Katherine Mansfield
ALGUMA COISA DE INFANTIL MAS MUITO NATURAL
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Henry não conseguia perceber se a sua cabeça tinha crescido desde o Verão passado ou se esquecera simplesmente aquela sensação. Uma coisa era certa: o chapéu de palhinha incomodava-o, apertava-lhe a cabeça provocando-lhe uma dor surda acima das têmporas. Por isso escolheu um compartimento para fumadores de terceira classe, sentou-se num canto, tirou o chapéu e arrumou-o na rede juntamente com a grande pasta preta e as luvas, presente de Natal de sua tia. O compartimento cheirava desagradavelmente a borracha queimada e a fuligem. Faltavam ainda dez minutos para o comboio partir e Henrique resolveu ir dar uma vista de olhos pelos livros do quiosque. O sol atravessava o tecto envidraçado da estação em longos raios azuis e ouro; um rapazinho corria de um lado para o outro com um cesto de primaveras. E havia qualquer coisa de diferente nas pessoas, sobretudo nas mulheres, qualquer coisa de preguiçoso e todavia ardente. O dia mais emocionante do ano, o primeiro dia de autêntica Primavera, tinha aberto a sua tépida beleza até para os londrinos. Deu fulgor a todas as cores, uma outra entoação às vozes, e as pessoas da cidade andavam como quem tem um corpo vivo debaixo da roupa, e um coração que pulsa rejuvenescido e atento.
Henry entendia de livros. Não lia muito e não tinha mais de uma dúzia. Mas contemplava-os a todos na Rua Charing Cross, à hora do almoço e sempre que tinha momentos livres. E era assombroso o grande número deles com que trocava sinais de entendimento. Pela extrema elegância com que lhes mexia e os termos cuidados que empregava nas conversas com os livreiros, dir-se-ia que a sua ama o amamentara com um livro pousado no peito. ...
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