Title: O ADEREÇO

Author:MAUPASSANT GUY DE
Subject:FRENCH FICTION
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Guy de Maupassant

O ADEREÇO


*************



Era uma destas raparigas encantadoras, lindas, que nascem às vezes, talvez por erro do destino, numa família de funcionários.
Não tinha dote nem esperanças, nenhum meio de se tornar conhecida, de se fazer compreendida e amada, de se casar com um homem rico e distinto; teve de desposar um pequeno funcionário do Ministério da Instrução Pública.
Teve de ser simples, porque não tinha adornos: mas isto fê-la infeliz como se estivesse desacreditada; as mulheres, efectivamente, não têm casta nem raça; são a beleza, a graça e o encanto que lhes servem de nobreza e de família. A inata finura, o instinto de elegância e maleabilidade de espírito são a única hierarquia e fazem as raparigas do povo iguais às mais distintas senhoras.
O seu sofrimento era contínuo, porque sentia que nascera para todas as delicadezas e para todos os luxos. Sofria com a pobreza da casa, com a miséria das paredes, com a velhice das cadeiras, com a fealdade dos estofos. Qualquer outra mulher da sua classe não teria dado por estas coisas, mas a ela torturavam-na e indignavam-na. Bastava-lhe ver a pequena bretã que lhe tratava da casa tão modesta, para que logo despertassem as desoladas lágrimas e os sonhos sem limites. Pensava em silenciosas antecâmaras, forradas de tapeçarias orientais, iluminadas por grandes candelabros de bronze e com dois criados de calção a dormir nas largas poltronas, amodorrados pelo calor pesado do calorífero. Sonhava com grandes salões guarnecidos de seda antiga, com os móveis finos e preciosos «bibelots», com as saletas graciosas, perfumadas, feitas para as conversas das cinco com os amigos mais íntimos, os homens conhecidos e procurados, cujas atenções todas as mulheres desejam.
Quando se sentava, para jantar, à mesa redonda, com uma toalha de três dias, diante do marido que destapava a terrina e dizia: - «Que boa sopinha! Há lá coisa melhor no mundo!...» -, cismava nos jantares finos, nas pratas reluzentes, nas tapeçarias que povoam as paredes de personagens antigas e de estranhas aves numa floresta de sonho; pensava em deliciosas iguarias servidas em baixelas maravilhosas, em galantarias murmuradas e ouvidas com um sorriso de esfinge, enquanto se vai comendo a carne cor-de-rosa duma truta ou as asas duma galinhola.
Não tinha vestidos, nem jóias, nem nada; e só disso gostava, só para isso tinha nascido. Tanto desejaria agradar, ser invejada, ser sedutora; tanto desejaria que dessem por ela...
Tinha uma amiga rica, uma camarada do convento que nunca mais tinha ido visitar, porque voltava sempre cheia de desgostos. E chorava dias inteiros, de pena, de tristeza, de desespero, de desamparo.
Ora uma tarde, entrou o marido com o ar de triunfo e um grande sobrescrito na mão.
- Aqui está uma coisa para ti.
Ela rasgou apressadamente o papel e tirou um cartão impresso com as seguintes palavras:
«O ministro da Instrução Pública e M.me Georges Ramponneau têm a honra de convidar M.me Loisel a vir passar a noite no Ministério, na segunda-feira, 18 de Janeiro.»
Esperava o marido que ficasse encantada, mas viu, pelo contrário, que atirava o cartão para cima da mesa, murmurando com despeito:
- E que queres tu que eu faça com isso?
- Oh! queridinha, e eu que pensei que ficavas contente! Nunca sais e tens aí uma ocasião, uma esplêndida ocasião. Vi-me aflito para conseguir o convite. É que toda a gente quer: há-os efectivamente aos montes, mas para os empregados são poucos. Vais encontrar muita gente de posição...
Ela contemplava-o com um ar irritado, depois declarou, impaciente:
- E que queres tu que eu vista para lá ir?
Não tinha pensado no problema; e balbuciou:
- Mas... o vestido que levas ao teatro... Acho que está muito bem... pelo menos eu acho...
E calou-se, surpreendido, agitado, ao ver que a mulher chorava; duas grandes lágrimas lhe desciam lentamente dos olhos para os cantos da boca. E gaguejou:
- Que é isso? Então que é isso?
Com um esforço violento, ela dominou a sua dor e respondeu numa voz calma, enxugando as faces húmidas:
- Não é nada. É só isto: não tenho vestido, não posso ir à festa. Dá o cartão a um colega que tenha uma mulher mais bem vestida do que eu.
O marido estava desolado. E retorquiu:
- Ora vamos lá a ver, Matilde. Quanto é que poderia custar um vestido próprio que pudesse servir para outras ocasiões, uma coisa simples?
