Title: UM BRAVO, O VISCONDE DE SIGNOLES

Author:MAUPASSANT GUY DE
Subject:FRENCH FICTION
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Guy de Maupassant

UM BRAVO, O VISCONDE DE SIGNOLES


**************


Chamava-se Gontran Joseph de Signoles, era visconde e em sociedade todos o conheciam pelo «Belo Signoles».
Órfão e possuidor de razoável fortuna, fazia figura, como é uso dizer-se. Tinha um aspecto atraente e apresentava-se bem, dotes suficientes para fazer acreditar em muitos predicados, sem excluir, até, uma certa dose de espírito; aliava à graça natural um ar de nobreza e altivez, usava bigode e tinha uns olhos meigos, coisas de muito agrado às mulheres.
Procurado nos salões, reclamado pelo olhar das damas amigas de valsar, o seu rosto de pessoa enérgica inspirava aos homens aquela cínica inimizade que é costume desfazer-se em sorrisos.
Atribuíam-lhe muitas daquelas aventuras que tornam invejável a reputação dum homem. Vivia feliz e tranquilo, respirava bem-estar por todos os poros. Sabia-se que esgrimia admiravelmente a espada e melhor era ainda a sua reputação como atirador à pistola.
- Quando um dia me bater - assim o afirmava - escolherei a pistola. É a arma com que tenho a certeza de matar qualquer adversário.
Ora uma noite, fora ao teatro com dois amigos que se faziam acompanhar das suas jovens esposas e, à saída do espectáculo, a seu convite, entraram todos na casa Trotoni para tomar sorvetes. Pouco tempo depois de ali estarem, uma das senhoras descobriu que um homem, que estava sentado numa mesa próxima, a fitava com obstinação. Nervosa a princípio, a alvejada, acabou por baixar a cabeça, de vergonha; depois, mais inquieta, voltou-se para o marido e disse com certo azedume:
- Está ali um homem que não faz outra coisa senão olhar para mim. Não o conheço. E tu?
O marido, que até então nada tinha percebido, levantou os olhos e informou:
- Não, também não conheço.
Momentos depois a esposa, entre sorridente e enfastiada, queixou-se:
- Aquele maçador está a estragar-me o gelado.
O marido encolheu os ombros:
- Deixa! Não faças caso. Se nos preocupássemos com todos os insolentes que encontramos não sei o que seria deste mundo.
Nesta altura o visconde levantou-se bruscamente. Não podia permitir que qualquer desconhecido estragasse assim um gelado oferecido a uma senhora. A ele, só a ele, a injúria era dirigida, pois por sua causa e para lhe serem agradáveis é que os amigos tinham acedido a entrar naquele café.
Adiantou-se para o homem e disse rispidamente:
- Não tolero essa maneira ofensiva de fitar estas senhoras. Espero que faça o favor de não insistir.
O outro replicou:
- Não me mace, deixe-me em paz.
E o visconde de dentes cerrados, respondeu:
- Cuidado! Não me faça perder a cabeça.
O desconhecido deu por resposta uma só palavra, uma palavra obscena que entoou por todo o café e produziu um efeito semelhante ao distender rápido de uma mola de aço; todos os assistentes reagiram bruscamente. Os que estavam de costas, voltaram-se: outros levantaram a cabeça; três rapazes que tomavam bebidas ao fundo da sala rodavam sobre os saltos como se fossem piões e as duas empregadas do balcão, como dois autómatos, viraram-se com uma rapidez fantástica para o lado donde a palavra viera.
Fez-se um grande silêncio. Depois, sem que houvesse tempo para qualquer reacção, estoirou, no ar, um ruído seco. O visconde esbofeteara o insolente. Toda a gente se levantou para separar os contendores. Depois, os dois homens trocaram cartões.
O visconde entrou em casa e passeou, durante algum tempo, no quarto, dum lado para o outro. Tão agitado se sentia que era incapaz de reflectir, de pensar fosse o que fosse.
Só uma ideia lhe dominava o espírito, ideia que nessa altura não lhe despertava qualquer espécie de emoção: o duelo, pensava no duelo. Estava certo de que tinha procedido como devia; reagira dignamente. Falariam, dar-lhe-iam razão, felicitá-lo-iam.
Falando em voz alta, como acontece a toda a gente que a indignação faz saltar fora de si, exclamou:
- Que brutamontes!
Sentou-se e a reflexão voltou. Precisava de ir, logo de manhã, procurar testemunhas. E quem escolheria? Esforçava-se por lembrar as pessoas mais importantes e melhor colocadas das suas relações e por fim optou pelo marquês de La Tournoaire e pelo coronel Bourdin: um fidalgo e um militar. Satisfez-se com a escolha, os padrinhos eram conhecidos nos jornais. Teve sede e bebeu um, dois copos de água; depois continuou o seu passeio pelo quarto. Uma energia estranha o tomou e então achou-se capaz de todas as audácias, capaz de exigir as mais arriscadas condições. Se reclamasse um duelo sério, muito sério, uma luta feroz, possivelmente faria recuar o adversário e este pediria as suas desculpas.
