duas mes, que urdia a falsidade
					Por ver o navegante destrudo,
					Estava numa casa da cidade,
					Com rosto humano e hbito fingido,
					Mostrando-se Cristo, e fabricava
					Um altar sumptuoso, que adorava.


				11
					Ali tinha em retrato afigurada
					Do alto e Santo Esprito a pintura:
					A cndida pombinha debuxada
					Sobre a nica Fnix, Virgem pura;
					A companhia santa est pintada
					Dos doze, to torvados na figura,
					Como os que, s das lnguas que caram,
					De fogo, vrias lnguas referiram.


				12 - 	Visitam os Degredados a Cidade
					Aqui os dous companheiros conduzidos	
					Onde com este engano Baco estava,	
					Pem em terra os giolhos, e os sentidos
					Naquele Deus que o mundo governava.
					Os cheiros excelentes, produzidos
					Na Pancaia odorfera, queimava
					O Tioneu, e assim por derradeiro
					O falso Deus adora o verdadeiro.


				13
					Aqui foram de noite agasalhados,
					Com todo o bom e honesto tratamento,
					Os dous Cristos, no vendo que enganados
					Os tinha o falso e santo fingimento.
					Mas assim como os raios espalhados
					Do Sol foram no mundo, e num momento
					Apareceu no rbido horizonte
					Da moa de Tito a roxa fronte,


				14 - 	Insiste o Rei com o Gama
						para que Enfrente a Barra
					Tornam da terra os Mouros co'o recado
					Do Rei, para que entrassem, e consigo
					Os dous que o Capito tinha mandado,
					A quem se o Rei mostrou sincero amigo;
					E sendo o Portugus certificado
					De no haver receio de perigo,
					E que gente de Cristo em terra havia,
					Dentro no salso rio entrar queria.


				15 - 	O que Dizem os Degredados
					Dizem-lhe os que mandou, que em terra
					Sacras aras e sacerdote sinto; viram
					Que ali se agasalharam o dormiram,
					Enquanto a luz cobriu o escuro manto;
					E que no Rei e gentes no sentiram
					Seno contentamento e gosto tanto,
					Que no podia certo haver suspeita
					Numa mostra to clara e to perfeita.


				16 - 	Sobem os Mouros a Bordo da Nau do Gama
					Com isto o nobre Gama recebia
					Alegremente os Mouros que subiam;
					Que levemente um nimo se fia
					De mostras, que to certas pareciam.
					A nau da gente prfida se enchia,
					Deixando a bordo os barcos que traziam.
					Alegres vinham todos, porque crm
					Que a presa desejada certa tm.


				17 - 	Novas Ciladas dos Mouros
					Na terra. cautamente aparelhavam
					Armas e munies que, como vissem
					Que no rio os navios ancoravam,
					Neles ousadamente se subissem;
					E, nesta treio determinavam
					Que os de Luso de todo destrussem,
					E que incautos pagassem deste jeito
					O mal que em Moambique tinham feito.


				18 - 	Vnus e as Nereidas Socorrem os Portugueses
					As ncoras tenaces vo levando 
					Com a nutica grita costumada; 
					Da proa as velas ss ao vento dando
					Inclinam para a barra abalizada. 
					Mas a linda Ericina, que guardando 
					Andava sempre a gente assinalada, 
					Vendo a cilada grande, e to secreta, 
					Voa do Cu ao mar como uma seta.


				19
					Convoca as alvas filhas de Nereu,
					Com toda a mais cerlea companhia,
					Que, porque no salgado mar nasceu,
					Das guas o poder lhe obedecia.
					E propondo-lhe a causa a que desceu, 
					Com todas juntamente se partia,
					Para estorvar que a armada no chegasse


				20 - 	As Nereidas
					J na gua erguendo vo, com grande pressa,
					Com as argnteas caudas branca escuma;
					Cloto eo'o peito corta e atravessa
					Com mais furor o mar do que costuma.
					Salta Nise, Nerine se arremessa
					Por cima da gua crespa, em fora suma.
					Abrem caminho as ondas encurvadas
					De temor das Nereidas apressadas.


				21 - 	Vnus
					Nos ombros de um Trito, com gesto aceso,
					Vai a linda Dione furiosa;
					No sente quem a leva o doce peso,
					De soberbo com carga to formosa.
					J chegam perto donde o vento teso
					Enche as velas da frota belicosa;
					Repartem-se e rodeiam nesse instante
					As naus ligeiras, que iam por diante.


				22
					Pe-se a Deusa com outras em direito
					Da proa capitaina, e ali fechando
					O caminho da barra, esto de jeito,
					Que em vo assopra o vento, a vela inchando.
					Pem no madeiro duro o brando peito,
					Para detrs a forte nau forando;
					Outras em derredor levando-a estavam,
					E da barra inimiga a desviavam.


				23
					Quais para a cova as prvidas formigas,
					Levando o peso grande acomodado,
					As foras exercitam, de inimigas
					Do inimigo inverno congelado;
					Ali so seus trabalhos e fadigas,
					Ali mostram vigor nunca esperado:
					Tais andavam as Ninfas estorvando
					A gente Portuguesa o fim nefando.


				24 - 	Descobrem a Cilada os Portugueses
					Torna para detrs a nau forada,
					Apesar dos que leva, que gritando
					Mareiam velas; ferve a gente irada,
					O leme a um bordo e a outro atravessando;
					O mestre astuto em vo da popa brada,
					Vendo como diante ameaando
					Os estava um martimo penedo,
					Que de quebrar-lhe a nau lhe mete medo.


				25
					A celeuma medonha se alevanta
					No rudo marinheiro que trabalha;
					O grande estrondo a Maura gente espanta,
					Como se vissem hrrida batalha;
					No sabem a razo de fria tanta,
					No sabem nesta pressa quem lhe valha;
					Cuidam que seus enganos so sabidos,
					E que ho de ser por isso aqui punidos.


				26 - 	Fogem os Mouros
					Ei-los subitamente se lanavam
					A seus batis velozes que traziam;
					Outros em cima o mar alevantavam,
					Saltando n'gua, a nado se acolhiam;
					De um bordo e doutro sbito saltavam,
					Que o medo os compelia do que viam;
					Que antes querem ao mar aventurar-se
					Que nas mos inimigas entregar-se.


				27
					Assim como em selvtica alagoa
					As rs, no tempo antigo Lcia gente,
					Se sentem por ventura vir pessoa,
					Estando fora da gua incautamente,
					Daqui e dali saltando, o charco soa,
					Por fugir do perigo que se sente,
					E acolhendo-se ao couto que conhecem,
					Ss as cabeas na gua lhe aparecem:


				28
					Assim fogem os Mouros; e o piloto,
					Que ao perigo grande as naus guiara,
					Crendo que seu engano estava noto,
					Tambm foge, saltando na gua amara.
					Mas, por no darem no penedo imoto,
					Onde percam a vida doce e cara,
					A ncora solta logo a capitaina,
					Qualquer das outras junto dela amaina.


				29
					Vendo o Gama, atentado, a estranheza
					Dos Mouros, no cuidada, e juntamente
					O piloto fugir-lhe com presteza,
					Entende o que ordenava a bruta gente;
					E vendo, sem contraste e sem braveza
					Dos ventos, ou das guas sem corrente,
					Que a nau passar avante no podia,
					Havendo-o por milagre, assim dizia:


				30 - 	Exclamao e Splica do Gama
					" caso grande, estranho e no cuidado, 
					 milagre clarssimo e evidente, 
					 descoberto engano inopinado, 
					 prfida, inimiga e falsa gente!  
					Quem poder do mal aparelhado 
					Livrar-se sem perigo sabiamente, 
					Se l de cima a Guarda soberana 
					No acudir  fraca fora humana?


				31
					"Bem nos mostra a divina Providncia 
					Destes portos a pouca segurana; 
					Bem claro temos visto na aparncia, 
					Que era enganada a nossa confiana. 
					Mas pois saber humano nem prudncia 
					Enganos to fingidos no alcana, 
					 tu, Guarda Divina, tem cuidado 
					De quem sem ti no pode ser guardado!


				32
					"E se te move tanto a piedade 
					Desta msera gente peregrina, 
					Que s por tua altssima bondade, 
					Da gente a salvas prfida e malina, 
					Nalgum porto seguro de verdade 
					Conduzir-nos j agora determina, 
					Ou nos amostra a terra que buscamos, 
					Pois s por teu servio navegamos."


				33 - 	Vnus Impetra a Proteo de Jpiter
							para os Portugueses
					Ouviu-lhe essas palavras piedosas
					A formosa Dione, e comovida,
					Dentre as Ninfas se vai, que saudosas
					Ficaram desta sbita partida.
					J penetra as Estrelas luminosas,
					J na terceira Esfera recebida
					Avante passa, e l no sexto Cu,
					Para onde estava o Padre, se moveu.


				34
					E como ia afrontada do caminho,
					To formosa no gesto se mostrava,
					Que as Estrelas e o Cu e o Ar vizinho,
					E tudo quanto a via namorava.
					Dos olhos, onde faz seu filho o ninho,
					Uns espritos vivos inspirava,
					Com que os Plos gelados acendia,
					E tornava do Fogo a esfera fria.


				35
					E por mais namorar o soberano
					Padre, de quem foi sempre amada e eria,
					Se lhe apresenta assim como ao Troiano,
					Na selva Idea, j se apresentara.
					Se a vira o caador, que o vulto humano
					Perdeu, vendo Diana na gua clara,
					Nunca os famintos galgos o mataram,
					Que primeiro desejos o acabaram.


				36 - 	Retrato de Vnus
					Os crespos fios d'ouro se esparziam
					Pelo colo, que a neve escurecia;
					Andando, as lcteas tetas lhe tremiam,
					Com quem Amor brincava, e no se via;
					Da alva petrina flamas lhe saam,
					Onde o Menino as almas acendia;
					Pelas lisas colunas lhe trepavam
					Desejos, que como hera se enrolavam.


				37
					C'um delgado sendal as partes cobre,
					De quem vergonha  natural reparo,
					Porm nem tudo esconde, nem descobre,
					O vu, dos roxos lrios pouco avaro;
					Mas, para que o desejo acenda o dobre,
					Lhe pe diante aquele objeto raro.
					J se sentem no Cu, por toda a parte,
					Cimes em Vulcano, amor em Marte.


				38
					E mostrando no anglico semblante 
					Co'o riso uma tristeza misturada,
					Como dama que foi do incauto amante
					Em brincos amorosos mal tratada,
					Que se aqueixa e se ri num mesmo instante,
					E se torna entre alegre magoada,
					Desta arte a Deusa, a quem nenhuma iguala,
					Mais mimosa que triste ao Padre fala:


				39 - 	Fala de Vnus a Jpiter
					"Sempre eu cuidei,  Padre poderoso,
					Que, para as cousas que eu do peito amasse,
					Te achasse brando, afbil e amoroso,
					Posto que a algum contrrio lhe pesasse;
					Mas, pois que contra mim te vejo iroso,
					Sem que to merecesse, nem te errasse,
					Faa-se como Baco determina;
					Assentarei enfim que fui mofina.


				40
					"Este povo que  meu, por quem derramo
					As lgrimas que em vo cadas vejo,
					Que assaz de mal lhe quero, pois que o amo,
					Sendo tu tanto contra meu desejo!
					Por ele a ti rogando choro e bramo,
					E contra minha dita enfim pelejo.
					Ora pois, porque o amo  mal tratado,
					Quero-lhe querer mal, ser guardado.


				41
					"Mas moura enfim nas mos das brutas gentes,
					Que pois eu fui..." E nisto, de mimosa,
					O rosto banha em lgrimas ardentes,
					Como co'o orvalho fica a fresca rosa.
					Calada um pouco, como se entre os dentes
					Se lhe impedira a fala piedosa,
					Torna a segui-la; e indo por diante,
					Lhe atalha o poderoso e gro Tonante.


				42 - 	Jpiter Afaga e Consola Vnus
					E destas brandas mostras comovido,
					Que moveram de um tigre o peito duro,
					Co'o vulto alegre, qual do Cu subido,
					Torna sereno e claro o ar escuro,
					As lgrimas lhe alimpa, e acendido
					Na face a beija, e abraa o colo puro;
					De modo que dali, se s se achara,
					Outro novo Cupido se gerara.


				43
					E co'o seu apertando o rosto amado,
					Que os soluos e lgrimas aumenta,
					Como menino da ama castigado,
					Que quem no afaga o choro lhe acrescente,
					Por lhe pr em sossego o peito irado,
					Muitos casos futuros lhe apresenta.
					Dos fados as entranhas revolvendo,
					Desta maneira enfim lhe est dizendo:


				44 - 	Vaticina Jpiter os Gloriosos
					    Feitos dos Portugueses no Oriente
					"Formosa filha minha, no temais
					Perigo algum nos vossos Lusitanos,
					Nem que ningum comigo possa mais,
					Que esses chorosos olhos soberanos;
					Que eu vos prometo, filha, que vejais
					Esquecerem-se Gregos e Romanos,
					Pelos ilustres feitos que esta gente
					H-de fazer nas partes do Oriente.


				45 - 	"Novos Mundos ao Mundo Iro Mostrando"
					"Que se o facundo Ulisses escapou
					De ser na Oggia ilha eterno escravo,
					E se Antenor os seios penetrou
					Ilricos e a fonte de Timavo;
					E se o piedoso Eneias navegou
					De Cila e de Carbdis o mar bravo,
					Os vossos, mores cousas atentando,
					Novos mundos ao mundo iro mostrando.


				46 - 	Vaticnios de Jpiter
					"Fortalezas, cidades e altos muros,
					Por eles vereis, filha, edificados;
					Os Turcos belacssimos e duros,
					Deles sempre vereis desbaratados.
					Os Reis da ndia, livres e seguros,
					Vereis ao Rei potente sojugados;
					E por eles, de tudo enfim senhores,
					Sero dadas na terra leis melhores.


				47
					"Vereis este, que agora pressuroso
					Por tantos medos o Indo vai buscando, 
					Tremer dele Neptuno, de medroso 
					Sem vento suas guas encrespando. 
					 caso nunca visto e milagroso,
					Que trema e ferva o mar, em calma estando!
					 gente forte e de altos pensamentos,
					Que tambm dela ho medo os Elementos!


				48 - 	Moambique
					"Vereis a terra, que a gua lhe tolhia,
					Que inda h-de ser um porto mui decente,
					Em que vo descansar da longa via
					As naus que navegarem do Ocidente.
					Toda esta costa enfim, que agora urdia
					O mortfero engano, obediente
					Lhe pagar tributos, conhecendo
					No poder resistir ao Luso horrendo.


				49 - 	Ormuz
					"E vereis o mar Roxo, to famoso, 
					Tornar-se-lhe amarelo, de enfiado; 
					Vereis de Ormuz o Reino poderoso 
					Duas vezes tomado e sojugado.
					Ali vereis o Mouro furioso
					De suas mesmas setas traspassado:
					Que quem vai contra os vossos, claro veja 
					Que, se resiste, contra si peleja.


				50 - 	Dio
					"Vereis a inexpugnbil Dio forte,
					Que dous cercos ter, dos vossos sendo.
					Ali se mostrar seu preo e sorte,
					Feitos de armas grandssimos fazendo.
					Invejoso vereis o gro Mavorte
					Do peito Lusitano fero e horrendo:
					Do Mouro ali vero que a voz extrema
					Do falso Mahamede ao Cu blasfema.


				51 - 	Goa
					"Goa vereis aos Mouros ser tomada,
					A qual vir depois a ser senhora
					De todo o Oriente, e sublimada
					Co'os triunfos da gente vencedora.
					Ali soberba, altiva, e exalada,
					Ao Gentio, que os dolos adora,
					Duro freio por, e a toda a terra
					Que cuidar de fazer aos vossos guerra.


				52 - 	Cananor. Calecu. Cochim
					"Vereis a fortaleza sustentar-se
					De Cananor, com pouca fora e gente;
					E vereis Calecu desbaratar-se,
					Cidade populosa e to potente:
					E vereis em Cochim assinalar-se
					Tanto um peito soberbo e insolente,
					Que ctara jamais cantou vitria,
					Que assim merea eterno nome e glria.


				53
					"Nunca com Marte instructo e furioso,
					Se viu ferver Leucate, quando Augusto
					Nas civis Actias guerras animoso,
					O Capito venceu Romano injusto,
					Que dos povos da Aurora, e do famoso
					Nilo, e do Bactra Ctico e robusto
					A vitria trazia, e presa rica,
					Preso na Egpcia linda e nego pudica.


				54 - 	urea Quersoneso (Malaca)
					Como vereis o mar fervendo aceso
					Colos incndios dos vossos pelejando,
					Levando o Idololatra, e o Mouro preso,
					De naes diferentes triunfando.
					E sujeita a rica urea Quersoneso,
					At ao longnquo China navegando,
					E as ilhas mais remotas do Oriente,
					Ser-lhe- todo o Oceano obediente.


				55
					"De modo, filha minha, que de jeito
					Amostraro esforo mais que humano,
					Que nunca se ver to forte peito,
					Do Gangtico mar ao Gaditano,
					Nem das Boreais ondas ao Estreito,
					Que mostrou o agravado Lusitano,
					Posto que em todo o mundo, de afrontados,
					Ressuscitassem todos os passados."


Jpiter Envia Mercrio  Cidade de Melinde,
para Predispor a Gente a Favor dos Portugueses



				56
					Como isto disse, manda o consagrado
					Filho de Maia  Terra, por que tenha
					Um pacfico porto o sossegado,
					Para onde sem receio a frota venha;
					F, para que em Mombaa, aventurado,
					O forte Capito se no detenha,
					Lhe manda mais, que em sonhos lhe mostra
					A terra, onde quieto repousasse.


				57 - 	Mercrio
					J pelo ar o Cileneu voava;
					Com as asas nos ps  Terra desce;
					Sua vara fatal na mo levava,
					Com que os olhos cansados adormece:
					Com esta, as tristes almas revocava
					Do Inferno, e o vento lhe obedece.
					Na cabea o galero costumado.
					E desta arte a Melinde foi chegado.


				58
					Consigo a Fama leva, por que diga
					Do Lusitano o preo grande e raro,
					Que o nome ilustre a um certo amor obriga
					E faz, a quem o tem, amado e caro.
					Desta arte vai fazendo a gente amiga,
					Co rumor famosssimo, e perclaro.
					J Melinde em desejos arde todo
					De ver da gente forte o gesto e modo.


Parte Mercrio para Mombaa, a Avisar os Portugueses
da Cilda que Lhes Preparam os Mouros



				59
					Dali para Mombaa logo parte,
					Aonde as naus estavam temerosas,
					Para que  gente mande que se aparte
					Da barra amiga e terras suspeitosas:
					Porque mui pouco val esforo e arte,
					Contra infernais vontades enganosas;
					Pouco val corao, astcia e siso,
					Se l dos Cus no vem celeste aviso.


				60 - 	Mercrio Aparece em Sonho ao Gama
					No feio caminho a noite tinha anelado,
					E, as estrelas no Cu, coa luz alhea,
					Tinham o largo Mundo alumiado;
					E s co'o sono a gente se recreia.
					O Capito ilustre, j cansado
					De vigiar a noite que arreceia,
					Breve repouso ento aos olhos dava,
					A outra gente a quartos vigiava;


				61 - 	Fala de Mercrio ao Gama
					Quando Mercrio em sonhos lhe aparece,
					Dizendo: "Fuge, fuge, Lusitano,
					Da cilada que o Rei malvado tece,
					Por te trazer ao fim, e extremo dano;
					Fuge, que o vento, e o Cu te favorece;
					Sereno o tempo tens e o Oceano,
					E outro Rei mais amigo, noutra parte,
					Onde podes seguro agasalhar-te.


				62
					"No tens aqui seno aparelhado
					O hospcio que o cru Diomedes dava,
					Fazendo ser manjar acostumado
					De cavalos a gente que hospedava;
					As aras de Busris infamado,
					Onde os hspedes tristes imolava,
					Ters certas aqui, se muito esperas.
					Fuge das gentes prfidas e feras.


				63 - 	Aconselha Mercrio ao Gama
					     que Demande o Porto de Melinde
					"Vai-te ao longo da costa discorrendo,
					E outra terra achars de mais verdade,
					L quase junto donde o Sol ardendo
					Iguala o dia e noite em quantidade;
					Ali tua frota alegre recebendo
					Um Rei, com muitas obras de amizade,,
					Gasalhado seguro te daria,
					E, para a ndia, certa e sbia guia."

				64
					Isto Mercrio disse, e o sono leva
					Ao Capito, que com mui grande espanto
					Acorda, e v ferida a escura treva
					De uma sbita luz e raio santo.
					E vendo claro quanto lhe releva
					No se deter na terra inqua tanto,
					Com novo esprito ao mestre seu mandava
					Que as velas desse ao vento que assopravam.


				65 - 	Partida da Armada para Melinde
					"Dai velas, disse, dai ao largo vento,
					Que o Cu nos favorece e Deus o manda;
					Que um mensageiro vi do claro assento
					Que s em favor de nossos passos anda."
					Alevanta-se nisto o movimento
					Dos marinheiros, de uma e de outra banda;
					Levam gritando as ncoras acima,
					Mostrando a ruda fora, que se estima.


				66 - 	Tentam os Mouros Cortar as Amarras s Naus
					Neste tempo, que as ncoras levavam,
					Na sombra escura os Mouros escondidos
					Mansamente as amarras lhe cortavam,
					Por serem, dando  costa, destrudos;
					Mas com vista de linces vigiavam
					Os Portugueses, sempre apercebidos.
					Eles, como acordados os sentiram,
					Voando, e no remando, lhe fugiram.


				67
					Mas j as agudas proas apartando
					Iam as vias hmidas de argento;
					Assopra-lhe galerno o vento, e brando,
					Com suave e seguro movimento.
					Nos perigos passados vo falando,
					Que mal se perdero do pensamento
					Os casos grandes, donde em tanto aperto
					A vida em salvo escapa por acerto.


				68 - 	Dois Navios Mouros
					Tinha uma volta dado o Sol ardente
					E noutro comeava, quando viram
					Ao longe deus navios, brandamente
					Co'os ventos navegando, que respiram:
					Porque haviam de ser da Maura gente,
					Para eles arribando, as velas viram:
					Um, de temor do mal que arreceava,
					Por se salvar a gente  costa dava.


				69 - 	Aprisiona o Gama um dos Navios
					No  o outro que fica to manhoso;
					Mas nas mos vai cair do Lusitano,
					Sem o rigor de Marte furioso,
					E sem a fria horrenda de Vulcano;
					Que como fosse dbil e medroso
					Da pouca gente o fraco peito humano,
					No teve resistncia; e se a tivera,
					Mais dano resistindo recebera.


				70 - 	Informaes Acerca de Melinde
					E como o Gama muito desejasse
					Piloto para a ndia que buscava,
					Cuidou que entre estes Mouros o tomasse;
					Mas no lhe sucedeu como cuidava,
					Que nenhum deles h que lhe ensinasse
					A que parte dos cus a ndia estava;
					Porm dizem-lhe todos, que tem perto
					Melinde, onde achar piloto certo.


				71
					Louvam do Rei os Mouros a bondade,
					Condio liberal, sincero peito,
					Magnificncia grande e humanidade,
					Com partes de grandssimo respeito.
					O Capito o assela por verdade,
					Porque j lhe dissera, deste jeito,
					Cileneu em sonhos; e partia
					Para onde o sonho e o Mouro lhe dizia.


				72 - 	Chegada do Gama a Melinde
					Era no tempo alegre, quando entrava
					No roubador de Europa a luz Febeia,
					Quando um e outro corno lhe aquentava,
					E Flora derramava o de Amalteia:
					A memria do dia renovava
					O pressuroso Sol, que o Cu rodeia,
					Em que Aquele, a quem tudo est sujeito,
					O selo ps a quanto tinha feito;


				73 - 	Hospitaleira Recepo em Melinde
					Quando chegava a frota quela parte,
					Onde o Reino Melinde j se via,
					De toldos adornada, e leda de arte
					Que bem mostra estimar o santo dia.
					Treme a bandeira, voa o estandarte,
					A cor purprea ao longe aparecia;
					Soam os atambores o pandeiros,
					E assim entravam ledos e guerreiros.


				74
					Enche-se toda a praia Melindana
					Da gente que vem ver a leda armada,
					Gente mais verdadeira, e mais humana,
					Que toda a doutra terra atrs deixada.
					Surge diante a frota Lusitana,
					Pega no fundo a ncora pesada;
					Mandam fora um dos Mouros que tomaram,
					Por quem sua vinda ao Rei manifestaram.


				75 - 	Convite do Rei de Melinde,
						para que Desembarcassem
					O Rei, que j sabia da nobreza
					Que tanto os Portugueses engrandece,
					Tomarem o seu porto tanto preza,
					Quanto a gente fortssima merece:
					E com verdadeiro nimo e pureza,
					Que os peitos generosos enobrece,
					Lhe manda rogar muito que sassem,
					Para que de seus reinos se servissem.


				76 - 	Presentes do Rei de Melinde
					So oferecimentos verdadeiros,
					E palavras sinceras, no dobradas,
					As que o Rei manda aos nobres cavaleiros,
					Que tanto mar e terras tem passadas.
					Manda-lhe mais langeros carneiros,
					E galinhas domsticas cevadas,
					Com as frutas, que ento na terra havia;
					E a vontade  ddiva excedia.


				77 - 	Presentes do Gama
					Recebe o Capito alegremente
					O mensageiro ledo e seu recado;
					E logo manda ao Rei outro presente, 
					Que de longe trazia aparelhado: 
					Escarlata purprea, cor ardente,
					O ramoso coral, fino e prezado,
					Que debaixo das guas mole cresce, 
					E como  fora delas se endurece.


				78 - 	Envia o Gama ao Rei um Embaixador
					Manda mais um, na prtica elegante,
					Que co'o Rei nobre as pazes concertasse,
					E que de no sair naquele instante
					De suas naus em terra o desculpasse.
					Partido assim o embaixador prestante,
					Como na terra ao Rei se apresentasse,
					Com estilo que Palas lhe ensinava,
					Estas palavras tais falando orava:


				79 - 	Fala do Embaixador Portugus
						ao Rei de Melinde
					"Sublime Rei, a quem do Olimpo puro
					Foi da suma Justia concedido
					Refrear o soberbo povo duro,
					No menos dele amado, que temido:
					Como porto mui forte e mui seguro,
					De todo o Oriente conhecido,
					Te vimos a buscar, para que achemos
					Em ti o remdio certo que queremos.


				80
					"No somos roubadores, que passando
					Pelas fracas cidades descuidadas,
					A ferro e a fogo as gentes vo matando,
					Por roubar-lhe as fazendas cobiadas;
					Mas da soberba Europa navegando,
					Imos buscando as terras apartadas
					Da ndia grande e rica, por mandado
					De um Rei que temos, alto e sublimado.


				81 - 	Fala do Embaixador ao Rei de Melinde
					"Que gerao to dura h hi de gente,
					Que brbaro costume e usana feia,
					Que no vedem os portos to somente,
					Mas inda o hospcio da deserta areia?
					Que m teno, que peito em ns se sente,
					Que de to pouca gente se arreceia?
					Que com laos armados, to fingidos,
					Nos ordenassem ver-nos destrudos?


				82
					"Mas tu, e quem mui certo confiamos
					Achar-se mais verdade,  Rei benigno,
					E aquela certa ajuda em ti esperamos,
					Que teve o perdido taco em Alcino,
					A teu porto seguro navegamos,
					Conduzidos do intrprete divino;
					Que, pois a ti nos manda, est mui claro,
					Que s de peito sincero, humano e raro.


				83
					"E no cuides,  Rei, que no sasse
					O nosso Capito esclarecido
					A ver-te, ou a servir-te, porque visse
					Ou suspeitasse em ti peito fingido:
					Mas sabers que o fez, porque cumprisse
					O regimento, em tudo obedecido,
					De seu Rei, que lhe manda que no saia, 
					Deixando a frota, em nenhum porto ou praia.


				84
					"E porque , de vassalos o exerccio, 
					Que os membros tem regidos da cabea, 
					No querers, pois tens de Rei o ofcio, 
					Que ningum a seu Rei desobedea; 
					Mas as mercs e o grande benefcio, 
					Que ora acha em ti, promete que conhea
					Em tudo aquilo que ele e os seus puderem, 
					Enquanto os rios para o mar correrem."


				85
					Assim dizia; e todos juntamente,
					Uns com outros em prtica falando,
					Louvavam muito o estmago da gente,
					Que tantos cus e mares vai passando.
					E o Rei ilustre, o peito obediente
					Dos Portugueses na alma imaginando,
					Tinha por valor grande e mui subido
					O do Rei que  to longe obedecido.


				86 - 	Resposta do Rei de Melinde
						ao Embaixador do Gama
					E com risonha vista e ledo aspeito,
					Responde ao embaixador, que tanto estima:
					"Toda a suspeita m tirai do peito,
					Nenhum frio temor em vs se imprima;
					Que vosso preo e obras so de jeito
					Para vos ter o mundo em muita estima;
					E quem vos fez molesto tratamento,
					No pode ter subido pensamento.


				87 - 	Resposta do Rei de Melinde,
					   que Promete Piloto e Mantimentos
					"De no sair em terra toda a gente,
					Por observar a usada preminncia,
					Ainda que me pese estranhamente,
					Em muito tenho a muita obedincia;
					Mas, se lho o regimento no consente,
					Nem eu consentirei que a excelncia
					De peitos to leais em si desfaa,
					S porque a meu desejo satisfaa.


				88
					"Porm, como a luz crstina chegada
					Ao mundo for, em minhas almadias
					Eu irei visitar a forte armada,
					Que ver tanto desejo, h tantos dias;
					E se vier do mar desbaratada,
					Do furioso vento e longas vias,
					Aqui ter, de limpos pensamentos,
					Piloto, munies e mantimentos."


				89 - 	Volta do Embaixador  Frota
					Isto disse; e nas guas se escondia
					O filho de Latona; e o mensageiro
					Coa embaixada alegre se partia
					Para a frota, no seu batel ligeiro.
					Enchem-se os peitos todos de alegria.
					Por terem o remdio verdadeiro
					Para acharem a terra que buscavam;
					E assim ledos a noite festejavam.


				90 - 	Festejos a Bordo e em Terra
					No faltam ali os raios de artifcio,
					Os trmulos cometas imitando;
					Fazem os bombardeiros seu ofcio,
					O cu, a terra e as ondas atroando.
					Mostra-se dos Ciclopas o exerccio
					Nas bombas que de fogo esto queimando;
					Outros com vozes, com que o cu feriam,
					Instrumentos altssonos tangiam.


				91
					Respondem-lhe da terra juntamente,
					Co'o raio volteando, com zunido;
					Anda em giros no ar a roda ardente,
					Estoura o p sulfreo escondido.
					A grita se alevanta ao cu, da gente;
					O mar se via em fogos acendido,
					E no menos a terra; e assim festeja
					Um ao outro, a maneira de peleja.


				92 - 	Visita do Rei de Melinde ao Gama
					Mas j o Cu inquieto revolvendo,
					As gentes incitava a seu trabalho,
					E j a me de Menon a luz trazendo,
					Ao sono longo punha certo atalho;
					Iam-se as sombras lentas desfazendo,
					Sobre as flores da terra em frio orvalho,
					Quando o Rei Melindano se embarcava
					A ver a frota, que no mar estava.


				93
					Viam-se em derredor ferver as praias
					Da gente, que a ver s concorre leda;
					Luzem da fina prpura as cabaias,
					Lustram os panos da tecida seda;
					Em lugar das guerreiras azagaias
					E do arco, que os cornos arremeda
					Da Lua, trazem ramos de palmeira,
					Dos que vencem, coroa verdadeira.


				94
					Um batel grande e largo, que toldado
					Vinha de sedas de diversas cores,
					Traz o Rei de Melinde, acompanhado
					De nobres e seu Reino e de senhores:
					Vem de ricos vestidos adornado,
					Segundo seus costumes e primores;
					Na cabea uma fota guarnecida
					De ouro, e de seda e de algodo tecida.


				95
					Cabaia de Damasco rico e dino,
					Da Tria cor, entre eles estimada,
					Um colar ao pescoo, de ouro fino,
					Onde a matria da obra  superada,
					C'um resplendor reluze adamantino;
					Na cinta, a rica bem lavrada;
					Nas alparcas dos ps, em fim de tudo,
					Cobrem ouro e aljfar ao veludo.


				96
					Com um redondo emparo alto de seda,
					Numa alta e dourada hstia enxerido,
					Um ministro  solar quentura veda.
					Que no ofenda e queime o Rei subido.
					Msica traz na proa, estranha e leda,
					De spero som, horrssono ao ouvido,
					De trombetas arcadas em redondo,
					Que, sem concerto, fazem rudo estrondo.


				97
					No menos guarnecido o Lusitano
					Nos seus batis, da frota se partia
					A receber no mar o Melindano,
					Com lustrosa e lograda companhia.
					Vestido o Gama vem ao modo Hispano,
					Mas Francesa era a roupa que vestia,
					De cetim da Adritica Veneza
					Carmesi, cor que a gente tanto preza:


				98
					De botes douro as mangas vm tomadas,
					Onde o Sol reluzindo a vista cega;
					As calas soldadescas recamadas
					Do metal, que Fortuna a tantos nega,
					E com pontas do mesmo delicadas
					Os golpes do gibo ajunta e achega;
					Ao Itlico modo a urea espada;
					Pluma na gorra, um pouco declinada.


				99
					Nos de sua companhia se mostrava
					Da tinta, que d o mrice excelente,
					A vria cor, que os olhos alegrava,
					E a maneira do trajo diferente.
					Tal o formoso esmalte se notava
					Dos vestidos, olhados juntamente,
					Qual aparece o arco rutilante
					Da bela Ninfa, filha de Taumante.


				100
					Sonorosas trombetas incitavam
					Os nimos alegres, ressoando;
					Dos Mouros os batis, o mar coalhavam,
					Os toldos pelas guas arrojando;
					As bombardas horrssonas bramavam,
					Com as nuvens de fumo o Sol tomando;
					Amidam-se os brados acendidos,
					Tapam com as mos os Mouros os ouvidos.


				101 - 	Encontro do Rei de Melinde com o Gama
					J no batel entrou do Capito
					O Rei, que nos seus braos o levava;
					Ele coa cortesia, que a razo
					(Por ser Rei) requeria, lhe falava.
					C'umas mostras de espanto e admirao,
					O Mouro o gesto e o modo lhe notava,
					Como quem em mui grande estima tinha
					Gente que de to longe  ndia vinha.


				102 - 	Prtica do Rei de Melinde com o Gama
					E com grandes palavras lhe oferece
					Tudo o que de seus Reinos lhe cumprisse,
					E que, se mantimento lhe falece,
					Como se prprio fosse, lho pedisse.
					Diz-lhe mais, que por fama bem conhece
					A gente Lusitana, sem que a visse;
					Que j ouviu dizer, que noutra terra
					Com gente de sua Lei tivesse guerra.


				103
					E como por toda frica se soa,
					Lhe diz, os grandes feitos que fizeram,
					Quando nela ganharam a coroa
					Do Reino, onde as Hespridas viveram;
					E com muitas palavras apregoa
					O menos que os de Luso mereceram,
					E o mais que pela fama o Rei sabia.
					Mas desta sorte o Gama respondia:


				104 - 	Fala do Gama ao Rei de Melinde
					" tu, que s tiveste piedade,
					Rei benigno, da gente Lusitana,
					Que com tanta misria e adversidade
					Dos mares experimenta a fria insana;
					Aquela alta e divina Eternidade,
					Que o Cu revolve e rege a gente humana,
					Pois que de ti tais obras recebemos,
					Te pague o que ns outros no podemos.


				105
					"Tu s, de todos quantos queima Apolo,
					Nos recebes em paz, cio mar profundo;
					Em ti dos ventos hrridos de Eolo
					Refgio achamos bom, fido e jocundo.
					Enquanto apascentar o largo Plo
					As Estrelas, e o Sol der lume ao Mundo,
					Onde quer que eu viver, com fama e glria
					Vivero teus louvores em memria."


				106 - 	Visita do Rei de Melinde  Frota
					Isto dizendo, os barcos vo remando
					Para a frota, que o Mouro ver deseja;
					Vo as naus uma e uma rodeando,
					Porque de todas tudo note e veja.
					Mas para o cu Vulcano fuzilando,
					A frota coas bombardas o festeja,
					E as trombetas canoras lhe tangiam;
					Co'os anafis os Mouros respondiam.


				107
					Mas depois de ser tudo j notado
					Do generoso Mouro, que pasmava
					Ouvindo o instrumento inusitado,
					Que tamanho terror em si mostrava,
					Mandava estar quieto e ancorado
					N'gua o batel ligeiro que os levava,
					Por falar de vagar co'o forte Gama,
					Nas cousas de que tem notcia e faina.


Pede o Rei ao Gama que Lhe Narre a Histria de Portugal
e da Viagem que Realizou



				108
					Em prticas o Mouro diferentes
					Se deleitava, perguntando agora
					Pelas guerras famosas e excelentes
					Co'o povo havidas, que a Mafoma adora;
					Agora lhe pergunta pelas gentes
					De toda a Hespria ltima, onde mora;
					Agora pelos povos seus vizinhos,
					Agora pelos midos caminhos.


				109
					"Mas antes, valeroso Capito,
					Nos conta, lhe dizia, diligente,
					Da terra tua o clima, e regio
					Do mundo onde morais distintamente;
					E assim de vossa antiga gerao,
					E o princpio do Reino to potente,
					Co'os sucessos das guerras do comeo,
					Que, sem sab-las, sei que so de preo.


				110
					"E assim tambm nos conta dos rodeios
					Longos, em que te traz o mar irado,
					Vendo os costumes brbaros alheios.
					Que a nossa frica ruda tem criado.
					Conta: que agora vm co'os ureos freios
					Os cavalos que o carro marchetado
					Do novo Sol, da fria Aurora trazem,
					O vento dorme, o mar e as ondas jazem.


				111 - 	Continuao da Fala
					     do Rei de Melinde ao Gama
					"E no menos co'o tempo se parece
					O desejo de ouvir-te o que contares;
					Que quem h, que por fama no conhece
					As obras Portuguesas singulares?
					No tanto desviado resplandece
					De ns o claro Sol, para julgares
					Que os Melindanos tm to rudo peito,
					Que no estimem muito um grande feito.


				112
					"Cometeram soberbos os Gigantes,
					Com guerra v, o Olimpo claro e puro;
					Tentou Pirtoo e Teseu, de ignorantes,
					O Reino de Pluto horrendo e escuro.
					Se houve feitos no mundo to possantes,
					No menos  trabalho ilustre e duro,
					Quanto foi cometer Inferno o Cu,
					Que outrem cometa a fria de Nereu.