Ela reflectiu alguns segundos, fazendo os seus cálculos e pensando na quantia que poderia pedir sem que viesse uma recusa imediata e uma exclamação de terror do económico funcionário. Por fim respondeu hesitante:
- Não sei ao certo, mas tenho a impressão de que, com uns quatrocentos francos, talvez conseguisse...
Loisel empalideceu um pouco. Era exactamente o que reservara para comprar uma espingarda e ir caçar no verão, para Manterre, com uns amigos que costumavam aos domingos atirar às cotovias. No entanto, respondeu:
- Bem, dou-te os quatrocentos francos. Mas vê lá se arranjas realmente um vestido bonito...
Aproximava-se o dia da festa e M.me Loisel parecia triste, inquieta, ansiosa. O marido disse-lhe uma vez:
- Que tens? Há três dias que andas tão esquisita.
Ela respondeu:
- Aborrece-me muito não ter uma jóia, umas pedras, uma coisa qualquer para pôr em cima... Pareço uma miserável. Mais valia não ir...
- Pões umas flores naturais; fica muito bem neste tempo. Com dez francos arranjas tu duas ou três rosas magníficas.
M.me Loisel não se convencia:
- Não, não... Não há nada mais humilhante do que ter ar de pobre no meio de mulheres ricas.
Mas o marido gritou-lhe:
- Não sejas pateta. Vai ter com a tua amiga Forestier e pede-lhe que te empreste jóias. A amizade que vocês têm permite-te uma coisa dessas.
Ela soltou um grito de alegria.
- Tens toda a razão. Não tinha pensado...
No dia seguinte, foi a casa da amiga e contou-lhe as suas dificuldades. A outra foi a um armário de espelho, tirou um cofre, trouxe-o, abriu-o e disse a M.me Loisel:
- Escolhe o que quiseres, minha amiga.
Viu primeiro braceletes, depois um colar de pérolas, depois uma cruz veneziana, tudo ouro e pedrarias, um admirável trabalho. Experimentava os adereços diante do espelho, hesitava, não podia resolver a largá-los. E ia perguntando:
- Não tens mais nada?
- Claro que sim. Procura. Eu é que não posso saber o que te agrada.
De repente, descobriu, numa caixa de cetim negro, um esplêndido adereço de diamantes; o coração pôs-se a bater, num desejo irreprimível; as mãos tremiam-lhe ao tocar-lhe. Pô-lo ao peito, sobre o vestido de gola subida e ficou em êxtase diante de si própria.
Depois perguntou, hesitante, cheia de angústia:
Podes emprestar-me isto, só isto?
- Mas certamente.
Saltou ao pescoço da amiga, beijou-a com ímpeto, e fugiu com o seu tesouro.
Chegou o dia da festa. M.me Loisel teve um êxito enorme. Era de todas a mais bonita, a mais elegante e graciosa, a mais sorridente; ia louca de alegria. Todos os homens a olhavam, perguntavam o seu nome e pediam para ser-lhe apresentados; todos os adidos queriam valsar com ela; o próprio ministro a notou.
Dançava com embriaguez, impulsivamente, perturbada pelo prazer, já não pensando em coisa alguma, senão no triunfo da sua beleza, na glória do seu êxito, numa espécie de nuvem de felicidade feita de todas estas admirações, de todos os desejos despertados, dessa vitória tão completa e tão agradável para o coração das mulheres.
Saiu às quatro da manhã; o marido dormia, desde a meia-noite, num salãozinho, com três outros senhores cujas mulheres se divertiam imenso.
Pôs-lhe pelos ombros os vestuários da vida vulgar que trouxera para a saída, modestos vestuários, cuja pobreza dizia mal com a elegância do vestido de baile. Ela sentiu-o e quis fugir, para que não a notassem as outras mulheres que se cobriam de ricas peles.
Loisel retinha-a:
- Espera aí. Assim vais apanhar frio... Vou chamar um trem.
Ela, porém, não o escutava e descia rapidamente a escada. Quando chegaram à rua, não encontraram nenhum carro; puseram-se então a procurar, gritando a todos os cocheiros que viam passar ao longe.
- Desceram para o Sena, desesperados, a tremer de frio; por fim, no cais encontraram um desses velhos trens que só aparecem em Paris depois do cair da noite, como se de dia tivessem vergonha da sua própria miséria
Levou-os até casa, na Rua dos Mártires, e foi com tristeza que subiram as escadas. Para ela, tudo acabara, e ele, por seu turno, pensava que tinha de estar às dez horas no Ministério.
M.me Loisel tirou o velho casaco que tinha posto por cima dos ombros, diante do espelho, para se contemplar em toda a sua glória. Mas de repente soltou um grito. Não tinha o colar ao pescoço.
O marido, já meio despido, perguntou:
- Que tens tu?
Ela voltou-se, com a cabeça perdida:
- Tenho... tenho... ...
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