Pegou novamente no cartão que tirara da algibeira e deixara em cima da mesa e voltou a lê-lo, como já fizera no café, no trem de aluguer e à luz de cada bico de gás que encontrou ao caminho quando voltava para casa. «Georges Lamil, 51, rue Moncei» e nada mais.
Aquelas letras pareciam-lhe misteriosas estavam cheias de um sentido confuso. Georges Lamil? Mas quem seria aquele homem? Em que se empregaria? Porque olhara com tal insistência a mulher do seu amigo?
Não era revoltante o facto de um estranho, de um desconhecido qualquer vir, dum momento para o outro, perturbar a vida dum homem só porque lhe apetecera fitar com insolência um rosto de mulher? A este pensamento repetiu indignado:
- Que brutamontes.
De pé e imóvel, com o olhar fito no cartão de visita, o visconde cismava.
Aquele pedaço de papel viera despertar-lhe uma cólera surda, um ódio a que se vinha juntar um estranho e indefinido sentimento de mal-estar. Um caso estúpido! Pegou num canivete que encontrara à mão, abriu-o e raspou no sítio do nome do cartão, como se estivesse apunhalando alguém.
Era preciso bater-se. Escolheria a espada ou a pistola: sim, ele é que escolheria, visto considerar-se ofendido. Se com a espada havia um risco menor, a pistola teria a vantagem de forçar a desistência do adversário. Um duelo à espada só em casos de excepção podia ser mortal - a recíproca prudência dos contendores fá-los afastar, fá-los guardar-se de forma a que as pontas das espadas não possam ferir profundamente. Se sabia que num encontro à pistola arriscava a vida, maiores eram também as possibilidades de sair airosamente da situação e com todas as honras, sem que o duelo chegasse a realizar-se.
Talvez para ganhar coragem, para vencer o silêncio, disse:
- Se for enérgico, ele, certamente, terá medo.
Mas o som da sua própria voz fê-lo estremecer. O nervosismo aumentava. Bebeu mais um copo de água e seguidamente começou a despir-se. Depois meteu-se na cama, apagou a luz e fechou os olhos.
Não dormia, o cérebro trabalhava:
«Tenho todo o dia de amanhã para tratar de tudo o que necessito. Durmamos um pouco. O sono é um óptimo remédio».
Se bem que a cama fosse confortável, não conseguia adormecer. Não encontrava posição. Deitava-se de costas, permanecia assim cinco minutos; depois; voltava-se para o lado esquerdo, a seguir para o direito... e o sono não vinha.
A sede torturava-o. Levantou-se para beber e sentiu-se inquieto.
- Terei medo? Acaso terei medo?
Porque lhe bateria o coração desordenadamente quando qualquer ruído, mesmo familiar, se fazia ouvir no quarto? Até o arrastar da mola que movia o pêndulo do relógio o punha em sobressalto; faltava-lhe o ar, precisava abrir a boca para respirar, tal era a força que lhe oprimia o peito.
Deu-se a um raciocínio frio e perguntou, perturbado, novamente a si próprio:
- Terei medo?
Certamente que não, pois estava resolvido, sem vacilações, a bater-se. Contudo uma nova interrogação o deixou profundamente perturbado.
Poder-se-á ter medo mesmo contra a nossa vontade?
Esta dúvida inquietante, este temor avassalava-o. Se existisse uma força mais poderosa, uma força superior às suas próprias forças que o dominasse, o que sucederia? Sim, o que poderia acontecer? Certamente que iria bater-se, uma vez que tal desejava. Mas se tremesse? Mas se desmaiasse? Pensava com egoísmo na sua reputação, na mancha que ficaria sobre o seu nome.
Um desejo absorvente o fez saltar da cama e encaminhar-se para o sítio onde se encontrava o espelho. Acendeu a vela. Ao ver o rosto reflectido no vidro polido que estava à sua frente, não se reconheceu, convenceu-se mesmo de que nunca se tinha visto. Os olhos, muito abertos, pareceram-lhe enormes; estava pálido, muito pálido mesmo.
Ficou de pé algum tempo, em frente do espelho. Deitou a língua de fora para avaliar do seu estado de saúde e, repentinamente, foi assaltado por um mau pensamento:
- É possível que depois de amanhã, a esta mesma hora, já esteja morto.
E o coração voltou de novo a bater-lhe desordenadamente.
- Sim, é possível que depois de amanhã, a esta mesma hora, esteja morto. E não tornarei a ver este rosto que agora se projecta no espelho. Mas será possível? ...
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