				113
					"Queimou o sagrado templo de Diana,
					Do subtil Tesifnio fabricado,
					Herstrato, por ser da gente humana
					Conhecido no mundo e nomeado:
					Se tambm com tais obras nos engana
					O desejo de um nome avantajado,
					Mais razo h que queira eterna glria
					Quem faz obras to dignas de memria."




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Cames
Os Lusadas
(Canto Terceiro)

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				1 - 	Invocao a Calope
					Agora tu, Calope, me ensina
					O que contou ao Rei o ilustre Gama:
					Inspira imortal canto e voz divina
					Neste peito mortal, que tanto te ama.
					Assim o claro inventor da Medicina,
					De quem Orfeu pariste,  linda Dama,
					Nunca por Dafne, Clcie ou Leucotoe,
					Te negue o amor devido, como soe.


				2
					Pe tu, Ninfa, em efeito meu desejo,
					Como merece a gente Lusitana;
					Que veja e saiba o mundo que do Tejo
					O licor de Aganipe corre e mana.
					Deixa as flores de Pindo, que j vejo
					Banhar-me Apolo na gua soberana;
					Seno direi que tens algum receio,
					Que se escurea o teu querido Orfeio.


				3 - 	Prembulo da Narrao do Gama
					Prontos estavam todos escutando 
					O que o sublime Gama contaria,
					Quando, depois de um pouco estar cuidando, 
					Alevantando o rosto, assim dizia:
					"Mandas-me,  Rei, que conte declarando 
					De minha gente a gro genealogia:
					No me mandas contar estranha histria, 
					Mas mandas-me louvar dos meus a glria.


				4
					"Que outrem possa louvar esforo alheio,
					Cousa  que se costuma e se deseja;
					Mas louvar os meus prprios, arreceio
					Que louvor to suspeito mal me esteja;
					E para dizer tudo, temo e creio,
					Que qualquer longo tempo curto seja:
					Mas, pois o mandas, tudo se te deve,
					Irei contra o que devo, e serei breve.


				5
					"Alm disso, o que a tudo enfim me obriga, 
					 no poder mentir no que disser, 
					Porque de feitos tais, por mais que diga, 
					Mais me h-de ficar inda por dizer.  
					Mas, porque nisto a ordens leve e siga, 
					Segundo o que desejas de saber, 
					Primeiro tratarei da larga terra, 
					Depois direi da sanguinosa guerra.


				6 - 	Descrio Geogrfica da Europa
					"Entre a Zona que o Cancro senhoreia,
					Meta setentrional do Sol luzente,
					E aquela que por f ria se arreceia
					Tanto, como a do meio por ardente,
					Jaz a soberba Europa, a quem rodeia,
					Pela parte do Areturo, e do Ocidente,
					Com suas salsas ondas o Oceano,
					E pela Austral o mar Mediterrano.


				7
					"Da parte donde o dia vem nascendo,
					Com sia se avizinha; mas o rio
					Que dos montes Rifeios vai correndo,
					Na alagoa Meotis, curvo o frio,
					As divide: e o mar que, fero e horrendo,
					Viu dos Gregos o irado senhorio,
					Onde agora de Tria triunfante
					No v mais que a memria o navegante.


				8
					"L onde mais debaixo est do Plo,
					Os montes Hiperbreos aparecem,
					E aqueles onde sempre sopra Eolo,
					E co'o nome, dos sopros se enobrecem.
					Aqui to pouca fora tem de Apolo
					Os raios que no mundo resplandecem,
					Que a neve est contido pelos montes,
					Gelado o mar, geladas sempre as fontes.


				9
					"Aqui dos Citas grande quantidade
					Vivem, que antigamente grande guerra
					Tiveram, sobre a humana antiguidade,
					Co'os que tinham ento a Egpcia terra;
					Mas quem to fora estava da verdade, 
					(J que o juzo humano tanto erra)
					Para que do mais certo se informara,
					Ao campo Damasceno o perguntara.


				10 - 	Lapnia
					"Agora nestas partes se nomeia
					A Lpia fria, a inculta Noruega,
					Escandinvia Ilha, que se arreia
					Das vitrias que Itlia no lhe nega.
					Aqui, enquanto as guas no refreia
					O congelado inverno, se navega
					Um brao do Sarmtico Oceano
					Pelo Brsio, Sucio e frio Dano.


				11
					"Entre este mar e o Tnais vive estranha
					Gente: Rutenos, Moseos e Livnios,
					Srmatas outro tempo; e na montanha
					Hircnia os Marcomanos so Polnios.
					Sujeitos ao Imprio de Alemanha
					So Saxones, Bomios e Pannios,
					E outras vrias naes, que o Reno frio
					Lava, e o Danbio, Amasis e Albis rio.


				12 - 	Trcia e Turquia
					"Entre o remoto Istro e o claro Estreito,
					Aonde Hele deixou co'o nome a vida,
					Esto os Traces de robusto peito,
					Do fero Marte ptria to querida,
					Onde, colo Hemo, o Rdope sujeito
					Ao Otomano est, que submetida
					Bizncio tem a seu servio indino:
					Boa injria do grande Constantino!


				13 - 	Grcia
					"Logo de Macednia esto as gentes,
					A quem lava do Axio a gua fria;
					E vs tambm,  terras excelentes
					Nos costumes, engenhos e ousadia,
					Que criastes os peitos eloquentes
					E os juzos de alta fantasia,
					Com quem tu, clara Grcia, o Cu penetras,
					E no menos por armas, que por letras.


				14 - 	Veneza
					"Logo os Dlmatas vivem; e no seio,
					Onde Antenor j muros levantou,
					A soberba Veneza est no meio
					Das guas, que to baixa comeou.
					Da terra um brao vem ao mar, que cheio
					De esforo, naes vrias sujeitou,
					Brao forte, de gente sublimada,
					No menos nos engenhos, que na espada.


				15 - 	Itlia
					"Em torno o cerca o Reino Neptunino,
					Co'os muros naturais por outra parte;
					Pelo meio o divide o Apenino,
					Que to ilustre fez o ptrio Marte;
					Mas depois que o Porteiro tem divino,
					Perdendo o esforo veio, e blica arte;
					Pobre est j de antiga potestade:
					Tanto Deus se contenta de humildade!


				16 - 	Frana
					"Glia ali se ver que nomeada
					Co'os Cesreos triunfos foi no mundo,
					Que do Squana e Rdano  regada,
					E do Giruna frio e Reno fundo.
					Logo os montes da Ninfa sepultada
					Pirene se alevantam, que segundo
					Antiguidades contam, quando arderam,
					Rios de ouro e de prata ento correram.


				17 - 	Espanha
					"Eis aqui se descobre a nobre Espanha,
					Como cabea ali de Europa toda,
					Em cujo senhorio o glria estranha
					Muitas voltas tem dado a fatal roda;
					Mas nunca poder, com fora ou manha,
					A fortuna inquieta pr-lhe noda,
					Que lhe no tire o esforo e ousadia
					Dos belicosos peitos que em si cria.


				18
					"Com Tingitnia entesta, e ali parece
					Que quer fechar o mar Mediterrano,
					Onde o sabido Estreito se enobrece
					Co'o extremo trabalhado Tebano.
					Com naes diferentes se engrandece,
					Cercadas com as ondas do Oceano;
					Todas de tal nobreza e tal valor,
					Que qualquer delas cuida que  melhor.


				19
					"Tem o Tarragons, que se fez claro
					Sujeitando Partnope inquieta;
					O Navarro, as Astrias, que reparo
					J foram contra a gente Mahometa;
					Tem o Galego cauto, e o grande e raro
					Castelhano, a quem fez o seu Planeta
					Restituidor de Espanha e senhor dela,
					Btis, Lio, Granada, com Castela.


				20 - 	Portugal
					"Eis aqui, quase cume da cabea
					De Europa toda, o Reino Lusitano,
					Onde a terra se acaba e o mar comea,
					E onde Febo repousa no Oceano.
					Este quis o Cu justo que floresa
					Nas armas contra o torpe Mauritano,
					Deitando-o de si fora, e l na ardente
					frica estar quieto o no consente.


				22 - 	Luso ou Lisa
					"Esta  a ditosa ptria minha amada,
					A qual se o Cu me d que eu sem perigo
					Torne, com esta empresa j acabada,
					Acabe-se esta luz ali comigo.
					Esta foi Lusitnia, derivada
					De Luso, ou Lisa, que de Baco antigo
					Filhos foram, parece, ou companheiros,
					E nela ento os ncolas primeiros.


				22 - 	Viriato
					"Desta o pastor nasceu, que no seu nome
					Se v que de homem forte os feitos teve;
					Cuja fama ningum vir que dome,
					Pois a grande de Roma no se atreve.
					Esta, o velho que os filhos prprios come
					Por decreto do Cu, ligeiro e leve,
					Veio a fazer no mundo tanta parte,
					Criando-a Reino ilustre; e foi desta arte:


				23 - 	Afonso VI, de Castela
					"Um Rei, por nome Afonso, foi na Espanha,
					Que fez aos Sarracenos tanta guerra,
					Que por armas sanguinas, fora e manha,
					A muitos fez perder a vida o a terra;
					Voando deste Rei a fama estranha
					Do Herculano Calpe  Cspia serra,
					Muitos, para na guerra esclarecer-se,
					Vinham a ele e  morte oferecer-se.


				24
					"E com um amor intrnseco acendidos
					Da F, mais que das honras populares,
					Eram de vrias terras conduzidos,
					Deixando a ptria amada e prprios lares.
					Depois que em feitos altos e subidos
					Se mostraram nas armas singulares,
					Quis o famoso Afonso que obras tais
					Levassem prmio digno e dons iguais.


				25 - 	Henrique de Borgonha
					"Destes Anrique, dizem que segundo
					Filho de um Rei de Ungria exprimentado,
					Portugal houve em sorte, que no mundo
					Ento no era ilustre nem prezado;
					E, para mais sinal d'amor profundo,
					Quis o Rei Castelhano, que casado
					Com Teresa, sua filha, o Conde fosse;
					E com ela das terras tornou posse.


				26
					"Este, depois que contra os descendentes
					Da escrava Agar vitrias grandes teve,
					Ganhando muitas terras adjacentes,
					Fazendo o que a seu forte peito deve,
					Em prmio destes feitos excelentes,
					Deu-lhe o supremo Deus, em tempo breve,
					Um filho, que ilustrasse o nome ufano
					Do belicoso Reino Lusitano.


				27
					"J tinha vindo Anrique da conquista
					Da cidade Hieroslima sagrada,
					E do Jordo a areia tinha vista,
					Que viu de Deus a carne em si lavada;
					Que no tendo Gotfredo a quem resista,
					Depois de ter Judeia sojugada,
					Muitos, que nestas guerras o ajudaram,
					Para seus senhorios se tornaram;


				28 - 	Afonso Henriques
					"Quando chegado ao fim de sua idade,
					O forte e famoso ngaro estremado,
					Forado da fatal necessidade,
					O esprito deu a quem lhe tinha dado,
					Ficava o filho em tenra mocidade,
					Em quem o pai deixava seu traslado,
					Que do mundo os mais fortes igualava;
					Que de tal pai tal filho se esperava.


				29
					"Mas o velho rumor, no sei se errado,
					Que em tanta antiguidade no h certeza,
					Conta que a me, tomando todo o estado,
					Do segundo himeneu no se despreza.
					O filho rfo deixava deserdado,
					Dizendo que nas terras a grandeza
					Do senhorio todo s sua era,
					Porque, para casar, seu pai lhes dera.


				30 - 	Lutas de Afonso Henriques
						com a me, dona Teresa
					"Mas o Prncipe Afonso, que desta arte 
					Se chamava, do av tomando o nome, 
					Vendo-se em suas terras no ter parte, 
					Que a me, com seu marido, as manda e come, 
					Fervendo-lhe no peito o duro Marte, 
					Imagina consigo como as tome.
					Revolvidas as causas no conceito, 
					Ao propsito firme segue o efeito.


				31 - 	Batalha de So Mamede
					"De Guimares o campo se tingia
					Co'o sangue prprio da intestina guerra,
					Onde a me, que to pouco o parecia,
					A seu filho negava o amor e a terra.
					Com ele posta em campo j se via;
					E no v a soberba o muito que erra
					Contra Deus, contra o maternal amor;
					Mas nela o sensual era maior.


				32
					" Progne crua!  mgica Medeia!
					Se em vossos prprios filhos vos vingais
					Da maldade dos pais, da culpa alheia,
					Olhai que inda Teresa peca mais:
					Incontinncia m, cobia feia,
					So as causas deste erro principais:
					Cila, por uma, mata o velho pai,
					Esta, por ambas, contra o filho vai.


				33 - 	Priso de Dona Teresa
					"Mas j o Prncipe claro o vencimento
					Do padrasto e da inqua me levava;
					J lhe obedece a terra num momento,
					Que primeiro contra ele pelejava.
					Porm, vencido de ira o entendimento,
					A me em ferros speros atava;
					Mas de Deus foi vingada em tempo breve:
					Tanta venerao aos pais se deve!


				34 - 	Afonso VII, de Leo, Invade Portugal
					"Eis se ajunta o soberbo Castelhano,
					Para vingar a injria de Teresa,
					Contra o to raro em gente Lusitano,
					A quem nenhum trabalho agrava ou pesa.
					Em batalha cruel o peito humano,
					Ajudado da anglica defesa,
					No s contra tal fria se sustenta,
					Mas o inimigo asprrimo afugenta.


				35 - 	Cerco de Guimares
					"No passa muito tempo, quando o forte
					Prncipe em Guimares est cercado
					De infinito poder; que desta sorte
					Foi refazer-se o inimigo magoado;
					Mas, com se oferecer  dura morte
					O fiel Egas amo, foi livrado;
					Que de outra arte pudera ser perdido,
					Segundo estava mal apercebido.


				36 - 	Egas Moniz
					''lulas o leal vassalo, conhecendo
					Que seu senhor no tinha resistncia,
					Se vai ao Castelhano, prometendo
					Que ele faria dar-lhe obedincia.
					Levanta o inimigo o cerco horrendo,
					Fiado na promessa e conscincia
					De Egas Moniz; mas no consente o peito
					Do moo ilustre a outrem ser sujeito.


				37
					"Chegado tinha o prazo prometido,
					Em que o Rei Castelhano j aguardava
					Que o Prncipe, a seu mando sometido,
					Lhe desse a obedincia que esperava.
					Vendo Egas que ficava fementido,
					O que dele Castela no cuidava,
					Determina de dar a doce vida
					A troco da palavra mal cumprida.


				38
					"E com seus filhos e mulher se parte
					A alevantar com eles a fiana,
					Descalos e despidos, de tal arte,
					Que mais move a piedade que a vingana.
					- "Se pretendes, Rei alto, de vingar-te
					De minha temerria confiana,
					Dizia, eis aqui venho oferecido
					A te pagar, coa vida, o prometido.


				39
					"Vs aqui trago as vidas inocentes 
					Dos filhos sem pecado e da consorte; 
					Se a peitos generosos e excelentes, 
					Dos fracos satisfaz a fera morte.  
					Vs aqui as mos e a lngua delinquentes: 
					Nelas ss exprimenta toda a sorte 
					De tormentos, de mortes, pelo estilo 
					De Cnis e do touro de Perilo"! -


				40
					"Qual diante do algoz o condenado,
					Que j na vida a morte tem bebido,
					Pe no cepo a garganta, e j entregado
					Espera pelo golpe to temido:
					Tal diante do Prncipe indinado,
					Egas estava a tudo oferecido.
					Mas o Rei, vendo a estranha lealdade,
					Mais pde, enfim, que a ira a piedade.


				41
					" gro fidelidade Portuguesa,
					De vassalo, que a tanto se obrigava!
					Que mais o Persa fez naquela empresa,
					Onde rosto e narizes se cortava?
					Do que ao grande Dario tanto pesa,
					Que mil vezes dizendo suspirava,
					Que mais o seu Zopiro so prezara,
					Que vinte Babilnias que tomara.


				42 - 	Afonso Prepara-se para Combater
						os Mouros em Portugal
					Mas j o Prncipe Afonso aparelhava
					O Lusitano exrcito ditoso,
					Contra o Mouro que as terras habitava
					D'alm do claro Tejo deleitoso;
					J no campo de Ourique se assentava
					O arraial soberbo e belicoso,
					Defronte do inimigo Sarraceno,
					Posto que em fora e gente to pequeno.


				43
					"Em nenhuma outra cousa confiado,
					Seno no sumo Deus, que o Cu regia,
					Que to pouco era o povo batizado,
					Que para um s cem Mouros haveria.
					Julga qualquer juzo sossegado
					Por mais temeridade que ousadia,
					Cometer um tamanho ajuntamento,
					Que para um cavaleiro houvesse cento.


				44 - 	"Cinco Reis Mouros So Inimigos
					"Cinco Reis Mouros so os inimigos,
					Dos quais o principal Ismar se chama;
					Todos exprimentados nos perigos
					Da guerra, onde se alcana a ilustre fama.
					Seguem guerreiras damas seus amigos,
					Imitando a formosa e forte Dama,
					De quem tanto os Troianos se ajudaram,
					E as que o Termodonte j gostaram.


				45 - 	Viso de Afonso Henriques
					"A matutina luz serena e fria,
					As estrelas do Plo j apartava,
					Quando na Cruz o Filho de Maria,
					Amostrando-se a Afonso, o animava.
					Ele, adorando quem lhe aparecia,
					Na F todo inflamado assim gritava:
					- "Aos infiis, Senhor, aos infiis,
					E no a mim, que creio o que podeis!"


				46 - 	Afonso Henriques  Clamado Rei de Portugal
					"Com tal milagre os nimos da gente
					Portuguesa inflamados, levantavam
					Por seu Rei natural este excelente
					Prncipe, que do peito tanto amavam;
					E diante do exrcito potente
					Dos imigos, gritando o cu tocavam,
					Dizendo em alta voz: - "Real, real,
					Por Afonso alto Rei de Portugal."


				47
					"Qual co'os gritos e vozes incitado,
					Pela montanha o rbido Moloso,
					Contra o touro remete, que fiado
					Na fora est do corno temeroso:
					Ora pega na orelha, ora no lado,
					Latindo mais ligeiro que foroso,
					At que enfim, rompendo-lhe a garganta,
					Do bravo a fora horrenda se quebranta:


				48 - 	Batalha de Ourique
					"Tal do Rei novo o estmago acendido
					Por Deus e pelo povo juntamente,
					O Brbaro comete apercebido,
					Co'o animoso exrcito rompente.
					Levantam nisto os perros o alarido
					Dos gritos, tocam a arma, ferve a gente,
					As lanas e arcos tomam, tubas soam,
					Instrumentos de guerra tudo atroam.


				49
					"Bem como quando a flama, que ateada
					Foi nos ridos campos (assoprando
					O sibilante Breas) animada
					Co'o vento, o seco mato vai queimando;
					A pastoral companha, que deitada
					Co'o doce sono estava, despertando
					Ao estridor do fogo que se ateia,
					Recolhe o fato, e foge para a aldeia:


				50
					"Desta arte o Mouro atnito e torvado,
					Toma sem tento as armas mui depressa;
					No foge; mas espera confiado,
					E o ginete belgero arremessa.
					O Portugus o encontra denodado,
					Pelos peitos as lanas lhe atravessa:
					Uns caem meios mortos, e outros vo
					A ajuda convocando do Alcoro.


				51
					"Ali se vem encontros temerosos,
					Para se desfazer uma alta serra,
					E os animais correndo furiosos
					Que Neptuno amostrou ferindo a terra.
					Golpes se do medonhos e forosos;
					Por toda a parte andava acesa a guerra:
					Mas o de Luso arns, couraa e malha
					Rompe, corta, desfaz, abola e talha.


				52
					"Cabeas pelo campo vo saltando
					Braos, pernas, sem dono e sem sentido;
					E doutros as entranhas palpitando,
					Plida a cor, o gesto amortecido.
					J perde o campo o exrcito nefando;
					Correm rios de sangue desparzido,
					Com que tambm do campo a cor se perde,
					Tornado carmesi de branco e verde.


				53 - 	Origem das Armas de Portugal
					"J fica vencedor o Lusitano,
					Recolhendo os trofus e presa rica;
					Desbaratado e roto o Mauro Hispano,
					Trs dias o gro Rei no campo fiei.
					Aqui pinta no branco escudo ufano,
					Que agora esta vitria certifica,
					Cinco escudos azuis esclarecidos,
					Em sinal destes cinco Reis vencidos,


				54
					"E nestes cinco escudos pinta os trinta
					Dinheiros por que Deus fora vendido,
					Escrevendo a memria em vria tinta,
					Daquele de quem foi favorecido.
					Em cada uni dos cinco, cinco pinta,
					Porque assim fica o nmero cumprido,
					Contando duas vezes o do meio,
					Dos cinco azuis, que em cruz pintando veio.


				55 - 	Tomada de Leiria, Arronches e Santarm
					"Passado j algum tempo que passada
					Era esta gro vitria, o Rei subido
					A tomar vai Leiria, que tomada
					Fora, mui pouco havia, do vencido.
					Com esta a forte Arronches sojugada
					Foi juntamente, e o sempre enobrecido
					Scalabicastro, cujo campo ameno,
					Tu, claro Tejo, regas to sereno.


				56 - 	Mafra, Sintra
					"A estas nobres vilas sometidas,
					Ajunta tambm Mafra, em pouco espao,
					E nas serras da Lua conhecidas,
					Sojuga a fria Sintra o duro brao;
					Sintra, onde as Naiades, escondidas
					Nas fontes, vo fugindo ao doce lao,
					Onde Amor as enreda brandamente,
					Nas guas acendendo fogo ardente.


				57 - 	Lisboa
					"E tu, nobre Lisboa, que no Mundo
					Facilmente das outras s princesa,
					Que edificada foste do facundo,
					Por cujo engano foi Dardnia acesa;
					Tu, a quem obedece o mar profundo,
					Obedeceste  fora Portuguesa,
					Ajudada tambm da forte armada,
					Que das Boreais partes foi mandada.


				58
Cruzados que iam Combater os Turcos

					"L do Germnico Albis, e do Rene, 
					E da fria Bretanha conduzidos,
					A destruir o povo Sarraceno,
					Muitos com tenso santa eram partidos.
					Entrando a boca j do Tejo ameno,
					Co'o arraial do grande Afonso unidos,
					Cuja alta fama ento subia aos Cus,
					Foi posto cerco tos muros Ulisseus.


				59 - 	Tomada de Lisboa
					"Cinco vezes a Lua se escondera,
					E outras tantas mostrara cheio o rosto, 
					Quando a cidade entrada se rendera
					Ao duro cerco, que lhe estava posto.  
					Foi a batalha to sanguina e fera, 
					Quanto obrigava o firme pressuposto 
					De vencedores speros e ousados,
					E de vencidos j desesperados.


				60
					"Desta arte enfim tomada se rendeu
					Aquela que, nos tempos j passados,
					A grande fora nunca obedeceu
					Dos frios povos Cticos ousados,
					Cujo poder a tanto se estendeu
					Que o Ibero o viu e o Tejo amedrontados;
					E enfim co'o Btis tanto alguns puderam
					Que  terra de Vandlia nome deram.


				61 - 	bidos. Alenquer. Torres Vedras.
					"Que cidade to forte por ventura 
					Haver que resista, se Lisboa
					No pde resistir  fora dura 
					Da gente, cuja fama tanto voa?  
					J lhe obedece toda a Estremadura, 
					bidos, Alenquer, por onde soa
					O tom das frescas guas, entre as pedras,
					Que murmurando lava, e Torres Vedras.


				62 - 	Elvas. Moura. Serpa. Alccere-do-Sal
					"E vs tambm,  terras Transtaganas,
					Afamadas co'o dom da flava Ceres,
					Obedeceis s foras mais que humanas,
					Entregando-lhe os muros e os poderes.
					E tu, lavrador Mouro, que te enganas,
					Se sustentar a frtil terra queres;
					Que Elvas, e Moura, e Serpa conhecidas,
					E Alccere-do-Sal esto rendidas.


				63 - 	vora
					"Eis a nobre Cidade, certo assento
					Do rebelde Sertrio antigamente,
					Onde ora as guas ntidas de argento
					Vem sustentar de longo a terra e a gente,
					Pelos arcos reais, que cento e cento
					Nos ares se alevantam nobremente,
					Obedeceu por meio e ousadia
					De Giraldo, que medos no temia.


				64 - 	Beja
					"J na cidade Beja vai tomar
					Vingana de Trancoso destruda
					Afonso, que no sabe sossegar,
					Por estender coa fama a curta vida.
					No se lhe pode muito sustentar
					A cidade; mas sendo j rendida,
					Em toda a cousa viva a gente irada
					Provando os fios vai da dura espada.


				65 - 	Palmela e Cezimbra
					"Com estas sojugada foi Palmela,
					E a piscosa Cezimbra, e juntamente,
					Sendo ajudado mais de sua estrela,
					Desbarata um exrcito potente:
					Sentiu-o a vila, e viu-o a serra dela,
					Que a socorr-la vinha diligente
					Pela fralda da serra, descuidado
					Do temeroso encontro inopinado.


				66 - 	Badajoz
					"O Rei de Badajoz era alto Mouro,
					Com quatro mil cavalos furiosos,
					Inmeros pees, d'armas e de ouro
					Guarnecidos, guerreiros e lustrosos.
					Mas, qual no ms de Maio o bravo touro,
					Co'os cimes da vaca, arreceosos,
					Sentindo gente o bruto e cego amante
					Salteia o descuidado caminhante:


				67
					"Desta arte Afonso sbito mostrado
					Na gente d, que passa bem segura,
					Fere, mata, derriba denodado;
					Foge o Rei Mouro, e s da vida cura.
					Dum pnico terror todo assombrado,
					S de segui-lo o exrcito procura;
					Sendo estes que fizeram tanto abalo
					No mais que s sessenta de cavalo.

				68 - 	Cerco de Badajoz
					"Logo segue a vitria sem tardana
					O gro Rei incansbil, ajuntando
					Gentes de todo o Reino, cuja usana
					Era andar sempre terras conquistando.
					Cercar vai Badajoz, e logo alcana
					O fim de seu desejo, pelejando
					Com tanto esforo, e arte, e valentia,
					Que a fez fazer s outras companhia.


				69
					"Mas o alto Deus, que para longe guarda
					O castigo daquele que o merece,
					Ou, para que se emende, s vezes tarda,
					Ou por segredos que homem no conhece,
					Se at que sempre o forte Rei resguarda
					Dos perigos a que ele se oferece;
					Agora lhe no deixa ter defesa
					Da maldio da me que estava presa.


				70 - 	Afonso Henriques  Feito Prisioneiro
							dos Leoneses
					"Que estando na cidade, que cercara,
					Cercado nela foi dos Lioneses,
					Porque a conquista dela lhe tomara,
					De Lio sendo, e no dos Portugueses.
					A pertincia aqui lhe custa cara,
					Assim como acontece muitas vezes,
					Que em ferros quebra as pernas, indo aceso 
					A batalha, onde foi vencido e preso.


				71
					" famoso Pompeio, no te pene
					De teus feitos ilustres a runa,
					Nem ver que a justa Nmesis ordene
					Ter teu sogro de ti vitria dina,
					Posto que o frio Fsis, ou Siene,
					Que para nenhum cabo a sombra inclina,
					O Bootes gelado e a linha ardente,
					Temessem o teu nome geralmente.


				72
					"Posto que a rica Arbia e que os ferozes
					Enocos e Colcos, cuja fama
					O Vu dourado estende, e os Capadoces,
					E Judeia, que um Deus adora e ama,
					E que os moles Sofenos, e os atroces
					Cilcios, com a Armnia, que derrama
					As guas dos dous rios, cuja fonte
					Est noutro mais alto e santo monte;


				73 - 	Afonso  Vencido pelo Genro,
						Fernando II, Rei de Leo
					"E posto enfim que desde o mar de Atlante
					At o Ctico Tauro monte erguido,
					J vencedor te vissem, no te espanto
					Se o campo Emtio s te viu vencido,
					Porque Afonso vers, soberbo e ovante,
					Tudo render-se ser depois rendido.
					Assim o quis o conselho alto e celeste,
					Que vena o sogro a ti, e o genro a este.


				74 - 	Afonso  Posto em Liberdade
					"Tornado o Rei sublime finalmente,
					Do divino Juzo castigado,
					Depois que em Santarm soberbamente
					Em vo dos Sarracenos foi cercado,
					E depois que do mrtire Vicente
					O santssimo corpo venerado
					Do Sacro Promontrio conhecido
					A cidade Ulisseia foi trazido;


				75 - 	Sancho I
					"Porque levasse avante seu desejo,
					Ao forte filho manda o lasso velho
					Que s terras se passasse d'Alentejo,
					Com gente e co'o belgero aparelho.
					Sancho, d'esforo o d'nimo sobejo,
					Avante passa, e faz correr vermelho
					O rio que Sevilha vai regando,
					Co'o sangue Mauro, brbaro e nefando.


				76
					"E com esta vitria cobioso,
					J no descansa o moo at que veja
					Outro estrago como este, temeroso,
					No Brbaro que tem cercado Beja.
					No tarda muito o Prncipe ditoso
					Sem ver o fim daquilo que deseja.
					Assim estragado o Mouro, na vingana
					De tantas perdas pe sua esperana.


				77 - 	Guerra com os Mouros
					"J se ajuntam do monte a quem Medusa
					O corpo fez perder, que teve o Cu;
					J vem do promontrio de Ampelusa
					E do Tinge, que assento foi de Anteu.
					O morador de Abila no se escusa,
					Que tambm com suas armas se moveu,
					Ao som da Mauritana e ronca tuba,
					Todo o Reino que foi do nobre Juba.


				78 - 	D. Sancho  Cercado em Santarm
					"Entrava com toda esta companhia
					O Miralmomini em Portugal;
					Treze Reis mouros leva de valia,
					Entre os quais tem o ceptro imperial;
					E assim fazendo quanto mal podia,
					O que em partes podia fazer mal,
					Dom Sancho vai cercar em Santarm;
					Porm no lhe sucede muito bem.


				79
					"D-lhe combates speros, fazendo
					Ardis de guerra mil o Mouro iroso;
					No lhe aproveita j trabuco horrendo,
					Mina secreta, arete foroso:
					Porque o filho de Afonso no perdendo
					Nada do esforo e acordo generoso,
					Tudo prov com nimo e prudncia;
					Que em toda a parte h esforo e resistncia.


				80 - 	Socorre Afonso ao Filho Sancho
					"Mas o velho, a quem tinham j obrigado
					Os trabalhosos anos ao sossego,
					Estando na cidade, cujo prado
					Enverdecem as guas do Mondego,
					Sabendo como o filho est cercado
					Em Santarm do Mauro povo cego,
					Se parte diligente da cidade;
					Que no perde a presteza coa idade.


				81 - 	Derrota dos Mouros
					"E coa famosa gente  guerra usada
					Vai socorrer o filho; e assim ajuntados,
					A Portuguesa fria costumada
					Em breve os Mouros tem desbaratados.
					A campina, que toda est coalhada
					De marlotas, capuzes variados,
					De cavalos, jaezes, presa rica,
					De seus senhores mortos cheia fica.


				82
					"Logo todo o restante se partiu
					De Lusitnia, postos em fugida;
					O Miralmomini s no fugiu,
					Porque, antes de fugir, lhe foge a vida.
					A quem lhe esta vitria permitiu
					Do louvores e graas sem medida:
					Que em casos to estranhos claramente
					Mais peleja o favor de Deus que a gente.


				83 - 	Morte de Afonso Henriques
					"De tamanhas vitrias triunfava
					O velho Afonso , Prncipe subido,
					Quando, quem tudo enfim vencendo andava,
					Da larga e muita idade foi vencido.
					A plida doena lhe tocava
					Com fria mo o corpo enfraquecido;
					E pagaram seus anos deste jeito
					A triste Libitina seu direito.


				84
					"Os altos promontrios o choraram,
					E dos rios as guas saudosas
					Os semeados campos alagaram
					Com lgrimas correndo piedosas.
					Mas tanto pelo mundo se alargaram
					Com faina suas obras valerosas,
					Que sempre no seu Reino chamaro
					"Afonso, Afonso" os ecos, mas em vo.


				85
					"Sancho, forte mancebo, que ficara
					Imitando seu pai na valentia,
					E que em sua vida j se exprimentara,
					Quando o Btis de sangue se tingia,
					E o brbaro poder desbaratara
					Do Ismaelita Rei de Andaluzia;
					E mais quando os que Beja em vo cercaram,
					Os golpes de seu brao em si provaram;


				86 - 	Cerco de Silves por D. Sancho
					"Depois que foi por Rei alevantado,
					Havendo poucos anos que reinava,
					A cidade de Silves tem cercado,
					Cujos campos o brbaro lavrava.
					Foi das valentes gentes ajudado
					Da Germnica armada que passava,
					De armas fortes e gente apercebida,
					A recobrar Judeia j perdida.


				87 - 	Auxlio Prestado a D. Sancho pelos Cruzados,
						na Tomada de Silves
					"Passavam a ajudar na santa empresa
					O roxo Federico, que moveu
					O poderoso exrcito em defesa
					Da cidade onde Cristo padeceu,
					Quando Guido, coa gente em sede acesa,
					Ao grande Saladino se rendeu,
					No lugar onde aos Mouros sobejavam
					As guas que os de Guido desejavam.


				88
					"Mas a formosa armada, que viera
					Por contraste de vento quela parte,
					Sancho quis ajudar na guerra fera,
					J que em servio vai do santo Marte.
					Assim como a seu pai acontecera
					Quando tomou Lisboa, da mesma arte
					Do Germano ajudado Silves toma,
					E o bravo morador destrue e doma.


				89 - 	Conquista de Tui
					"E se tantos trofus do Mahometa
					Alevantando vai, tambm do forte
					Lions no consente estar quieta
					A terra, usada aos casos de Mavorte,
					At que na cerviz seu jugo meta
					Da soberba Tui, que a mesma sorte
					Viu ter a muitas vilas suas vizinhas,
					Que, por armas, tu, Sancho, humildes tinhas.


				90 - 	Morte de Sancho I. Sucede-lhe Afonso II.
						Alccere-do-Sal
					"Mas entre tantas palmas salteado          
					Da temerosa morte, fica herdeiro           
					Um filho seu, de todos estimado,
					Que foi segundo Afonso, e Rei terceiro.
					No tempo deste, aos Mouros foi tomado
					Alccere-do-Sal por derradeiro;
					Porque dantes os Mouros o tomaram,
					Mas agora estrudos o pagaram.


				91 - 	Sancho II. Sua Deposio
					"Morto depois Afonso, lhe sucede
					Sancho segundo, manso e descuidado,
					Que tanto em seus descuidos se desmede,
					Que de outrem, quem mandava, era mandado.
					De governar o Reino, que outro pede,
					Por causa dos privados foi privado,
					Porque, como por eles se regia,
					Em todos os seus vcios consentia.


				92
					"No era Sancho, no, to desonesto
					Como Nero, que um moo recebia
					Por mulher, e depois horrendo incesto
					Com a me Agripina cometia;
					Nem to cruel s gentes e molesto,
					Que a cidade queimasse onde vivia,
					Nem to mau como foi Heliogabalo,
					Nem como o mole Rei Sardanapalo.


				93
					"Nem era o povo seu tiranizado,
					Como Siclia foi de seus tiranos;
					Nem tinha como Flaris achado
					Gnero de tormentos inumanos;
					Mas o Reino, de altivo e costumado
					A senhores em tudo soberanos,
					A Rei no obedece, nem consente,
					Que no for mais que todos excelente.


				94 - 	Afonso III, o Conde Bolonhs
					"Por esta causa o Reino governou
					O Conde Bolonhs, depois alado
					Por Rei, quando da vida se apartou
					Seu irmo Sancho, sempre ao cio dado.
					Este, que Afonso o bravo, se chamou,
					Depois de ter o Reino segurado,
					Em dilat-lo cuida, que em terreno
					No cabe o altivo peito, to pequeno.


				95 - 	Conquista do Algarve
					"Da terra dos Algarves, que lhe fora
					Em casamento dada, grande parte
					Recupera co'o brao, e deita fora
					O Mouro, mal querido j de Marte.
					Este de todo fez livre e senhora
					Lusitnia, com fora e blica arte;
					E acabou de oprimir a nao forte,
					Na terra que aos de Luso coube em sorte.


				96 - 	Dom Dinis
					"Eis depois vem Dinis, que bem parece
					Do bravo Afonso estirpe nobre e dina,
					Com quem a fama grande se escurece
					Da liberalidade Alexandrina.
					Com este o Reino prspero florece 
					(Alcanada j a paz urea divina) 
					Em constituies, leis e costumes, 
					Na terra j tranquila claros lumes.


				97 - 	Fundao da Universidade de Coimbra
					"Fez primeiro em Coimbra exercitar-se
					O valeroso ofcio de Minerva;
					E de Helicona as Musas fez passar-se
					A pisar do Monde-o a frtil erva.
					Quanto pode de Atenas desejar-se,
					Tudo o soberbo Apolo aqui reserva.
					Aqui as capelas d tecidas de ouro,
					Do bcaro e do sempre verde louro.


				98 - 	Afonso IV
					"Nobres vilas de novo edificou
					Fortalezas, castelos mui seguros,
					E quase o Reino todo reformou
					Com edifcios grandes, e altos muros.
					Mas depois que a dura tropos cortou
					O fio de seus dias j maduros,
					Ficou-lhe o filho pouco obediente,
					Quarto Afonso, mas forte e excelente.


				99
					"Este sempre as soberbas Castelhanas
					Co'o peito desprezou firme e sereno,
					Porque no  das foras Lusitanas,
					Temer poder maior, por mais pequeno.
					Mas porm, quando as gentes Mauritanas,
					A possuir o Hesprico terreno
					Entraram pelas terras de Castela,
					Foi o soberbo Afonso a socorr-la.


				100 - 	Preparam-se os Mouros para Invadir Castela
					"Nunca com Semirmis gente tanta
					Veio os campos idspicos enchendo,
					Nem Atila, que Itlia toda espanta,
					Chamando-se de Deus aoute horrendo,
					Gtica gente trouxe tanta, quanta
					Do Sarraceno brbaro estupendo,
					Co'o poder excessivo de Granada,
					Foi nos campos Tartsios ajuntada.


Afonso XI, de Castela, pede Auxlio a Afonso IV, seu Sogro



				101
					"E vendo o Rei sublime Castelhano
					A fora inexpugnbil, grande e forte,
					Temendo mais o fim do povo hispano,
					J perdido uma vez, que a prpria morte,
					Pedindo ajuda ao forte Lusitano,
					Lhe mandava a carssima consorte,
					Mulher de quem a manda, e filha amada
					Daquele a cujo Reino foi mandada.


				102 - 	Vai  Portugal a Rainha de Castela
					"Entrava a formosssima Maria
					Pelos paternais paos sublimados,
					Lindo o gesto, mas fora de alegria,
					E seus olhos em lgrimas banhados;
					Os cabelos anglicos trazia
					Pelos ebrneos ombros espalhados:
					Diante do pai ledo, que a agasalha,
					Estas palavras tais, chorando, espalha:


Splica da Rainha de Castela ao Pai, Afonso IV de Portugal



				103
					- "Quantos povos a terra produziu
					De frica toda, gente fera e estranha,
					O gro Rei de Marrocos conduziu
					Para vir possuir a nobre Espanha:
					Poder tamanho junto no se viu,
					Depois que o salso mar a terra banha.
					Trazem ferocidade, e furor tanto,
					Que a vivos medo, e a mortos faz espanto.


				104
					- "Aquele que me deste por marido,
					Por defender sua terra amedrontada,
					Co'o pequeno poder, oferecido
					Ao duro golpe est da Maura espada;
					E se no for contigo socorrido,
					Ver-me-s dele e do Reino ser privada,
					Viva e triste, e posta em vida escura,
					Sem marido, sem Reino, e sem ventura.


				105
					"Portanto,  Rei, de quem com puro medo
					O corrente Muluca se congela,
					Rompe toda a tardana, acude cedo 
					A miseranda gente de Castela.
					Se esse gesto, que mostras claro e ledo, 
					De pai o verdadeiro amor assela,
					Acude e corre, pai, que se no corres, 
					Pode ser que no aches quem socorres." -


				106
					"No de outra sorte a tmida Maria
					Falando est, que a triste Vnus, quando
					A Jpiter, seu pai, favor pedia
					Para Eneias, seu filho, navegando;
					Que a tanta piedade o comovia
					Que, cado das mos o raio infando, 
					Tudo o clemente Padre lhe concede, 
					Pesando-lhe do pouco que lhe pede.


				107 - 	Batalha do Solado
					"Mas j co'os esquadres da gente armada
					Os Eborenses campos vo coalhados:
					Lustra co'o Sol o arns, a lana, a espada;
					Vo rinchando os cavalos jaezados.
					A canora trombeta embandeirada,
					Os coraes  paz acostumados
					Vai s fulgentes armas incitando, 
					Pelas concavidades retumbando.


				108
					"Entre todos no meio se sublima,
					Das insgnias Reais acompanhado,
					O valeroso Afonso, que por cima
					De todos leva o colo alevantado;
					E somente co'o gesto esfora e anima
					A qualquer corao amedrontado.
					Assim entra nas terras de Castela
					Com a filha gentil, Rainha dela.


				109
					"Juntos os dous Afonsos finalmente
					Nos campos de Tarifa esto defronte
					Da grande multido da cega gente,
					Para quem so pequenos campo e monte.
					No h peito to alto e to potente,
					Que de desconfiana no se afronte,
					Enquanto no conhea e claro veja
					Que co'o brao dos seus Cristo peleja.


				110
					"Esto de Agar os netos quase rindo
					Do poder dos Cristos fraco e pequeno,
					As terras como suas repartindo
					Antemo, entre o exrcito Agareno,
					Que com ttulo falso possuindo
					Est o famoso nome Sarraceno.
					Assim tambm com falsa conta e nua,
					 nobre terra alheia chamam sua.


				111
					"Qual o membrudo e brbaro Gigante,
					Do rei Saul, com causa, to temido,
					Vendo o pastor inerme estar diante,
					S de pedras e esforo apercebido,
					Com palavras soberbas o arrogante
					Despreza o fraco moo mal vestido,
					Que, rodeando a funda, o desengana
					Quanto mais pode a F que a fora humana:


				112
					"Desta arte o Mouro prfido despreza
					O poder dos Cristos, e no entende
					Que est ajudado da Alta Fortaleza,
					A quem o inferno horrfico se rende.
					Co ela o Castelhano, e com destreza
					De Marrocos o Rei comete e ofende.
					O Portugus, que tudo estima em nada,
					Se f az temer ao Reino de Granada.


				113
					"Eis as lanas e espadas retiniam
					Por cima dos arneses: bravo estrago!
					Chamam (segundo as leis que ali seguiam)
					Uns Mafamede, e os outros Santiago.
					Os feridos com grita o Cu feriam,
					Fazendo de seu sangue bruto lago,
					Onde outros meios mortos se afogavam,
					Quando do ferro as vidas escapavam.


				114
					"Com esforo tamanho estrui e mata
					O Luso ao Granadil, que, em pouco espao,
					Totalmente o poder lhe desbarata,
					Sem lhe valer defesa ou peito de ao.
					De alcanar tal vitria to barata
					Inda no bem contente o forte brao,
					Vai ajudar ao bravo Castelhano,
					Que pelejando est co'o Mauritano.


				115 - 	Derrota dos Mouros
					"J se ia o Sol ardente recolhendo
					Para a casa de Tethys, e inclinado
					Para o Ponente, o Vspero trazendo,
					Estava o claro dia memorado,
					Quando o poder do Mauro grande e horrendo
					Foi pelos fortes Reis desbaratado, 
					Com tanta mortandade, que a memria
					Nunca no mundo viu to gr vitria.


				116
					"No matou a quarta parte o forte Mrio
					Dos que morreram neste vencimento,
					Quando as guas co'o sangue do adversrio
					Fez beber ao exrcito sedento;
					Nem o Peno asperssimo contrrio
					Do Romano poder, de nascimento,
					Quando tantos matou da ilustro Roma,
					Que alqueires trs de anis dos mortos toma.


				117
					"E se tu tantas almas s pudeste
					Mandar ao Reino escuro de Cocito,
					Quando a santa Cidade desfizeste
					Do povo pertinaz no antigo rito:
					Permisso e vingana foi celeste,
					E no fora de brao,  nobre Tito,
					Que assim dos Vates foi profetizado,
					E depois por Jesu certificado.


				118 - 	Ins de Castro
					"Passada esta to prspera vitria,
					Tornando Afonso  Lusitana terra,
					A se lograr da paz com tanta glria
					Quanta soube ganhar na dura guerra,
					O caso triste, e dino da memria,
					Que do sepulcro os homens desenterra,
					Aconteceu da msera e mesquinha
					Que depois de ser morta foi Rainha.


				119
					"Tu s, tu, puro Amor, com fora crua,
					Que os coraes humanos tanto obriga,
					Deste causa  molesta morte sua,
					Como se fora prfida inimiga.
					Se dizem, fero Amor, que a sede tua
					Nem com lgrimas tristes se mitiga,
					] porque queres, spero e tirano,
					Tuas aras banhar em sangue humano.


				120
					"Estavas, linda Ins, posta em sossego,
					De teus anos colhendo doce fruto,
					Naquele engano da alma, ledo e cego,
					Que a fortuna no deixa durar muito,
					Nos saudosos campos do Mondego,
					De teus fermosos olhos nunca enxuto,
					Aos montes ensinando e s ervinhas
					O nome que no peito escrito tinhas.


				121
					"Do teu Prncipe ali te respondiam
					As lembranas que na alma lhe moravam,
					Que sempre ante seus olhos te traziam,
					Quando dos teus fermosos se apartavam:
					De noite em doces sonhos, que mentiam,
					De dia em pensamentos, que voavam.
					E quanto enfim cuidava, e quanto via,
					Eram tudo memrias de alegria.


				122
					"De outras belas senhoras e Princesas
					Os desejados tlamos enjeita,
					Que tudo enfim, tu, puro amor, despreza,
					Quando um gesto suave te sujeita.
					Vendo estas namoradas estranhezas
					O velho pai sesudo, que respeita
					O murmurar do povo, e a fantasia
					Do filho, que casar-se no queria,


				123
					"Tirar Ins ao mundo determina,
					Por lhe tirar o filho que tem preso,
					Crendo co'o sangue s da morte indina
					Matar do firme amor o fogo aceso.
					Que furor consentiu que a espada fina,
					Que pde sustentar o grande peso
					Do furor Mauro, fosse alevantada
					Contra uma fraca dama delicada?


				124
					"Traziam-na os horrficos algozes
					Ante o Rei, j movido a piedade:
					Mas o povo, com falsas e ferozes
					Razes,  morte crua o persuade.
					Ela com tristes o piedosas vozes,
					Sadas s da mgoa, e saudade
					Do seu Prncipe, e filhos que deixava,
					Que mais que a prpria morte a magoava,


				125 - 	Splica de Ins de Castro ao Rei
					"Para o Cu cristalino alevantando
					Com lgrimas os olhos piedosos,
					Os olhos, porque as mos lhe estava atando
					Um dos duros ministros rigorosos;
					E depois nos meninos atentando,
					Que to queridos tinha, e to mimosos,
					Cuja orfandade como me temia,
					Para o av cruel assim dizia:


				126
					- "Se j nas brutas feras, cuja mente
					Natura fez cruel de nascimento,
					E nas aves agrestes, que somente
					Nas rapinas areas tm o intento,
					Com pequenas crianas viu a gente
					Terem to piedoso sentimento,
					Como coa me de Nino j mostraram,
					E colos irmos que Roma edificaram;


				127
					-" tu, que tens de humano o gesto e o peito 
					(Se de humano  matar uma donzela 
					Fraca e sem fora, s por ter sujeito 
					O corao a quem soube venc-la) 
					A estas criancinhas tem respeito, 
					Pois o no tens  morte escura dela; 
					Mova-te a piedade sua e minha,
					Pois te no move a culpa que no tinha.


				128
					- "E se, vencendo a Maura resistncia,
					A morte sabes dar com fogo e ferro,
					Sabe tambm dar vicia com clemncia
					A quem para perd-la no fez erro.
					Mas se to assim merece esta inocncia,
					Pe-me em perptuo e msero desterro,
					Na Ctia f ria, ou l na Lbia ardente,
					Onde em lgrimas viva eternamente.


				129
					"Pe-me onde se use toda a feridade,
					Entre lees e tigres, e verei
					Se neles achar posso a piedade
					Que entre peitos humanos no achei:
					Ali com o amor intrnseco e vontade
					Naquele por quem morro, criarei
					Estas relquias suas que aqui viste,
					Que refrigrio sejam da me triste." -


				130 - 	Morte de Ins de Castro					"Queria perdoar-lhe o Rei benino,
					Movido das palavras que o magoam;
					Mas o pertinaz povo, e seu destino
					(Que desta sorte o quis) lhe no perdoam.
					Arrancam das espadas de ao fino
					Os que por bom tal feito ali apregoam.
					Contra uma dama,  peitos carniceiros,
					Feros vos amostrais, e cavaleiros?


				131
					"Qual contra a linda moa Policena,
					Consolao extrema da me velha,
					Porque a sombra de Aquiles a condena,
					Co'o ferro o duro Pirro se aparelha;
					Mas ela os olhos com que o ar serena
					(Bem como paciente e mansa ovelha)
					Na msera me postos, que endoudece,
					Ao duro sacrifcio se oferece:


				132
					"Tais contra Ins os brutos matadores
					No colo de alabastro, que sustinha
					As obras com que Amor matou de amores
					Aquele que depois a fez Rainha;
					As espadas banhando, e as brancas flores,
					Que ela dos olhos seus regadas tinha,
					Se encarniavam, frvidos e irosos,
					No futuro castigo no cuidosos.


				133
					"Bem puderas,  Sol, da vista destes
					Teus raios apartar aquele dia,
					Como da seva mesa de Tiestes,
					Quando os filhos por mo de Atreu comia.
					Vs,  cncavos vales, que pudestes
					A voz extrema ouvir da boca fria,
					O nome do seu Pedro, que lhe ouvistes,
					Por muito grande espao repetisses!


				134
					"Assim como a bonina, que cortada
					Antes do tempo foi, cndida e bela,
					Sendo das mos lascivas maltratada
					Da menina que a trouxe na capela,
					O cheiro traz perdido e a cor murchada:
					Tal est morta a plida donzela,
					Secas do rosto as rosas, e perdida
					A branca e viva cor, coa doce vida.


				135
					"As filhas do Mondego a morte escura
					Longo tempo chorando memoraram,
					E, por memria eterna, em fonte pura
					As lgrimas choradas transformaram;
					O nome lhe puseram, que inda dura,
					Dos amores de Ins que ali passaram.
					Vede que fresca fonte rega as flores,
					Que lgrimas so a gua, e o nome amores.


				136 - 	Vingana de Pedro I
					"No correu muito tempo que a vingana
					No visse Pedro das mortais feridas,
					Que, em tomando do Reino a governana,
					A tomou dos fugidos homicidas.
					Do outro Pedro crussimo os alcana,
					Que ambos, imigos das humanas vidas,
					O concerto fizeram, duro e injusto,
					Que com Lpido e Antnio fez Augusto.


				137 - 	Pedro I, o Cru
					"Este, castigador foi rigoroso
					De latrocnios, mortes e adultrios:
					Fazer nos maus cruezas, fero e iroso,
					Eram os seus mais certos refrigrios.
					As cidades guardando justioso
					De todos os soberbos vituprios, 
					Mais ladres castigando  morte deu,
					Que o vagabundo Aleides ou Teseu.


				138 - 	D. Fernando
					"Do justo e duro Pedro nasce o brando, 
					(Vede da natureza o desconcerto!)
					Remisso, e sem cuidado algum, Fernando,
					Que todo o Reino ps em muito aperto:
					Que, vindo o Castelhano devastando
					As terras sem defesa, esteve perto
					De destruir-se o Reino totalmente;
					Que um fraco Rei f az fraca a forte gente.


				139 - 	Leonor Teles
					"Ou foi castigo claro do pecado
					De tirar Lianor a seu marido,
					E casar-se com ela, de enlevado
					Num falso parecer mal entendido;
					Ou foi que o corao sujeito e dado
					Ao vcio vil, de quem se viu rendido,
					Mole se fez e fraco; e bem parece,
					Que um baixo amor os fortes enfraquece.


				140
					"Do pecado tiveram sempre a pena
					Muitos, que Deus o quis, e permitiu:
					Os que foram roubar a bela Helena,
					E com Apio tambm Tarquilio o viu.
					Pois por quem David Santo se condena?
					Ou quem o Tribo ilustre destruiu
					De Benjamim?  Bem claro no-lo ensina
					Por Sara Fara, Siqum por Dina.


				141 - 	Marco Antnio. Anbal
					"E pois se os peitos fortes enfraquece
					Um inconcesso amor desatinado,
					Bem no filho de Alcmena se parece,
					Quando em nfale andava transformado.
					De Marco Antnio a faina se escurece
					Com ser tanto a Cleopatra afeioado.
					Tu tambm, Peno prspero, o sentiste
					Depois que uma moa vil na Aplia viste.


				142 - 	O Poder do Amor
					"Mas quem pode livrar-se por ventura
					Dos laos que Amor arma brandamente
					Entre as rosas e a neve humana pura,
					O ouro e o alabastro transparente?
					Quem de uma peregrina formosura,
					De um vulto de Medusa propriamente,
					Que o corao converte, que tem preso,
					Em pedra no, mas em desejo aceso?


				143
					"Quem viu um olhar seguro, um gesto brando,
					Uma suave e anglica excelncia,
					Que em si est sempre as almas transformando,
					Que tivesse contra ela resistncia?
					Desculpado por certo est Fernando,
					Para quem tem de amor experincia;
					Mas antes, tendo livre a fantasia,
					Por muito mais culpado o julgaria.




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Cames
Os Lusadas
(Canto Quarto)

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				1 - 	Continua a narrao do Gama ao rei de Melinde
					"Depois de procelosa tempestade,
					Noturna sombra e sibilante vento,
					Traz a manh serena claridade,
					Esperana de porto e salvamento;
					Aparta o sol a negra escuridade,
					Removendo o temor do pensamento:
					Assim no Reino forte aconteceu,
					Depois que o Rei Fernando faleceu.


				2 - 	Dom Joo I
					"Porque, se muito os nossos desejaram
					Quem os danos e ofensas v vingando
					Naqueles que to bem se aproveitaram
					Do descuido remisso de Fernando,
					Depois de pouco tempo o alcanaram,
					Joane, sempre ilustre, alevantando
					Por Rei, como de Pedro nico herdeiro, 
					(Ainda que bastardo) verdadeiro.


				3
					"Ser isto ordenao dos cus divina,
					Por sinais muito claros se mostrou,
					Quando em vora a voz de uma menina,
					Ante tempo falando o nomeou;
					E como cousa enfim que o Cu destina,
					No bero o corpo e a voz alevantou:
					- "Portugal!  Portugal!" alando a mo
					Disse "pelo Rei novo, Dom Joo." -


				4 - 	Motins. Morte do conde Andeiro,
					amante da rainha Leonor Teles
					"Alteradas ento do Reino as gentes
					Co'o dio, que ocupado os peitos tinha,
					Absolutas cruezas e evidentes
					Faz do povo o furor por onde vinha;
					Matando vo amigos e parentes
					Do adltero Conde e da Rainha,
					Com quem sua incontinncia desonesta
					Mais (depois de viva) manifesta.


				5
					"Mas ele enfim, com causa desonrado,
					Diante dela a ferro frio morre,
					De outros muitos na morte acompanhado,
					Que tudo o fogo erguido queima e corre:
					Quem, como Astians, precipitado,
					(Sem lhe valerem ordens) de alta torre,
					A quem ordens, nem aras, nem respeito;
					Quem nu por ruas, e em pedaos feito.


				6 - 	Leonor Teles chama em seu
				  socorro o genro, D. Joo I de Castela
					"Podem-se pr em longo esquecimento
					As cruezas mortais que Roma viu
					Feitas do feroz Mrio e do cruento
					Sila, quando o contrrio lhe fugiu.
					Por isso Lianor, que o sentimento
					Do morto Conde ao mundo descobriu,
					Faz contra Lusitnia vir Castela,
					Dizendo ser sua filha herdeira dela.


				7 - 	Prepara-se o rei de Castela para invadir Portugal
					"Beatriz era a filha, que casada
					Co'o Castelhano est, que o Reino pede,
					Por filha de Fernando reputada,
					Se a corrompida fama lhe concede.
					Com esta voz Castela alevantada,
					Dizendo que esta filha ao pai sucede,
					Suas foras ajunta para as guerras
					De vrias regies e vrias terras.


				8 - 	Descrio da Espanha
					Vem de toda a provncia que de um Brigo
					(Se foi) j teve o nome derivado;
					Das terras que Fernando e que Rodrigo
					Ganharam do tirano e Mauro estado.
					No estimam das armas o perigo
					Os que cortando vo co'o duro arado
					Os campos Lioneses, cuja gente
					C'os Mouros foi nas armas excelente.


				9 - 	Provncias de Espanha
					"Os Vndalos, na antiga valentia
					Ainda confiados, se ajuntavam
					Da cabea de toda Andaluzia,
					Que do Guadalquibir as guas lavam.
					A nobre Ilha tambm se apercebia,
					Que antigamente os Trios habitavam,
					Trazendo por insgnias verdadeiras
					As Hercleas colunas nas bandeiras.


				10
					"Tambm vem l do Reino de Toledo,
					Cidade nobre e antiga, a quem cercando
					O Tejo em torno vai suave e ledo
					Que das serras de Conca vem manando.
					A vs outros tambm no tolhe o medo, 
					 srdidos Galegos, duro bando,
					Que para resistirdes vos armastes,
					Aqueles, cujos golpes j provasses.


				11
					"Tambm movem da guerra as negras frias
					A gente Biscainha, que carece
					De polidas razes, e que as injrias
					Muito mal dos estranhos compadece.
					A terra de Guipscua e das Astrias,
					Que com minas de ferro se enobrece,
					Armou dele os soberbos moradores,
					Para ajudar na guerra a seus senhores.


				12 - 	Aconselha-se o rei de Portugal
						com os principais do reino
					"Joane, a quem do peito o esforo cresce,
					Como a Sanso Hebrio da guedelha,
					Posto que tudo pouco lhe parece,
					Co'os poucos de seu Reino se aparelha;
					E no porque conselho lhe falece,
					Co'os principais senhores se aconselha,
					Mas s por ver das gentes as sentenas:
					Que sempre houve entre muitos diferenas.


				13
					"No falta com razes quem desconcerte
					Da opinio de todos, na vontade,
					Em quem o esforo antigo se converte
					Em desusada e m deslealdade;
					Podendo o temor mais, gelado, inerte,
					Que a prpria e natural fidelidade:
					Negam o Rei e a ptria, e, se convm,
					Negaro (como Pedro) o Deus que tm.


				14 - 	Nuno lvares Pereira
					"Mas nunca foi que este erro se sentisse
					No forte Dom Nuno Alvares; mas antes,
					Posto que em seus irmos to claro o visse,
					Reprovando as vontades inconstantes,
					Aquelas duvidosas gentes disse,
					Com palavras mais duras que elegantes,
					A mo na espada, irado, e no facundo,
					Ameaando a terra, o mar e o mundo:


				15 - 	Fala de Nuno lvares Pereira
					-"Como!  Da gente ilustre Portuguesa
					H-de haver quem refuse o ptrio Marte?,
					Como!  Desta provncia, que princesa
					Foi das gentes na guerra em toda a parte,
					H-de sair quem negue ter defesa?
					Quem negue a F, o amor, o esforo e arte
					De Portugus, e por nenhum respeito
					O prprio Reino queira ver sujeito?


				16
					-"Como!  No seis vs inda os descendentes
					Daqueles, que debaixo da bandeira
					Do grande Henriques, feros e valentes,
					Vencestes esta gente to guerreira?
					Quando tantas bandeiras, tantas gentes
					Puseram em fugida, de maneira
					Que sete ilustres Condes lhe trouxeram
					Presos, afora a presa que tiveram?


				17
					-"Com quem foram contino sopeados
					Estes, de quem o estais agora vs,
					Por Dinis e seu filho, sublimados,
					Seno co'os vossos fortes pais, e avs?
					Pois se com seus descuidos, ou pecados,
					Fernando em tal fraqueza assim vos ps,
					Torne-vos vossas foras o Rei novo:
					Se  certo que co'o Rei se muda o povo.


				18
					-"Rei tendes tal, que se o valor tiverdes
					Igual ao Rei que agora alevantastes,
					Desbaratareis tudo o que quiserdes,
					Quanto mais a quem j desbaratasses.
					E se com isto enfim vos no moverdes
					Do penetrante medo que tomastes,
					Atai as mos a vosso vo receio,
					Que eu s resistirei ao jugo alheio.

			
				19
					-"Eu s com meus vassalos, e com esta 
					(E dizendo isto arranca meia espada) 
					Defenderei da fora dura e infesta 
					A terra nunca de outrem sojugada.  
					Em virtude do Rei, da ptria mesta, 
					Da lealdade j por vs negada, 
					Vencerei (no s estes adversrios)
					Mas quantos a meu Rei forem contrrios."-


				20
					Bem como entre os mancebos recolhidos
					Em Cansio, relquias ss de Canas,
					J para se entregar quase movidos
					A fortuna das foras Africanas,
					Cornlio moo os faz que, compelidos
					Da sua espada, jurem que as Romanas
					Armas no deixaro, enquanto a vida
					Os no deixar, ou nelas for perdida:


				21 - 	Preparativos de Guerra
					"Destarte a gente fora e esfora Nuno, 
					Que, com lhe ouvir as ltimas razes, 
					Removem o temor frio, importuno, 
					Que gelados lhe tinha os coraes. 
					Nos animais cavalgam de Neptuno, 
					Brandindo e volteando arremesses; 
					Vo correndo e gritando a boca aberta: 
					-"Viva o famoso Rei que nos liberta!"-


				22
					"Das gentes populares, uns aprovam
					A guerra com que a ptria se sustinha;
					Uns as armas alimpam e renovam,
					Que a ferrugem da paz gastadas tinha;
					Capacetes estofam, peitos provam,
					Arma-se cada um como convinha;
					Outros fazem vestidos de mil cores,
					Com letras e tenes de seus amores.


				23
					"Com toda esta lustrosa companhia
					Joane forte sai da fresca Abrantes,
					Abrantes, que tambm da fonte fria
					Do Tejo logra as guas abundantes.
					Os primeiros armgeros regia
					Quem para reger era os mui possantes
					Orientais exrcitos, sem conto,
					Com que passava Xerxes o Helesponto.


				24 - 	Ordem de batalha
					"Dom Nuno Alvares digo, verdadeiro
					Aoute de soberbos Castelhanos
					Como j o fero Huno o foi primeiro
					Para Franceses, para Italianos.
					Outro tambm famoso cavaleiro,
					Que a ala direita tem dos Lusitanos,
					Apto para mand-los, e reg-los,
					Mem Rodrigues se diz de Vasconcelos.


				25
					"E da outra ala, que a esta corresponde,
					Anto Vasques de Almada  capito,
					Que depois foi de Abranches nobre Conde,
					Das gentes vai regendo a sestra mo.
					Logo na retaguarda no se esconde
					Das quinas e castelos o pendo,
					Com Joane, Rei forte em toda parte,
					Que escurecendo o preo vai de Alarte.


				26
					"Estavam pelos muros, temerosas,
					E de um alegre medo quase frias,
					Rezando as mes, irms, damas e esposas,
					Prometendo jejuns e romarias.
					J chegam as esquadras belicosas
					Defronte das amigas companhias,
					Que com grita grandssima os recebem,
					E todas grande dvida concebem.


				27
					"Respondem as trombetas mensageiras,
					Pfaros sibilantes e atambores;
					Alfrezes volteam as bandeiras,
					Que variadas so de muitas cores.
					Era no seco tempo, que nas eiras
					Ceres o fruto deixa aos lavradores,
					Entra em Astreia o Sol, no ms de Agosto,
					Baco das uvas tira o doce mosto.


				28 - 	Comea a batalha
					"Deu sinal a trombeta Castelhana,
					Horrendo, fero, ingente e temeroso;
					Ouviu-o o monte Artabro, e Guadiana
					Atrs tornou as ondas de medroso;
					Ouviu-o o Douro e a terra Transtagana;
					Correu ao mar o Tejo duvidoso;
					E as mes, que o som terrbil escutaram,
					Aos peitos os filhinhos apertaram.


				29
					"Quantos rostos ali se vem sem cor,
					Que ao corao acode o sangue amigo!
					Que, nos perigos grandes, o temor
					 maior muitas vezes que o perigo;
					E se o no , parece-o; que o furor
					De ofender ou vencer o duro amigo
					Faz no sentir que  perda grande e rara,
					Dos membros corporais, da vida cara.


				30 - 	Proeza de Nuno lvares Pereira
					"Comea-se a travar a incerta guerra;
					De ambas partes se move a primeira ala;
					Uns leva a defenso da prpria terra,
					Outros as esperanas de ganh-la;
					Logo o grande Pereira, em quem se encerra
					Todo o valor, primeiro se assinala:
					Derriba, e encontra, e a terra enfim semeia
					Dos que a tanto desejam, sendo alheia.


				31
					"J pelo espesso ar os estridentes
					Farpes, setas e vrios tiros voam;
					Debaixo dos ps duros dos ardentes
					Cavalos treme a terra, os vales soam;
					Espedaam-se as lanas; e as frequentes
					Quedas coas duras armas, tudo atroam;
					Recrescem os amigos sobre a pouca
					Gente do fero Nuno, que os apouca.


				32
					"Eis ali seus irmos contra ele vo,
					(Caso feio e cruel!) mas no se espanta,
					Que menos  querer matar o irmo,
					Quem contra o Rei e a Ptria se alevanta:
					Destes arrenegados muitos so
					No primeiro esquadro, que se adianta
					Contra irmos e parentes (caso estranho!)
					Quais nas guerras civis de Jlio e Magno.


				33 - 	Sertrio. Coriolano. Catilina.
					" tu, Sertrio,  nobre Coriolano,
					Catilina, e vs outros dos antigos,
					Que contra vossas ptrias, com profano
					Corao, vos fizestes inimigos,
					Se l no reino escuro de Sumano
					Receberdes gravssimos castigos,
					Dizei-lhe que tambm dos Portugueses
					Alguns tredores houve algumas vezes.


				34
					"Rompem-se aqui dos nossos os primeiros,
					Tantos dos inimigos a eles vo!
					Est ali Nuno, qual pelos outeiros
					De Ceita est o fortssimo leo,
					Que cercado se v dos cavaleiros
					Que os campos vo correr de Tetuo:
					Perseguem-no com as lanas, e ele iroso,
					Torvado um pouco est, mas no medroso.


				35
					"Com torva vista os v, mas a natura
					Ferina e a ira no lhe compadecem
					Que as costas d, mas antes na espessura
					Das lanas se arremessa, que recrescem.
					Tal est o cavaleiro, que a verdura
					Tinge co'o sangue alheio; ali perecem
					Alguns dos seus, que o nimo valente
					Perde a virtude contra tanta gente.


				36 - 	Dom Joo I
					"Sentiu Joane a afronta que passava
					Nuno, que, como sbio capito,
					Tudo corria e via, e a todos dava,
					Com presena e palavras, corao.
					Qual parida leoa, fera e brava,
					Que os filhos que no ninho ss esto,
					Sentiu que, enquanto pasto lhe buscara,
					O pastor de Masslia lhos furtara;


				37
					"Corre raivosa, e freme, e com bramidos
					Os montes Sete Irmos atroa e abala:
					Tal Joane, com outros escolhidos
					Dos seus, correndo acode  primeira ala:
					-" fortes companheiros,  subidos
					Cavaleiros, a quem nenhum se iguala,
					Defendei vossas terras, que a esperana
					Da liberdade est na vossa lana.


				38
					-"Vedes-me aqui, Rei vosso, e companheiro,
					Que entre as lanas, e setas, e os arneses
					Dos inimigos corro e vou primeiro:
					Pelejai, verdadeiros Portugueses!"-
					Isto disse o magnnimo guerreiro,
					E, sopesando a lana quatro vezes,
					Com fora tira; e, deste nico tiro,
					Muitos lanaram o ltimo suspiro.


				39
					"Porque eis os seus acesos novamente
					Duma nobre vergonha e honroso fogo,
					Sobre qual mais com nimo valente
					Perigos vencer do Mrcio jogo,
					Porfiam: tinge o ferro o sangue ardente;
					Rompem malhas primeiro, e peitos logo:
					Assim recebem junto e do feridas,
					Como a quem j no di perder as vidas.


				40 - 	Perdas Castelhanas
					"A muitos mandam ver o Estgio lago,
					Em cujo corpo a morte e o ferro entrava:
					O Mestre morre ali de Santiago,
					Que fortssimamente pelejava;
					Morre tambm, fazendo grande estrago,
					Outro Mestre cruel de Calatrava;
					Os Pereiras tambm arrenegados
					Morrem, arrenegando o Cu e os fados.


				41
					"Muitos tambm do vulgo vil sem nome
					Vo, e tambm dos nobres, ao profundo,
					Onde o trifauce Co perptua fome
					Tem das almas que passam deste mundo.
					E porque mais aqui se amanse e dome
					A soberba do amigo furibundo,
					A sublime bandeira Castelhana
					Foi derribada aos ps da Lusitana.


				42 - 	Desbarato do rei de Castela
					"Aqui a fera batalha se encruece
					Com mortes, gritos, sangue e cutiladas;
					A multido da gente que perece
					Tem as flores da prpria cor mudadas;
					J as costas do e as vidas; j falece
					O furor e sobejam as lanadas;
					J de Castela o Rei desbaratado
					Se v, e de seu propsito mudado.


				43
					"O campo vai deixando ao vencedor,
					Contente de lhe no deixar a vida.
					Seguem-no os que ficaram, e o temor
					Lhe d, no ps, mas asas  fugida.
					Encobrem no profundo peito a dor
					Da morte, da fazenda despendida,
					Da mgoa, da desonra, e triste nojo
					De ver outrem triunfar de seu despojo.


				44
					"Alguns vo maldizendo e blasfemando
					Do primeiro que guerra fez no mundo;
					Outros a sede dura vo culpando
					Do peito cobioso e sitibundo,
					Que, por tomar o alheio, o miserando
					Povo aventura s penas do profundo,
					Deixando tantas mes, tantas esposas
					Sem filhos, sem maridos, desditosas.


				45 - 	Pasa Nuno lvares ao Alentejo e Andaluzia
					"O vencedor Joane esteve os dias
					Costumados no campo, em grande glria;
					Com ofertas depois, e romarias,
					As graas deu a quem lhe deu vitria.
					Mas Nuno, que no quer por outras vias
					Entre as gentes deixar de si memria
					Seno por armas sempre soberanas,
					Para as terras se passa Transtaganas.


				46
					"Ajuda-o seu destino de maneira
					Que fez igual o efeito ao pensamento,
					Porque a terra dos Vndalos fronteira
					Lhe concede o despojo e o vencimento.
					J de Sevilha a Btica bandeira
					E de vrios senhores num momento
					Se lhe derriba aos ps, sem ter defesa
					Obrigados da fora Portuguesa.


				47 - 	Pazes
					"Destas e outras vitrias longamente
					Eram os Castelhanos oprimidos,
					Quando a paz, desejada j da gente,
					Deram os vencedores aos vencidos,
					Depois que quis o Padre onipotente
					Dar os Reis inimigos por maridos
					As duas ilustrssimas Inglesas,
					Gentis, formosas, nclitas princesas.


				48 - 	Tomada de Ceuta por Dom Joo I
					"No sofre o peito forte, usado  guerra,
					No ter amigo j a quem faa dano;
					E assim no tendo a quem vencer na terra,
					Vai cometer as ondas do Oceano.
					Este  o primeiro Rei que se desterra
					Da Ptria, por fazer que o Africano
					Conhea, pelas armas, quanto excede
					A lei de Cristo  lei de Mafamede.


				49
					"Eis mil nadantes aves pelo argento
					Da furiosa Tethys inquieta
					Abrindo as pandas asas vo ao vento,
					Para onde Alcides ps a extrema meta.
					O monte Abila e o nobre fundamento
					De Ceita toma, e o torpe Mahometa
					Deita fora, e segura toda Espanha
					Da Juliana, m, e desleal manha.


				50 - 	Morte de Dom Joo I
					"No consentiu a morte tantos anos
					Que de Heri to ditoso se lograsse
					Portugal, mas os coros soberanos
					Do Cu supremo quis que povoasse.
					Mas para defenso dos Lusitanos
					Deixou, quem o levou quem governasse,
					E aumentasse a terra mais que dantes, 
					Inclita gerao, altos Infantes.


				51 - 	Dom Duarte
					"No foi do Rei Duarte to ditoso
					O tempo que ficou na suma alteza,
					Que assim vai alternando o tempo iroso
					O bem co'o mal, o gosto coa tristeza.
					Quem viu sempre um estado deleitoso?
					Ou quem viu em fortuna haver firmeza?
					Pois inda neste Reino e neste Rei
					No ousou ela tanto desta lei.


				52 - 	O infante Dom Fernando
					"Viu ser cativo o santo irmo Fernando,
					Que a to altas empresas aspirava,
					Que, por salvar o povo miserando
					Cercado, ao Sarraceno se entregava.
					S por amor da ptria est passando
					A vida de senhora feita escrava,
					Por no se dar por ele a forte Ceita:
					Mais o pblico bem que o seu respeita.


				53 - 	Cativeiro do infante
					"Codro, porque o inimigo no vencesse,
					Deixou antes vencer da morte a vida;
					Rgulo, porque a ptria no perdesse,
					Quis mais a liberdade ver perdida.
					Este, porque se Espanha no temesse,
					Ao cativeiro eterno se convida:
					Codro, nem Crcio, ouvido por espanto,
					Nem os Dcios leais fizeram tanto.


				54 - 	Afonso V
					"Mas Afonso, do Reino nico herdeiro,
					Nome em armas ditoso em nossa Hespria,
					Que a soberba do brbaro fronteira
					Tornou em baixa e humlima misria,
					Fora por certo invicto cavaleiro,
					Se no quisera ir ver a terra Ibria.
					Mas frica dir ser impossbil
					Poder ningum vencer o Rei terrbil.


				55 - 	Conquistas em frica: Alccer, Tnger e Arzila
					"Este pde colher as mas de ouro,
					Que somente o Tirntio colher pde:
					Do jugo que lhe ps, o bravo Mouro
					A cerviz inda agora no sacode.
					Na fronte a palma leva e o verde louro
					Das vitrias do Brbaro, que acode
					A defender Alccer, forte vila,
					Tngere populoso e a dura Arzila.


				56
					"Porm elas enfim por fora entradas,
					Os muros abaixaram de diamante
					As Portuguesas foras, costumadas
					A derribarem quanto acham diante.
					Maravilhas em armas estremadas,
					E de escritura dinas elegante,
					Fizeram cavaleiros nesta empresa,
					Mais afinando a fama Portuguesa.


				57 - 	Guerra contra Fernando de Arago
					"Porm depois, tocado de ambio
					E glria de mandar, amara e bela,
					Vai cometer Fernando de Arago,
					Sobre o potente Reino de Castela.
					Ajunta-se a inimiga multido
					Das soberbas e vrias gentes dela,
					Desde Cdis ao alto Pireneu,
					Que tudo ao Rei Fernando obedeceu.


				58 - 	Batalha de Toro
					"No quis ficar nos Reinos ocioso
					O mancebo Joane, e logo ordena
					De ir ajudar o pai ambicioso,
					Que ento lhe foi ajuda no pequena.
					Saiu-se enfim do trance perigoso
					Com fronte no torvada, mas serena,
					Desbaratado o pai sanguinolento
					Mas ficou duvidoso o vencimento.


				59
					"Porque o filho sublime e soberano,
					Gentil, forte, animoso cavaleiro,
					Nos contrrios fazendo imenso dano,
					Todo um dia ficou no campo inteiro.
					Desta arte foi vencido Octaviano,
					E Antnio vencedor, sem companheiro,
					Quando daqueles que Csar mataram
					Nos Filpicos campos se vingaram.


				60 - 	D. Joo II
					"Porm depois que a escura noite eterna
					Afonso aposentou no Cu sereno,
					O Prncipe, que o Reino ento governa,
					Foi Joane segundo e Rei trezeno.
					Este, por haver fama sempiterna,
					Mais do que tentar pode homem terreno
					Tentou, que foi buscar da roxa Aurora
					Os trminos, que eu vou buscando agora.


				61 - 	Exploraes terrestres, em busca da ndia
					"Manda seus mensageiros, que passaram
					Espanha, Frana, Itlia celebrada,
					E l no ilustre porto se embarcaram
					Onde j foi Partnope enterra a:
					Npoles, onde os Xados se mostraram,
					Fazendo-a a vrias gentes subjugada,
					Pola ilustrar no fim de tantos anos
					Co'o senhorio de nclitos Hispanos.


				62
					"Pelo mar alto Sculo navegam;
					Vo-se s praias de Rodes arenosas;
					E dali s ribeiras altas chegam,
					Que com morte de Magno so famosas;
					Vo a Mnfis e s terras, que se regam
					Das enchentes Nilticas undosas;
					Sobem  Etipia, sobre Egito,
					Que de Cristo l guarda o santo rito.


				63
					"Passam tambm as ondas Eritreias,
					Que o povo de Israel sem nau passou;
					Ficam-lhe atrs as serras Nabateias,
					Que o filho de Ismael co'o nome ornou.
					As costas odorferas Sabeias,
					Que a me do belo Adnis tanto honrou,
					Cercam, com toda a Arbia descoberta
					Feliz , deixando a Ptrea e a Deserta.


				64
					"Entram no estreito Prsico, onde dura
					Da confusa Babel inda a memria;
					Ali co'o Tigre o Eufrates se mistura,
					Que as fontes onde nascem tem por glria.
					Dali vo em demanda da gua pura,
					Que causa inda ser de larga histria,
					Do Indo, pelas ondas do Oceano,
					Onde no se atreveu passar Trajano.


				65
					"Viram gentes incgnitas e estranhas
					Da ndia, da Carmnia e Gedrosia,
					Vendo vrios costumes, vrias manhas,
					Que cada regio produze e cria.
					Mas de vias to speras, tamanhas,
					Tornar-se facilmente no podia:
					L morreram enfim, e l ficaram,
					Que  desejada ptria no tornaram.


				66 - 	D. Manuel
					"Parece que guardava o claro Cu
					A Manuel, e seus merecimentos,
					Esta empresa to rdua, que o moveu
					A subidos e ilustres movimentos:
					Manuel, que a Joane sucedeu
					No Reino e nos altivos pensamentos,
					Logo, corno tornou do Reino o cargo,
					Tomou mais a conquista do mar largo.


				67 - 	O sonho de D. Manuel
					"O qual, como do nobre pensamento
					Daquela obrigao, que lhe ficara
					De seus antepassados, (cujo intento
					Foi sempre acrescentar a terra cara)
					No deixasse de ser um s momento
					Conquistado: no tempo que a luz clara
					Foge, e as estrelas ntidas, que saem,
					A repouso convidam quando caem,


				68
					"Estando j deitado no ureo leito, 
					Onde imaginaes mais certas so?
					Revolvendo contino no conceito
					Seu ofcio e sangue a obrigao,
					Os olhos lhe ocupou o sono aceito,
					Sem lhe desocupar o corao;
					Porque, tanto que lasso se adormece, 
					Morfeu em vrias formas lhe aparece.


				69 - 	Os rios Indo e Gange
					"Aqui se lhe apresenta que subia
					To alto, que tocava a prima Esfera,
					Donde diante vrios mundos via,
					Naes de muita gente estranha e fera;
					E l bem junto donde nasce o dia,
					Depois que os olhos longos estendera,
					Viu de antigos, longnquos e altos montes
					Nascerem duas claras e altas fontes.


				70
					"Aves agrestes, feras e alimrias,
					Pelo monte selvtico habitavam;
					Mil rvores silvestres e ervas vrias
					O passo e o tracto s gentes atalhavam.
					Estas duras montanhas, adversrias
					De mais conversao, por si mostravam
					Que, desque Ado pecou aos nossos anos,
					No as romperam nunca ps humanos.




			71


					"Das guas se lhe antolha que saam,
					Para ele os largos passos inclinando,
					Dois homens, que mui velhos pareciam,
					De aspecto, inda que agreste, venerando:
					Das pontas dos cabelos lhe caam
					Gotas, que o corpo vo banhando;
					A cor da pele baa e denegrida,
					A barba hirsuta, intonsa, mas comprida.


				72
					"Dambos de dois a fronte coroada
					Ramos no conhecidos e ervas tinha;
					Um deles a presena traz cansada,
					Como quem de mais longe ali caminha.
					E assim a gua, com mpeto alterada,
					Parecia que doutra parte vinha,
					Bem como Alfeu de Arcdia em Siracusa
					Vai buscar os abraos de Aretusa.


				73 - 	Fala do Ganges a D. Manoel
					"Este, que era o mais grave na pessoa,
					Destarte para o Rei de longe brada:
					- " tu, a cujos reinos e coroa
					Grande parte do mundo est guardada,
					Ns outros, cuja fama tanto voa,
					Cuja cerviz bem nunca foi domada,
					Te avisamos que  tempo que j mandes
					A receber de ns tributos grandes.


				74 - 	Profecias
					- "Eu sou o ilustre Ganges, que na terra
					Celeste tenho o bero verdadeiro;
					Estoutro  o Indo Rei que, nesta serra
					Que vs, seu nascimento tem primeiro.
					Custar-te-emos contudo dura guerra;
					Mas insistindo tu, por derradeiro,
					Com no vistas vitrias, sem receio,
					A quantas gentes vs, pors o freio."-


				75
					"No disse mais o rio ilustre e santo,
					Mas ambos desaparecem num momento.
					Acorda Emanuel c'um novo espanto
					E grande alterao de pensamento.
					Estendeu nisto Febo o claro manto
					Pelo escuro Hemisfrio sonolento;
					Veio a manh no cu pintando as cores
					De pudibunda rosa e roxas flores.


				76 - 	Rene D. manuel e seu conselho
					"Chama o Rei os senhores a conselho,
					E prope-lhe as figuras da viso;
					As palavras lhe diz do santo velho,
					Que a todos foram grande admirao.
					Determinam o nutico aparelho,
					Para que com sublime corao
					V a gente que mandar cortando os mares
					A buscar novos climas, novos ares.


				77 - 	Vasco da Gama
					"Eu, que bem mal cuidava que em efeito
					Se pusesse o que o peito me pedia,
					Que sempre grandes cousas deste jeito
					Pressago o corao me prometia,
					No sei por que razo, por que respeito,
					Ou por que bom sinal que em mi se via,
					Me pe o nclito Rei nas mos a chave
					Deste cometimento grande e grave.


Comete o rei ao Gama a empresa do descobrimento
martimo do caminho para a ndia



				78
					"E com rogo o palavras amorosas,
					Que  um mando nos Reis, que a mais obriga,
					Me disse: - "As cousas rduas e lustrosas
					Se alcanam com trabalho e com fadiga;
					Faz as pessoas altas e famosas
					A vida que se perde e que periga;
					Que, quando ao medo infame no se rende,
					Ento, se menos dura, mais se estende.


				79 - 	Resposta do Gama
					-"Eu vos tenho entre todos escolhido
					Para uma empresa, qual a vs se deve,
					Trabalho ilustre, duro e esclarecido,
					O que eu sei que por mi vos ser leve."-
					No sofri mais, mas logo: - " Rei subido,
					Aventurar-me a ferro, a fogo, a neve,
					 to pouco por vs, que mais me pena
					Ser esta vida cousa to pequena.


				80
					-"Imaginai tamanhas aventuras,
					Quais Euristeu a Alcides inventava,
					O leo Cleoneu, Harpias duras,
					O porco de Erimanto, a Hidra brava,
					Descer enfim s sombras vs e escuras
					Onde os campos de Dite a Estige lava;
					Porque a maior perigo, a mor afronta,
					Por vs,  Rei, o esprito e a carne  pronta."


				81 - 	Paulo da Gama
					"Com mercs sumptuosas me agradece
					E com razes me louva esta vontade;
					Que a virtude louvada vive e cresce,
					E o louvor altos casos persuade.
					A acompanhar-me logo se oferece,
					Obrigado d'amor e d'amizade,
					No menos cobioso de honra e fama,
					O caro meu irmo Paulo da Gama.


				82 - 	Nicolau Coelho
					"Mais se me ajunta Nicolau Coelho,
					De trabalhos mui grande sofredor;
					Ambos so de valia e de conselho,
					De experincia em armas e furor.
					J de manceba gente me aparelho,
					Em que cresce o desejo do valor;
					Todos de grande esforo; e assim parece
					Quem a tamanhas cousas se oferece.


				83
					"Foram de Emanuel remunerados,
					Porque com mais amor se apercebessem,
					E com palavras altas animados
					Para quantos trabalhos sucedessem.
					Assim foram os Mnias ajuntados,
					Para que o Vu dourado combatessem,
					Na fatdica Nau, que ousou primeira
					Tentar o mar Euxnio, aventureira.


				84 -  Preparativos para a partida da expedio do Gama
					"E j no porto da nclita Ulisseia
					C'um alvoroo nobre, e  um desejo, 
					(Onde o licor mistura e branca areia
					Co'o salgado Neptuno o doce Tejo)
					As naus prestes esto; e no refreia
					Temor nenhum o juvenil despejo,
					Porque a gente martima e a de Marte
					Esto para seguir-me a toda parte.


				85 - 	Na praia de Belm
					"Pelas praias vestidos os soldados
					De vrias cores vm e vrias artes,
					E no menos de esforo aparelhados
					Para buscar do inundo novas partes.
					Nas fortes naus os ventos sossegados
					Ondeam os areos estandartes;
					Elas prometem, vendo os mares largos,
					De ser no Olimpo estrelas como a de Argos.


				86
					"Depois de aparelhados desta sorte
					De quanto tal viagem pede e manda,
					Aparelhamos a alma para a morte,
					Que sempre aos nautas ante os olhos anda.
					Para o sumo Poder que a etrea corte
					Sustenta s coa vista veneranda,
					Imploramos favor que nos guiasse,
					E que nossos comeos aspirasse.


				87 - 	Cortejo
					"Partimo-nos assim do santo templo
					Que nas praias do mar est assentado,
					Que o nome tem da terra, para exemplo,
					Donde Deus foi em carne ao mundo dado.
					Certifico-te,  Rei, que se contemplo
					Como fui destas praias apartado,
					Cheio dentro de dvida e receio,
					Que apenas nos meus olhos ponho o freio.


				88 - 	Procisso
					"A gente da cidade aquele dia,
					(Uns por amigos, outros por parentes,
					Outros por ver somente) concorria,
					Saudosos na vista e descontentes.
					E ns coa virtuosa companhia
					De mil Religiosos diligentes,
					Em procisso solene a Deus orando,
					Para os batis viemos caminhando.


				89 - 	Adeus e lgrimas
					"Em to longo caminho e duvidoso
					Por perdidos as gentes nos julgavam;
					As mulheres c'um choro piedoso,
					Os homens com suspiros que arrancavam;
					Mes, esposas, irms, que o temeroso
					Amor mais desconfia, acrescentavam
					A desesperaro, e frio medo
					De j nos no tornar a ver to cedo.


				90
					"Qual vai dizendo: -"  filho, a quem eu tinha
					S para refrigrio, e doce amparo
					Desta cansada j velhice minha,
					Que em choro acabar, penoso e amaro,
					Por que me deixas, msera e mesquinha?
					Por que de mim te vs,  filho caro,
					A fazer o funreo enterramento,
					Onde sejas de peixes mantimento!" -


				91
					"Qual em cabelo: -" doce e amado esposo,
					Sem quem no quis Amor que viver possa,
					Por que is aventurar ao mar iroso
					Essa vida que  minha, e no  vossa?
					Como por um caminho duvidoso
					Vos esquece a afeio to doce nossa?
					Nosso amor, nosso vo contentamento
					Quereis que com as velas leve o vento?" -


				92
					"Nestas e outras palavras que diziam
					De amor e de piedosa humanidade,
					Os velhos e os meninos os seguiam,
					Em quem menos esforo pe a idade.
					Os montes de mais perto respondiam,
					Quase movidos de alta piedade;
					A branca areia as lgrimas banhavam,
					Que em multido com elas se igualavam.


				93
					"Ns outros sem a vista alevantarmos
					Nem a me, nem a esposa, neste estado,
					Por nos no magoarmos, ou mudarmos
					Do propsito firme comeado,
					Determinei de assim nos embarcarmos
					Sem o despedimento costumado,
					Que, posto que  de amor usana boa,
					A quem se aparta, ou fica, mais magoa.


				94 - 	O velho do Restelo
					"Mas um velho d'aspeito venerando,
					Que ficava nas praias, entre a gente,
					Postos em ns os olhos, meneando
					Trs vezes a cabea, descontente,
					A voz pesada um pouco alevantando,
					Que ns no mar ouvimos claramente,
					C'um saber s de experincias feito,
					Tais palavras tirou do experto peito:


				95
					-" glria de mandar!  v cobia 
					Desta vaidade, a quem chamamos Fama! 
					 fraudulento gosto, que se atia 
					C'uma aura popular, que honra se chama!  
					Que castigo tamanho e que justia 
					Fazes no peito vo que muito te ama!  
					Que mortes, que perigos, que tormentas, 
					Que crueldades neles experimentas!


				96
					- "Dura inquietao d'alma e da vida,
					Fonte de desamparos e adultrios,
					Sagaz consumidora conhecida
					De fazendas, de reinos e de imprios:
					Chamam-te ilustre, chamam-te subida,
					Sendo dina de infames vituprios;
					Chamam-te Fama e Glria soberana,
					Nomes com quem se o povo nscio engana!


				97
					-"A que novos desastres determinas
					De levar estes reinos e esta gente?
					Que perigos, que mortes lhe destinas
					Debaixo dalgum nome preminente?
					Que promessas de reinos, e de minas
					D'ouro, que lhe fars to facilmente?
					Que famas lhe prometers? que histrias?
					Que triunfos, que palmas, que vitrias?


				98
					- "Mas  tu, gerao daquele insano,
					Cujo pecado e desobedincia,
					No somente do reino soberano
					Te ps neste desterro e triste ausncia,
					Mas inda doutro estado mais que humano
					Da quieta e da simples inocncia,
					Idade d'ouro, tanto te privou,
					Que na de ferro e d'armas te deitou:


				99
					- "J que nesta gostosa vaidade
					Tanto enlevas a leve fantasia,
					J que  bruta crueza e feridade
					Puseste nome esforo e valentia,
					J que prezas em tanta quantidades
					O desprezo da vida, que devia
					De ser sempre estimada, pois que j
					Temeu tanto perd-la quem a d:


				100
					- "No tens junto contigo o Ismaelita,
					Com quem sempre ters guerras sobejas?
					No segue ele do Arbio a lei maldita,
					Se tu pela de Cristo s pelejas?
					No tem cidades mil, terra infinita,
					Se terras e riqueza mais desejas?
					No  ele por armas esforado,
					Se queres por vitrias ser louvado?


				101
					- "Deixas criar s portas o inimigo,
					Por ires buscar outro de to longe,
					Por quem se despovoe o Reino antigo,
					Se enfraquea e se v deitando a longe?
					Buscas o incerto e incgnito perigo
					Por que a fama te exalte e te lisonge,
					Chamando-te senhor, com larga cpia,
					Da ndia, Prsia, Arbia e de Etipia?


				102
					- " maldito o primeiro que no mundo
					Nas ondas velas ps em seco lenho,
					Dino da eterna pena do profundo,
					Se  justa a justa lei, que sigo e tenho!
					Nunca juzo algum alto e profundo,
					Nem ctara sonora, ou vivo engenho,
					Te d por isso fama nem memria,
					Mas contigo se acabe o nome e glria.


				103
					- "Trouxe o filho de Jpeto do Cu
					O fogo que ajuntou ao peito humano,
					Fogo que o mundo em armas acendeu
					Em mortes, em desonras (grande engano).
					Quanto melhor nos fora, Prometeu,
					E quanto para o mundo menos dano,
					Que a tua esttua ilustre no tivera
					Fogo de altos desejos, que a movera!


				104
					- "No cometera o moo miserando
					O carro alto do pai, nem o ar vazio
					O grande Arquiteto co'o filho, dando
					Um, nome ao mar, e o outro, fama ao rio.
					Nenhum cometimento alto e nefando,
					Por fogo, ferro, gua, calma e frio,
					Deixa intentado a humana gerao.
					Msera sorte, estranha condio!" -



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Cames
Os Lusadas
(Canto Quinto)

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				1 - 	Parte de Belm a expedio do Gama
					"Estas sentenas tais o velho honrado
					Vociferando estava, quando abrimos
					As asas ao sereno e sossegado
					Vento, e do porto amado nos partimos.
					E, como  j no mar costume usado,
					A vela desfraldando, o cu ferimos,
					Dizendo: "Boa viagem", logo o vento
					Nos troncos fez o usado movimento.


				2
					"Entrava neste tempo o eterno lume 
					No animal Nemeio truculento,
					E o mundo, que com tempo se consume, 
					Na sexta idade andava enfermo e lento: 
					Nela v, como tinha por costume, 
					Cursos do sol quatorze vezes cento, 
					Com mais noventa e sete, em que corria, 
					Quando no mar a armada se estendia.


				3
					"J a vista pouco e pouco se desterra
					Daqueles ptrios montes que ficavam;
					Ficava o caro Tejo, e a fresca serra
					De Sintra, e nela os olhos se alongavam.
					Ficava-nos tambm na amada terra
					O corao, que as mgoas l deixavam;
					E j depois que toda se escondeu,
					No vimos mais enfim que mar e cu.


				4 - Em alto mar
					"Assim fomos abrindo aqueles mares,
					Que gerao alguma no abriu,
					As novas ilhas vendo e os novos ares,
					Que o generoso Henrique descobriu;
					De Mauritnia os montes e lugares,
					Terra que Anteu num tempo possuiu,
					Deixando  mo esquerda; que  direita
					No h certeza doutra, mas suspeita.


				5 - Ilha da Madeira
					"Passamos a grande Ilha da Madeira,
					Que do muito arvoredo assim se chama,
					Das que ns povoamos, a primeira,
					Mais clebre por nome que por fama:
					Mas nem por ser do mundo a derradeira
					Se lhe aventajam quantas Vnus ama,
					Antes, sendo esta sua, se esquecera
					De Cipro, Gnido, Pafos e Citera.


				6 - Costa da Barbaria. Os Azenegues
					"Deixamos de Masslia a estril costa,
					Onde seu gado os Azenegues pastam,
					Gente que as frescas guas nunca gosta
					Nem as ervas do campo bem lhe abastam:
					A terra a nenhum fruto enfim disposta,
					Onde as aves no ventre o ferro gastam,
					Padecendo de tudo extrema inpia,
					Que aparta a Barbaria de Etipia.


				7 - Senegal e o Cabo Verde
					"Passamos o limite aonde chega
					O Sol, que para o Norte os carros guia,
					Onde jazem os povos a quem nega
					O filho de Climene a cor do dia.
					Aqui gentes estranhas lava e rega
					Do negro Sanag a corrente fria,
					Onde o Cabo Arsinrio o nome perde,
					Chamando-se dos nossos Cabo Verde.


				8 - Canrias
					"Passadas tendo j as Canrias ilhas,
					Que tiveram por nome Fortunadas,
					Entramos, navegando, pelas filhas
					Do velho Hesprio, Hesprides chamadas;
					Terras por onde novas maravilhas
					Andaram vendo j nossas armadas.
					Ali tomamos porto com bom vento,
					Por tomarmos da terra mantimento.


				9 - Ilha de Santiago
					"Aquela ilha apartamos, que tomou
					O nome do guerreiro Santiago,
					Santo que os Espanhis tanto ajudou
					A fazerem nos Mouros bravo estrago.
					Daqui, tanto que Breas nos ventou,
					Tornamos a cortar o imenso lago
					Do salgado Oceano, e assim deixamos
					A terra onde o refresco doce achamos.

				10 - Jalofo. Mandinga
					"Por aqui rodeando a larga parte
					De frica, que ficava ao Oriente,
					A provncia Jalofo, que reparte
					Por diversas naes a negra gente;
					A mui grande Mandinga, por cuja arte
					Logramos o metal rico e luzente,
					Que do curvo Gambeia as guas bebe,
					As quais o largo Atlntico recebe.


				11 - Drcadas
					"As Drcadas passamos, povoadas
					Das Irms, que outro tempo ali viviam,
					Que de vista total sendo privadas,
					Todas trs dum s olho se serviam.
					Tu s, tu, cujas tranas encrespadas
					Netuno l nas guas acendiam,
					Tornada j de todas a mais feia,
					De bvoras encheste a ardente areia.


				12 - Serra Leoa. Cabo das Palmas. Ilha de So Tom.
					"Sempre enfim para o Austro a aguda proa
					No grandssimo glfo nos metemos,
					Deixando a serra asprrima Leoa,
					Co'o cabo a quem das Palmas nome demos.
					O grande rio, onde batendo soa
					O mar nas praias notas que ali temos,
					Ficou, com a Ilha ilustre que tomou
					O nome dum que o lado a Deus tocou.


				13 - Congo. Rio Zaire. Equador.
					"Ali o mui grande reino est de Congo,
					Por ns j convertido  f de Cristo,
					Por onde o Zaire passa, claro e longo,
					Rio pelos antigos nunca visto.
					Por este largo mar enfim me alongo
					Do conhecido plo de Calisto,
					Tendo o trmino ardente j passado,
					Onde o meio do mundo  limitado.


				14 - O Cruzeiro do Sul
					"J descoberto tnhamos diante,
					L no novo Hemisfrio, nova estrela,
					No vista de outra gente, que ignorante
					Alguns tempos esteve incerta dela.
					Vimos a parte menos rutilante,
					E, por falta de estrelas, menos bela,
					Do Plo fixo, onde ainda se no sabe
					Que outra terra comece, ou mar acabe.


				15 - As ursas
					"Assim passando aquelas regies
					Por onde duas vezes passa Apolo,
					Dois invernos fazendo e dois veres,
					Enquanto corre dum ao outro Plo,
					Por calmas, por tormentas e opresses,
					Que sempre f az no mar o irado Eolo,
					Vimos as Ursas, apesar de Juno,
					Banharem-se nas guas de Netuno.


				16 - Casos maravilhosos
					"Contar-te longamente as perigosas
					Coisas do mar, que os homens no entendem:
					Sbitas trovoadas temerosas,
					Relmpados que o ar em fogo acendem,
					Negros chuveiros, noites tenebrosas,
					Bramidos de troves que o mundo fendem,
					No menos  trabalho, que grande erro,
					Ainda que tivesse a voz de ferro.


				17
					"Os casos vi que os rudos marinheiros,
					Que tm por mestra a longa experincia,
					Contam por certos sempre e verdadeiros,
					Julgando as cousas s pela aparncia,
					E que os que tm juzos mais inteiros,
					Que s por puro engenho e por cincia,
					Vem do mundo os segredos escondidos,
					Julgam por falsos, ou mal entendidos.


				18 - O fogo de Santelmo
					"Vi, claramente visto, o lume vivo
					Que a martima gente tem por santo
					Em tempo de tormenta e vento esquivo,
					De tempestade escura e triste pranto.
					No menos foi a todos excessivo
					Milagre, e coisa certo de alto espanto,
					Ver as nuvens do mar com largo cano
					Sorver as altas guas do Oceano.


				19 - A tromba martima
					"Eu o vi certamente (e no presumo
					Que a vista me enganava) levantar-se
					No ar um vaporzinho e subtil fumo,
					E, do vento trazido, rodear-se:
					Daqui levado um cano ao plo sumo
					Se via, to delgado, que enxergar-se
					Dos olhos facilmente no podia:
					Da matria das nuvens parecia.


				20
					"Ia-se pouco e pouco acrescentando
					E mais que um largo masto se engrossava;
					Aqui se estreita, aqui se alarga, quando
					Os golpes grandes de gua em si chupava;
					Estava-se coas ondas ondeando:
					Em cima dele uma nuvem se espessava,
					Fazendo-se maior, mais carregada
					Co'o cargo grande d'gua em si tomada.


				21
					"Qual roxa sanguessuga se veria
					Nos beios da alimria (que imprudente,
					Bebendo a recolheu na fonte fria)
					Fartar co'o sangue alheio a sede ardente;
					Chupando mais e mais se engrossa e cria,
					Ali se enche e se alarga grandemente:
					Tal a grande coluna, enchendo, aumenta
					A si, e a nuvem negra que sustenta.


				22
					"Mas depois que de todo se fartou,
					O p que tem no mar a si recolhe,
					E pelo cu chovendo enfim voou,
					Porque coa gua a jacente gua molhe:
					As ondas torna as ondas que tomou,
					Mas o sabor do sal lhe tira e tolhe.
					Vejam agora os sbios na escritura,
					Que segredos so estes de Natura.


				23
					"Se os antigos filsofos, que andaram
					Tantas terras, por ver segredos delas,
					As maravilhas que eu passei, passaram,
					A to diversos ventos dando as velas,
					Que grandes escrituras que deixaram!
					Que influio de signos e de estrelas!
					Que estranhezas, que grandes qualidades!
					E tudo sem mentir, puras verdades.


				24 - Ilha de Santa Helena
					"Mas j o Planeta que no cu primeiro 
					Habita, cinco vezes apressada,
					Agora meio rosto, agora inteiro
					Mostrara, enquanto o mar cortava a armada,
					Quando da etrea gvea um marinheiro,
					Pronto coa vista, "Terra!  Terra!" brada.
					Salta no bordo alvoroada a gente
					Co'os olhos no horizonte do Oriente.


				25
					"A maneira de nuvens se comeam
					A descobrir os montes que enxergamos;
					As ncoras pesadas se adeream;
					As velas, j chegados, amainamos.
					E para que mais certas se conheam
					As partes to remotas onde estamos,.
					Pelo novo instrumento do Astrolbio,
					Inveno de subtil juzo e sbio,


				26 - Desembarque na baa de Santa Helena
					"Desembarcamos logo na espaosa,
					Parte, por onde a gente se espalhou,
					De ver eousas estranhas desejosa
					Da terra que outro povo no pisou;
					Porm eu co'os pilotos na arenosa
					Praia, por vermos em que parte estou,
					Me detenho em tomar do Sol a altura
					E compassar a universal pintura.


				27 - Aprisionamento de um indgena
					"Achamos ter de todo j passado
					Do Semicapro peixe a grande meta,
					Estando entre ele e o crculo gelado
					Austral, parte do mundo mais secreta.
					Eis, de meus companheiros rodeado,
					Vejo um estranho vir de pele preta,
					Que tomaram por fora, enquanto apanha
					De mel os doces favos na montanha.


				28
					"Torvado vem na vista, como aquele
					Que no se vira nunca em tal extremo;
					Nem ele entende a ns, nem ns a ele,
					Selvagem mais que o bruto Polifemo.
					Comeo-lhe a mostrar da rica pelo
					De Colcos o gentil metal supremo,
					A prata fina, a quente especiaria:
					A nada disto o bruto se movia.


				29 - Soltam o indgena
					"Mando mostrar-lhe peas mais somenos:
					Contas de cristalino transparente,
					Alguns soantes cascavis pequenos,
					Um barrete vermelho, cor contente.
					Vi logo, por sinais e por acenos,
					Que com isto se alegra grandemente.
					Mando-o soltar com tudo, e assim caminha
					Para a povoao que perto tinha.


				30 - Na baa de Santa Helena
					"Mas logo ao outro dia, seus parceiros,
					Todos nus, e da cor da escura treva,
					Descendo pelos speros outeiros,
					As peas vm buscar que estoutro leva:
					Domsticos j tanto e companheiros
					Se nos mostram, que fazem que se atreva
					Ferno Veloso a ir ver da terra o trato
					E partir-se com eles pelo mato.


				31 - Aventura de Ferno Veloso
					" Veloso no brao confiado,
					E de arrogante cr que vai seguro;
					Mas, sendo um grande espao j passado,
					Em que algum bom sinal saber procuro,
					Estando, a vista alada, co'o cuidado
					No aventureiro, eis pelo monto duro
					Aparece, e, segundo ao mar caminha,
					Mais apressado do que fora, vinha.


				32
					"O batel de Coelho foi depressa
					Pelo tomar; mas, antes que chegasse,
					Um Etope ousado se arremessa
					A ele, por que no se lhe escapasse;
					Outro e outro lhe saem; v-se em pressa
					Veloso, sem que algum lhe ali ajudasse;
					Acudo eu logo, e enquanto o remo aperto,
					Se mostra um bando negro descoberto.


				33 - Escaramua com os indgenas
					"Da espessa nuvem setas e pedradas
					Chovem sobre ns outros sem medida;
					E no foram ao vento em vo deitadas,
					Que esta perna trouxe eu dali ferida;
					Mas ns, como pessoas magoadas,
					A resposta lhe demos to tecida,
					Que, em mais que nos barretes, se suspeita 
					Que a cor vermelha levam desta feita.


				34
					"E sendo j, Veloso em salvamento,
					Logo nos recolhemos para a armada,
					Vendo a malcia feia e rudo intento
					Da gente bestial, bruta e malvada,
					De quem nenhum melhor conhecimento
					Pudemos ter da ndia desejada
					Que estarmos ainda muito longe dela;
					E assim tornei a dar ao vento a vela.


				35
					"Disse ento a Veloso um companheiro 
					(Comeando-se todos a sorrir) 
					-" l, Veloso amigo, aquele outeiro
					 melhor de descer que de subir."
					- "Sim, , (responde o ousado aventureiro) 
					Mas quando eu para c vi tantos vir 
					Daqueles ces, depressa um pouco vim, 
					Por me lembrar que estveis c sem


				36
					"Contou ento que, tanto que passaram
					Aquele monte, os negros de quem falo,
					Avante mais passar o no deixaram,
					Querendo, se no torna, ali mat-lo;
					E tornando-se, logo se emboscaram,
					Por que, saindo ns para tom-lo,
					Nos pudessem mandar ao reino escuro,
					Por nos roubarem mais a seu seguro.


				37 - Continua a navegao
					"Porm j cinco Sis eram passados 
					Que dali nos partramos, cortando 
					Os mares nunca doutrem navegados, 
					Prsperamente os ventos assoprando, 
					Quando uma noite estando descuidados, 
					Na cortadora proa vigiando,
					Uma nuvem que os ares escurece 
					Sobre nossas cabeas aparece.


				38 - O Adamastor
					"To temerosa vinha e carregada,
					Que ps nos coraes um grande medo;
					Bramindo o negro mar, de longe brada
					Como se desse em vo nalgum rochedo.
					- " Potestade, disse, sublimada!
					Que ameao divino, ou que segredo
					Este clima e este mar nos apresenta,
					Que mor cousa parece que tormenta?" -


				39
					"No acabava, quando uma figura
					Se nos mostra no ar, robusta e vlida,
					De disforme e grandssima estatura,
					O rosto carregado, a barba esqulida,
					Os olhos encovados, e a postura
					Medonha e m, e a cor terrena e plida,
					Cheios de terra e crespos os cabelos,
					A boca negra, os dentes amarelos.


				40
					"To grande era de membros, que bem posso
					Certificar-te, que este era o segundo
					De Rodes estranhssimo Colosso,
					Que um dos sete milagres foi do mundo:
					Com um tom de voz nos fala horrendo e grosso,
					Que pareceu sair do mar profundo:
					Arrepiam-se as carnes e o cabelo
					A mi e a todos, s de ouvi-lo e v-lo.


				41 - Fala de Adamastor aos portugueses
					"E disse: - " gente ousada, mais que quantas
					No mundo cometeram grandes cousas,
					Tu, que por guerras cruas, tais e tantas,
					E por trabalhos vos nunca repousas,
					Pois os vedados trminos quebrantas,
					E navegar meus longos mares ousas,
					Que eu tanto tempo h j que guardo e tenho,
					Nunca arados d'estranho ou prprio lenho:


				42 - Fala do Adamastor
					- "Pois vens ver os segredos escondidos
					Da natureza e do mido elemento,
					A nenhum grande humano concedidos
					De nobre ou de imortal merecimento,
					Ouve os danos de mim, que apercebidos
					Esto a teu sobejo atrevimento,
					Por todo o largo mar e pela terra,
					Que ainda hs de sojugar com dura guerra.


				43 - Profecias do Adamastor
					- "Sabe que quantas naus esta viagem 
					Que tu fazes, fizerem de atrevidas, 
					Inimiga tero esta paragem
					Com ventos e tormentas desmedidas.
					E da primeira armada que passagem
					Fizer por estas ondas insofridas,
					Eu farei d'improviso tal castigo,
					Que seja mor o dano que o perigo.


				44 - Bartolomeu Dias. Naufrgios.
					- "Aqui espero tomar, se no me engano, 
					De quem me descobriu, suma vingana.  
					E no se acabar s nisto o dano 
					Da vossa pertinace confiana;
					Antes em vossas naus vereis cada ano,
					Se  verdade o que meu juzo alcana,
					Naufrgios, perdies de toda sorte,
					Que o menor mal de todos seja a morte.


				45 - Dom Francisco de Almeida
					- " do primeiro Ilustre, que a ventura
					Com fama alta fizer tocar os Cus,
					Serei eterna e nova sepultura,
					Por juzos incgnitos de Deus.
					Aqui por da Turca armada dura
					Os soberbos e prsperos trofus;
					Comigo de seus danos o ameaa
					A destruda Quloa com Mombaa.


				46 - Manoel de Sousa de Seplveda
e sua mulher dona Leonor

					- "Outro tambm vir de honrada fama,
					Liberal, cavaleiro, enamorado,
					E consigo trar a formosa dama
					Que Amor por gr merc lhe ter dado.
					Triste ventura e negro fado os chama
					Neste terreno meu, que duro e irado
					Os deixar dum cru naufrgio vivos
					Para verem trabalhos excessivos.


				47
					- "Vero morrer com fome os filhos caros,
					Em tanto amor gerados e nascidos;
					Vero os Cafres speros e avaros
					Tirar  linda dama seus vestidos;
					Os cristalinos membros e perclaros
					A calma, ao frio, ao ar vero despidos,
					Depois de ter pisada longamente
					Co'os delicados ps a areia ardente.


				48
					- "E vero mais os olhos que escaparem
					De tanto mal, de tanta desventura,
					Os dois amantes mseros ficarem
					Na frvida e implacvel espessura.
					Ali, depois que as pedras abrandarem
					Com lgrimas de dor, de mgoa pura,
					Abraados as almas soltaro
					Da formosa e misrrima priso." -


				49 - Adamastor narra ao Gama sua vida
					"Mais ia por diante o monstro horrendo
					Dizendo nossos fados, quando alado
					Lhe disse eu: - Quem s tu? que esse estupendo
					Corpo certo me tem maravilhado.-
					A boca e os olhos negros retorcendo,
					E dando um espantoso e grande brado,
					Me respondeu, com voz pesada e amara,
					Como quem da pergunta lhe pesara:


				50
					- "Eu sou aquele oculto e grande Cabo,
					A quem chamais vs outros Tormentrio,
					Que nunca a Ptolomeu, Pompnio, Estrabo,
					Plnio, e quantos passaram, fui notrio.
					Aqui toda a Africana costa acabo
					Neste meu nunca visto Promontrio,
					Que para o Plo Antarctico se estende,
					A quem vossa ousadia tanto ofende.


				51 - Guerra dos Gigantes contra Jpiter 
					- "Fui dos filhos asprrimos da Terra,
					Qual Enclado, Egeu e o Centimano;
					Chamei-me Adamastor, e fui na guerra
					Contra o que vibra os raios de Vulcano;
					No que pusesse serra sobre serra,
					Mas conquistando as ondas do Oceano,
					Fui capito do mar, por onde andava
					A armada de Netuno, que eu buscava.


				52 - Amor de Adamastor por Ttis
					- "Amores da alta esposa de Peleu
					Me fizeram tomar tamanha empresa.
					Todas as Deusas desprezei do cu,
					S por amar das guas a princesa.
					Um dia a vi coas filhas de Nereu
					Sair nua na praia, e logo presa
					A vontade senti de tal maneira
					Que ainda no sinto coisa que mais queira.


				53
					- "Como fosse impossvel alcan-la 
					Pela grandeza feia de meu gesto, 
					Determinei por armas de tom-la, 
					E a Doris este caso manifesto.
					De medo a Deusa ento por mim lhe fala;
					Mas ela, com um formoso riso honesto,
					Respondeu: - "Qual ser o amor bastante
					De Ninfa que sustente o dum Gigante?


				54 - Adamastor e Ttis
					- "Contudo, por livrarmos o Oceano 
					De tanta guerra, eu buscarei maneira, 
					Com que, com minha honra, escuse o dano."
					Tal resposta me torna a mensageira.  
					Eu, que cair no pude neste engano, 
					(Que  grande dos amantes a cegueira) 
					Encheram-me com grandes abondanas 
					O peito de desejos e esperanas.


				55
					- "J nscio, j da guerra desistindo,
					Uma noite de Dris prometida,
					Me aparece de longe o gesto lindo
					Da branca Ttis nica despida:
					Como doido corri de longe, abrindo
					Os braos, para aquela que era vida
					Deste corpo, e comeo os olhos belos
					A lhe beijar, as faces e os cabelos.


				56
					- " que no sei de nojo como o conte!  
					Que, crendo ter nos braos quem amava, 
					Abraado me achei com um duro monte 
					De spero mato e de espessura brava.  
					Estando com um penedo fronte a fronte, 
					Que eu pelo rosto anglico apertava 
					No fiquei homem no, mas mudo e quedo, 
					E junto dum penedo outro penedo.


				57 - Adamastor e Ttis
					- " Ninfa, a mais formosa do Oceano,
					J que minha presena no te agrada,
					Que te custava ter-me neste engano,
					Ou fosse monte, nuvem, sonho, ou nada?
					Daqui me parto irado, e quase insano
					Da mgoa e da desonra ali passada,
					A buscar outro inundo, onde no visse
					Quem de meu pranto e de meu mal se risse,


				58 - Castigo de Adamastor
					- "Eram j neste tempo meus irmos
					Vencidos e em misria extrema postos;
					E por mais segurar-se os Deuses vos,
					Alguns a vrios montes sotopostos:
					E como contra o Cu no valem mos,
					Eu, que chorando andava meus desgostos,
					Comecei a sentir do fado inimigo
					Por meus atrevimentos o castigo.


				59 - Transformao de Adamastor no 
Cabo das Tormentas

					- "Converte-se-me a carne em terra dura, 
					Em penedos os ossos se  fizeram,
					Estes membros que vs e esta figura
					Por estas longas guas se estenderam; 
					Enfim, minha grandssima estatura
					Neste remoto cabo converteram
					Os Deuses, e por mais dobradas mgoas,
					Me anda Ttis cercando destas guas." -


				60
					"Assim contava, e com um medonho choro
					Sbito diante os olhos se apartou;
					Desfez-se a nuvem negra, e com um sonoro
					Bramido muito longe o mar soou.
					Eu, levantando as mos ao santo coro
					Dos anjos, que to longe nos guiou,
					A Deus pedi que removesse os duros
					Casos, que Adamastor contou futuros.


				61 - Na angra de So Brs
					"J Flegon e Piris vinham tirando
					Com os outros dois o carro radiante,
					Quando a terra alta se nos foi mostrando,
					Em que foi convertido o gro Gigante.
					Ao longo desta costa, comeando
					J de cortar as ondas do Levante,
					Por ela abaixo um pouco navegamos,
					Onde segunda vez terra tomamos.


				62 - Acorrem  praia os indgenas
					"A gente que esta terra possua, 
					Posto que todos Etopes eram,
					Mais humana no trato parecia
					Que os outros, que to mal nos receberam.
					Com bailos e com festas de alegria
					Pela praia arenosa a ns vieram,
					As mulheres consigo e o manso gado
					Que apascentavam, gordo e bem criado.


				63 - Costumes
					"As mulheres queimadas vm em cima
					Dos vagarosos bois, ali sentadas,
					Animais que eles tm em mais estima
					Que todo o outro gado das manadas.
					Cantigas pastoris, ou prosa ou rima,
					Na sua lngua cantam concertadas
					Com o doce som das rsticas avenas,
					Imitando de Ttiro as Camenas.


				64 - Continua a navegao
					"Estes, como na vista prazenteiros
					Fossem, humanamente nos trataram,
					Trazendo-nos galinhas e carneiros,
					A troco doutras peas, que levaram.
					Mas como nunca enfim meus companheiros
					Palavra sua alguma lhe alcanaram
					Que desse algum sinal do que buscamos,
					As velas dando, as ncoras levamos.


				65 - Ilhu de Santa-Cruz
					"J aqui tnhamos dado um gr rodeio
					A costa negra de frica, e tornava
					A proa a demandar o ardente meio
					Do Cu, e o plo Antarctico ficava:
					Aquele ilhu deixamos, onde veio
					Outra armada primeira, que buscava
					O Tormentrio cabo, e descoberto,
					Naquele ilhu fez seu limite certo.

				66 - Correntes martimas
					Daqui fomos cortando muitos dias
					Entre tormentas tristes e bonanas,
					No largo mar fazendo novas vias,
					S conduzidos de rduas esperanas.
					Colo mar um tempo andamos em porfias,
					Que, como tudo nele so mudanas.
					Corrente nele achamos to possante
					Que passar no deixava por diante.


				67
					"Era maior a fora em demasia,
					Segundo para trs nos obrigava,
					Do mar, que contra ns ali corria,
					Que por ns a do vento que assoprava.
					Injuriado Noto da porfia
					Em que colo mar (parece) tanto estava,
					Os assopros esfora iradamente,
					Com que nos fez vencer a gro corrente.


				68 - Rio dos Reis
					"Trazia o Sol o dia celebrado,
					Em que trs Reis das partes do Oriento
					Foram buscar um Rei de pouco nado,
					No qual Rei outros trs h juntamente.
					Neste dia outro porto foi tomado
					Por ns, da mesma j contada gente,
					Num largo rio, ao qual o no e demos
					Do dia, em que por ele nos metemos.



				69
					"Desta gente refresco algum tomamos,
					E do rio fresca gua; mas contudo
					Nenhum sinal aqui da ndia achamos
					No Povo, com ns outros quase mudo.
					Ora v, Rei, que tamanha terra andamos,
					Sem sair nunca deste povo rudo,
					Sem vermos nunca nova nem sinal
					Da desejada parte Oriental.


				70 - Rio dos Reis
					"Ora imagina agora coitados
					Andaramos todos, perdidos,
					De fomes, de tormentas quebrantados,
					Por climas e por mares no sabidos,
					E do esperar comprido to cansados,
					Quanto a desesperar j compelidos,
					Por cus no naturais, de qualidade
					Inimiga de nossa humanidade.


				71 - Lealdade ao rei de Portugal
					"Corrupto j e danado o mantimento,
					Danoso e mau ao fraco corpo humano,
					E alm disso nenhum contentamento,
					Que sequer da esperana fosse engano.
					Crs tu que, se este nosso ajuntamento
					De soldados no fora Lusitano,
					Que durara ele tanto obediente
					Por ventura a seu Rei e a seu regente?




				72
					"Crs tu que j no foram levantados 
					Contra seu Capito, se os resistira, 
					Fazendo-se piratas, obrigados
					De desesperao, de fome, de ira?  
					Grandemente, por certo, esto provados, 
					Pois que nenhum trabalho grande os tira 
					Daquela Portuguesa alta excelncia 
					De lealdade firme, e obedincia.


				73 - Continua a navegao. Sofala.
					"Deixando o porto enfim do doce rio
					E tornando a cortar a gua salgada,
					Fizemos desta costa algum desvio,
					Deitando para o pego toda a armada;
					Porque, ventando Noto manso e frio,
					No nos apanhasse a gua da enseada,
					Que a costa faz ali daquela banda
					Donde a rica Sofala o ouro manda.


				74
					"Esta passada, logo o leve leme 
					Encomendado ao sacro Nicolau,
					Para onde o mar na costa brada e geme,
					A proa inclina duma e doutra nau;
					Quando indo o corao que espera e teme
					E que tanto fiou dum fraco pau
					Do que esperava j desesperado,
					Foi duma novidade alvoroado




				75 - Rio dos Bons-Sinais
					"E foi que, estando j da costa perto,
					Onde as praias e vales bem se viam,
					Num rio, que ali sai ao mar aberto,
					Batis  vela entravam e saam.
					Alegria muito grande foi por certo
					Acharmos j pessoas que sabiam
					Navegar, porque entre elas esperamos
					De achar novas algumas, como achamos.


				76 - Os indgenas
					"Etopes so todos, mas parece
					Que com gente melhor comunicavam;
					Palavra alguma Arbia se conhece
					Entre a linguagem sua que falavam;
					E com pano delgado, que se tece
					De algodo, as cabeas apertavam;
					Com outro, que de tinta azul se tinge,
					Cada um as vergonhosas partes cinge.


				77 - Informaes
					"Pela Arbica lngua, que mal falam,
					E que Ferno Martins muito bem entende,
					Dizem que por naus, que em grandeza igualam
					As nossas, o seu mar se corta e fende;
					Mas que l donde sai o Sol, se abalam
					Para onde a costa ao Sul se alarga e estende,
					E do Sul para o Sol, terra onde havia
					Gente, assim como ns, da cor do dia.


				78 - Levantam um padro
					"Muito grandemente aqui nos alegramos
					Com a gente, e com as novas muito mais:
					Pelos sinais que neste rio achamos
					O nome lhe ficou dos Bons Sinais.
					Um padro nesta terra alevantamos,
					Que, para assinalar lugares tais,
					Trazia alguns; o nome tem do belo
					Guiador de Tobias a Gabelo.


				79 - Espalmam as naus
					"Aqui de limos, cascas e d'ostrinhos, 
					Nojosa criao das guas fundas, 
					Alimpamos as naus, que dos caminhos 
					Longos do mar, vm srdidas e imundas.  
					Dos hspedes que tnhamos vizinhos, 
					Com mostras aprazveis e jocundas, 
					louvemos sempre o usado mantimento, 
					Limpos de todo o falso pensamento.


				80 - O escorbuto
					"Mas no foi, da esperana grande e imensa
					Que nesta terra houvemos, limpa e pura
					A alegria; mas logo a recompensa
					A Ramnsia com nova desventura.
					Assim no cu sereno se dispensa:
					Com esta condio pesada e dura
					Nascemos: o pesar ter firmeza,
					Mas o bem logo muda a natureza.


				81
					"E foi que de doena crua e feia,
					A mais que eu nunca vi, desampararam
					Muitos a vida, e em terra estranha e alheia
					Os ossos para sempre sepultaram.
					Quem haver que, sem o ver, o creia?
					Que to disformemente ali lhe incharam
					As gengivas na boca, que crescia
					A carne, e juntamente apodrecia.


				82
					"- Apodrecia com um ftido e bruto
					Cheiro, que o ar vizinho inficionava;
					No tnhamos ali mdico astuto,
					Cirurgio subtil menos se achava;
					Mas qualquer, neste ofcio pouco instructo,
					Pela carne j podre assim cortava
					Como se fora morta, e bem convinha,
					Pois que morto ficava quem a tinha.


				83
					"Enfim que nesta incgnita espessura
					Deixamos para sempre os companheiros,
					Que em tal caminho e em tanta desventura
					Foram sempre conosco aventureiros.
					Quo fcil  ao corpo a sepultura!
					Quaisquer ondas do mar, quaisquer outeiros
					Estranhos, assim mesmo como aos nossos,
					Recebero de todo o Ilustre os ossos.





				84 - Continua a navegao. Moambique. Mombaa.
					"Assim que, deste porto nos partirmos 
					Com maior esperana e maior tristeza, 
					E pela costa abaixo o mar abrirmos 
					Buscando algum sinal de mais firmeza.  
					Na dura Moambique enfim surgimos, 
					De cuja falsidade e m vileza
					J sers sabedor, e dos enganos
					Dos povos de Mombaa pouco humanos.


				85 - Em Melinde
					"At que aqui no teu seguro porto,
					Cuja brandura e doce tratamento
					Dar sade a um vivo, e vida a um morto,
					Nos trouxe a piedade do alto assento.
					Aqui repouso, aqui doce conforto,
					Nova quietao do pensamento
					Nos deste: e vs aqui, se atento ouviste, 
					Te contei tudo quanto me pediste.


				86 - Encarecimento do feito dos portugueses
					"Julgas agora, Rei, se houve no mundo
					Gentes que tais caminhos cometessem?
					Crs tu que tanto Eneias e o facundo
					Ulisses pelo inundo se estendessem?
					Ousou algum a ver do mar profundo,
					Por mais versos que dele se escrevessem,
					Do que eu vi, a poder de esforo e de arte,
					E do que ainda hei de ver, a oitava parte?


				87 - Homero e Virglio
					"Esse que bebeu tanto da gua Ania,
					Sobre quem tem contenda peregrina,
					Entre si, Rodes, Smirna e Colofnia,
					Atenas, Ios, Argo e Salamina:
					Esse outro que esclarece toda Ausna,
					A cuja voz altssona e divina
					Ouvindo, o ptrio Mncio se adormece,
					Mas o Tibre, com o som se ensoberbece;


				88
					Cantem , louvem e escrevam sempre extremos
					Desses seus Semideuses, e encaream,
					Fingindo Magis Circes, Polifemos,
					Sirenas que com o canto os adormeam;
					Dem-lhe mais navegar  vela e remos
					Os Cicones, e a torra onde se esqueam
					Os companheiros, em gostando o Loto;
					Dem-lhe perder nas guas o piloto;


				89 - Conclui o Gama a narrao ao Rei de Melinde
					"Ventos soltos lhe finjam, e imaginem
					Dos odres e Calipsos namoradas;
					Harpias que o manjar lhe contaminem;
					Descer s sombras nuas j passadas:
					Que por muito e por muito que se afinem
					Nestas fbulas vs, to bem sonhadas,
					A verdade que eu conto nua e pura
					Vence toda grandloqua escritura."



				90 - Admirao pelo feito dos portugueses
					Da boca do facundo Capito
					Pendendo estavam todos embebidos,
					Quando deu fim  longa narrao
					Dos altos feitos grandes e subidos.
					Louva o Rei o sublime corao
					Dos Reis em tantas guerras conhecidos;
					Da gente louva a antiga fortaleza,
					A lealdade de nimo e nobreza.


				91 - Retira-se o rei de Melinde
					Vai recontando o povo, que se admira,
					O caso cada qual que mais notou;
					Nenhum deles da gente os olhos tira,
					Que to longos caminhos rodeou.
					Mas j o mancebo Dlio as rdeas vira
					Que o irmo de Lampcia mal guiou,
					Por vir a descansar nos Ttios braos;
					E el-Rei se vai do mar aos nobres paos.


				92 - A glria
					Quo doce  o louvor e a justa glria
					Dos prprios feitos, quando so soados!
					Qualquer nobre trabalha que em memria
					Vena ou iguale os grandes j passados.
					As invejas da ilustre e alheia histria
					Fazem mil vezes feitos sublimados.
					Quem valerosas obras exercita,
					Louvor alheio muito o esperta e incita.

				93 - O gosto das letras
					No tinha em tanto os feitos gloriosos
					De Aquiles, Alexandro na peleja,
					Quanto de quem o canta, os numerosos
					Versos; isso s louva, isso deseja.
					Os trofus de Melcades famosos
					Temstoeles despertam s de inveja,
					E diz que nada tanto o deleitava
					Como a voz que seus feitos celebrava.


				94 - Virglio
					Trabalha por mostrar Vasco da Gama
					Que essas navegaes que o mundo canta
					No merecem tamanha glria e fama
					Como a sua, que o cu e a terra espanta.
					Si; mas aquele Heri, que estima e ama
					Com dons, mercs,. favores e honra tanta
					A lira Mantuana, faz que soe
					Eneias, e a Romana glria voe.


				95 - Octvio
					D a terra lusitana Cipies,
					Csares, Alexandros, e d Augustos;
					Mas no lhe d contudo aqueles dois
					Cuja falta os faz duros e robustos.
					Octvio, entre as maiores opresses,
					Compunha versos doutos e venustos.
					No dir Flvia certo que  mentira,
					Quando a deixava Antnio por Glafira,



				96 - Csar, Alexandre e Cipio
					Vai Csar, sojugando toda Frana, 
					E as armas no lhe impedem a cincia; 
					Mas , numa mo a pena e noutra a lana, 
					Igualava de Ccero a eloquncia.  
					O que de Cipio se sabe e alcana, 
					 nas comdias grande experincia.  
					Lia Alexandro a Homero de maneira 
					Que sempre se lhe sabe  cabeceira.


				97
					Enfim, no houve forte capito,
					Que no fosse tambm douto e ciente,
					Da Lcia, Grega, ou Brbara nao,
					Seno da Portuguesa to somente.
					Sem vergonha o no digo, que a razo
					De algum no ser por versos excelente,
					 no se ver prezado o verso e rima,
					Porque, quem no sabe arte, no na estima.


				98 - Desamor de Portugal s boas letras
					Por isso, e no por falta de natura,
					No h tambm Virglios nem Homeros;
					Nem haver, se este costume dura,
					Pios Eneias, nem Aquiles feros.
					Mas o pior de tudo  que a ventura
					To speros os fez, e to austeros,
					To rudos, e de engenho to remisso,
					Que a muitos lhe d pouco, ou nada disso.



				99 - O amor  Ptria
					As Musas agradea o nosso Gama
					o Muito amor da Ptria, que as obriga
					A dar aos seus na lira nome e fama
					De toda a ilustro e blica fadiga:
					Que ele, nem quem na estirpe seu se chama,
					Calope no tem por to amiga,
					Nem as filhas do Tejo, que deixassem
					As telas douro fino, e que o cantassem.


				100
					Porque o amor fraterno e puro gosto
					De dar a todo o Lusitano feito
					Seu louvor,  somente o pressuposto
					Das Tgides gentis, e seu respeito.
					Porm no deixe enfim de ter disposto
					Ningum a grandes obras sempre o peito,
					Que por esta, ou por outra qualquer via,
					No perder seu preo, e sua valia.




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Cames
Os Lusadas
(Canto Sexto)

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				1 - Festejos em honra dos portugueses
					No sabia em que modo festejasse
					O Rei Pago os fortes navegantes,
					Para que as amizades alcanasse
					Do Rei Cristo, das gentes to possantes;
					Pesa-lhe que to longe o aposentasse
					Das Europias terras abundantes
					A ventura, que no no fez vizinho
					Donde Hrcules ao mar abriu caminho.


				2 - Banquetes
					Com jogos, danas e outras alegrias,
					A segundo a polcia Melindana,
					Com usadas e ledas pescarias,
					Com que a Lageia Antnio alegra e engana
					Este famoso Rei, todos os dias,
					Festeja a companhia Lusitana,
					Com banquetes, manjares desusados,
					Com frutas, aves, carnes e pescados.


				3 - Despede-se o Gama do rei de Melinde
					Mas vendo o Capito que se detinha
					J mais do que devia, e o fresco vento
					O convida que parta e tome asinha
					Os pilotos da terra e mantimento,
					No se quer mais deter, que ainda tinha
					Muito para cortar do salso argento;
					J do Pago benigno se despede,
					Que a todos amizade longa pede.


				4 - Afetuoso oferecimento do rei de Melinde ao Gama
					Pede-lhe mais que aquele porto seja
					Sempre com suas frotas visitado,
					Que nenhum outro bem maior deseja,
					Que dar a tais bares seu reino e estado;
					E que enquanto seu corpo o esprito reja,
					Estar de contino aparelhado
					A pr a vida e reino totalmente
					Por to bom Rei, por to sublime gente.


				5 - Parte a frota para Calecu
					Outras palavras tais lhe respondia
					O Capito, o logo as velas dando,
					Para as terras da Aurora se partia,
					Que tanto tempo h j que vai buscando.
					No piloto que leva no havia
					Falsidade, mas antes vai mostrando
					A navegao certa, e assim caminha
					J mais seguro do que dantes vinha.


				6 - Desce Baco ao reino de Netuno
					As ondas navegavam do Oriente
					J nos mares da ndia, e enxergavam
					Os tlamos do Sol, que nasce ardente;
					J quase seus desejos se acabavam.
					Mas o mau de Tioneu, que na alma sente
					As venturas, que ento se aparelhavam
					A gente Lusitana, delas dina,
					Arde, morre, blasfema e desatina.


				7
					Via estar todo o Cu determinado
					De fazer de Lisboa nova Roma;
					No no pode estorvar, que destinado
					Est doutro poder que tudo doma.
					Do Olimpo desce enfim desesperado;
					Novo remdio em terra busca e toma:
					Entra no mido reino, e vai-se  corte
					Daquele a quem o mar caiu em sorte.


				8 - Descrio do reino de Netuno
					No mais interno fundo das profundas
					Cavernas altas, onde o mar se esconde,
					L donde as ondas saem furibundas,
					Quando s iras do vento o mar responde,
					Netuno mora, e moram as jocundas
					Nereidas, e outros Deuses do mar, onde
					As guas campo deixam s cidades,
					Que habitam estas midas deidades.


				9
					Descobre o fundo nunca descoberto
					Das areias ali de prata fina;
					Torres altas se vem no campo aberto
					Da transparente massa cristalina:
					Quanto se chegam mais os olhos perto,
					Tanto menos a vista determina
					Se  cristal o que v, se diamante,
					Que assim se mostra claro e radiante.


				10
					As portas douro fino, e marchetadas
					Do rico aljfar que nas conchas nasce,
					De escultura formosa esto lavradas,
					Na qual o irado Baco a vista pasce;
					E v primeiro em cores variadas
					Do velho Caos a to confusa face;
					Vem-se os quatro elementos trasladados
					Em diversos ofcios ocupados.


				11
					Ali sublime o Fogo estava em cima,
					Que em nenhuma matria se sustinha;
					Daqui as coisas vivas sempre anima,
					Depois que Prometeu furtado o tinha.
					Logo aps ele leve se sublima
					O invisvel Ar, que mais asinha
					Tomou lugar, e nem por quente ou f rio,
					Algum deixa no mundo estar vazio.


				12
					Estava a terra em montes revestida
					De verdes ervas, e rvores floridas,
					Dando pasto diverso e dando vida
					As alimrias nela produzidas.
					A clara forma ali estava esculpida
					Das guas entre a terra desparzidas,
					De pescados criando vrios modos,
					Com seu humor mantendo os corpos todos.


				13
					Noutra parte esculpida estava a guerra,
					Que tiveram os Deuses com os Gigantes;
					Est Tifeu debaixo da alta serra
					De Etna, que as flamas lana crepitantes;
					Esculpido se v ferindo a terra
					Netuno, quando as gentes ignorantes 
					Dele o cavalo houveram, e a primeira 
					De Minerva pacfica oliveira.


				14
					Pouca tardana faz Lieu irado
					Na vista destas coisas, mas entrando
					Nos paos de Netuno, que avisado
					Da vinda sua, o estava j aguardando,
					As portas o recebe, acompanhado
					Das Ninfas, que se esto maravilhando
					De ver que, cometendo tal caminho,
					Entre no reino d'gua o Rei do vinho.


				15 - Baco pede  Netuno que rena o conselho
dos deuses marinhos

					" Netuno, lhe disse, no te espantes
					De Baco nos teus reinos receberes,
					Porque tambm com os grandes e possantes
					Mostra a Fortuna injusta seus poderes.
					Manda chamar os Deuses do mar, antes
					Que fale mais, se ouvir-me o mais quiseres;
					Vero da desventura grandes modos:
					Ouam todos o mal, que toca a todos."


				16 - Trito
					Julgando j Netuno que seria
					Estranho caso aquele, logo manda
					Trito, que chame os Deuses da gua fria,
					Que o mar habitam duma e doutra banda.
					Trito, que de ser filho se gloria
					Do Rei e de Salcia veneranda,
					Era mancebo grande, negro e feio, 
					Trombeta de seu pai, e seu correio.


				17
					Os cabelos da barba, e os que descem 
					Da cabea nos ombros, todos eram 
					Uns limos prenhes d'gua, e bem parecem 
					Que nunca brando pentem conheceram; 
					Nas pontas pendurados no falecem 
					Os negros misilhes, que ali se geram, 
					Na cabea por gorra tinha posta 
					Uma muito grande casca de lagosta.


				18
					O corpo nu, e os membros genitais,
					Por no ter ao nadar impedimento,
					Mas porm de pequenos animais
					Do mar todos cobertos cento e cento:
					Camares e cangrejos, e outros mais
					Que recebem de Febe crescimento,
					Ostras, e camares do musgo sujos,
					As costas com a casca os caramujos.


				19 - Os deuses marinhos
					Na mo a grande concha retorcida
					Que trazia, com fora, j tocava;
					A voz grande canora foi ouvida
					Por todo o mar, que longe retumbava.
					J toda a companhia apercebida
					Dos Deuses para os paos caminhava
					Do Deus, que fez os muros de Dardnia,
					Destrudos depois da Grega insnia.


				20 - Oceano. Nereu. Proteu.
					Vinha o padre Oceano acompanhado
					Dos filhos e das filhas que gerara;
					Vem Nereu, que com Dris foi casado,
					Que todo o mar de Ninfas povoara;
					O profeta Proteu, deixando o gado
					Martimo pascer pela gua amara,
					Ali veio tambm, mas j sabia
					O que o padre Lieu no mar queria.



				21 - Tethys
					Vinha por outra parte a linda esposa
					De Netuno, de Celo e Vesta filha,
					Grave e Ieda no gesto, e to formosa
					Que se amansava o mar de maravilha.
					Vestida uma camisa preciosa
					Trazia de delgada beatilha,
					Que o corpo cristalino deixa ver-se,
					Que tanto bem no  para esconder-se.


				22 - Anfitrite
					Anfitrite, formosa como as flores,
					Neste caso no quis que falecesse;
					O Delfim traz consigo, que aos amores
					Do Rei lhe aconselhou que obedecesse.
					Com os olhos, que de tudo so senhores,
					Qualquer parecer que o Sol vencesse:
					Ambas vm pela mo, igual partido,
					Pois ambas so esposas dum marido.


				23 - Ino. Panopia.
					Aquela que das frias de Atamante
					Fugindo, veio a ter divino estado,
					Consigo traz o filho, belo Infante,
					No nmero dos Deuses relatado.
					Pela praia brincando vem diante
					Com as lindas conchinhas, que o salgado
					Mar sempre cria, e s vezes pela areia
					No colo o to a a bela Panopeia.


				24 - Glauco
					E o Deus que foi num tempo corpo humano,
					E por virtude da erva poderosa
					Foi convertido em peixe, e deste dano
					Lhe resultou deidade gloriosa,
					Inda vinha chorando o feio engano
					Que Circe tinha usado com a formosa
					Cila, que ele ama, desta sendo amado,
					Que a mais obriga amor mal empregado.


				25
					J finalmente todos assentados
					Na grande sala, nobre e divinal;
					As Deusas em riqussimos estrados,
					Os Deuses em cadeiras de cristal,
					Foram todos do Padre agasalhados,
					Que com o Tebano tinha assento igual.
					De fumos enche a casa a rica massa
					Que no mar nasce, e Arbia em cheiro passa.


				26 - Fala de Baco contra os portugueses
					Estando sossegado j o tumulto
					Dos Deuses, e de seus recebimentos,
					Comea a descobrir do peito oculto
					A causa o Tioneu de seus tormentos:
					Um pouco carregando-se no vulto,
					Dando mostra de grandes sentimentos,
					S por dar aos de Luso triste morte
					Com o ferro alheio, fala desta sorte:


				27
					"Prncipe, que de juro senhoreias
					Dum Plo ao outro Plo o mar irado,
					Tu, que as gentes da terra toda enfreias,
					Que no passem o termo limitado;
					E tu, padre Oceano, que rodeias
					O inundo universal, e o tens cercado,
					E com justo decreto assim permites
					Que dentro vivam s de seus limites;


				28
					"E vs, Deuses do mar, que no sofreis 
					Injria alguma em vosso reino grande, 
					Que com castigo igual vos no vingueis
					De quem quer que por ele corra e ande:
					Que descuido foi este em que viveis?
					Quem pode ser que tanto vos abrande
					Os peitos, com razo endurecidos
					Contra os humanos fracos e atrevidos?


				29
					"Vistes que com grandssima ousadia
					Foram j cometer o Cu supremo;
					Vistes aquela insana fantasia
					De tentarem o mar com vela e reino;
					Vistes, e ainda vemos cada dia,
					Soberbas e insolncias tais, que temo
					Que do mar e do Cu em poucos anos
					Venham Deuses a ser, e ns humanos.


				30
					"Vedes agora a fraca gerao	
					Que dum vassalo meu o nome toma,	
					Com soberbo e altivo corao,
					A vs, e a mi, e o mundo todo doma;
					Vedes, o vosso mar cortando vo,
					Mais do que fez a gente alta de Roma;
					Vedes, o vosso reino devassando,
					Os vossos estatutos vo quebrando.


				31
					"Eu vi que contra os Mnias, que primeiro
					No vosso reino este caminho abriram,
					Breas injuriado, e o companheiro
					Aquilo, e os outros todos resistiram.
					Pois se do ajuntamento aventureiro
					Os ventos esta injria assim sentiram,
					Vs, a quem mais compete esta vingana,
					Que esperais?  Porque a pondes em tardana?


				32
					"E no consinto, Deuses, que cuideis
					Que por amor de vs do cu desci,
					Nem da mgoa da injria que sofreis,
					Mas da que se me faz tambm a mi;
					Que aquelas grandes honras, que sabeis
					Que no mundo ganhei, quando venci
					As terras Indianas do Oriente,
					Todas vejo abatidas desta gente.


				33
					"Que o gr Senhor e Fados que destinam,
					Como lhe bem parece, o baixo mundo,
					Famas mores que nunca determinam
					De dar a estes bares no mar profundo.
					Aqui vereis,  Deuses, como ensinam
					O mal tambm a Deuses: que, a segundo
					Se v, ningum j tem menos valia,
					Que quem com mais razo valer devia.


				34
					"E por isso do Olimpo j fugi,
					Buscando algum remdio a meus pesares,
					Por ver o preo que no Cu perdi,
					Se por dita acharei nos vossos mares."
					Mais quis dizer, e no passou daqui,
					Porque as lgrimas j correndo a pares
					Lhe saltaram dos olhos, com que logo
					Se acendem as Deidades d'gua em fogo.


				35
					A ira com que sbito alterado
					O corao dos Deuses foi num ponto,
					No sofreu mais conselho bem cuidado,
					Nem dilao, nem outro algum desconto.
					Ao grande Eolo mandam j recado
					Da parte de Netuno, que sem conto
					Solte as frias dos ventos repugnantes,
					Que no haja no mar mais navegantes.


				36 - Proteu
					Bem quisera primeiro ali Proteu
					Dizer neste negcio o que sentia,
					E segundo o que a todos pareceu,
					Era alguma profunda profecia.
					Porm tanto o tumulto se moveu
					Sbito na divina companhia,
					Que Tethys indignada lhe bradou:
					"Netuno sabe bem o que mandou".


				37 - Eolo solta os ventos
					J l o soberbo Hiptades soltava
					Do crcere fechado os furiosos
					Ventos, que com palavras animava
					Contra os vares audazes e animosos.
					Sbito o cu sereno se obumbrava,
					Que os ventos, mais que nunca impetuosos,
					Comeam novas foras a ir tomando,
					Torres, montes e casas derribando.


				38 - O que faziam entretanto a bordo os portugueses
					Enquanto este conselho se fazia
					No fundo aquoso, a leda lassa frota
					Com vento sossegado prosseguia,
					Pelo tranqilo mar, a longa rota.
					Era no tempo quando a luz do dia
					Do Eo Hemisfrio est remota;
					Os do quarto da prima se deitavam,
					Para o segundo os outros despertavam.


				39 -  noite, a bordo
					Vencidos vm do sono, e mal despertos;
					Bocejando a mido se encostavam
					Pelas antenas, todos mal cobertos
					Contra os agudos ares, que assopravam;
					Os olhos contra seu querer abertos,
					Alas estregando, os membros estiravam;
					Remdios contra o sono buscar querem,
					Histrias contam, casos mil referem.


				40
					"Com que melhor podemos, um dizia,
					Este tempo passar, que  to pesado,
					Seno com algum conto de alegria,
					Com que nos deixe o sono carregado?"
					Responde Leonardo, que trazia
					Pensamentos de firme namorado:
					"Que contos poderemos ter melhores,
					Para passar o tempo, que de amores?"


				41
					"No , disse Veloso, coisa justa
					Tratar branduras em tanta aspereza;
					Que o trabalho do mar, que tanto custa,
					No sofre amores, nem delicadeza;
					Antes de guerra frvida e robusta
					A nossa histria seja, pois dureza
					Nossa vida h de ser, segundo entendo,
					Que o trabalho por vir me est dizendo."

				42 - Narrao de Veloso
					Consentem nisto todos, e encomendam           
					A Veloso que conte isto que aprova.           
					"Contarei, disse, sem que me repreendam
					De contar cousa fabulosa ou nova;
					E porque os que me ouvirem daqui aprendam
					A fazer feitos grandes de alta prova,
					Dos nascidos direi na nossa terra,
					E estes sejam os doze de Inglaterra.


				43 - No tempo de Dom Joo I
					"No tempo que do Reino a rdea leve
					Joo, filho de Pedro, moderava,
					Depois que sossegado e livre o teve
					Do vizinho poder, que o molestava,
					L na grande Inglaterra, que da neve
					Boreal sempre abunda, semeava
					A fera Ernis dura e m ciznia,
					Que lustre fosse a nossa Lusitnia.

	
				44 - Entre damas e cortesos da corte inglesa
					"Entre as damas gentis da corte Inglesa	
					E nobres cortesos, acaso um dia	
					Se levantou discrdia em ira acesa,	
					Ou foi opinio, ou foi porfia.
					Os cortesos, a quem to pouco pesa
					Soltar palavras graves de ousadia,
					Dizem que provaro, que honras e famas


				45 - Desafio
					"E que se houver algum, com lana e espada,
					Que queira sustentar a parte sua,
					Que eles, em campo raso ou estacada,
					Lhe daro feia infmia, ou morte crua.
					A feminil fraqueza Pouco usada,
					Ou nunca, a oprbrios tais, vendo-se nua
					De foras naturais convenientes,
					Socorro pede a amigos e parentes.

	
				46 - Queixam-se as damas ao duque de Lancaster
					"Mas como fossem grandes e possantes
					No reino os inimigos, no se atrevem
					Nem parentes, nem frvidos amantes,
					A sustentar as damas, como devem.
					Com lgrimas formosas e bastantes
					A fazer que em socorro os Deuses levem
					De todo o Cu, por rostos de alabastro,
					Se vo todas ao duque de Alencastro.


				47 - O duque de Lancaster
					"Era este Ingls potente, e militara 
					Com os Portugueses j contra Castela,
					Onde as foras magnnimas provara
					Dos companheiros, e benigna estrela:
					No menos nesta terra experimentara
					Namorados afeitos, quando nela
					A filha viu, que tinto o peito doma
					Do forte Rei, que por mulher a toma.


				48 - Fala o duque de Lancaster
					"Este, que socorrer-lhe no queria,
					Por no causar discrdias intestinas,
					Lhe diz: - "Quando o direito pretendia
					Do reino l das terras Iberinas,
					Nos Lusitanos vi tanta ousadia,
					Tanto primor, e partes to divinas,
					Que eles ss poderiam, se no erro,
					Sustentar vossa parte a fogo e ferro.


				49
					"E se, agravadas damas, sois servidas,
					Por vs lhe mandarei embaixadores,
					Que, por cartas discretas e polidas,
					De vosso agravo os faam sabedores.
					Tambm por vossa parto encarecidas
					Com palavras de afagos e de amores
					Lhe sejam vossas lgrimas, que eu creio
					Que ali tereis socorro e forte esteio." -


				50
					"Destarte as aconselha o Duque experto,
					E logo lhe nomeia doze fortes;
					E por que cada dama um tenha certo,
					Lhe manda que sobre eles lancem sortes,
					Que elas s doze so; e descoberto
					Qual a qual tem cado das consertes,
					Cada uma escreve ao seu por vrios modos,
					E todas a seu Rei, e o Duque a todos.




				51 - Mensagem do duque a Dom Joo I
					"J chega a Portugal o mensageiro;
					Toda a corte alvoroa a novidade;
					Quisera o Rei sublime ser primeiro, 
					Mas no lhe sofre a Rgia Majestade.
					Qualquer dos cortesos aventureiro
					Deseja ser, com frvida vontade,
					F, s fica por bem-aventurado
					Quem j vem pelo Duque nomeado.


				52 - Preparam-se os doze para partir
					"L na leal Cidade, donde teve
					Origem (como  fama) o nome eterno
					De Portugal, armar madeiro leve
					Manda o que tem o leme do governo.
					Apercebem-se os doze, em tempo breve,
					De armas, e roupas de uso mais moderno,
					De elmos, cimeiras, letras, e primores,
					Cavalos, e concertos de mil cores.


				53 - Magrio
					"J do seu Rei tomado tm licena
					Para partir do Douro celebrado
					Aqueles, que escolhidos por sentena
					Foram do Duque Ingls experimentado.
					No h na companhia diferena
					De cavaleiro destro ou esforado;
					Mas um s, que Magrio se dizia,
					Destarte fala  forte companhia:


				54 - Fala de Magrio aos companheiros
					- "Fortssimos conscios, eu desejo
					H muito j de andar terras estranhas,
					Por ver mais guas que as do Douro o Tejo,
					Vrias gentes, e leis, e vrias manhas.
					Agora, que aparelho certo vejo,
					(Pois que do mundo as coisas so tamanhas)
					Quero, se me deixais, ir s por terra,
					Porque eu serei convosco em Inglaterra.


				55
					- "E quando caso for que eu impedido
					Por quem das cousas  ltima linha,
					No for convosco ao prazo institudo,
					Pouca falta vos faz a falta minha:
					Todos por mim fareis o que  devido;
					Mas, se a verdade o esprito me adivinha,
					Rios, montes, fortuna, ou sua inveja,
					No faro que eu convosco l no seja."


				56
					"Assim diz, e abraados os amigos,
					E tomada licena, enfim se parte:
					Passa Lio, Castela, vendo antigos
					Lugares, que ganhara o ptrio Marte;
					Navarra, com os altssimos perigos
					Do Perineu, que Espanha e Glia parte;
					Vistas enfim de Frana as coisas grandes,
					No grande emprio foi parar de Frandes.


				57
					"Ali chegado, ou fosse caso ou manha,
					Sem passar se deteve muitos dias:
					Mas dos onze a ilustrssima companha
					Cortam do mar do Norte as ondas frias.
					Chegados de Inglaterra  costa estranha,
					Para Londres j fazem todos vias.
					Do Duque so com festa agasalhados,
					E das damas servidos e amimados.


				58
					"Chega-se o prazo e dia assinalado
					De entrar em campo j com os doze Ingleses,
					Que pelo Rei j tinham segurado:
					Armam-se de elmos, grevas e de arneses:
					J as damas tm por si, fulgente e armado,
					O Mavorte feroz dos Portugueses;
					Vestem-se elas de cores e de sedas,
					De ouro e de jias mil, ricas e ledas.


				59
					"Mas aquela, a quem fora em sorte dado
					Magrio, que no vinha, com tristeza
					Se veste, por no ter quem nomeado
					Seja seu cavaleiro nesta empresa;
					Bem que os onze apregoam, que acabado
					Ser o negcio assim na corte Inglesa,
					Que as damas vencedoras se conheam,
					Posto que dois e trs dos seus faleam.


				60 - O torneio
					"J num sublime e pblico teatro
					Se assenta o Rei Ingls com toda a corte:
					Estavam trs e trs, e quatro e quatro,
					Bem como a cada qual coubera em sorte.
					No so vistos do Sol, do Tejo ao Batro,
					De fora, esforo e de nimo mais forte
					Outros doze sair, como os Ingleses,
					No campo, contra os onze Portugueses.


				61
					"Mastigam os cavalos, escumando,
					Os ureos freios com feroz semblante;
					Estava o Sol nas armas rutilando
					Como em cristal ou rgido diamante;
					Mas enxerga-se num e noutro bando
					Partido desigual e dissonante
					Dos onze contra os doze: quando a gente
					Comea a alvoroar-se geralmente.


				62 - Entrada de Magrio
					"Viram todos o rosto aonde havia
					A causa principal do rebolio:
					Eis entra um cavaleiro, que trazia
					Armas, cavalo, ao blico servio.
					Ao Rei e s damas fala, e logo se ia
					Para os onze, que este era o gr Magrio;
					Abraa os companheiros como amigos,
					A quem no falta certo nos perigos.


				63 - Alegria da dama, a quem coubera
em sorte o Magrio

					"A dama, como ouviu que este era aquele
					Que vinha a defender seu nome e fama,
					Se alegra, e veste ali do animal de Hele,
					Que a gente bruta mais que virtude ama.
					J do sinal, e o som da tuba impele
					Os belicosos nimos, que inflama:
					Picam de esporas, largam rdeas logo,
					Abaixam lanas, fere a terra fogo.


				64 - O combate
					"Dos cavalos o estrpito parece
					Que faz que o cho debaixo todo treme;
					O corao no peito, que estremece
					De quem os olha, se alvoroa e teme:
					Qual do cavalo voa, que no desce;
					Qual, com o cavalo em terra dando, geme;
					Qual vermelhas as armas faz de brancas;
					Qual com os penachos do elmo aouta as ancas.


				65
					"Algum dali tomou perptuo sono
					E fez da vida ao fim breve intervalo;
					Correndo algum cavalo vai sem dono
					E noutra parte o dono sem cavalo.
					Cai a soberba Inglesa de seu trono,
					Que dois ou trs j fora vo do vale;
					Os que de espada vm fazer batalha, 
					Mais acham j que arns, escudo e malha.


				66 - Vitria dos portugueses
					"Gastar palavras em contar extremos
					De golpes feros, cruas estocadas,
					 desses gastadores, que sabemos,
					Maus do tempo, com fbulas sonhadas.
					Basta, por fim do caso, que entendemos
					Que com finezas altas e afamadas,
					Com os nossos fica a palma da vitria,
					E as damas vencedoras, e com glria.


				67 - Banquetes e festas aos vencedores
					"Recolhe o Duque os doze vencedores
					Nos seus paos, com festas e alegria;
					Cozinheiros ocupa e caadores
					Das damas a formosa companhia,
					Que querem dar aos seus libertadores
					Banquetes mil cada hora e cada dia,
					Enquanto se detm em Inglaterra,
					At tornar  doce e cara terra.


				68 - Outros feitos do Magrio
					"Mas dizem que, contudo, o gr Magrio,
					Desejoso de ver as coisas grandes,
					L se deixou ficar, onde um servio
					Notvel  condessa fez de Frandes;
					E como quem no era j novio
					Em todo trance, onde tu, Marte, mandes,
					Um Francs mata em campo, que o destino
					L teve de Torcato e de Corvino.


				69 - Fim da narrao dos Doze de Inglaterra
					"Outro tambm dos doze em Alemanha
					Se lana, e teve um fero desafio
					Com um Germano enganoso, que com manha
					No devida o quis pr no extremo fio."
					Contando assim Veloso, j a companha
					Lhe pede que no f aa tal desvio
					Do caso de Magrio, e vencimento,
					Nem deixe o de Alemanha em esquecimento.


				70 - A tempestade
					Mas, neste passo, assim prontos estando
					Eis o mestre, que olhando os ares anda,
					O apito toca; acordam despertando
					Os marinheiros duma e doutra banda;
					E porque o vento vinha refrescando,
					Os traquetes das gveas tomar manda:
					"Alerta, disse, estai, que o vento cresce
					Daquela nuvem negra que aparece."


				71
					No eram os traquetes bem tomados,
					Quando d a grande e sbita procela:
					"Amaina, disse o mestre a grandes brados,
					Amaina, disse, amaina a grande vela!"
					No esperam os ventos indinados
					Que amainassem; mas juntos dando nela,
					Em pedaos a fazem, com um rudo
					Que o mundo pareceu ser destrudo.


				72 - "Alija tudo ao mar!"
					O cu fere com gritos nisto a gente,
					Com sbito temor e desacordo,
					Que, no romper da vela, a nau pendente
					Toma gr suma d'gua pelo bordo:
					"Alija, disse o mestre rijamente,
					Alija tudo ao mar; no falte acordo.
					Vo outros dar  bomba, no cessando;
					A bomba, que nos imos alagando!"


				73
					Correm logo os soldados animosos
					A dar  bomba; e, tanto que chegaram,
					Os balanos que os mares temerosos
					Deram  nau, num bordo os derribaram.
					Trs marinheiros, duros e forosos,
					A menear o leme no bastaram;
					Talhas lhe punham duma e doutra parte,
					Sem aproveitar dos homens fora e arte.


				74 - A fora dos ventos
					Os ventos eram tais, que no puderam
					Mostrar mais fora do mpeto cruel,
					Se para derribar ento vieram
					A fortssima torre de Babel.
					Nos altssimos mares, que cresceram,
					A pequena grandura dum batel
					Mostra a possante nau, que move espanto,
					Vendo que se sustm nas ondas tanto.

				75
					A nau grande, em que vai Paulo da Gama,
					Quebrado leva o masto pelo meio.
					Quase toda alagada: a gente chama
					Aquele que a salvar o mundo veio.
					No menos gritos vos ao ar derrama
					Toda a nau de Coelho, com receio,
					Conquanto teve o mestre tanto tento,
					Que primeiro amainou, que desse o vento.


				76 - A fria das ondas
					Agora sobre as nuvens os subiam
					As ondas de Netuno furibundo;
					Agora a ver parece que desciam
					As ntimas entranhas do Profundo.
					Noto, Austro, Breas, Aquilo queriam
					Arruinar a mquina do mundo:
					A noite negra e feia se alumia
					Com os raios, em que o Plo todo ardia.


				77
					As Alcineas aves triste canto
					Junto da costa brava levantaram,
					Lembrando-se do seu passado pranto,
					Que as furiosas guas lhe causaram.
					Os delfins namorados entretanto
					L nas covas martimas entraram,
					Fugindo  tempestade e ventos duros,
					Que nem no fundo os deixa estar segui-os.


				78 - Coriscos e relmpagos
					Nunca to vivos raios fabricou
					Contra a fera soberba dos Gigantes
					O gr ferreiro srdido, que obrou
					Do enteado as armas radiantes;
					Nem tanto o gr Tonante arremessou
					Relmpagos ao mundo fulminantes,
					No gr dilvio, donde ss viveram
					Os dois que em gente as pedras converteram.


				79
					Quantos montes, ento, que derribaram
					As ondas que batiam denodadas!
					Quantas rvores velhas arrancaram
					Do vento bravo as frias indinadas!
					As forosas razes no cuidaram
					Que nunca para o cu fossem viradas,
					Nem as fundas areias que pudessem
					Tanto os mares que em cima as revolvessem.


				80 - Prece do Gama
					Vendo Vasco da Gama que to perto
					Do fim de seu desejo se perdia;
					Vendo ora o mar at o inferno aberto,
					Ora com nova fria ao cu subia,
					Confuso de temor, da vida incerto,
					Onde nenhum remdio lhe valia,
					Chama aquele remdio santo  forte,
					Que o impossvel pode, desta sorte:


				81
					"Divina Guarda, anglica, celeste,
					Que os cus, o mar e terra senhoreias;
					Tu, que a todo Israel refgio deste
					Por metade das guas Eritreias;
					Tu, que livraste Paulo e o defendeste
					Das Sirtes arenosas e ondas feias,
					E guardaste com os filhos o segundo
					Povoador do alagado e vcuo mundo;


				82
					"Se tenho novos modos perigosos
					Doutra Cila e Carbdis j passados,
					Outras Sirtes e baixos arenosos,
					Outros Acrocerunios infamados,
					No fim de tantos casos trabalhosos,
					Por que somos de ti desamparados,
					Se este nosso trabalho no te ofende,
					Mas antes teu servio s pretende?


				83
					" ditosos aqueles que puderam
					Entre as agudas lanas Africanas
					Morrer, enquanto fortes sostiveram
					A santa F nas terras Mauritanas!
					De quem feitos ilustres se souberam,
					De quem ficam memrias soberanas,
					De quem se ganha a vida com perd-la,
					Doce fazendo a morte as honras dela!"


				84
					Assim dizendo, os ventos que lutavam
					Como touros indmitos bramando,
					Mais e mais a tormenta acrescentavam
					Pela mida enxrcia assoviando.
					Relmpados medonhos no cessavam,
					Feros troves, que vm representando
					Cair o cu dos eixos sobre a terra,
					Consigo os elementos terem guerra.


				85 - Vnus abranda o furor dos ventos
					Mas j a amorosa estrela cintilava 
					Diante do Sol claro, no Horizonte, 
					Mensageira do dia, e visitava
					A terra e o largo mar, com leda fronte.
					A densa que nos cus a governava,
					De quem foge o ensfero Orionte,
					Tanto que o mar e a cara armada vira,
					Tocada junto foi de medo e de ira.


				86
					"Estas obras de Baco so, por certo,
					Disse; mas no ser que avante leve
					To danada teno, que descoberto
					Me ser sempre o mil a que se atreve."
					Isto dizendo, desce ao mar aberto,
					No caminho gastando espao breve,
					Enquanto manda as Ninfas amorosas
					Grinaldas nas cabeas pr de rosas.



				87 - Os ventos e as Ninfas
					Grinaldas manda pr de vrias cores
					Sobre cabelo; louros  porfia.
					Quem no dir que nascem roxas flores
					Sobre ouro natural, que Amor enfia?
					Abrandar determina, por amores,
					Dos ventos a nojosa companhia,
					Mostrando-lhe as amadas Ninfas belas,
					Que mais formosas vinham que as estrelas.


				88
					Assim foi; porque, tanto que chegaram
					A vista delas, logo lhe falecem
					As foras com que dantes pelejaram,
					E j como rendidos lhe obedecem.
					Os ps e mos parece que lhe ataram
					Os cabelos que os raios escurecem.
					A Breas, que do peito mais queria,
					Assim disse a belssima Oritia:


				89
					"No creias, fero Breas, que te creio
					Que me tiveste nunca amor constante,
					Que brandura  de amor mais certo arreio,
					E no convm furor a firme amante.
					Se j no pes a tanta insnia freio,
					No esperes de mi, daqui em diante,
					Que possa mais amar-te, mas temer-te;
					Que amor contigo em medo se converte."


				90
					Assim mesmo a formosa Galateia 
					Dizia ao fero Noto, que bem sabe 
					Que dias h que em v-la se recreia, 
					E bem cr que com ele tudo acabe. 
					No sabe o bravo tanto bem se o creia, 
					Que o corao no peito lhe no cabe,
					De contente de ver que a dama o manda,
					Pouco cuida que faz, se logo abranda.


				91
					Desta maneira as outras amansavam
					Subitamente os outros amadores;
					E logo  linda Vnus se entregavam,
					Amansadas as iras e os furores.
					Ela lhe prometeu, vendo que amavam,
					Sempiterno favor em seus amores,
					Nas belas mos tomando-lhe homenagem
					De lhe serem leais esta viagem.


				92 - Terra de Calecu!
					J a manh clara dava nos outeiros
					Por onde o Ganges murmurando soa,
					Quando da celsa gvea os marinheiros
					Enxergaram terra alta pela proa.
					J fora de tormenta, e dos primeiros
					Mares, o temor vo do peito voa.
					Disse alegre o piloto Melindano:
					"Terra  de Calecu, se no me engano.


				93 - D o Gama graas a Deus
					"Esta  por certo a terra que buscais
					Da verdadeira ndia, que aparece;
					E se do mundo mais no desejais,
					Vosso trabalho longo aqui fenece."
					Sofrer aqui no pode o Gama mais,
					De ledo em ver que a terra se conhece:
					Os geolhos no cho, as mos ao cu,
					A merc grande a Deus agradeceu.


				94
					As graas a Deus dava, e razo tinha,
					Que no somente a terra lhe mostrava,
					Que com tanto temor buscando vinha,
					Por quem tanto trabalho experimentava;
					Mas via-se livrado to asinha
					Da morte, que no mar lhe aparelhava
					O vento duro, fervido e medonho,
					Como quem despertou de horrendo sonho.


				95 - Como se alcana a verdadeira glria
					Por meio destes hrridos perigos,
					Destes trabalhos graves e temores,
					Alcanam os que so de fama amigos
					As honras imortais e graus maiores:
					No encostados sempre nos antigos
					Troncos nobres de seus antecessores;
					No nos leitos dourados, entre os finos
					Animais de Moscvia zebelinos;


				96
					No com os manjares novos e esquisitos,
					No com os passeios moles e ociosos,
					No com os vrios deleites e infinitos,
					Que afeminam os peitos generosos,
					No com os nunca vencidos apetitos
					Que a Fortuna tem sempre to mimosos,
					Que no sofre a nenhum que o passo mude
					Para alguma obra herica de virtude;


				97
					Mas com buscar com o seu foroso brao
					As honras, que ele chame prprias suas;
					Vigiando, e vestindo o forjado ao,
					Sofrendo tempestades e ondas cruas;
					Vencendo os torpes frios no regao
					Do Sul e regies de abrigo nuas;
					Engolindo o corrupto mantimento,
					Temperado com um rduo sofrimento;



				98
					E com forar o rosto, que se enfia,
					A parecer seguro, ledo, inteiro,
					Para o pelouro ardente, que assovia
					E leva a perna ou brao ao companheiro.
					Destarte, o peito um calo honroso cria,
					Desprezador das honras e dinheiro,
					Das honras e dinheiro, que a ventura
					Forjou, e no virtude justa e dura.


				99
					Destarte se esclarece o entendimento,
					Que experincias fazem repousado,
					E fica vendo, corno de alto assento,
					O baixo trato humano embaraado.
					Este, onde tiver fora o regimento
					Direito, e no de afeitos ocupado,
					Subir (como deve) a ilustre mando,
					Contra vontade sua, e no rogando.


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Cames
Os Lusadas
(Canto Stimo)

<Picture>





				1 - Chegada da frota  ndia
					J se viam chegados junto  terra,
					Que desejada j de tantos fora,
					Que entre as correntes Indicas se encerra,
					E o Ganges, que no cu terreno mora.
					Ora, sus, gente forte, que na guerra
					Quereis levar a palma vencedora,
					J sois chegados, j tendes diante
					A terra de riquezas abundante.


				2 - Elogio a Portugal
					A vs,  gerao de Luso, digo,
					Que to pequena parte sois no inundo;
					No digo ainda no mundo, mas no amigo
					Curral de quem governa o cu rotundo;
					Vs, a quem no somente algum perigo
					Estorva conquistar o povo imundo,
					Mas nem cobia, ou pouca obedincia
					Da Madre, que nos cus est em essncia;


				3
					Vs, Portugueses, poucos quanto fortes,
					Que o fraco poder vosso no pesais;
					Vs, que  custa de vossas vrias mortes
					A lei da vida eterna dilatais:
					Assim do cu deitadas so as sortes,
					Que vs, por muito poucos que sejais,
					Muito faais na santa Cristandade:
					Que tanto,  Cristo, exaltas a humildade!


				4 - Alemanha
					Vede-los Alemes, soberbo gado,
					Que por to largos campos se apascenta,
					Do sucessor de Pedro, rebelado,
					Novo pastor, e nova seita inventa:
					Vede-lo em feias guerras ocupado,
					Que ainda com o cego error se no contenta,
					No contra o soberbssimo Otomano,
					Mas por sair do jugo soberano.


				5 - Inglaterra
					Vede-lo duro Ingls, que se nomeia
					Rei da velha e santssima cidade,
					Que o torpe Ismaelita senhoreia,
					(Quem viu honra to longe da verdade?)
					Entre as Boreais neves se recreia,
					Nova maneira faz de Cristandade:
					Para os de Cristo tem a espada nua,
					No por tomar a terra que era sua.


				6 - Frana
					Guarda-lhe por entanto um falso Rei
					A cidade Hieroslima terrestre,
					Enquanto ele no guarda a santa lei
					Da cidade Hieroslima celeste.
					Pois de ti, Galo indigno, que direi?
					Que o nome Cristianssimo quiseste,
					No para defend-lo, nem guard-lo,
					Mas para ser contra ele, e derrub-lo!



				7
					Achas que tens direito em senhorios
					De Cristos, sendo o teu to largo e tanto,
					E no contra o Cinfio e Nilo, rios
					Inimigos do antigo nome santo?
					Ali se ho de provar da espada os fios 
					Em quem quer reprovar da Igreja o canto.  
					De Carlos, de Lus, o nome e a terra 
					Herdaste, e as causas no da justa guerra?


				8 - Itlia
					Pois que direi daqueles que em delcias,
					Que o vil cio no mundo traz consigo,
					Gastam as vidas, logram as divcias,
					Esquecidos de seu valor antigo?
					Nascem da tirania inimiccias,
					Que o povo forte tem de si inimigo:
					Contigo, Itlia, falo, j submersa
					Em Vcios mil, e de ti mesma adversa.


				9 - Apelo s naes crists
					 mseros Cristos, pela ventura,
					Sois os dentes de Cadmo desparzidos,
					Que uns aos outros se do a morte dura,
					Sendo todos de um ventre produzidos?
					No vedes a divina sepultura
					Possuda de ces, que sempre unidos
					Vos vm tomar a vossa antiga terra,
					Fazendo-se famosos pela guerra?



				10
					Vedes que tm por uso e por decreto,
					Do qual so to inteiros observantes,
					Ajuntarem o exrcito inquieto
					Contra os povos que so de Cristo amantes;
					Entre vs nunca deixa a fera Aleto
					De semear ciznias repugnantes:
					Olhai se estais seguros de perigos,
					Que eles e vs sois vossos inimigos.


				11
					Se cobia de grandes senhorios
					Vos faz ir conquistar terras alheias,
					No vedes que Pactolo e Hermo, rios,
					Ambos volvem aurferas areias?
					Em Ldia, Assria, lavram de ouro os fios;
					frica esconde em si luzentes veias;
					Mova-vos j sequer riqueza tanta,
					Pois mover-vos no pode a Casa Santa.


				12
					Aquelas invenes feras e novas
					De instrumentos mortais da artilharia,
					J devem de fazer as duras provas
					Nos muros de Bizncio e de Turquia.
					Fazei que torne l s silvestres covas
					Dos Cspios montes, e da Ctia fria
					A Turca gerao, que multiplica
					.Na polcia da vossa Europa rica.


				13
					Gregos, Traces, Armnios, Georgianos,
					Bradando-vos esto que o povo bruto
					Lhe obriga os caros filhos aos profanos
					Preceptos do Alcoro (duro tributo!)
					Em castigar os feitos inumanos
					Vos gloriai de peito forte e astuto,
					E no queirais louvores arrogantes
					De serdes contra os vossos muito possantes.


				14
					Mas entanto que cegos o sedentos
					Andais de vosso sangue,  gente insana!
					No faltaro Cristos atrevimentos
					Nesta pequena casa Lusitana:
					De frica tem martimos assentos, 
					 na sia mais que todas soberana, 
					Na quarta parte nova os campos ara, 
					E se mais mundo houvera, l chegara.


				15 - Entra a frota em Calecu
					E vejamos entanto que acontece
					Aqueles to famosos navegantes,
					Depois que a branda Vnus enfraquece
					O furor vo dos ventos repugnantes:
					Depois que a larga terra lhe aparece,
					Fim de suas porfias to constantes,
					Onde vm semear de Cristo a, lei,
					E dar novo costume e novo Rei.


				16
					Tanto que  nova terra se chegaram,
					Leves embarcaes de pescadores
					Acharam, que o caminho lhe mostraram
					De Calecu, onde eram moradores.
					Para l logo as proas se inclinaram,
					Porque esta era a cidade das melhores
					Do Malabar melhor, onde vivia
					O Rei que a terra toda possua.


				17 - Descrio da ndia
					Alm do Indo jaz, e aqum do Gange,
					Um terreno muito grande e assaz famoso,
					Que pela parte Austral o mar abrange,
					E para o Norte o Emdio cavernoso.
					Jugo de Reis diversos o constrange
					A vrias leis: alguns o vicioso
					Mahoma, alguns os dolos adoram,
					Alguns os animais, que entre eles morri.


				18 - O Indo e o Ganges
					L bem no grande monte, que cortando
					To larga terra, toda sia discorre,
					Que nomes to diversos vai tomando,
					Segundo as regies por onde corre,
					As fontes saem, donde vm manando
					Os rios, cuja gr corrente morre
					No mar ndico, e cercam todo o peso
					Do terreno, fazendo-o Quersoneso.


				19 - O Dec
					Entro um e outro rio, em grande espao,
					Sai da larga terra uma loira ponta
					Quase piramidal, que no regao
					Do mar com Ceilo nsula confronta;
					E junto donde nasce o largo brao
					Gangtico, o rumor antigo conta
					Que os vizinhos, da terra moradores,
					Do cheiro se mantm das finas flores.


				20 - Delis. Patanes. Decanis. Oris.
					Mas agora de nomes e de usana 
					Novos e vrios so os habitantes: 
					Os Delis, os Patanes, que em possana 
					De terra e gente, so mais abundantes; 
					Decanis, Oris, que a esperana 
					Tm de sua salvao nas ressonantes 
					guas do Gange, e a terra de Bengala 
					Frtil de sorte que outra no lhe iguala.


				21 - Cambaia. Narsinga.
					O Reino de Cambaia belicoso
					(Dizem que foi de Poro, Rei potente)
					O Reino de Narsinga, poderoso
					Mais de ouro e pedras que de forte gente.
					Aqui se enxerga l do mar undoso
					Um monte alto, que corre longamente,
					Servindo ao Malabar de forte muro,
					Com que do Canar vive seguro.


				22 - Calecu
					Da terra os naturais lhe chamam Gate,
					Do p do qual pequena quantidade
					Se estende uma fralda estreita, que combate
					Do mar a natural ferocidade.
					Aqui de outras cidades, sem debate,
					Calecu tem a ilustre dignidade
					De cabea de Imprio rica e bela:
					Samorim se intitula o senhor dela.


				23 - Comunica o Gama ao rei de Calecu sua chegada
					Chegada a frota ao rico senhorio,
					Um Portugus mandado logo parte
					A fazer sabedor o Rei gentio
					Da vinda sua a to remota parte.
					Entrando o mensageiro pelo rio,
					Que ali nas ondas entra, a no vista arte,
					A cor, o gesto estranho, o trajo novo
					Fez concorrer a v-lo todo o povo.


				24 - Monaide
					Entre a gente que a v-lo concorria,
					Se chega um Mahometa, que nascido
					Fora na regio da Berberia,
					L onde fora Anteu obedecido:
					Ou pela vizinhana j teria
					O Reino Lusitano conhecido,
					Ou foi j assinalado de seu ferro:
					Fortuna o trouxe a to loiro desterro.


				25
					Em vendo o mensageiro, com jocundo
					Rosto, como quem sabe a lngua Hispana,
					Lhe disse: "Quem te trouxe a estoutro mundo,
					To longe da tua ptria Lusitana?"
					- "Abrindo, lhe responde, o mar profundo,
					Por onde nunca veio gente humana,
					Vimos buscar do Indo a gro corrente,
					Por onde a Lei divina se acrescente."


				26
					Espantado ficou da gr viagem
					O Mouro, que Monaide se chamava,
					Ouvindo as opresses que na passagem
					Do mar, o Lusitano lhe contava:
					Mas vendo enfim que a f ora da mensagem
					S para o Rei da terra relevava,
					Lhe diz que estava f ora da cidade,
					Mas de caminho pouca quantidade.



				27 - Oferece Monaide hospedagem
ao mensageiro do Gama

					E que, entanto que a nova lhe chegasse
					De sua estranha vinda, se queria,
					Na sua pobre casa repousasse,
					E do manjar da terra comeria,
					E depois que se um pouco recreasse,
					Com ele para a armada tornaria,
					Que alegria no pode ser tamanha,
					Que achar gente vizinha em terra estranha.


				28 - Visita de Monaide ao Gama
					O Portugus aceita de vontade
					O que o ledo Monaide lhe oferece;
					Como se longa fora j a amizade,
					Com ele come, e bebe, e lhe obedece.
					Ambos se tornam logo da cidade
					Para a frota, que o Mouro bem conhece;
					Sobem  capitania; e toda a gente
					Monaide recebeu benignamente.


				29 - Informaes
					O Capito o abraa em cabo ledo,
					Ouvindo clara a lngua de Castela;
					Junto de si o assenta, e pronto e quedo,
					Pela terra pergunta, e cousas dela.
					Qual se ajuntava em Rdope o arvoredo,
					S por ouvir o amante da donzela
					Eurdice, tocando a lira de ouro,
					Tal a gente se ajunta a ouvir o Mouro.


				30 - Fala de Monaide
					Ele comea: " gente, que a natura
					Vizinha fez de meu paterno ninho,
					Que destino to grande ou que ventura
					Vos trouxe a cometerdes tal caminho?
					No  sem causa, no, oculta e escura,
					Vir do longnquo Tejo e ignoto Minho,
					Por mares nunca doutro lenho arados,
					A Reinos to remotos e apartados.


				31 - Descrio da ndia
					"Deus por certo vos traz, porque pretende
					Algum servio seu por vs obrado;
					Por isso s vos guia, e vos defende
					Dos inimigos, do mar, do vento irado.
					Sabei que estais na ndia, onde se estende
					Diverso povo, rico e prosperado
					De ouro luzente e fina pedraria,
					Cheiro suave, ardente especiaria.


				32 - Malabar. Saram Perimal.
					"Esta provncia, cujo porto agora
					Tomado tendes, Malabar se chama:
					Do culto antigo os dolos adora,
					Que c por estas partes se derrama:
					De diversos Reis , mas dum s
					Noutro tempo, segundo a antiga fama;
					Saram Perimal foi derradeiro
					Rei, que este Reino teve unido e inteiro.


				33 - Converso do Perimal ao Maometismo
					"Porm, como a esta terra ento viessem
					De l do seio Arbico outras gentes,
					Que o culto Mahomtico trouxessem,
					No qual me instituram meus parentes,
					Sucedeu que pregando convertessem
					O Perimal: de sbios e eloqentes,
					Fazem-lhe a lei tomar com fervor tanto,
					Que pressups de nela morrer santo.


				34
					"Naus arma, e nelas mete curioso
					Mercadoria, que oferea rica,
					Para ir nelas a ser religioso,
					Onde o profeta jaz, que a Lei publica;
					Antes que parta, o Reino poderoso
					Com os seus reparte, porque no lhe fica
					Herdeiro prprio, faz os mais aceitos
					Ricos de pobres, livres de sujeitos.


				35 - Perimal reparte o Malabar por seus parentes
					"A um Cochim, e a outro Cananor,
					A qual Chal, a qual a ilha da Pimenta,
					A qual Coulo, a qual d Cranganor,
					E os mais, a quem o mais serve e contenta,
					Um s moo, a quem tinha muito amor,
					Depois que tudo deu, se lhe apresenta:
					Para este Calecu somente fica,
					Cidade j por trato nobre e rica.


				36
					"Esta lhe d com o ttulo excelente
					De Imperador, que sobre os outros mande.
					Isto feito, se parte diligente
					Para onde em santa vida acabe, e ande.
					E daqui fica o nome de potente
					Samori, mais que todos digno e grande,
					Ao moo e descendentes; donde vem
					Este, que agora o Imprio manda e tem.


				37 - Costumes. Naires e Polas.
					"A Lei da gente toda, rica e pobre,           
					De fbulas composta se imagina:
					Andam nus, e somente um pano cobre
					As partes, que a cobrir natura ensina.
					Dois modos h de gente, porque a nobre
					Naires chamados so, e a menos digna
					Poles tem por nome, a quem obriga
					A Lei no misturar a casta antiga.


				38
					"Porque os que usaram sempre um mesmo ofcio,
					De outro no podem receber consorte,
					Nem os filhos tero outro exerccio,
					Seno o de seus passados, at morte.
					Para os Naires  certo grande vcio
					Destes serem tocados; de tal sorte,
					Que quando algum se toca, por ventura,
					Com cerimnias mil se alimpa e apura.


				39
					"Desta sorte o Judaico povo antigo
					No tocava na gente de Samria.
					Mais estranhezas ainda das que digo
					Nesta terra vereis de usana vria.
					Os Naires ss so dados ao perigo
					Das armas; ss defendem da contrria
					Banda o seu Rei, trazendo sempre usada
					Na esquerda a adarga e na direita a espada.


				40 - Brmenes
					"Brmenes so os seus religiosos,
					Nome antigo e de grande proeminncia:
					Observam os preceitos to famosos
					Dum que primeiro ps nome  cincia:
					No matam coisa viva, e, temerosos,
					Das carnes tm grandssima abstinncia;
					Somente no venreo ajuntamento
					Tm mais licena e menos regimento.


				41
					"Gerais so as mulheres, mas somente
					Para os da gerao de seus maridos:
					Ditosa condio, ditosa gente,
					Que no so de cimes ofendidos! 
					Estes e outros costumes variamente
					So pelos Malabares admitidos.
					A terra  grossa em trato, em tudo aquilo
					Que as ondas podem dar da China ao Nilo."


				42 - Desembarque do Gama
					Assim contava o Mouro; mas vagando
					Andava a fama j pela cidade
					Da vinda desta gente estranha, quando
					O Rei saber mandava da verdade.
					J vinham pelas ruas caminhando,
					Rodeados de todo sexo e idade,
					Os principais, que o Rei buscar mandara
					O Capito da armada, que chegara.


				43
					Mas ele, que do Rei j tem licena
					Para desembarcar, acompanhado
					Dos nobres Portugueses, sem detena
					Parte, de ricos panos adornado.
					Das cores a formosa diferena
					A vista alegra ao povo alvoroado.
					O remo compassado fere frio
					Agora o mar, depois o fresco rio.



				44
					Na praia um regedor do Reino estava,
					Que na sua lngua Catual se chama,
					Rodeado de Naires, que esperava
					Com desusada festa o nobre Gama.
					J na terra, nos braos o levava,
					E num porttil leito uma rica cama
					Lhe oferece, em que v, costume usado,
					Que nos ombros dos homens  levado.


				45
					Desta arte o Malabar, destarte o Luso
					Caminham, l para onde o Rei o espera:
					Os outros Portugueses vo ao uso
					Que infantaria segue, esquadra fera.
					O povo que concorre vai confuso
					De ver a gente estranha, e bem quisera
					Perguntar: mas no tempo j passado
					Na torre de Babel lhe foi vedado. 


				46 - Templo indiano
					O Gama e o Catual iam falando 
					Nas coisas, que lhe o tempo oferecia; 
					Monaide entre eles vai interpretando 
					As palavras que de ambos entendia.  
					Assim pela cidade caminhando,
					Onde uma rica fbrica se erguia
					De um sumptuoso templo, j chegavam, 
					Pelas portas do qual juntos entravam.


				47
					Ali esto das deidades as figuras
					Esculpidas em pau e em pedra fria;
					Vrios de gestos, vrios de pinturas,
					A segundo o Demnio lhe fingia:
					Vem-se as abominveis esculturas,
					Qual a Quimera em membros se varia:
					Os Cristos olhos, a ver Deus usados
					Em forma humana, esto maravilhados.


				48 - No templo indiano
					Um na cabea cornos esculpidos,
					Qual Jpiter Amon em Lbia estava;
					Outro num corpo rostos tinha unidos,
					Bem como o antigo Jano se pintava;
					Outro com muitos braos divididos
					A Briareu parece que imitava;
					Outro fronte canina tem de fora,
					Qual Anbis Menftico se adora.


				49 - Dirige-se o Gama para o palcio real
					Aqui feita do brbaro gentio
					A supersticiosa adorao,
					Direitos vo, sem outro algum desvio,
					Para onde estava o Rei do povo vo.
					Engrossando-se vai da gente o fio,
					Com os que vm ver o estranho Capito;
					Esto pelos telhados e janelas
					Velhos e moos, donas e donzelas.


				50
					J chegam perto, e no com passos lentos,
					Dos jardins odorferos formosos,
					Que em si escondem os rgios aposentos,
					Altos de torres no, mas sumptuosos.
					Edificam-se os nobres seus assentos
					Por entre os arvoredos deleitosos:
					Assim vivem os Reis daquela gente,
					No campo e na cidade juntamente.



				51 - No palcio do Samorim
					Pelos portais da cerca a sutileza
					Se enxerga da Dedlea facultade,
					Em figuras mostrando, por nobreza,
					Da ndia a mais remota antigidade.
					Afiguradas vo com tal viveza
					As histrias daquela antiga idade,
					Que quem delas tiver notcia inteira,
					Pela sombra conhece a verdadeira.


				52 - Baco
					Estava um grande exrcito que pisa
					A terra Oriental, que o Idaspe lava;
					Rege-o um capito de fronte lisa,
					Que com frondentes tirsos pelejava;
					Por ele edificada estiva Nisa
					Nas ribeiras do rio, que manava,
					To prprio, que se ali estiver Semele,
					Dir, por certo, que  seu filho aquele.


				53 - Semramis
					Mais avante bebendo seca o rio
					Mui grande multido da Assria gente,
					Sujeita a feminino senhorio
					De uma to bela como incontinente.
					Ali tem junto ao lado nunca frio,
					Esculpido o feroz ginete ardente,
					Com quem teria o filho competncia:
					Amor nefando, bruta incontinncia!


				54 - Alexandre
					Daqui mais apartadas tremulavam
					As bandeiras de Grcia gloriosas,
					Terceira Monarquia, e sojugavam
					At as guas Gangticas undosas.
					Dum capito mancebo se guiavam,
					De palmas rodeado valerosas,
					Que j, no de Filipo, mas sem falta
					De prognie de Jpiter se exalta.


				55 - Fala do Catual. Profecia 
da vinda dos portugueses  ndia

					Os Portugueses vendo estas memrias,
					Dizia o Catual ao Capito:
					"Tempo cedo vir que outras vitrias
					Estas, que agora olhais, abatero;
					Aqui se escrevero novas histrias
					Por gentes estrangeiras que viro;
					Que os nossos sbios magos o alcanaram
					Quando o tempo futuro especularam.


				56
					"E diz-lhe mais a mgica cincia
					Que, para se evitar fora tamanha,
					No valer dos homens resistncia,
					Que contra o Cu no val da gente manha;
					Mas tambm diz que a blica excelncia,
					Nas armas e na paz, da gente estranha
					Ser tal, que ser no mundo ouvido
					O vencedor, por glria do vencido,"


				57 - O Samorim
					Assim falando entravam j na sala,
					Onde aquele potente Imperador
					Numa camilha jaz, que no se iguala
					De outra alguma no preo e no lavor.
					No recostado gesto se assinala
					Um venerando e prspero senhor;
					Um pano de ouro cinge, e na cabea
					De preciosas gemas se aderea.


				58
					Bem junto dele um velho reverente,
					Com os giolhos no cho, de quando em quando
					Lhe dava a verde folha da erva ardente,
					Que a seu costume estava ruminando.
					Um Brmene, pessoa proeminente,
					Para o Gama vem com passo brando,
					Para que ao grande Prncipe o apresente,
					Que diante lhe acena que se assente.


				59 - Fala do Gama ao Samorim
					Sentado o Gama junto ao rico leito,
					Os seus mais afastados, pronto em vista
					Estava o Samori no trajo e jeito
					Da gente, nunca de antes dele vista.
					Lanando a grave voz do sbio peito,
					Que grande autoridade logo aquista
					Na opinio do Rei e do povo todo,
					O Capito lhe fala deste modo:


				60
					"Um grande Rei, de l das partes Onde
					O cu volvel, com perptua roda,
					Da terra a luz solar com a terra esconde,
					Tingindo a que deixou de escura noda,
					Ouvindo do rumor que l responde
					O eco, como em ti da ndia toda
					O principado est, e a majestade,
					Vnculo quer contigo de amizade.


				61
					"E por longos rodeios a ti manda,
					Por te fazer saber que tudo aquilo
					Que sobre o mar, que sobre as terras anda
					De riquezas, de l do Tejo ao Nilo,
					E desde a fria plaga de Gelanda
					At bem donde o Sol no muda o estilo
					Nos dias, sobre a gente de Etipia,
					Tudo tem no seu Reino em grande cpia.


				62 - Proposta de aliana
					"E se queres com pactos e alianas
					De paz e de amizade sacra e nua
					Comrcio consentir das abastanas
					Das fazendas da terra sua e tua,
					Por que cresam as rendas e abastanas,
					Por quem a gente mais trabalha e sua,
					De vossos Reinos, ser certamente
					De ti proveito, o dele glria ingente.


				63
					"E sendo assim, que o n desta amizade
					Entre vs firmemente permanea,
					Estar pronto a toda adversidade,
					Que por guerra a teu Reino se oferea,
					Com gente, armas e naus, de qualidade
					Que por irmo te tenha e te conhea;
					E da vontade em ti sobre isto posta
					Me ds a mim certssima resposta."


				64
					Tal embaixada dava o Capito,
					A quem o Rei gentio respondia
					Que, em ver embaixadores de nao
					To remota, gr glria recebia;
					Mas neste caso a ltima teno
					Com os de seu conselho tomaria,
					Informando-se certo de quem era
					O Rei, e a gente, e terra que dissera..


				65 - Retira-se o Gama para os aposentos que
lhe haviam sido destinadps pelo Samorim

					E que entanto podia do trabalho
					Passado ir repousar, e em tempo breve
					Daria a seu despacho um justo talho,
					Com que a seu Rei resposta alegre leve.
					J nisto punha a noite o usado atalho
					As humanas canseiras, por que ceve
					De doce sono os membros trabalhados,
					Os olhos ocupando ao cio dados.


				66 - O Catual manda chamar Monaide, 
para inform-lo acerca dos portugueses

					Agasalhados foram juntamente
					O Gama e Portugueses no aposento
					Do nobre Regedor da ndica gente,
					Com festas e geral contentamento.
					O Catual, no cargo diligente
					De seu Rei, tinha j por regimento
					Saber da gente estranha donde vinha,
					Que costumes, que lei, que terra tinha.


				67
					Tanto que os gneos carros do formoso
					Mancebo Dlio viu, que a luz renova,
					Manda chamar Monaide, desejoso
					De poder-se informar da gente nova.
					J lhe pergunta pronto e curioso,
					Se tem notcia inteira e certa prova
					Dos estranhos, quem so; que ouvido tinha
					Que  gente de sua ptria muito vizinha;



				68 - Informaes de Monaide
					Que particularmente ali lhe desse
					Informao mui larga, pois faria
					Nisso servio ao Rei, por que soubesse
					O que neste negcio se faria.
					Monaide torna: - "Posto que eu quisesse
					Dizer-te disto mais, no saberia;
					Somente sei que  gente l de Espanha,
					Onde o meu ninho e o Sol no mar se banha.


				69
					"Tm a lei dum Profeta, que gerado
					Foi sem fazer na carne detrimento
					Da me, tal que por bafo est aprovado
					Do Deus, que tem do mundo o regimento,
					O que entre meus antigos  vulgado
					Deles,  que o valor sanguinolento
					Das armas no seu brao resplandece,
					O que em nossos passados se parece.


				70
					"Porque eles, com virtude sobre-humana,
					Os deitaram dos campos abundosos
					Do rico Tejo e fresco Goadiana,
					Com feitos memorveis e famosos:
					E no contentes ainda, e na Africana
					Parte, cortando os mares procelosos,
					Nos no querem deixar viver seguros,
					Tomando-nos cidades e altos muros.


				71
					"No menos tm mostrado esforo e manha
					Em quaisquer outras guerras que aconteas,
					Ou das gentes belgeras de Espanha,
					Ou l dalguns que do Prene desam.
					Assim que nunca enfim com lana estranha
					Se tem, que por vencidos se conheam,
					Nem se sabe ainda, no, te afirmo e asselo,
					Para estes Anibais nenhum Marcelo.


				72
					"E se esta informao no for inteira
					Tanto quanto convm, deles pretende
					Informar-te, que  gente verdadeira,
					A quem mais falsidade enoja e ofende:
					Vai ver-lhe a f rota, as armas e a maneira
					Do fundido metal, que tudo rende,
					E folgars de veres a polcia
					Portuguesa na paz e na milcia."


				73
					J com desejos o Idolatra ardia
					De ver isto, que o Mouro lhe contava.
					Manda esquipar batis que ir ver queria
					Os lenhos em que o Gama navegava.
					Ambos partem da praia, a quem seguia
					A Naira gerao, que o mar coalhava.
					A capitania sobem forte e bela,
					Onde Paulo os recebe a bordo dela.


				74
					Purpreos so os toldos, e as bandeiras
					Do rico fio so que o bicho gera;
					Nelas esto pintadas as guerreiras
					Obras, que o forte brao j fizera:
					Batalhas tem campais, aventureiras,
					Desafios cruis, pintura fera,
					Que, tanto que ao Gentio se apresenta,
					A tento nela os olhos apascenta.


				75 - Visita o Catual a frota
					Pelo que v pergunta; mas o Gama
					Lhe pedia primeiro que se assente,
					E que aquele deleite, que tanto ama
					A seita Epicureia, experimente.
					Dos espumantes vasos se derrama
					O licor que No mostrara  gente:
					Mas comer o Gentio no pretende,
					Que a seita que seguia lho defende.


				76
					A trombeta que, em paz, no pensamento
					Imagem faz de guerra, rompe os ares;
					Com o fogo o diablico instrumento
					Se faz ouvir no fundo l dos mares.
					Tudo o Gentio nota; mas o intento
					Mostrava sempre ter nos singulares
					Feitos dos homens, que em retrato breve
					A muda poesia ali descreve


				77 - Luso
					Ala-se em p, com ele o Gama junto,
					Coelho de outra parti, e o Mauritano;
					Os olhos pe no blico transunto
					De um velho branco, aspecto venerando
					Cujo nome no pode ser defunto
					Enquanto houver no mundo trato humano:
					No trajo a Grega usana est perfeita,
					Um ramo por insgnia na direita.



				78 - Invocao s ninfas do Tejo e do Mondego
					Um ramo na mo tinha... Mas,  cego!
					Eu, que cometo insano e temerrio,
					Sem vs, Ninfas do Tejo e do Mondego,
					Por caminho to rduo, longo e vrio!
					Vosso favor invoco, que navego
					Por alto mar, com vento to contrrio,
					Que, se no me ajudais, hei grande medo
					Que o meu fraco batel se alague cedo.


				79 - Queixas do poeta. Perigos da guerra.
					Olhai que h tanto tempo que, cantando
					O vosso Tejo e os vossos Lusitanos,
					A fortuna mo traz peregrinando,
					Novos trabalhos vendo, e novos danos:
					Agora o mar, agora experimentando
					Os perigos Mavrcios inumanos,
					Qual Canace, que  morte se condena,
					Numa mo sempre a espada, e noutra a pena.


				80 - Pobreza. Desiluses. Naufrgios.
					Agora, com pobreza avorrecida,
					Por hospcios alheios degradado;
					Agora, da esperana j adquirida,
					De novo, mais que nunca, derribado;
					Agora s costas escapando a vida,
					Que dum fio pendia to delgado
					Que no menos milagre foi salvar-se
					Que para o Rei Judaico acrescentar-se.


				81 - Injustias
					E ainda, Ninfas minhas, no bastava
					Que tamanhas misrias me cercassem,
					Seno que aqueles, que eu cantando andava
					Tal prmio de meus versos me tornassem:
					A troco dos descansos que esperava,
					Das capelas de louro que me honrassem,
					Trabalhos nunca usados me inventaram,
					Com que em to duro estado me deitaram.


				82
					Vede, Ninfas, que engenhos de senhores
					O vosso Tejo cria valorosos,
					Que assim sabem prezar com tais favores
					A quem os faz, cantando, gloriosos!
					Que exemplos a futuros escritores,
					Para espertar engenhos curiosos,
					Para porem as coisas em memria,
					Que merecerem ter eterna glria!


				83 - Louvor somente a quem merece
					Pois logo em tantos males  forado,
					Que s vosso favor me no falea,
					Principalmente aqui, que sou chegado
					Onde feitos diversos engrandea:
					Dai-mo vs ss, que eu tenho j jurado
					Que no o empregue em quem o no merea,
					Nem por lisonja louve algum subido,
					Sob pena de no ser agradecido.



				84
					Nem creiais, Ninfas, no, que a fama desse 
					A quem ao bem comum e do seu Rei 
					Antepuser seu prprio interesse, 
					Inimigo da divina e humana Lei.
					Nenhum ambicioso, que quisesse
					Subir a grandes cargos, cantarei,
					S por poder com torpes exerccios
					Usar mais largamente de seus vcios;


				85
					Nenhum que use de seu poder bastante, 
					Para servir a seu desejo feio,
					E que, por comprazer ao vulgo errante,
					Se muda em mais figuras que Proteio.
					Nem, Camenas, tambm cuideis que canto
					Quem, com hbito honesto e grave, veio,
					Por contentar ao Rei no ofcio novo,
					A despir e roubar o pobre povo.


				86
					Nem quem acha que  justo e que  direito
					Guardar-se a lei do Rei severamente,
					E no acha que  justo e bom respeito,
					Que se pague o suor da servil gente;
					Nem quem sempre, com pouco experto peito,
					Razes aprende, e cuida que  prudente,
					Para taxar, com mo rapace e escassa,
					Os trabalhos alheios, que no passa.


				87
					Aqueles ss direi, que aventuraram
					Por seu Deus, por seu Rei, a amada vida, 
					Onde, perdendo-a, em fama a dilataram, 
					To bem de suas obras merecida.
					Apolo, e as Musas que me acompanharam,
					Me dobraro a fria concedida,
					Enquanto eu tomo alento descansado, 
					Por tornar ao trabalho, mais folgado.



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Cames
Os Lusadas
(Canto Oitavo)

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				1 - Paulo da Gama narra ao Catual

 a histria dos heris portugueses



					Na primeira figura se detinha
					O Catual que vira estar pintada,
					Que por divisa um ramo na mo tinha,
					A barba branca, longa e penteada:
					"Quem era, e por que causa lhe convinha
					A divisa, que tem na mo tomada?"
					Paulo responde, cuja voz discreta
					O Mauritano sbio lhe interpreta.




				2 - Luso


					"Estas figuras todas que aparecem,
					Bravos em vista e feros nos aspectos,
					Mais bravos e mais feros se conhecem,
					Pela fama, nas obras e nos feitos:
					Antigos so, mas ainda resplandecem
					Colo nome, entre os engenhos mais perfeito
					Este que vs  Luso, donde a fama
					O nosso Reino Lusitnia chama.




				3


					"Foi filho e companheiro do Tebano,
					Que to diversas partes conquistou;
					Parece vindo ter ao ninho Hispano
					Seguindo as armas, que contino usou;
					Do Douro o Guadiana o campo ufano,
					J dito Elsio, tanto o contentou,
					Que ali quis dar aos j cansados ossos
					Eterna sepultura, e nome aos nossos.




				4


					"O ramo que lhe vs para divisa,
					O verde tirso foi de Baco usado;
					O qual  nossa idade amostra e avisa
					Que foi seu companheiro e filho amido.
					Vs outro, que do Tejo a terra pisa,
					Depois de ter to longo mar arado,
					Onde muros perptuos edifica,
					E templo a Palas, que em memria fica?




				5


					"Ulisses  o que faz a santa casa
					A Deusa, que lhe d lngua facunda;
					Que, se l na sia Tria insigne abrasa,
					C na Europa Lisboa ingente funda."
					- "Quem ser estoutro c, que o campo arrasa
					De mortos, com presena furibunda?
					Grandes batalhas tem desbaratadas,
					Que as guias nas bandeiras tem pintadas."




				6 - Viriato


					Assim o Gentio diz.  Responde o Gama:
					- "Este que vs, pastor j foi de gado;
					Viriato sabemos que se chama,
					Destro na lana mais que no cajado;
					Injuriada tem de Roma a f ama,
					Vencedor invencvel afamado;
					No tem com ele, no, nem ter puderam
					O primor que com Pirro j tiveram.




				7 - Sertrio


					"Com fora, no; com manha vergonhosa,
					A vida lhe tiraram que os espanta:
					Que o grande aperto, em gente ainda que honrosa,
					As vezes leis magnnimas quebranta.
					Outro est aqui que, contra a ptria irosa,
					Degradado, conosco se alevanta:
					Escolheu bem com quem se alevantasse,
					Para que eternamente se ilustrasse.




				8


					"Vs? conosco tambm vence as bandeiras
					Dessas aves de Jpiter validas;
					Que j naquele tempo as mais Guerreiras
					Gentes de ns souberam ser vencidas.
					Olha to subtis artes e maneiras,
					Para adquirir os povos, to fingidas,
					A fatdica Cerva que o avisa:
					Ele  Sertrio, e ela a sua divisa.




				9 - Conde Dom Henrique


					"Olha estoutra bandeira, e v pintado
					O gr progenitor dos Reis primeiros.
					Ns ngaro o fazemos, porm nado
					Crem ser em Lotarngia os estrangeiros.
					Depois de ter com os Mouros superado,
					Galegos e Leoneses cavaleiros,
					A casa Santa passa o santo Henrique, 
					Por que o tronco dos Reis se santifique."




				10 - Afonso Henriques


					"Quem , me diz, este outro que me espanta, 
					(Pergunta o Malabar maravilhado) 
					Que tantos esquadres, que gente tanta, 
					Com to pouca, tem roto e destroado?  
					Tantos muros asprrimos quebranta, 
					Tantas batalhas d, nunca cansado, 
					Tantas coroas tem por tantas partes 
					A seus ps derribadas, e estandartes!"




				11


					- "Este  o primeiro Afonso, disse o Gama,
					Que todo Portugal aos Mouros toma;
					Por quem, no Estgio lago, jura a Fama
					De mais no celebrar nenhum de Roma.
					Este  aquele zeloso a quem Deus ama,
					Com cujo brao o Mouro inimigo doma,
					Para quem de seu Reino abaixa os muros,
					Nada deixando j para os futuros,




				12


					"Se Csar, se Alexandre Rei, tiveram
					To pequeno poder, to pouca gente,
					Contra tantos inimigos quantos eram
					Os que desbaratava este excelente,
					No creias que seus nomes se estendera
					Com glrias imortais to largamente;
					Mas deixa os feitos seus inexplicveis,
					V que os de seus vassalos so notveis.




				13 - Egas Moniz


					"Este que vs olhar com gesto irado
					Para o rompido aluno mal sofrido,
					Dizendo-lhe que o exrcito espalhado
					Recolha, e torne ao campo defendido;
					Torna o moo do velho acompanhado,
					Que vencedor o torna de vencido:
					Egas Moniz se chama o forte velho,
					Para leais vassalos claro espelho.




				14


					"V-lo c vai com os filhos a entregar-se,
					A corda ao colo, nu de seda e pano,
					Porque no quis o moo sujeitar-se,
					Como ele prometera, ao Castelhano.
					Fez com siso e promessas levantar-se
					O cerco, que j estava soberano;
					Os filhos e mulher obriga  pena:
					Para que o senhor salve, a si condena.




				15


					"No fez o Cnsul tanto, que cercado
					Foi nas foras Caudinas, de ignorante,
					Quando a passar por baixo foi forado
					Do Samntico jugo triunfante.
					Este, pelo seu povo injuriado,
					A si se entrega s, firme e constante;
					Estoutro a si, e os filhos naturais,
					E a consorte sem culpa, que di mais.




				16 - Dom Fuas Roupinho


					"Vs este que, saindo da cilada,
					D sobre o Rei que cerca a vila forte?
					J o Rei tem preso e a vila descercada:
					Ilustre feito, digno de Mavorte!
					V-lo c vai pintado nesta armada,
					No mar tambm aos Mouros dando a morto,
					Tomando-lhe as gals, levando a glria
					Da primeira martima vitria.




				17


					", Dom Fuas Roupinho, que na terra
					E no mar resplandece juntamente,
					Com o fogo que acendeu junto da serra
					De Abila, nas gals da Maura gente.
					Olha como, em to justa e santa guerra,
					De acabar pelejando est contente:
					Das mos dos Mouros entra a feliz alma,
					Triunfando, nos cus, com justa palma.




				18 - Henrique, de Bonn


					"No vs um ajuntamento, de estrangeiro
					Trajo, sair da grande armada nova,
					Que ajuda a combater o Rei primeiro
					Lisboa, de si dando santa prova?
					Olha Henrique, famoso cavaleiro,
					A palma que lhe nasce junto  cova.
					Por eles mostra Deus milagre visto:
					Germanos so os mrtires de Cristo.




				19


					"Um Sacerdote v brandindo a espada
					Contra Arronches, que toma, por vingana
					De Leiria, que de antes foi tomada
					Por quem por Mafamede enresta a lana:
					 Teotnio, Prior.  Mas v cercada
					Santarm, e vers a segurana
					Da figura nos muros, que primeira
					Subindo, ergueu das Quinis a bandeira.




				20 - Mem Moniz


					"V-lo c, donde Sancho desbarata
					Os Mouros de Vandlia em fera guerra;
					Os inimigos rompendo, o alferes mata
					E o Hisplico pendo derriba em terra:
					Mem Moniz , que em si o valor retrata,
					Que o sepulcro do pai com os ossos cerra,
					Digno destas bandeiras, pois sem falta
					A contrria derriba e a sua exalta.




				21 - Giraldo Sem-Pavor


					"Olha aquele que desce pela lana?
					Com as duas cabeas dos vigias,
					Onde a cilada esconde, com que alcana
					A cidade por manhas e ousadias.
					Ela por armas toma a semelhana
					Do cavaleiro, que as cabeas frias
					Na mo levava (feito nunca feito!)
					Giraldo Sem-pavor  o forte peito.




				22


					"No vs um Castelhano, que agravado
					De Afonso nono rei, pelo dio antigo
					Dos de Lara, com os Mouros  deitado,
					De Portugal fazendo-se inimigo?
					Abrantes vila toma, acompanhado
					Dos duros infiis que traz consigo.
					Mas v que um Portugus com pouca gente
					O desbarata e o prende ousadamente.
	



				23 - Martim Lopes. Dom Mateus, bispo de Lisboa


					"Martim Lopes se chama o cavaleiro,
					Que destes levar pode a palma e o louro.
					Mas olha um Eclesistico guerreiro,
					Que em lana de ao torna o Bago de ouro.
					V-lo entre os duvidosos to inteiro
					Em no negar batalha ao bravo Mouro;
					Olha o sinal no cu que lhe aparece,
					Com que nos poucos seus o esforo cresce.




				24


					"Vs? vo os Reis de Crdova e Sevilha
					Rotos, com os outros dois, e no de espao.
					Rotos? mas antes mortos, maravilha
					Feita de Deus, que no de humano brao.
					Vs? j a vila de Alcare se humilha,
					Sem lhe valer defesa, ou muro de ao,
					A Dom Mateus, o Bispo de Lisboa,
					Que a coroa da palma ali coroa.




				25 - Dom Paio Correia


					"Olha um Mestre que desce de Castela,
					Portugus de nao, como conquista
					A terra dos Algarves, e j nela
					No acha quem por armas lhe resista;
					Com manha, esforo, e com benigna estrela,
					Vilas, castelos toma  escala vista.
					Vs Tavila tomada aos moradores,
					Em vingana dos sete caadores!




				26 - Gonalo Ribeiro, Vasco Anes e Fernando Martins


					"Vs? com blica astcia ao Mouro ganha 
					Silves, que ele ganhou com fora ingente: 
					 Dom Paio Correia, cuja manha
					E grande esforo faz inveja  gente.
					Mas no passes os trs que em Frana e Espanha 
					Se fazem conhecer perpetuamente
					Em desafios, justas e torneios, 
					Nelas deixando pblicos trofus.




				27


					"V-los, com o nome vm de aventureiros
					A Castela, onde o preo ss levaram
					Dos jogos de Belona verdadeiros,
					Que com dano de alguns se exercitaram.
					V mortos os soberbos cavaleiros,
					Que o principal dos trs desafiaram,
					Que Gonalo Ribeiro se nomeia,
					Que pode no temer a lei Leteia.




				28 - Nuno lvares Pereira


					"Atenta num, que a fama tanto estende,
					Que de nenhum passado se contenta;
					Que a ptria, que de um fraco fio pende,
					Sobre seus duros ombros a sustenta.
					No no vs tinto de ira, que reprende
					A vil desconfiana inerte e lenta
					Do povo, e faz que tome o doce freio
					De Rei seu natural, e no de alheio?




				29 - Batalhas de Aljubarrota e Valverde


					"Olha: por seu conselho e ousadia
					De Deus guiada s, e de santa estrela,
					S pode o que impossvel parecia:
					Vencer o povo ingente de Castela.
					Vs, por indstria, esforo e valentia,
					Outro estrago e vitria clara e bela,
					Na gente, assim feroz como infinita,
					Que entre o Tarteso e Goadiana habita?




				30 - Nuno lvares Pereira


					"Mas no vs quase j desbaratado
					O poder Lusitano, pela ausncia
					Do Capito devoto, que, apartado
					Orando invoca a suma e trina Essncia?
					V-lo com pressa j dos seus achado,
					Que lhe dizem que falta resistncia
					Contra poder tamanho, e que viesse,
					Por que consigo esforo aos fracos desse?




				31


					"Mas olha com que santa confiana,
					- Que inda no era tempo, - respondia,
					Como quem tinha em Deus a seguraria
					Da vitria que logo lhe daria.
					Assim Pomplio, ouvindo que a possana
					Dos inimigos a terra lhe corria,
					A quem lhe a dura nova estava dando,
					-"Pois eu, responde, estou sacrificando." -




				32


					"Se quem com tanto esforo em Deus se atreve,
					Ouvir quiseres como se nomeia,
					Portugus Cipio chamar-se deve;
					Mas mais de Dom Nuno Alvares se arreia:
					Ditosa ptria que tal filho teve!
					Mas antes pai, que enquanto o Sol rodeia
					Este globo de Ceres e Netuno,
					Sempre suspirar por tal aluno.




				33 - Pro Rodrigues do Landroal


					"Na mesma guerra v que presas ganha
					Estoutro Capito de pouca gente;
					Comendadores vence e o gado apanha,
					Que levavam roubado ousadamente.
					Outra vez v que a lana em sangue banha
					Destes, s por livrar com o amor ardente
					O preso amigo, preso por leal:
					Pro Rodrigues  do Landroal.




				34 - Gil Fernandes. Rui Pereira.


					"Olha este desleal o como paga
					O perjrio que fez e vil engano:
					Gil Fernandes  de Elvas quem o estraga,
					E faz vir a passar o ltimo dano:
					De Xerez rouba o campo, e quase alaga
					Com o sangue de seus donos Castelhano.
					Mas olha Rui Pereira, que com o rosto
					Faz escudo s gals, diante posto.




				35 - Dezessete Portugueses contra 400 Castelhanos


					"Olha que dezessete Lusitanos,
					Neste outeiro subidos se defendem,
					Fortes, de quatrocentos Castelhanos,
					Que em derredor, pelos tomar, se estendem;
					Porm logo sentiram, com seus danos,
					Que no s se defendem, mas ofendem:
					Digno feito de ser no mundo eterno,
					Grande no tempo antigo e no moderno.




				36 - Trezentos Lusitanos contra 1000 Romanos. Viriato


					"Sabe-se antigamente que trezentos
					J contra mil Romanos pelejaram,
					No tempo que os viris atrevimentos
					De Viriato tanto se ilustraram,
					E deles alcanando vencimentos
					Memorveis, de herana nos deixaram
					Que os muitos, por ser poucos, no temamos:
					O que depois mil vezes amestramos.




				37 - Os Infantes Dom Pedro e Dom Henrique


					"Olha c dois infantes, Pedro e Henrique,
					Prognie generosa de Joane:
					Aquele faz que fama ilustre fique
					Dele em Germnia, com que a morte engane;
					Este, que ela nos mares o publique
					Por seu descobridor, e desengane
					De Ceita a Maura tmida vaidade,
					Primeiro entrando as portas da cidade.




				38 - Dom Pedro de Meneses, Conde de Vila-Real,

 e Dom Duarte de Meneses,


Conde de Viana e Tarouca



					"Vs o conde Dom Pedro, que sustenta
					Dois cercos contra toda a Barbaria?
					Vs, outro Conde est, que representa
					Em terra Marte, em foras e ousadia;
					De poder defender se no contenta
					Alccere da ingente companhia;
					Mas do seu Rei defende a cara vida,
					Pondo por muro a sua, ali perdida.




				39 - Censura aos descendentes dos heris


					"Outros muitos verias, que os pintores
					Aqui tambm por certo pintariam;
					Mas falta-lhe pincel, faltam-lhe cores,
					Honra, prmio, favor, que as artes criam:
					Culpa dos viciosos sucessores,
					Que degeneram, certo, e se desviam
					Do lustre e do valor dos seus passados,
					Em gostos e vaidades atolados.




				40


					"Aqueles pais ilustres que j deram
					Princpio  gerao que deles pende,
					Pela virtude muito ento fizeram,
					E por deixar a casa, que descende.
					Cegos, que dos trabalhos que tiveram,
					Se alta fama e rumor deles se estende,
					Escuros deixam sempre seus menores,
					Com lhe deixar descansos corruptores.




				41 - Injustias dos reis


					"Outros tambm h grandes e abastados,
					Sem nenhum tronco ilustre donde venham;
					Culpa de Reis, que s vezes a privados
					Do mais que a mil, que esforo e saber tenham.
					Estes os seus no querem ver pintados,
					Crendo que cores vs lhe no convenham,
					E, como a seu contrairo natural,
					A pintura, que fala, querem mal.




				42 - Termina Paulo da Gama a

explicao das figuras das bandeiras



					"No nego que h contudo descendentes
					Do generoso tronco, e casa rica,
					Que com costumes altos e excelentes,
					Sustentam a nobreza que lhe fica;
					E se a luz dos antigos seus parentes
					Neles mais o valor no clarifica,
					No falta ao menos, nem se faz escura.
					Mas destes acha poucos a pintura."




				43


					Assim est declarando os grandes feitos
					O Gama, que ali mostra a vria tinta,
					Que a douta mo to claros, to perfeitos,
					Do singular artfice ali pinta.
					Os olhos tinha prontos e direitos
					O Catual na histria bem distinta;
					Mil vezes perguntava e mil ouvia
					As gostosas batalhas que ali via.




				44 - Retira-se de bordo o Catual


					Mas j a luz se mostrava duvidosa,
					Porque a a lmpada grande se escondia
					Debaixo do Horizonte e luminosa
					Levava aos Antpodas o dia,
					Quando o Gentio e a gente generosa
					Dos Naires da nau forte se partia
					A buscar o repouso que descansa
					Os lassos animais, na noite mansa.




				45 - Os arspices do Samorim contra os portugueses


					Entretanto os Arspices famosos
					Na falsa opinio, que em sacrifcios
					Antevem sempre os casos duvidosos,
					Por sinais diablicos e indcios,
					Mandados do Rei prprio, estudiosos
					Exercitavam a arte e seus ofcios
					Sobre esta vinda desta gente estranha,
					Que s suas terras vem da ignota Espanha.




				46 - Vaticnios


					Sinal lhe mostra o Demo verdadeiro,
					De como a nova gente lhe seria
					Jugo perptuo, eterno cativeiro,
					Destruio de gente, e de valia.
					Vai-se espantado o atnito agoureiro
					Dizer ao Rei (segundo o que entendia)
					Os sinais temerosos que alcanara
					Nas entranhas das vtimas que olhara.




				47 - Baco aparece em sonho a um sacerdote maometano


					A isto mais se ajunta que um devoto
					Sacerdote da lei de Mafamede,
					Dos dios concebidos no remoto
					Contra a divina F, que tudo excede,
					Em forma do Profeta falso e noto,
					Que do filho da escrava Agar procede,
					Baco odioso em sonhos lhe aparece,
					Que de seus dios ainda se no desse.




				48 - Fala de Baco ao sacerdote maometano


					E diz-lhe assim: "Guardai-vos, gente minha,
					Do mal que se aparelha pelo inimigo
					Que pelas guas midas caminha,
					Antes que esteis mais perto do perigo."
					Isto dizendo, acorda o Mouro asinha,
					Espantado do sonho; mas consigo
					Cuida que no  mais que sonho usado:
					Torna a dormir quieto e sossegado.




				49


					Torna Baco, dizendo: "No conheces
					O gr legislador que a teus passados
					Tem mostrado o preceito a que obedeces,
					Sem o qual freis muitos batizados?
					Eu por ti, rudo, velo; e tu adormeces!
					Pois sabers que aqueles, que chegados
					De novo so, sero muito grande dano
					Da lei que eu dei ao nscio povo humano.




				50


					"Enquanto  fraca a fora desta gente,
					Ordena como em tudo se resista,
					Porque, quando o Sol sai, facilmente
					Se pode nele pr a aguda vista;
					Porm, depois que sobe claro e ardente,
					Se agudeza dos olhos o conquista,
					To cega fica, quanto ficareis,
					Se razes criar lhe no tolheis."



				51 - Narra o Mouro aos Naires o sonho que tivera


					Isto dito, ele e o sono se despede.
					Tremendo fica o atnito Agareno:
					Salta da cama, lume ao servos pede,
					Lavrando nele o fervido veneno.
					Tanto que a nova luz que ao Sol precede
					Mostrara rosto anglico e sereno,
					Convoca os principais da torpe seita,
					Aos quais do que sonhou d conta estreita.




				52 - Intrigas, perfdias e suborno.


					Diversos pareceres e contrrios
					Ali se do , segundo o que entendiam;
					Astutas traies, enganos vrios,
					Perfdias inventavam e teciam.
					Mas, deixando conselhos temerrios,
					Destruio da gente pretendiam,
					Por manhas mais subtis e ardis melhores,
					Com peitas adquirindo os regedores;




				53


					Com peitas, ouro, e ddivas secretas
					Conciliam da terra os principais,
					E com razes notveis e discretas
					Mostram ser perdio dos naturais,
					Dizendo que so gentes inquietas,
					Que, os mares discorrendo ocidentais,
					Vivem s de pirticas rapinas,
					Sem Rei, sem leis humanas ou divinas




				54 - O rei deve saber escolher os seus conselheiros


					 quanto deve o Rei que bem governa,
					De olhar que os conselheiros, ou privados,
					De conscincia e de virtude interna
					E de sincero amor sejam dotados!
					Porque, como este posto na suprema
					Cadeira, pode mal dos apartados
					Negcios ter notcia mais inteira,
					Do que lhe der a lngua conselheira.




				55


					Nem to pouco direi que tome tanto
					Em grosso a conscincia limpa e certa,
					Que se enleve num pobre e humilde manto,
					Onde ambio acaso ande encoberta.
					E quando um bom em tudo  justo e santo,
					Em negcios do mundo pouco acerta,
					Que mal com eles poder ter conta
					A quieta inocncia, em s Deus pronta.




				56 - Dilao do despacho requerido pelo Gama


					Mas aqueles avaros Catuais,
					Que o Gentlico povo governavam,
					Induzidos das gentes infernais,
					O Portugus despacho dilatavam.
					Mas o Gama, que no pretende mais,
					De tudo quanto os Mouros ordenavam,
					Que levar a seu Rei um sinal certo
					Do mundo, que deixava descoberto.




				57


					Nisto trabalha s; que bem sabia
					Que depois que levasse esta certeza,
					Armas, o naus, e gente mandaria
					Manuel, que exercita a suma alteza,
					Com que a seu jugo e lei someteria
					Das terras e do mar a redondeza;
					Que ele no era mais que um diligente
					Descobridor das terras do Oriente.




				58 - Determina o Gama falar ao Samorim


					Falar ao Rei gentio determina,
					Por que com seu despacho se tornasse,
					Que j sentia em tudo da malina
					Gente impedir-se quanto desejasse.
					O Rei, que da notcia falsa e indina
					No era de espantar se se espantasse,
					Que to crdulo era em seus agouros,
					E mais sendo afirmados pelos Mouros,




				59


					Este temor lhe esfria o baixo peito.
					Por outra parte a fora da cobia,
					A quem por natureza est sujeito,
					Um desejo imortal lhe acende e atia:
					Que bem v que grandssimo proveito
					Far, se com verdade e com justia
					O contrato fizer por longos anos,
					Que lhe comete o Rei dos Lusitanos.




				60 - Manda o Samorim chamar o Gama, e o que lhe diz


					Sobre isto, nos conselhos que tomava,
					Achava muito contrrios pareceres;
					Que naqueles com quem se aconselhava
					Executa o dinheiro seus poderes.
					O grande Capito chamar mandava,
					A quem chegado disse: - "Se quiseres
					Confessar-me a verdade limpa e nua,
					Perdo alcanars da culpa tua.




				61


					Fala do Samorim ao Gama
					"Eu sou bem informado que a embaixada
					Que de teu Rei me deste, que  fingida;
					Porque nem tu tens Rei, nem ptria amada,
					Mas vagabundo vs passando a vida;
					Que quem da Hespria ltima alongada,
					Rei ou senhor de insnia desmedida,
					H de vir cometer com naus e frotas
					To incertas viagens e remotas?




				62


					"E se de grandes Reinos poderosos
					O teu Rei tem a rgia majestade,
					Que presentes me trazes valerosos,
					Sinais de tua incgnita verdade?
					Com peas e dons altos, sumptuosos,
					Se lia dos Reis altos a amizade;
					Que sinal nem penhor no  bastante
					As palavras dum vago navegante.




				63


					"Se porventura vindes desterrados,
					Como j foram homens de alta sorte,
					Em meu Reino sereis agasalhados,
					Que toda a terra  ptria para o forte,;
					Ou se piratas sois ao mar usados,
					Dizei-mo sem temor de infmia ou morte,
					Que por se sustentar em toda idade,
					Tudo faz a vital necessidade."




				64


					Resposta do Gama
					Isto assim dito, o Gama, que j tinha
					Suspeitas das insdias que ordenava
					O Mallomtico dio, donde vinha
					Aquilo que to mal o Rei cuidava,
					Com uma alta confiana, que convinha,
					Com que seguro crdito alcanava,
					Que Vnus Acidlia lhe influa,
					Tais palavras do sbio peito abria:




				65


					"Se os antigos delitos, que a malcia
					Humana cometeu na prisca idade,
					No causaram que o vaso da niqucia,
					Aoute to cruel da Cristandade,
					Viera pr perptua inimiccia
					Na gerao de Ado, coa falsidade, 
					 poderoso Rei da torpe seita,
					No conceberas tu to m suspeita.




				66 - Resposta do Gama ao Samorim


					"Mas porque nenhum grande bem se alcana
					Sem grandes opresses, e em todo o feito
					Segue o temor os passos da esperana,
					Que em suor vive sempre de seu peito,
					Me mostras tu to pouca confiana
					Desta minha verdade, sem respeito
					Das razes em contrrio que acharias
					Se no cresses a quem no crer devias.




				67


					"Porque, se eu de rapinas s vivesse,
					Undvago, ou da ptria desterrado,
					Como crs que to longe me viesse
					Buscar assento incgnito e apartado?
					Por que esperanas, ou por que interesse
					Viria experimentando o mar irado,
					Os Antarcticos frios, e os ardores
					Que sofrem do Carneiro os moradores?




				68


					"Se com grandes presentes de alta estima
					O crdito me pedes do que digo,
					Eu no vim mais que a achar o estranho clima
					Onde a natura ps teu Reino antigo.
					Mas, se a Fortuna tanto me sublima
					Que eu torne  minha ptria e Reino amigo,
					Ento vers o dom soberbo e rico,
					Com que minha tornada certifico.




				69


					"Se te parece inopinado feito,
					Que Rei da ltima Hespria a ti me mande,
					O corao sublime, o rgio peito,
					Nenhum caso possvel tem por grande.
					Bem parece que o nobre e gr conceito
					Do Lusitano esprito demande
					Maior crdito, e f de mais alteza,
					Que creia dele tanta fortaleza.




				70


					"Sabe que h muitos anos que os antigos
					Reis nossos firmemente propuseram
					De vencer os trabalhos e perigos,
					Que sempre s grandes coisas se opuseram;
					E, descobrindo os mares inimigos
					Do quieto descanso, pretenderam
					De saber que fim tinham, e onde estavam
					As derradeiras praias que lavavam.




				71


					"Conceito digno foi do ramo claro
					Do venturoso Rei, que arou primeiro
					O mar, por ir deitar do ninho caro
					O morador de Abila derradeiro.
					Este, por sua indstria e engenho raro,
					Num madeiro ajuntando outro madeiro,
					Descobrir pde a parte, que faz clara
					De Argos, da Hidra a luz, da Lebre e da Ara.




				72


					"Crescendo com os sucessos bons primeiros
					No peito as ousadias, descobriram
					Pouco e pouco caminhos estrangeiros,
					Que uns, sucedendo aos outros, prosseguiram.
					De frica os moradores derradeiros
					Austrais, que nunca as sete flamas viram,
					Foram vistos de ns, atrs deixando
					Quantos esto os Trpicos queimando.




				73


					"Assim com firme peito, e com tamanho
					Propsito, vencemos a Fortuna,
					At que ns no teu terreno estranho
					Viemos pr a ltima coluna.
					Rompendo a fora do lquido estanho,
					Da tempestade horrfica e importuna,
					A ti chegamos, de quem s queremos
					Sinal, que ao nosso Rei de ti levemos.




				74


					"Esta  a verdade, Rei; que no faria
					Por to incerto bem, to fraco prmio,
					Qual, no sendo isto assim, esperar podia,
					To longo, to fingido e vo promio;
					Mas antes descansar me deixaria
					No nunca descansado e fero grmio
					Da madre Tethys, qual pirata inico,
					Dos trabalhos alheios feito rico.




				75 - Conclui o Gama a sua resposta ao Samorim


					"Assim que,  Rei, se minha gr verdade
					Tens por qual , sincera e no dobrada,
					Ajunta-me ao despacho brevidade,
					No me impeas o gosto da tornada.
					E, se ainda te parece falsidade,
					Cuida bem na razo que est provada,
					Que com claro juzo pode ver-se,
					Que fcil  a verdade de entender-se."




				76 - Desconfia o Samorim da honestidade dos Catuais


					A tento estava o Rei na segurana
					Com que provava o Gama o que dizia;
					Concebe dele certa confiana,
					Crdito firme em quanto proferia.
					Pondera das palavras a abastana,
					Julga na autoridade gro valia,
					Comea de julgar por enganados
					Os Catuais corruptos, mal julgados.




				77 - Permite o Samorim que o Gama

regresse para bordo



					Juntamente a cobia do proveito,
					Que espera do contrato Lusitano,
					O faz obedecer e ter respeito
					Com o Capito, e no com o Mauro engano.
					Enfim ao Gama manda que direito
					As naus se v, e, seguro de algum dano,
					Possa a terra mandar qualquer fazenda,
					Que pela especiaria troque e venda.




				78 - Pede o Gama ao Catual que lhe

mande dar embarcao



					Que mande da fazenda, enfim, lhe manda,
					Que nos Reinos Gangticos falea;
					Se alguma traz idnea l da banda
					Donde a terra se acaba e o mar comea.
					J da real presena veneranda
					Se parte o Capito, para onde pea
					Ao Catual, que dele tinha cargo,
					Embarcao, que a sua est de largo.




				79 - M vontade do Catual


					Embarcao que o leve s naus lhe pede;
					Mas o mau Regedor, que novos laos
					Lhe maquinava, nada lhe concede,
					Interpondo tardanas e embaraos.
					Com ele parte ao cais, por que o arrede
					Longe quanto puder dos rgios paos,
					Onde, sem que seu Rei tenha notcia,
					Faa o que lhe ensinar sua malcia.




				80


					L bem longe lhe diz que lhe daria
					Embarcao bastante em que partisse,
					Ou que para a luz crstina do dia
					Futuro sua partida diferisse.
					J com tantas tardanas entendia
					O Gama, que o Gentio consentisse
					Na m teno dos Mouros, torpe e fera,
					O que dele atli no entendera.




				81 - Venalidade do Catual


					Era este Catual um dos que estavam
					Corruptos pela Maumetana gente,
					O principal por quem se governavam
					As cidades do Samorim potente.
					Dele somente os Mouros esperavam
					Efeito a seus enganos torpemente.
					Ele, que no conceito vil conspira,
					De suas esperanas no delira.




				82 - Protesta o Gama contra a dilao


					O Gama com instncia lhe requere
					Que o mande pr nas naus, e no lhe vai;
					E que assim lhe mandara, lhe refere,
					O nobre sucessor de Perimal.
					Por que razo lhe impede e lhe difere
					A fazenda trazer de Portugal?
					Pois aquilo que os Reis j tm mandado
					No pode ser por outrem derrogado.




				83 - Traio do Catual


					Pouco obedece o Catual corrupto
					A tais palavras; antes revolvendo
					Na fantasia algum subtil e astuto
					Engano diablico e estupendo,
					Ou como banhar possa o ferro bruto
					No sangue avorrecido, estava vendo;
					Ou como as naus em fogo lhe abrasasse,
					Por que nenhuma  ptria mais tornasse.




				84 - O Catual retm em terra o Gama


					Que nenhum torne  ptria s pretende
					O conselho infernal dos Maumetanos,
					Por que no saiba nunca onde se estende
					A terra Eoa o Rei dos Lusitanos.
					No parte o Gama enfim, que lho defende
					O Regedor dos brbaros profanos;
					Nem sem licena sua ir-se podia,
					Que as almadias todas lhe tolhia.




				85


					Aos brados o razes do Capito
					Responde o Idolatra que mandasse -
					Chegar  terra as naus, que longo esto,
					Por que melhor dali fosse e tornasse.
					"Sinal  de inimigo e de ladro,
					Que l to longe a frota se alargasse,
					Lhe diz, porque do certo e fido amigo
					 no temer do seu nenhum perigo."




				86 - Desconfia o Gama da traio do Catual


					Nestas palavras o discreto Gama
					Enxerga bem que as naus deseja perto
					O Catual, por que com f erro e flama,
					Lhas assalte, por dio descoberto.
					Em vrios pensamentos se derrama;
					Fantasiando est remdio certo,
					Que desse a quanto mal se lhe ordenava;
					Tudo temia, tudo enfim cuidava.




				87 - O esprito do Gama a tudo ocorre


					Qual o reflexo lume do polido
					Espelho de ao, ou de cristal formoso,
					Que, do raio solar sendo ferido,
					Vai ferir noutra parte luminoso,
					E, sendo da ociosa mo movido
					Pela casa do moo curioso,
					Anda pelas paredes  telhado
					Trmulo, aqui e ali, e dessossegado:




				88


					Tal o vago juzo flutuava
					Do Gama preso, quando lhe lembrara
					Coelho, se por caso o esperava
					Na praia com os batis, como ordenara.
					Logo secretamente lhe mandava,
					"Que se tornasse  frota, que deixara;
					No fosse salteado dos enganos,
					Que esperava dos feros Maumetanos."




				89


					Tal h de ser quem quer, com o dom de Marte,
					Imitar os ilustres e igual-los:
					Voar com o pensamento a toda parte,
					Adivinhar perigos, e evit-los:
					Com militar engenho e subtil arte
					Entender os inimigos, e engan-los;
					Crer tudo, enfim, que nunca louvarei
					O Capito que diga: "No cuidei".




				90 - Insiste o Catual em que mande

 o Gama chegar a terra a armada



					Insiste o Malabar em t-lo preso,
					Se no manda chegar a terra a armada;
					Ele constante, e de ira nobre aceso,
					Os ameaos seus no teme nada;
					Que antes quer sobre si tomar o peso
					De quanto mal a vil malcia ousada
					Lhe andar armando, que pr em ventura
					A frota de seu Rei, que tem segura.




				91 - Continua o Gama detido


					Aquela noite esteve ali detido,
					E parte do outro dia, quando ordena
					De se tornar ao Rei; mas impedido
					Foi da guarda que tinha, no pequena.
					Comete-lhe o Gentio outro partido,
					Temendo de seu Rei castigo ou pena,
					Se sabe esta malcia, a qual asinha
					Saber, se mais tempo ali o detinha.




				92


					Diz-lhe "que mande vir toda a fazenda
					Vendvel, que trazia, para a terra,
					Para que de vagar se troque e venda:
					Que quem no quer comrcio, busca guerra.
					Posto que os maus propsitos entenda
					O Gama, que o danado peito encerra,
					Consente, porque sabe por verdade,
					Que compra com a fazenda a liberdade.




				93 - Escreve o Gama ao irmo,



 para que mande a terra a fazenda



					Concertam-se que o negro mande dar
					Embarcaes idneas com que venha;
					Que os seus batis no quer aventurar
					Onde lhos tome o inimigo, ou lhos detenha.
					Partem as almadias a buscar
					Mercadoria Hispana, que convenha.
					Escreve a seu irmo que lhe mandasse
					A fazenda com que se resgatasse.




				94 -  o Gama posto em liberdade


					Vem a fazenda a terra, aonde logo
					A agasalhou o infame Catual;
					Com ela ficam lvaro e Diogo,
					Que a pudessem vender pelo que val.
					Se mais que obrigao, que mando e rogo
					No peito vil o prmio pode e val,
					Bem o mostra o Gentio a quem o entenda,
					Pois o Gama soltou pela fazenda.




				95


					Por ela o solta, crendo que ali tinha
					Penhor bastante, donde recebesse
					Interesse maior do que lhe vinha,
					Se o Capito mais tempo detivesse.
					Ele, vendo que j lhe no convinha
					Tornar a terra, por que no pudesse
					Ser mais retido, sendo s naus chegado
					Nelas estar se deixa descansado.




				96 - O poder do dinheiro


					Nas naus estar se deixa vagaroso,
					At ver o que o tempo lhe descobre:
					Que no se fia j do cobioso
					Regedor corrompido e pouco nobre.
					Veja agora o juzo curioso
					Quanto no rico, assim como no pobre,
					Pode o vil interesse e sede inimiga
					Do dinheiro, que a tudo nos obriga.




				97 - Polimstor. Dnae. Tarpeia.


					A Polidoro mata o Ptei Trecio,
					S por ficar senhor do gro tesouro;
					Entra, pelo fortssimo edifcio,
					Com a filha de Acriso a chuva d'ouro;
					Pode tanto em Tarpeia avaro vcio,
					Que, a troco do metal luzente e louro,
					Entrega aos inimigos a alta torre,
					Do qual quase afogada em pago morre.




				98


					Este rende munidas fortalezas,
					Faz tredores e falsos os amigos:
					Este a mais nobres faz fazer vilezas,
					E entrega Capites aos inimigos;
					Este corrompe virginais purezas,
					Sem temer de honra ou fama alguns perigos:
					Este deprava s vezes as cincias,
					Os juzos cegando e as conscincias;




				99


					Este interpreta mais que sutilmente.
					Os textos; este faz e desfaz leis;
					Este causa os perjrios entre a gente,
					E mil vezes tiranos torna os Reis.
					At os que s a Deus Onipotente
					Se dedicam, mil vezes ouvireis
					Que corrompe este encantador, e ilude;
					Mas no sem cor, contudo, de virtude.




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Cames
Os Lusadas
(Canto Nono)

<Picture>





				1 - Ficam retidos em terra os dois feitores portugueses
					Tiveram longamente na cidade,
					Sem vender-se, a fazenda os dois feitores
					Que os infiis, por manha e falsidade,
					Fazem que no lha comprem mercadores;
					Que todo seu propsito e vontade
					Era deter ali os descobridores
					Da ndia tanto tempo, que viessem
					De Meca as naus, que as suas desfizessem.


				2 - Meca
					L no seio Eritreu, onde fundada
					Arsnoe foi do Egpcio Ptolomeu,
					Do nome da irm sua assim chamada,
					Que depois em Suez se converteu,
					No longe o porto jaz da nomeada
					Cidade Meca, que se engrandeceu
					Com a superstio falsa e profana
					Da religiosa gua Maumetana.


				3 - Gid
					Gid se chama o porto, aonde o trato
					De todo o Roxo mar mais florescia,
					De que tinha proveito grande e grato
					O Soldo que esse Reino possua.
					Daqui aos Malabares, por contrato
					Dos infiis, formosa companhia
					De grandes naus, pelo ndico Oceano,
					Especiaria vem buscar cada ano.


				4 - Aguardam os Mouros as naus de Meca
					Por estas naus os Mouros esperavam,
					Que, como fossem grandes e possantes,
					Aquelas, que o comrcio lhe tomavam,
					Com flamas abrasassem crepitantes.
					Neste socorro tanto confiavam,
					Que j no querem mais dos navegantes,
					Seno que tanto tempo ali tardassem,
					Que da famosa Meca as naus chegassem.


				5 - Monaide previne o Gama
dos perigos que o ameaam

					Mas o Governador dos cus e gentes,
					Que, para quanto tem determinado,
					De longe os meios d convenientes,
					Por onde vem a ef eito o fim fadado,
					Influiu piedosos acidentes
					De afeio em Monaide, que guardado
					Estava para dar ao Gama aviso,
					E merecer por isso o Paraso.


				6 - Informaes de Monaide
					Este, de quem se os Mouros no guardavam,
					Por ser Mouro como eles, antes era
					Participante em quanto maquinavam,
					A teno lhe descobre torpe e fera.
					Muitas vezes as naus que longe estavam
					Visita, o com piedade considera
					O dano, sem razo, que se lhe ordena
					Pela maligna gente Sarracena.


				7
					Informa o cauto Gama das armadas
					Que de Arbica Meca vm cada ano,
					Que agora so dos seus to desejadas,
					Para ser instrumento deste dano.
					Diz-lhe que vm de gente carregadas,
					E dos troves horrendos de Vulcano,
					E que pode ser delas oprimido,
					Segundo estava mal apercebido.


				8 - Ordena o Gama que os dois feitores recolham s naus
					O Gama, que tambm considerava
					O tempo, que para a partida o chama,
					E que despacho j no esperava
					Melhor do Rei, que os Maumetanos ama,
					Aos feitores, que em terra esto, mandava
					Que se tornem s naus; e por que a fama
					Desta sbita vinda os no impea,
					Lhe manda que a fizessem escondida.


				9 - Retm os Mouros os feitores. 
Represlia do Gama nuns mercadores.

					Porm no tardou muito que, voando,
					Um rumor no soasse com verdade:
					Que foram presos os feitores, quando
					Foram sentidos vir-se da cidade.
					Esta fama as orelhas penetrando
					Do sbio Capito, com brevidade
					Faz represaria nuns, que s naus vieram
					A vender a pedraria que trouxeram.


				10 - Levantam ncoras as naus do Gama
					Eram estes antigos mercadores
					Ricos em Calecu, e conhecidos;
					Da falta deles, logo entre os melhores
					Sentido foi que esto no mar retidos.
					Mas j nas naus os bons trabalhadores
					Volvem o cabrestante, e repartidos
					Pelo trabalho, uns puxam pela amarra,
					Outros quebram com o peito duro a barra;


				11 - Queixam-se ao Samorim as mulheres
 e filhos dos mercadores retidos

					Outros pendem da verga, e j desatam
					A vela, que com grita se soltava,
					Quando com maior grita ao Rei relatam
					A pressa com que a armada se levava.
					As mulheres e filhos que se matam
					Daqueles que vo presos, onde estava
					O Samorim, se queixam que perdidos
					Uns tm os pais, as outras os maridos.


				12 - Troca dos refns
					Manda logo os feitores Lusitanos
					Com toda sua fazenda livremente
					Apesar dos inimigos Maumetanos,
					Por que lhe torne a sua presa gente.
					Desculpas manda o Rei de seus enganos;
					Recebe o Capito de melhor mente
					Os presos que as desculpas, e tornando
					Alguns negros, se parte as velas dando.


				13 - Partida da frota para Portugal
					Parte-se costa abaixo, porque entende
					Que em vo com o Rei gentio trabalhava
					Em querer dele paz, a qual pretende
					Por firmar o comrcio que tratava.
					Mas como aquela terra, que se estende
					Pela Aurora, sabida j deixava,
					Com estas novas torna  ptria cara,
					Certos sinais levando do que achara.


				14 - Especiarias
					Leva alguns Malabares, que tomou
					Por fora, dos que o Samorim mandara
					Quando os presos feitores lhe tornou;
					Leva pimenta ardente, que comprara;
					A seca flor de Banda no ficou,
					A noz, e o negro cravo, que faz clara
					A nova ilha Maluco, com a canela,
					Com que Ceilo  rica, ilustre e bela.


				15 - Acompanha Monaide
os portugueses e faz-se cristo

					Isto tudo lhe houvera a diligncia
					De Monaide fiel, que tambm leva,
					Que, inspirado de anglica influncia,
					Quer no livro de Cristo que se escreva.
					 ditoso Africano, que a clemncia
					Divina assim tirou de escura treva,
					E to longe da ptria achou maneira
					Para subir  ptria verdadeira!


				16
					Apartadas assim da ardente costa
					As venturosas naus, levando a proa
					Para onde a Natureza tinha posta
					A meta Austrina da esperana boa,
					Levando alegres novas e resposta
					Da parte Oriental para Lisboa,
					Outra vez cometendo os duros medos
					Do mar incerto, tmidos e ledos;


				17 - Alegria dos nautas por voltarem  ptria
					O prazer de chegar  ptria cara,
					A seus penates caros e parentes,
					Para contar a peregrina e rara
					Navegao, os vrios cus e gentes;
					Vir a lograr o prmio, que ganhara
					Por to longos trabalhos e acidentes,
					Cada um tem por gosto to perfeito,
					Que o corao para ele  vaso estreito.


				18 - Vnus resolve premiar os navegantes
					Porm a deusa Cpria, que ordenada
					Era para favor dos Lusitanos
					Do Padre eterno, e por bom gnio dada,
					Que sempre os guia j de longos anos;
					A glria por trabalhos alcanada,
					Satisfao de bem sofridos danos,
					Lhe andava j ordenando, e pretendia
					Dar-lhe nos mares tristes alegria.


				19
					Depois de ter um pouco revolvido
					Na mente o largo mar que navegaram,
					Os trabalhos, que pelo Deus nascido
					Nas Anfineas Tebas se causaram;
					J trazia de longe no sentido,
					Para prmio de quanto mal passaram,
					Buscar-lhe algum deleite, algum descanso
					No Reino de cristal lquido e manso;


				20
					Algum repouso, enfim, com que pudesse
					Refocilar a lassa humanidade
					Dos navegantes seus, como interesse
					Do trabalho que encurta a breve idade.
					Parece-lhe razo que conta desse
					A seu filho, por cuja potestade
					Os Deuses faz descer ao vil terreno
					E os humanos subir ao cu sereno.


				21 - Vnus prepara uma ilha para os portugueses
					Isto bem revolvido, determina
					De ter-lhe aparelhada, l no meio
					Das guas, alguma nsula divina,
					Ornada de esmaltado e verde arreio;
					Que muitas tem no reino, que confina
					Da me primeira com o terreno seio,
					Afora as que possui soberanas
					Para dentro das portas Herculanas.


				22
					Ali quer que as aquticas donzelas
					Esperem os fortssimos bares,
					Todas as que tm ttulo de belas,
					Glria dos olhos, dor dos coraes,
					Com danas e coreias, porque nelas
					Influir secretas afeies,
					Para com mais vontade trabalharem
					De contentar, a quem se afeioaram.


				23 - Em busca de Cupido
					Tal manha buscou j, para que aquele
					Que de Anquises pariu, bem recebido
					Fosse no campo que a bovina pele
					Tomou de espao, por subtil partido.
					Seu filho vai buscar, porque s nele
					Tem todo seu poder, fero Cupido,
					Que assim como naquela empresa antiga
					Ajudou j, nestoutra a ajude e siga.


				24 - O carro de Vnus
					No carro ajunta as aves que na vida
					Vo da morte as exquias celebrando,
					E aquelas em que j foi convertida
					Perstera, as boninas apanhando.
					Em derredor da Deusa j partida,
					No ar lascivos beijos se vo dando.
					Ela, por onde passa, o ar e o vento
					Sereno faz, com brando movimento.


				25 - Sobre os montes Idlios. Expedio de Cupido
					J sobre os Idlios montes pende,
					Onde o filho frecheiro estava ento
					Ajuntando outros muitos, que pretende
					Fazer uma famosa expedio
					Contra o mundo rebelde, por que emende
					Erros grandes, que h dias nele esto,
					Amando coisas que nos foram dadas,
					No para ser amadas, mas usadas.


				26 - Acteon
					Via Acteon na caa to austero,
					De cego na alegria bruta, insana,
					Que por seguir um feio animal fero,
					Foge da gente e bela forma humana;
					E por castigo quer, doce e severo,
					Mostrar-lhe a formosura de Diana;
					E guarde-se no seja ainda comido
					Desses ces que agora ama, e consumido.


				27 - Os desconcertos do mundo
					E v do mundo todo os principais,
					Que nenhum no bem pblico imagina;
					V neles que no tm amor a mais
					Que a si somente, e a quem Filucia ensina.
					V que esses que freqentam os reais
					Paos, por verdadeira e s doutrina
					Vendem adulao, que mal consente
					Mondar-se o novo trigo florescente.


				28
					V que aqueles que devem  pobreza
					Amor divino e ao povo caridade,
					Amam somente mandos e riqueza,
					Simulando justia e integridade.
					Da feia tirania e de aspereza
					Fazem direito e v severidade:
					Leis em favor do Rei se estabelecem,
					As em favor do povo s perecem.


				29
					V, enfim, que ningum ama o que deve,
					Seno o que somente mal deseja;
					No quer que tanto tempo se releve
					O castigo, que duro e justo seja.
					Seus ministros ajunta, por que leve
					Exrcitos conformes  peleja,
					Que espera ter com a mal regida gente,
					Que lhe no for agora obediente.


				30 - Preparam-se os Amores para a expedio de Cupido
					Muitos destes meninos voadores
					Esto em vrias obras trabalhando:
					Uns amolando ferros passadores,
					Outros steas de setas delgaando;
					Trabalhando, cantando esto de amores,
					Vrios casos em verso modulando,
					Melodia sonora e concertada,
					Suave a letra, anglica a soada.


				31
					Nas frgoas imortais, onde forjavam
					Para as setas as pontas penetrantes,
					Por lenha coraes ardendo estavam,
					Vivas entranhas ainda palpitantes.
					As guas onde os ferros temperavam,
					Lgrimas so de mseros amantes;
					A viva f lama, o nunca morto lume,
					Desejo  s que queima, e no consume.


				32
					Alguns exercitando a mo andavam
					Nos duros coraes da plebe rude;
					Crebros suspiros pelo ir soavam
					Dos que feridos vo da seta aguda.
					Formosas Ninfas so as que curavam
					As chagas recebidas cuja ajuda
					No somente d vida aos mal feridos,
					Mas pe em vida os ainda no nascidos.


				33
					Formosas so algumas e outras feias,
					Segundo a qualidade for das chagas;
					Que o veneno espalhado pelas veias
					Curam-no s vezes speras triagas.
					Alguns ficam ligados em cadeias,
					Por palavras subtis de sbias magas:
					Isto acontece s vezes, quando as setas
					Acertam de levar ervas secretas.


				34 - Amores desencontrados
					Destes tiros assim desordenados,
					Que estes moos mal destros vo tirando,
					Nascem amores mil desconcertados
					Entre o povo ferido miserando;
					E tamboril nos heris de altos estados
					Exemplos mil se vem de amor nefando,
					Qual o das moas Bbli e Cinireia,
					Um mancebo de Assria, um de Judeia.


				35
					E vs,  poderosos, por pastoras
					Muitas vezes ferido o peito vedes;
					E por baixos e rudos, vs, senhoras,
					Tambm vos tomam nas Vulcneas redes.
					Uns esperando andais noturnas horas,
					Outros subis telhados e paredes:
					Mas eu creio que deste amor indino
					 mais culpa a da me que a do menino.


				36 - Vnus  recebida pelo filho
					Mas j no verde prado o carro leve
					Punham os brancos cisnes mansamente,
					E Dione, que as rosas entro a neve
					No rosto traz, descia diligente.
					O frecheiro, que contra o cu se atreve,
					A receb-la vem, ledo e contente;
					Vm todos os Cupidos servidores
					Beijar a mo  Deusa dos amores.


				37 - Fala de Vnus a Cupido
					Ela, por que no gaste o tempo em vo,
					Nos braos tendo o filho, confiada
					Lhe diz: "Amado filho, em cuja mo
					Toda minha potncia est fundada;
					Filho, em quem minhas foras sempre esto;
					Tu, que as armas Tifeias tens em nada,
					A socorrer-me a tua potestade
					Me triz especial necessidade.


				38
					"Bem vs as Lusitnicas fadigas,
					Que eu j de muito longe favoreo,
					Porque das Parcas sei, minhas amigas,
					Que me ho de venerar e ter em preo.
					E, porque tanto imitam as antigas
					Obras de meus Romanos, me ofereo
					A lhe dar tanta ajuda, em quanto posso,
					A quanto se estender o poder nosso.


				39
					"E porque das insdias do odioso
					Baco foram na ndia molestados,
					E das injrias ss do mar undoso
					Puderam mais ser mortos que cansados,
					No mesmo mar, que sempre temeroso
					Lhe foi, quero que sejam repousados,
					Tomando aquele prmio e doce glria
					Do trabalho, que faz clara a memria.


				40
					"E para isso queria que, feridas
					As filhas de Nereu, no ponto fundo,
					De amor dos Lusitanos incendidas,
					Que vm de descobrir o novo mundo,
					Todas numa ilha juntas e subidas,
					Ilha, que nas entranhas do profundo
					Oceano terei aparelhada,
					De dons de Flora e Zfiro adornada;


				41
					"Ali, com mil refrescos e manjares,
					Com vinhos odorferos e rosas,
					Em cristalinos paos singulares
					Formosos leitos, e elas mais formosas;
					Enfim, com mil deleites no vulgares,
					Os esperem as Ninfas amorosas,
					De amor feridas, para lhes entregarem
					Quanto delas os olhos cobiarem.


				42
					"Quero que haja no reino Netunino,
					Onde eu nasci, prognie forte e bela,
					E tome exemplo o mundo vil, malino,
					Que contra tua potncia se rebela,
					Por que entendam que muro adamantino,
					Nem triste hipocrisia val contra ela:
					Mal haver na terra quem se guarde,
					Se teu fogo imortal nas guas arde."


				43 - Partem Vnus e Cupido
					Assim Vnus props, e o filho inieo,
					Para lhe obedecer, j se apercebe:
					Manda trazer o arco ebrneo rico,
					Onde as setas de ponta de ouro embebe.
					Com gesto ledo a Cpria, e impudico,
					Dentro no carro o filho seu recebe;
					A rdea larga s aves, cujo canto
					A Factntea morte chorou tanto.


				44 - A fama
					Mas diz Cupido, que era necessria
					Uma famosa e clebre terceira,
					Que, posto que mil vezes lhe  contrria,
					Outras muitas a tem por companheira:
					A Deusa Giganteia, temerria,
					Jactante, mentirosa, e verdadeira,
					Que com cem olhos v, e por onde voa,
					O que v, com mil bocas apregoa.


				45
					Vo-a buscar, e mandam adiante,
					Que celebrando v com tuba clara
					Os louvores da gente navegante,
					Mais do que nunca os d'outrem celebrara.
					J murmurando a Fama penetrante
					Pelas fundas cavernas se espalhara:
					Fala verdade, havida por verdade,
					Que junto a Deusa traz Credulidade.


				46
					O louvor grande, o rumor excelente
					No corao dos Deuses, que indignados
					Foram por Baco contra a ilustre gente,
					Mudando, os fez um pouco afeioados.
					O peito feminil, que levemente
					Muda quaisquer propsitos tomados,
					J julga por mau zelo e por crueza
					Desejar mal a tanta fortaleza.


				47 - Cupido fere de amor as Ninfas
					Despede nisto o fero moo as setas
					Uma aps outra: geme o mar com os tiros;
					Direitas pelas ondas inquietas
					Algumas vo, e algumas fazem giros;
					Caem as Ninfas, lanam das secretas
					Entranhas ardentssimos suspiros;
					Cai qualquer, sem ver o vulto que ama:
					Que tanto, como a vista, pode a fama.


				48 - Cupido fere as Ninfas com suas setas amorosas
					Os cornos ajuntou da ebrnea lua
					Com fora o moo indmito excessiva,
					Que Tethys quer ferir mais que nenhuma,
					Porque mais que nenhuma lhe era esquiva.
					J no fica na aljava seta alguma,
					Nem nos equreos campos Ninfa viva;
					E se feridas ainda esto vivendo,
					Ser para sentir que vo morrendo.


				49
					Dai lugar, altas e cerleas ondas,
					Que, vedes, Vnus traz a medicina,
					Mostrando as brancas velas e redondas,
					Que vm por cima da gua Netunina.
					Para que tu recproco respondas,
					Ardente Amor,  flama feminina,
					, forado que a pudiccia honesta
					Faa quanto lhe Vnus amoesta.


				50 - Congregam-se as Ninfas e 
Nereidas na Ilha dos Amores

					J todo o belo coro se aparelha
					Das Nereidas, e junto caminhava
					Em coreias gentis, usana velha,
					Para a ilha, a que Vnus as guiava.
					Ali a formosa Deusa lhe aconselha
					O que ela fez mil vezes, quando amava.
					Elas, que vo do doce amor vencidas,
					Esto a seu conselho oferecidas.


				51 - Avistam os portugueses a Ilha dos Amores
					Cortando vo as naus a larga via
					Do mar ingente para a ptria amada,
					Desejando prover-se de gua fria,
					Para a grande viagem prolongada,
					Quando juntas, com sbita alegria,
					Houveram vista da ilha namorada,
					Rompendo pelo cu a me formosa
					De Mennio, suave e deleitosa.


				52 - Conduz Vnus a Ilha ao encontro dos navegantes
					De longe a Ilha viram fresca e bela,
					Que Vnus pelas ondas lha levava
					(Bem como o vento leva branca vela)
					Para onde a forte armada se enxergava;
					Que, por que no passassem, sem que nela
					Tomassem porto, como desejava,
					Para onde as naus navegam a movia
					A Acidlia, que tudo enfim podia.


				53 - 
					Mas firme a fez e imvel, como viu
					Que era dos Nautas vista e demandada;
					Qual ficou Delos, tanto que pariu
					Latona Febo e a Deusa  caa usada.
					Para l logo a proa o mar abriu,
					Onde a costa fazia uma enseada
					Curva e quieta, cuja branca areia,
					Pintou de ruivas conchas Citereia.


				54 - Descrio da Ilha dos Amores
					Trs formosos outeiros se mostravam
					Erguidos com soberba graciosa,
					Que de gramneo esmalte se adornavam..
					Na formosa ilha alegre e deleitosa;
					Claras fontes o lmpidas manavam
					Do cume, que a verdura tem viosa;
					Por entre pedras alvas se deriva
					A sonorosa Ninfa fugitiva.


				55 - 
					Num vale ameno, que os outeiros fende,
					Vinham as claras guas ajuntar-se,
					Onde uma mesa fazem, que se estende
					To bela quanto pode imaginar-se;
					Arvoredo gentil sobre ela pende,
					Como que pronto est para afeitar-se,
					Vendo-se no cristal resplandecente,
					Que em si o est pintando propriamente.


				56 - 
					Mil rvores esto ao cu subindo,
					Com pomos odorferos e belos:
					A laranjeira tem no fruto lindo
					A cor que tinha Dafne nos cabelos;
					Encosta-se no cho, que est caindo,
					A cidreira com os pesos amarelos;
					Os formosos limes ali, cheirando,
					Esto virgneas tetas imitando.


				57 - 
					As rvores agrestes que os outeiros 
					Tm com frondente coma enobrecidos, 
					Alemos so de Alcides, e os loureiros 
					Do louro Deus amados e queridos; 
					Mirtos de Citereia, com os pinheiros 
					De Cibele, por outro amor vencidos; 
					Est apontando o agudo cipariso 
					Para onde  posto o etreo paraso.


				58 - Os frutos
					Os dons que d Pomona, ali Natura
					Produz diferentes nos sabores,
					Sem ter necessidade de cultura,
					Que sem ela se do muito melhores:
					As cerejas purpreas na pintura,
					As amoras, que o nome tm de amores,
					O pomo que da ptria Prsia veio,
					Melhor tornado no terreno alheio.


				59
					Abre a rom, mostrando a rubicunda
					Cor, com que tu, rubi, teu preo perdes;
					Entre os braos do ulmeiro est a jocunda
					Vide, com uns cachos roxos e outros verdes;
					E vs, se na vossa rvore fecunda,
					Peras piramidais, viver quiserdes,
					Entregai-vos ao dano, que, com os bicos,
					Em vs fazem os pssaros inicos.


				60 - As flores
					Pois a tapearia bela e fina,
					Com que se cobre o rstico terreno,
					Faz ser a de Aquemnia menos diria,
					Mas o sombrio vale mais ameno.
					Ali a cabea a flor Cifsia inclina
					Sbolo tanque lcido e sereno;
					Floresce o filho e neto de Ciniras,
					Por quem tu, Deusa Pfia, inda suspiras.


				61 - As flores
					Para julgar, difcil coisa fora,
					No cu vendo e na terra as mesmas cores,
					Se dava s flores cor a bela Aurora,
					Ou se lha do a ela as belas flores.
					Pintando estava ali Zfiro e Flora
					As violas da cor dos amadores;
					O lrio roxo, a fresca rosa bela,
					Qual reluz nas faces da donzela;


				62 - As flores
					A cndida cecm, das matutinas
					Lgrimas rociada, e a manjarona.
					Vem-se as letras nas flores Hiacintinas,
					To queridas do filho de Latona.
					Bem se enxerga nos pomos e boninas
					Que competia Cloris com Pomona.
					Pois se as aves no ar cantando voam,
					Alegres animais o cho povoam.


				63 - Os animais
					Ao longo da gua o nveo cisne canta,
					Responde-lhe do ramo filomela;
					Da sombra de seus cornos no se espanta
					Acteon, n'gua cristalina e bela;
					Aqui a fugace lebre se levanta
					Da espessa mata, ou tmida gazela;
					Ali no bico traz ao caro ninho
					O mantimento o leve passarinho.


				64 - Desembarcam os portugueses
					Nesta frescura tal desembarcavam
					J das naus os segundos Argonautas,
					Onde pela floresta se deixavam
					Andar as belas Deusas, como incautas.
					Algumas doces ctaras tocavam,
					Algumas harpas e sonoras flautas,
					Outras com os arcos de ouro se fingiam
					Seguir os animais, que no seguiam.


				65 - As Ninfas
					Assim lhe aconselhara a mestra experta;
					Que andassem pelos campos espalhadas;
					Que, vista dos bares a presa incerta,
					Se fizessem primeiro desejadas.
					Algumas, que na forma descoberta
					Do belo corpo estavam confiadas,
					Posta a artificiosa formosura,
					Nuas lavar-se deixam na gua pura,


				66 - As flores
					Mas os fortes mancebos, que na praia
					Punham os ps, de terra cobiosos,
					Que no h nenhum deles que no saia
					De acharem caa agreste desejosos,
					No cuidam que, sem lao ou redes, caia
					Caa naqueles montes deleitosos,
					To suave, domstica e benigna,
					Qual ferida lha tinha j Ericina.


				67 - As flores
					Alguns, que em espingardas e nas bestas,
					Para ferir os cervos se fiavam,
					Pelos sombrios matos e florestas
					Determinadamente se lanavam:
					Outros, nas sombras, que de as altas sestas
					Defendem a verdura, passeavam
					Ao longo da gua que, suave e queda,
					Por alvas pedras corre  praia leda.


				68 - Enxergam os portugueses as Ninfas
					Comeam de enxergar subitamente
					Por entre verdes ramos vrias cores,
					Cores de quem a vista julga e sente
					Que no eram das rosas ou das flores,
					Mas da l fina e seda diferente,
					Que mais incita a fora dos amores,
					De que se vestem as humanas rosas,
					Fazendo-se por arte mais formosas.


				69 - Fala Ferno Veloso
					D Veloso espantado um grande grito:
					"Senhores, caa estranha, disse,  esta!
					Se ainda dura o Gentio antigo rito,
					A Deusas  sagrada esta floresta.
					Mais descobrimos do que humano esprito
					Desejou nunca; e bem se manifesta
					Que so grandes as coisas e excelentes,
					Que o mundo encobre aos homens imprudentes.


				70 - Caa s Ninfas
					"Sigamos estas Deusas, e vejamos
					Se fantsticas so, se verdadeiras."
					Isto dito, velozes mais que gamos,
					Se lanam a correr pelas ribeiras.
					Fugindo as Ninfas vo por entre os ramos,
					Mas, mais industriosas que ligeiras,
					Pouco e pouco sorrindo e gritos dando,
					Se deixam ir dos galgos alcanando.


				71 - As flores
					De uma os cabelos de ouro o vento leva
					Correndo, e de outra as fraldas delicadas;
					Acende-se o desejo, que se ceva
					Nas alvas carnes sbito mostradas;
					Uma de indstria cai, e j releva,
					Com mostras mais macias que indignadas,
					Que sobre ela, empecendo, tambm caia
					Quem a seguiu pela arenosa praia.


				72 - As Ninfas no Banho					Outros, por outra parte, vo topar
					Com as Deusas despidas, que se lavam:
					Elas comeam sbito a gritar,
					Como que assalto tal no esperavam.
					Umas, fingindo menos estimar
					A vergonha que a fora, se lanavam
					Nuas por entre o mato, aos olhos dando
					O que s mos cobiosas vo negando.


				73 - As flores
					Outra, como acudindo mais depressa
					A vergonha da Deusa caadora,
					Esconde o corpo n'gua; outra se apressa
					Por tomar os vestidos, que tem fora.
					Tal dos mancebos h, que se arremessa,
					Vestido assim e calado (que, coa mora
					De se despir, h medo que ainda tarde)
					A matar na gua o fogo que nele arde.


				74 - As flores
					Qual co de caador, sagaz e ardido,
					Usado a tomar na gua a ave ferida,
					Vendo no rosto o frreo cano erguido
					Para a garcenha ou pata conhecida,
					Antes que soe o estouro, mal sofrido
					Salta n'gua, e da presa no duvida,
					Nadando vai e latindo: assim o mancebo
					Remete  que no era irm de Febo.


				75 - Leonardo e Efire
					Leonardo, soldado bem disposto,
					Manhoso, cavaleiro e namorado,
					A quem amor no dera um s desgosto,
					Mas sempre fora dele maltratado,
					E tinha j por firme pressuposto
					Ser com amores mal afortunado,
					Porm no que perdesse a esperana
					De ainda poder seu fado ter mudana,


				76 - Splica de Leonardo
					Quis aqui sua ventura, que corria
					Aps Efire, exemplo de beleza,
					Que mais caro que as outras dar queria
					O que deu para dar-se a natureza.
					J cansado correndo lhe dizia:
					" formosura indigna de aspereza,
					Pois desta vida te concedo a palma,
					Espera um corpo de quem levas a alma.


				77 - As flores
					"Todas de correr cansam, Ninfa pura,
					Rendendo-se  vontade do inimigo,
					Tu s de mi s foges na espessura?
					Quem te disse que eu era o que te sigo?
					Se to tem dito j aquela ventura,
					Que em toda a parte sempre anda comigo, 
					 no na creias, porque eu, quando a cria,
					Mil vezes cada hora me mentia.


				78 - As flores
					"No canses, que me cansas: e se queres
					Fugir-me, por que no possa tocar-te,
					Minha ventura  tal que, ainda que esperes,
					Ela far que no possa alcanar-te.
					Espora; quero ver, se tu quiseres,
					Que subtil modo busca de escapar-te,
					E notars, no fim deste sucesso,
					Tra la spica e la man, qual muro  messo.


				79 - As flores
					" no me fujas!  Assim nunca o breve
					Tempo fuja de tua formosura!
					Que, s com refrear o passo leve,
					Vencers da fortuna a fora dura.
					Que Imperador, que exrcito se atreve
					A quebrantar a fria da ventura,
					Que, em quanto desejei, me vai seguindo,
					O que tu s fars no me fugindo!


				80 - As flores
					"Pes-te da parte da desdita minha?
					Fraqueza  dar ajuda ao mais potente.
					Levas-me um corao, que livre tinha?
					Solta-me, e corrers mais levemente.
					No te carrega essa alma to mesquinha,
					Que nesses fios de ouro reluzente
					Atada levas?  Ou, depois de presa,
					Lhe mudaste a ventura, e menos pesa?


				81 - As flores
					"Nesta esperana s te vou seguindo:
					Que, ou tu no sofrers o peso dela,
					Ou na virtude de teu gesto lindo
					Lhe mudars a triste e dura estrela:
					E se se lhe mudar, no vs fugindo,
					Que Amor te ferir, gentil donzela,
					E tu me esperars, se Amor te fere:
					E se me esperas, no h mais que espere."


				82 - As flores
					J no fugia a bela Ninfa, tanto
					Por se dar cara ao triste que a seguia,
					Como por ir ouvindo o doce canto,
					As namoradas mgoas que dizia.
					Volvendo o rosto j sereno e santo,
					Toda banhada em riso e alegria,
					Cair se deixa aos ps do vencedor,
					Que todo se desfaz em puro amor.


				83 - Idlios Amorosos
					 que famintos beijos na floresta,
					E que mimoso choro que soava!
					Que afagos to suaves, que ira honesta,
					Que em risinhos alegres se tornava!
					O que mais passam na manh, e na sesta,
					Que Vnus com prazeres inflamava,
					Melhor  experiment-lo que julg-lo,
					Mas julgue-o quem no pode experiment-lo.



				84 - As flores
					Desta arte enfim conformes j as formosas
					Ninfas com os seus amados navegantes,
					Os ornam de capelas deleitosas
					De louro, e de ouro, e flores abundantes.
					As mos alvas lhes davam como esposas;
					Com palavras formais e estipulantes
					Se prometem eterna companhia
					Em vida e morte, de honra e alegria.


				85 - Tethys e o Gama
					Uma delas maior, a quem se humilha
					Todo o coro das Ninfas, e obedece,
					Que dizem ser de Celo e Vesta filha,
					O que no gesto belo se parece,
					Enchendo a terra e o mar de maravilha,
					O Capito ilustre, que o merece,
					Recebe ali com pompa honesta e rgia,
					Mostrando-se senhora grande e egrgia.


				86 - As flores
					Que, depois de lhe ter dito quem era,
					Com um alto exrdio, de alta graa ornado,
					Dando-lhe a entender que ali viera
					Por alta influio do imvel fado,
					Para lhe descobrir da unida esfera
					Da terra imensa, e mar no navegado,
					Os segredos, por alta profecia,
					O que esta sua nao s merecia,


				87 - As flores
					Tomando-o pela mo, o leva e guia
					Para o cume dum monte alto e divino,
					No qual uma rica fbrica se erguia
					De cristal toda, e de ouro puro e fino.
					A maior parte aqui passam do dia
					Em doces jogos e em prazer contino:
					Ela nos paos logra seus amores,
					As outras pelas sombras entre as flores.


				88 - Revelao do Simbolismo na Ilha dos Amores
					Assim a formosa e a forte companhia
					O dia quase todo esto passando,
					Numa alma, doce, incgnita alegria,
					Os trabalhos to longos compensando.
					Porque dos feitos grandes, da ousadia
					Forte e famosa, o mundo est guardando
					O prmio l no fim, bem merecido,
					Com fama grande e nome alto e subido.


				89 - As flores
					Que as Ninfas do Oceano to formosas,
					Tethys, e a ilha anglica pintada,
					Outra coisa no  que as deleitosas
					Honras que a vida fazem sublimada.
					Aquelas proeminncias gloriosas,
					Os triunfos, a fronte coroada
					De palma e louro, a glria e maravilha:
					Estes so os deleites desta ilha.


				90 - Os Deuses
					Que as imortalidades que fingia
					A antigidade, que os ilustres ama,
					L no estelante Olimpo, a quem subia
					Sobre as asas nclitas da Fama,
					Por obras valorosas que fazia,
					Pelo trabalho imenso que se chama
					Caminho da virtude alto e fragoso,
					Mas no fim doce, alegre e deleitoso:


				91 - As flores
					No eram seno prmios que reparte
					Por feitos imortais e soberanos
					O mundo com os vares, que esforo e arte
					Divinos os fizeram, sendo humanos.
					Que Jpiter, Mercrio, Febo e Marte,
					Eneias e Quirino, e os dois Tebanos,
					Ceres, Palas e Juno, com Diana,
					Todos foram de fraca carne humana.


				92 - A Fama. Conselhos aos que aspiram a Glria
					Mas a Fama, trombeta de obras tais,
					Lhe deu no mundo nomes to estranhos
					De Deuses, Semideuses imortais,
					Indgetes, Hericos e de Magnos.
					Por isso,  vs que as famas estimais,
					Se quiserdes no mundo ser tamanhos,
					Despertai j do sono do cio ignavo,
					Que o nimo de livre faz escravo.


				93 - As flores
					E ponde na cobia um freio duro,
					E na ambio tambm, que indignamente
					Tomais mil vezes, e no torpe e escuro
					Vcio da tirania infame e urgente;
					Porque essas honras vs, esse ouro puro
					Verdadeiro valor no do  gente:
					Melhor , merec-los sem os ter,
					Que possu-los sem os merecer.


				94 - As flores
					Ou dai na paz as leis iguais, constantes,
					Que aos grandes no dem o dos pequenos;
					Ou vos vesti nas armas rutilantes,
					Contra a lei dos inimigos Sarracenos:
					Fareis os Reinos grandes e possantes,
					E todos tereis mais, o nenhum menos;
					Possuireis riquezas merecidas,
					Com as honras, que ilustram tanto as vidas.


				95 - As flores
					E fareis claro o Rei, que tanto amais,
					Agora com os conselhos bem cuidados,
					Agora com as espadas, que imortais
					Vos faro, como os vossos j passados;
					Impossibilidades no faais,
					Que quem quis sempre pde; e numerados
					Sereis entre os Heris esclarecidos,
					E nesta Ilha de Vnus recebidos.




